As Sete Majestosas

12 Bafo de Bode


Finareia era considerada uma cidade organizada, segura e agradável para se viver independente de sua classe social. Isso de dia, pois quando a noite caía, as coisas podiam ser bem diferentes. Por ser a capital do país, seus limites eram bem maiores do que qualquer outra cidade valennense, e por isso era a mais badalada pelos comércios, pontos turísticos e exposições culturais. Na belíssima praça central ocorria feiras de alimentos e vestimentas todos os dias, e semanalmente havia teatro a céu aberto, apresentações de bardos ou músicos profissionais, e até truques de mágica. O exuberante templo de Jar atraía visitantes de toda Calipo, uma vez que o monumento só perdia em tamanho para a sede que ficava na Cidadela Santa ao norte de Enderghar. A crescente atividade populacional também se notava facilmente, afinal mesmo que Ligtar fizesse questão de receber todos que quisessem viver ali, dando-lhes moradias de graça, nem sempre era fácil conseguir rapidamente uma das lindas casas de argamassa amarela com seus tetos de vidro, o que resultava em muita gente vivendo nas ruas como pedintes.

Não demorou para que ladrões se aproveitassem da situação dos forasteiros que viraram alvos fáceis. Apesar da constante vigilância dos guardas, era impossível cobrir todo o território, sem falar que os bairros eram divididos entre as classes mais ricas e as mais pobres, com os mais afortunados pagando ouro por fora para que suas áreas fossem mais patrulhadas, ainda que sem necessidade. Uma corrupção que o Lorde da Cidade sabia muito bem que acontecia, e às vezes participava.

Então, quando o sol descia, os pavimentos antes movimentados de riquixás ou pessoas em suas montarias, agora jaziam solitários e silenciosos. Às vezes um bêbado passava cantando alto e desafinado ou gatos brigavam numa sinfonia arranhada de miados, mas a balburdia do dia sumia quase por completo. Embora para tudo tenha sua exceção.

Bem ao sul, numa pequena ruela escondida e mal iluminada, virando a viela do Trevo com a do Elmo Furado, encontrava-se um edifício castigado pelo tempo, cercada de maltrapilhos miseráveis que dormiam no próprio vômito ou urina. Uma placa de madeira contendo o nome do lugar e a cabeça empalhada de um bode soltando vapor pela boca pendia sobre a porta. A taverna Bafo de Bode era mais antiga que o templo de Jar, e talvez mais visitada. Era onde a libertinagem e a farra se encontravam para se embriagar na melhor bebida do país, conhecida como cerveja escura. Um lugar um tanto perigoso, cheia de escória, ladinos e aproveitadores, que faziam de seu taverneiro o próprio rei e de seus assassinos a própria guarda real. Uma mancha de infâmia na perfeição e glória de Finareia. Uma mancha que só continuava a existir porque pagavam uma gorducha taxa para o Lorde da Cidade, mas não havia qualquer sinal de vigilância oficial ali. Simplesmente, tudo podia acontecer.


Tendo ciência disso, Arv avançou para dentro oculto por um capuz que lhe cobria o rosto, e mais importante, sua marca de nascença. Decidiu não levar nenhuma arma sequer. Talvez uma lâmina fosse mais atrapalhar do que ajudar. Confiava em algo mais valioso para lhe dar proteção, algo que retirara do baú que trouxera consigo na viagem. Ele já esteve ali uma vez, e jurou nunca mais pisar naquela espelunca. Pelo jeito fiquei bom em quebrar juramentos pensou enquanto abria caminho entre os festeiros alcoolizados, uma música animada de flautas e alaúdes tocava sem parar. Só espero não ser reconhecido. Entretanto, assim que entrou de vez naquela confusão de suor e cerveja para chegar até o balcão do outro lado do recinto, as pessoas que pulavam e dançavam ao seu redor acabaram por lhe tirar o capuz sem querer. Um grupo mal-encarado rapidamente lhe lançou olhares de curiosidade e repulsa. Ele tentou sorrir para as feições carrancudas que começavam a se acumular pelo caminho, mas claramente não estava sendo bem recebido. Sua preocupação não era nem com aqueles plebeus promíscuos, e sim com os misteriosos sujeitos encapuzados nas mesas mais distantes, observando-lhe a cada passo. Assassinos. Pelo menos os músicos continuam tocando.

— O MARCADO! — aguentou gritou e a melodia parou.

A taverna era menor que a sala de jantar de Ligtar, e estava abarrotada de gente, e todos, sem exceção, encaravam Arv com profundo desgosto. Não se ouvia um pio a não ser alguém vomitando num dos cantos ou uma prostituta gemendo nos fundos. Ele sorriu amarelo.

— Olha só, vocês se lembram de mim, me sinto lisonjeado... Boa noite a todos — disse ainda sorrindo, se arrependendo quase que instantaneamente. Ouviu-se o tilintar de aço.

— Deixem-no passar — a voz veio do homem no bar adiante. — Quero saber o que ele tem a dizer.

Respirando aliviado, Arv continuou na direção em que estava indo, mas ainda nervoso pisou no pé de um brutamontes barbudo que lhe rangeu os dentes. Pedindo desculpas, se apressou em chegar ao balcão para dar de cara com um homem de magreza esquelética. Com fundos olhos amarelos, um cavanhaque longo preso por anéis de prata na ponta, e dentes negros pela cerveja escura, ele era o proprietário e rei daquele covil, Rupert Baforento.

— Rupert, meu amigo! Um prazer revê-lo.

— Se me lembro bem, você me mostrou o dedo no meio e disse nunca mais pisar em meu humilde castelo — falou com seriedade. — Claro, fez isso de cima de seu cavalo. Você por acaso é um covarde, sr. Marcado?

— Eu estava completamente bêbado, você sabe disso. Peço desculpa se eu o ofendi.

O homem encarou Arv com uma demora desgostosa, depois gargalhou, quebrando a tensão. Fez um sinal e a música recomeçou, agora mais lenta.

— Ninguém é capaz de me ofender — Arv sorriu ainda mais aliviado, pelo menos até ver um velho bode surrado surgir atrás de Rupert. O bicho mastigava algo, preso num tipo de coleira, e ganhava afagos do taverneiro. — Mas meu amigo aqui pode ter ficado ressentido.

Arv tentou esconder uma careta de nojo com o fedor que subia para seu nariz. Como ele pudera se esquecer que Rupert adorava aqueles chifrudos? De certo modo respeitava isso, pois no tempo dos Monscap, se dizia que tais criaturas eram uma combinação horrível entre bodes e humanos em sua imagem, o que resultou em preconceito e maus tratos aos inocentes animais que em nada eram malignos.

— Eu pensei que seu camarada havia morrido. Vi uma cabeça empalhada ao entrar.

— Aquele é o Chico Pai, esse é o Chico Filho — explicou Rupert, um lampejo sentimental passando pelos seus olhos. — De qualquer modo, receio que vamos ter que jogá-lo nos estrumes para prender uma lição, sr. Marcado.

— Não, por favor! Sei que fiz mal em ir embora daquele jeito, mas venho aqui pedir minhas desculpas. E ainda lhe dar algo que pode vir a ser útil.

O taverneiro o fitou de rabo de olho.

— Então é isso? Assim como das outras vezes que veio até mim, procura por informações que não pode encontrar em lugares mais respeitados, não é? Para qual Lorde mela calças está trabalhando agora?

Arv suspirou e se debruçou sobre o balcão. Havia um homem roncando na madeira ao lado, bêbado demais para escutar a conversa, mas ainda assim era melhor que ninguém ouvisse, pois sentia que alguns olhares ainda estavam em si.

— É a Coroa — sussurrou.

— Hm... então é melhor ter algo bem útil, sr. Marcado.

Assentindo, Arv colocou as mãos no bolso do gibão, retirando de um lá um pacote transparente forrado do que parecia ser folhas secas, e também retirou dois fracos menores contendo uma substância esbranquiçada e viscosa.

— Faça uma infusão com essas folhas e adicione dez pingos da substância do frasco. Você sonhara com o paraíso de Jar por horas.

Rupert sorriu com a informação, pegando os presentes com pressa e guardando no casaco desgrenhado que vestia.

— O que quer saber?

— Eu...

— MORTE AO MARCADO PELA BESTA! — alguém gritou em um dos cantos, seguido de outras vozes e urros que pareciam partilhar do mesmo desejo.

— Aqui não! — esbravejou Rupert, e as pessoas voltaram ao silêncio. Depois retornou ao investigador. — Posso tê-lo perdoado por suas ofensas, mas meus clientes não gostam de você. Eles tem medo dessa coisa rosada na sua cara. E os mistérios criados a cerca de seu trabalho não ajudam a diminuir as superstições desses patifes.

— Eles acham que sou um bruxo? — riu com a própria pergunta.

— E pode culpá-los por acharem isso? Sempre que você aparece alguém morre e coisas estranhas acontecem. E atualmente as coisas estão bem estranhas em Finareia.

— Conte sobre isso.

— Crianças estão sumindo.

— Escutei esse assunto. Seus homens não sabem de nada?

— Não. Se fosse alguém daqui ficaríamos sabendo. Minha rede de criminosos é bem competente, nada passa despercebido, nem os novos moradores que estão fugindo das Areias Baixas.

— Então estão levando essa questão para o sobrenatural?

— Obviamente o senhor conhece as histórias sobre crianças que sumiam no passado — disse com tensão na voz. — Pode estar acontecendo de novo.

Arv suspirou descrente. De acordo com as Antigas e Novas Escrituras, crianças eram as vítimas prediletas dos Monscap. Eles à sequestravam a noite e consumiam seus corpos deixando somente os pés e mãos, algo horrível de se encontrar, mas que ocorreu na primeira e na segunda vez que tais vis criaturas surgiram em Calipo. Fryer as destruiu junto de seu mestre a quase duzentos anos, desde então não houve mais nenhum relato de qualquer aparição.

— Compreendo que o momento não é propício — respondeu Arv com cautela. — O medo parece pairar sobre Valennas depois da primeira guerra com a Inlícia. Vocês perderam um príncipe e uma Majestosa. Mas apelar para os Monscap? Não, Rupert, esses malditos foram extintos de uma vez, o Eleito garantiu isso. O que está causando esses sumiços é algo mais real. Além do mais, não apenas crianças desapareceram, eu fui contratado para investigar o paradeiro de Sor Godrik.

— Fiquei sabendo dessa história, porém não posso ajuda-lo com isto. O sujeito era muito certinho para se perder por essas bandas, e nunca pisou aqui.

— Imagino. Possui mais alguma informação? Um rastro que devo seguir?

— Bem, de acordo com meus homens, está havendo uma locomoção grande de Filhos dos Mortos pela estradas ao redor da cidade. Esses ciganos sempre blasfemaram as Escrituras. Não duvidaria que estão por trás de uma grande conspiração envolvendo rituais pagãos com crianças para trazer os Monscap de volta.

— Esqueça essa fantasia. Filhos dos Mortos sempre foram nômades, mas nunca foram contra Jar. Entretanto, se há tanto assim deles num só lugar, vale a pena investigar. Acho que isso é tudo, devo ir embora.

— Antes disso — disse Rupert, enchendo uma caneca de cerveja escura e entregando-a para o investigador. — Beba! Ninguém vem aqui e não bebe do nosso melhor produto. Por conta da casa.

Um pouco contrariado, mas determinado a não ofender de novo o taverneiro e nem seu bicho de estimação, Arv pegou a caneca, realizou um ligeiro brinde e ingeriu a bebida com pressa. Era deveras concentrada no malte e lúpulo, salgada e bem gelada, com a espuma densa ficando grudada no buço depois de terminá-la. Refrescante, mas forte.

— Obrigado.

— Agradeça ao Chico.

Arv nem quis tentar entender por que Rupert mandou agradecer ao animal, apenas o fez com um gesto de cabeça. O bode levantou seus alaranjados olhos de pupilas horizontais e baliu um bééé de respeito. Por fim, Arv se apressou em sair do recinto, ainda que sua nuca carregasse olhos ameaçadores.

Teria uma longa caminhada de volta ao castelo. Porém, mal havia entrado em uma das vielas daquele bairro quando ouviu passos pesados em suas costas. Ali ele se arrependeu amargamente de não ter trazido pelo menos a balestra. Olhou para trás e viu um grupo de cinco pessoas. Correr funcionaria? Seria vergonhoso, mas que opção restava? Aparentemente nenhuma porque um sexto homem surgira do outro lado da viela, possivelmente dera a volta para bloquear qualquer fuga. Era o mesmo rapaz que gritara na taverna, e dessa vez parecia que não tinha ninguém para o impedir de transmitir sua ameaça odiosa.

— Morte ao Marcado pela Besta — ele disse se aproximando com um sorriso insano e mortal.

Notas finais
Galerinha que comenta, parece que ta bugado mesmo, provavelmente os adms tao mexendo e ai os comentários nao aparecem no site. Porem eu consigo ler atraves da notificação do meu email! Hahah Ai ai, me ajuda a te ajudar plusfiction. Agradeço demais aos comentários e elogios, espero que sigam gostando. Uma pergunta? Qual o personagem que mais gostaram e que menos gostaram ate agora? Se possivel o porquê. Enfim, fiquem bem!