As Sete Majestosas

2 A Lâmina dos Ventos


Nuvens tempestuosas no céu era sinal de mau agouro para Sor Gilles.

Cavaleiro primor do exército real de Valennas, sua alta patente militar e experiência em batalhas jamais lhe permitiria expressar suas superstições, isso arruinaria a convicção de vitória dos soldados que comandava, mas seus olhos, embora cansados, não escondiam uma preocupação desagradável para aquele novo alvorecer.

O imponente sol vermelho se revelava por detrás dos enormes cânions de rochas alaranjadas, iluminando o vasto e belo vale desértico conhecido como Grande Maltês, nome pagão de um dos inúmeros deuses valennenses. Mas além dos milhares quilômetros abertos de terra seca e dura, o sol também iluminava dois exércitos rivais, cada um prostrado numa distância segura do outro, pois a batalha ainda não se iniciara, pelo menos não de novo. Os corpos mutilados dos homens caídos que se estendiam pelo terreno rochoso, indicava que sangue já havia escorrido diversas vezes por aquilo que guerreavam. Territórios, sempre territórios... pensou o velho Sor Gilles, que participara de diversas disputas como aquela durante toda amarga vida como combatente real. Quando os homens ficarão agradecidos e fartos por aquilo que já possuem em demasia? Ele sabia a resposta sem pensar demais. Nunca. Era só virar a cabeça para a fileira dos jovens lanceiros atrás de si e encontrar olhos faiscantes de júbilo pela peleja e pela glória. Ele já fora jovem. E ele já teve aquele olhar. Disputas nunca cessariam se houvesse mais para se conquistar.

O mundo de Calipo era uma pangeia dividida entre treze países e seus reinos, e em todos eles houve guerra pelo menos uma vez na história, desde o início de Jar, conhecido como o grande Criador, Rei dos Deuses. Agora mesmo Sor Gilles tinha noção de pequenos conflitos em terras ao oeste e ao norte, mas nada como aos em que estava agora. Aquela guerra estava demorando mais do que gostaria. Já se passara seis meses desde que formou-se os primeiros esquadrões do exército e ergueu-se as grandes tendas reais de Valennas num posto improvisado às sombras dos montes. Hoje, já perdera a conta de quantas fileiras haviam somadas àquelas iniciais, e se olhasse mais distante veria centenas de tendas a mais com seus diferentes estandartes dançantes pelo vento. Quase todos os lordes se prestaram a lutar a favor de seu Rei, o amável e respeitado Ligtar Avalennas, sendo sua dinastia a mais antiga de Calipo. Mais e mais lordes vassalos de Valennas chegavam a cada duas semanas com novas companhias de soldados. Para Sor Gilles, aquilo demonstrava o quanto seu Rei era verdadeiramente querido pelo povo e senhores que governava, e isso lhe dava certo orgulho, claro, por ser um cavaleiro juramentado diretamente da coroa, mas também por ser um dos poucos amigos daquele senhor de longa barba branca que devia estar longe dali, cuidando da cidade-capital real, Finareia.

Mas ainda assim o inimigo se mostrava resistente. Há poucos anos qualquer um em Calipo acharia insano atacar as terras de Valennas com seu reino tão fortificado, tanto em guerreiros treinados quanto em fidelidade ao Rei. Sem falar que eles ainda possuíam um elemento muito importante para qualquer tipo de confronto menos amistoso: Uma das sete armas mais poderosas do mundo, conhecidas como As Sete Majestosas, a Lâmina dos Ventos, no qual pertencia ao Príncipe Oriel, filho e herdeiro de Ligtar, e também aquele que liderava a todos naquela guerra.

O reino de Inlícia, localizado ao sul de Valennas, anunciou o desafio as terras que faziam fronteira com certa classe, seguindo os Códigos Absolutos de Guerra. Ou seja, não houve qualquer invasão a nenhuma cidade do território valennense, ou qualquer ato de terrorismo, sequestro ou barganha. Apenas indicaram o local adequado para as batalhas, onde ocorreriam até finalmente o exército derrotado hasteasse uma bandeira branca no centro do campo, revelando que não estavam mais aptos a lutar. Obviamente o reino de Valennas possuía um território absurdamente maior que seu desafiante, por isso não era todo o reino que estava em jogo ali, e sim parte de suas terras, sendo o Grande Maltês um deles, além de alguns vilarejos a beira mar. Porém, se perdessem, não demoraria para os inlicianos se organizarem para uma nova investida até finalmente conquistar o reino valennense por inteiro.

E eles lutavam como demônios com sede infinita de sangue. Como dito, Inlícia tinha menor território, logo menor número de soldados, mesmo assim eles não desistiam da guerra. As pelejas funcionavam do seguinte modo: quando ambos os exércitos hasteassem a bandeira azul, tinham trinta minutos para prepararem as fileiras e avançarem por pelo menos cinquenta metros para dentro do campo de batalha, sendo o local de choque qualquer um desde que não saíssem da área do Grande Maltês. Os adversários que primeiro abandonasse esses metros, perderia aquela batalha em específico, e assim o dia cessaria até a próxima disputa, caso a bandeira branca não fosse por fim posicionada, encerrando de vez o evento de matança.

Durante aqueles seis meses, os soldados valennenses viram mais vitórias do que derrotas, mas as batalhas sempre recomeçavam, às vezes seguindo por dias ininterruptos, e quase nunca passando mais de cinco dias sem o tilintar de espadas. Como os inlicianos substituíam seus guerreiros mortos, Sor Gilles não sabia ao certo, mas claramente estavam sendo ajudados por outros países em segredo, afinal ninguém comprava briga abertamente com Valennas, que possuía grande parte de aliança em Calipo. Infelizmente, se nenhum outro país se juntava abertamente a guerra, Ligtar, muito honrado, também não pediria ajuda a nenhum dos reinos aliados. Ou seja, foram meses incessantes de batalhas sangrentas, sem sinal de estar próximo do fim. Sor Malfred, um jovem e arrogante cavaleiro filho de um ainda mais arrogante lorde, perdera a paciência e tentava convencer o Príncipe a invadir as tendas dos inlicianos assim que eles debandassem de uma batalha, mas Sor Gilles, assim como boa parte dos outros cavaleiros e lordes, não aceitaram, uma vez que isso ia contra os Códigos Absolutos de Guerra. A honra não dava espaço para impaciência. Os inlicianos estavam exercendo o direito de guerrear, por mais triste que sangue fosse derramado por conta disso, eles não tiraram a vida de nenhum inocente para tentar aquilo que almejavam. Era dever de Valennas vencer de modo digno, e mostrar ao mundo que seguiam fortes.

— Que olhar é esse, Sor Gilles? Medo de uma chuvinha? — uma voz familiar tirou o velho cavaleiro de seus devaneios.

— Mi Principe — disse Sor Gilles, realizando uma rápida e perfeita saudação corporal. — Como sempre, o senhor é muito perspicaz em ler meu olhar. Embora não seja medo, apenas uma preocupação boba. Meu mestre, Sor Wiilys, que Jar o tenha, não gostava de lutar na chuva. Ele dizia que os homens ficam selvagens e perdem o foco.

— Os homens estão sempre selvagens em batalha, Sor Gillen — argumentou o príncipe, ele estava montado em seu cavalo de pelo cinza, coberto por placas de aço dourado. Já o homem, que devia ter seus trinta anos, não vestira proteção alguma, apenas uma roupa de linho simples, parecia ter acabado de acordar. — Acredito que a bandeira azul logo será levantada do outro lado, já fazem o que? Três dias? Novos infelizes devem ter chegado pelo mar do outro lado para recompor as linhas inimigas, seja lá de onde estão vindo. Preciso saber se o senhor está pronto para mais um dia.

— Sempre estarei, Mi Príncipe.

O jovem assentiu com firmeza, e recuou com o cavalo. Em quase nada seu rosto lembrava ao do pai, mas o semblante ameaçador da rainha parecia estar presente em cada linha facial, assim como as características dela em sua voz e maneirismos. Possuía os mesmos sedosos e lisos cabelos negros da mãe, indo até os ombros. Ele parecia quase como um clone masculino daquela mulher. Não que isso fosse ruim, pelo menos não ali. O Rei era um homem bondoso demais para o horror da guerra, e para liderar as tropas de seu reino, Oriel precisava ser mais como a mãe, Mirillian Avalennas, a inflexível e imponente Rainha de Púrpura, como era conhecida por seu gosto obcecante pela cor.

Ligtar até desejou estar nos campos de guerra, mas como isso não era uma regra absoluta, e sua saúde já não era mais a mesma, foi decidido que Oriel ficaria com o cargo de líder máximo ali. Era um rapaz bem quisto, estudado nas artes militares, e para ele foi dado a Lâmina dos Ventos. Aquela arma era fornecida para o homem mais forte e sábio do reino, e ele provavelmente perdia na inteligência para seu pai, mas era certamente mais sadio, afinal estava na plenitude da juventude com seu corpo robusto e resistente. Era importante aquela espada estar ali, embora não fosse muito usada.

De acordo com os Códigos Absolutos havia algumas maneiras de vencer de vez uma disputa. Bandeira branca era para quando um dos exércitos desistisse por falta de soldados, como dito anteriormente, mas também havia a bandeira vermelha. Nesse caso, ambos os exércitos precisavam deixar a vista suas bandeiras para indicar que concordaram com uma luta única e direta entre seus líderes, ou os campeões eleitos destes. O Duelo Escarlate, como chamavam. Aquele que perdesse – morresse, por isso escarlate – estaria fadado a retirar suas tropas, simples assim. Obviamente a bandeira vermelha dos valennenses estava hasteada desde a primeira semana, uma vez que a Lâmina dos Ventos era considerável invencível por seu dote particular de cortar qualquer coisa antes que uma pessoa pudesse ao menos piscar. Sim, esse era o estranho e sobrenatural poder de umas das Sete Majestosas, sendo que cada uma delas possuía uma habilidade magicamente diferente. Muitos acreditam que aquelas espadas eram do próprio Jar, o Rei dos Deuses, e que havia presenteado a humanidade, despejando-as dos céus para os mais dignos do mundo. Pelo menos é assim que está escrito na maioria das antigas escrituras e tomos, sendo seus autores desconhecidos, o que elevava ainda mais os mistérios acerca de tais armas. Sem falar que apenas cinco dessas espadas eram conhecidas por Calipo até então.

Mais importante do que isso, o lado da Inlícia não possuía nenhuma Majestosa, por isso seria praticamente suicídio ao seu combatente caso aceitassem o desafio da bandeira vermelha, mas nunca se sabe. O povo daquele reino já se mostrara desequilibrado por guerrearem contra um país tão formidável como Valennas, então seu Rei também demonstrava tal loucura, aliás pouco se sabia sobre ele, Vald Hales. Poderia supor, por exemplo, que descobrira um ponto fraco na habilidade da Lâmina dos Ventos, e assim tentaria a sorte para conquistá-la num duelo sem interrupções. Uma espada normal de aço contra uma que cortava sem você sequer vê-la? Isso seria engraçado para Sor Gilles. Se havia algo mais disputado em guerras do que territórios, era uma das Majestosas. Porém, isso não acontecia a décadas, e também não parecia ser o caso ali. Meses se passaram, e apenas hasteavam a bandeira azul.

O Príncipe nem ao mesmo se dava ao trabalho de vestir sua armadura, uma vez que não valia a pena ir lutar nas batalhas normais. Até por isso nessa manhã vestia somente uma roupa de dormir, se limitando a instruir seus soldados e montar estratégias com os lordes da Alta Classe.

O quanto mais os inlicianos iam resistir?

Raios cortaram os céus e uma chuva gelada começou a cair. Sor Gilles suspirou ao se dar conta que o ambiente ficara mais acinzentado e ameaçador uma vez que o sol sumira por entre as nuvens. Mesmo ao longe, seus olhos viram uma movimentação apressada no exército inimigo. Sua mão direita correu naturalmente até a cintura para pegar a pequena corneta de guerra. Se ele visse a bandeira azul subindo, teria que avisar seu pelotão para se preparar. Quando as duas bandeiras estivessem esvoaçantes, então teriam aquela meia hora para se organizarem e se prepararem para avançar.

Malditos, esperaram a chuva começar a cair? pensou com raiva, se lembrando mais uma vez de seu mestre. Então observou a haste ser erguida, e depois um pano começar a subir lentamente. Ele não percebeu tão logo, mas quando uma lufada de vento deu vida a bandeira, seu coração gelou ao som de uma retumbante trovoada ao fundo.

Sua cor era vermelha.