As Sete Majestosas
13 O Audaz
Arv já havia se metido em algumas enrascadas ao longo da vida, mas a sorte o salvara na maioria das vezes.
Naquele mundo, os homens eram obrigados a investir tempo na arte da guerra para se ter o mínimo de conhecimento sobre qualquer tipo de combate, e assim se defender quando o conflito chamasse. Ele tentou se aperfeiçoar na espada, mas em nenhum momento o peso da lâmina parecia correto em suas mãos. Sua mãe o chamava de corajoso porque mesmo que se enchesse de hematomas dos treinos, não desistia de tentar. "A sorte favorece os audazes", ela lhe dizia com um sorriso animador sempre que o pequeno filho parecia desapontado com seu fraco desempenho. Aquelas palavras passaram a ser seu mantra em situações de perigo, por isso as murmurava para si diante do que ocorria agora.
— O que está sussurrando aí, bruxo?! — indagou com irritação o homem que lhe fechava o caminho na curta viela. — Espero que não seja nenhuma feitiçaria!
— Houve um mal entendido, senhores — argumentou Arv, receoso. — Não sei o que ouviram sobre meu respeito, mas sou um simples homem como vocês!
— Como nós?!
O rapaz a frente parecia bem irritado, e dava para sentir o alto de teor de álcool no timbre da voz. Ele era jovem, magro igual uma uva chupada, o rosto tomado de espinhas e cabelos oleosos castanhas. Vestia-se como um marinheiro, com roupas surradas e marcadas pelo sal marinho. Na mão, ele girava uma faca grosseira com o cabo de osso de baleia.
Suas ameaças não eram brincadeira, e seus passos estavam chegando cada vez mais perto. Arv deu uma rápida olhada às suas costas e os outros cinco homens também já estavam quase sobre si. Todos pareciam ter as mesmas características miseráveis de seu líder. Eram pobres coitados, provavelmente vindo do porto de Valennas, nas Areias Baixas, para gastar o salário que ganharam da última navegação na taverna da capital. Lunáticos que acreditavam em maldições dentre outras coisas, e a bebida apenas encorajava esses pensamentos nublados, dando-lhes violência para seus atos.
Se fosse um cavaleiro, Arv poderia dar cabo de todos eles, pelo menos nos mais mirrados e bêbados, pois acabou reconhecendo o brutamontes do qual havia distraidamente pisado ao chegar no Bafo de Bode, que parecia empolgado em devolver o acidente com juros. Engoliu em seco, talvez a sorte não estivesse ao seu lado naquela noite.
— Senhores! Sejamos razoáveis! Os guardas podem aparecer a qualquer momento! — tentou Arv.
— Olhe ao redor, idiota. Esse beco esquecido por Jar não recebe uma patrulha há anos — respondeu o malfeitor com devida razão.
— Que seja por Jar então! Se creem em seus ensinamentos, assassinato é um pecado terrível!
— Não ouse blasfemar o nome de Jar com essa boca imunda! Você, que foi marcado pela Besta, com certeza é seu inimigo.
— Não eu... — Arv suspirou, estava ficando sem opções. — Sou protegido por Rupert! Nunca mais vão entrar na taverna se ele souber o que fizeram.
— Por algum motivo você é protegido lá dentro, mas aqui fora o assunto é outro. Agora fique quieto para que eu possa estripá-lo como um peixe!
O investigador deu-se por vencido nas palavras, mas ergueu os punhos numa tentativa de parecer saber o que estava fazendo. Não ia morrer como um pária, sem resistir. Escutou os homens rindo às suas costas, eles batiam os porretes nas mãos num baque surdo.
Entretanto, de repente, um uivo soou pela penumbra escura da rua ao final da viela, e um cachorro todo branco surgiu com a língua de fora, seu focinho farejando algo no ar. Os marinheiros, por um segundo, esqueceram o alvo principal e encararam o animal com curiosidade.
— Mas de onde raios você veio, totó? — perguntou o jovem marinheiro de lâmina na mão. Apesar de aparentar ser dócil, o cachorro respondeu com um latido feroz. — Ora, seu pulguento! Vá mijar em outro lugar antes que eu te faça em picadinhos!
Então, tudo aconteceu muito rápido.
Arv não soube dizer de onde aquela pessoa veio, apenas teve a mera noção que devia ter sido de cima, dos telhados das construções que permeavam a viela, o que não fazia muito sentido, afinal isso queria dizer que o dito cujo havia saltado uns quatro metros em direção ao solo sem se machucar. E o pouso fora perfeito e silencioso. Assim que a figura tocou os ladrilhos de terra, levantou-se às costas do rapaz que ainda se via falando com o cachorro. Com a palma da mão destra em riste, ele acertou um poderoso golpe ligeiro e preciso na nuca do homem, que se desligou como uma lamparina quebrada, caindo desacordado, a faca salteando para longe.
— Estava sendo um saco ouvir esse babaca falar, mas ameaçar o meu cachorro foi demais — disse o sujeito misterioso. Ele girou nos calcanhares para encarar um Arv atônito, assim como os cinco homens em sua retaguarda. — Prazer, meu nome é Volo.
Ele sorriu de forma natural, a luz do luar refletindo seus cabelos branco com uma mecha rubra escorrendo na franja. Esticou as mãos para cumprimentar Arv como se nada anormal estivesse acontecendo, e meio inebriado pelo momento, o outro pegou em sua mão de bom grado.
— Arv Armstrong — respondeu abobalhado.
— É, eu sei quem é você. Mas parece que a conversa fica para depois!
Aproveitando que segurava Arv pela mão, Volo o puxou para o lado bem a tempo de lhe salvar do porrete que descia em sua direção. Os outros marinheiros finalmente se deram conta que seu líder fora derrotado e agora queriam vingança.
— Vai pegar pelo que fez ao Tennet! — esbravejou um deles, partindo para cima de Volo.
— Era esse o nome do pulha? — respondeu se esquivando com facilidade dos golpes. — Depois que ele acordar, melhor servir-lhe chá quente. Se bem que sua mão estará inútil para segurar qualquer coisa.
— Do que está falando, maldito?!
— Que bom que perguntou.
Volo sorriu com malícia, aguardou mais um golpe desenfreado do inimigo, esquivou-se quando ele veio, girou o corpo com agilidade e agarrou o braço do mesmo, torcendo para trás com força, e depois o quebrou sem cerimônia. O homem gritou num choro enfurecido, mas foi silenciado com uma joelhada voadora na altura da testa.
— Pronto, dormindo feito um bebê.
Os quatro marinheiros restantes observaram com aflição o companheiro tombar, porém não pareciam inclinados a abandonar o local. O número ainda era maior em relação ao novo e destemido oponente, mesmo que este lutasse como um demônio ensaboado.
— N-Não se meta, fryereene! Queremos apenas o bruxo! — disse um sujeito de longos cabelos negros sob um chapéu curvo de navegante.
— Desculpe, não vai rolar.
— Estamos em maior número!
— Mas eu tenho um plano. Vocês têm um?
Eles se entreolharam com ódio, e partiram para cima todos ao mesmo tempo, menos o brutamontes que se aproximou mais lento, esperando o momento certo para se envolver na briga.
O beco era estreito, e o trio tentou cercar o alvo. Largaram os porretes e armaram-se com navalhas semelhantes à de Tennet, por outro lado Volo mantinha as mãos limpas. Pelo menos, limpas de armas. Agachando-se ao piso de terra, pegou um punhado de areia nas mãos antes de avançar ao encontro dos rivais, lançando-a nos olhos deles. Brevemente cegos e desorientados, o fryereene aproveitou para se mover como uma sombra traiçoeira, se esgueirando por suas costas, fazendo com que dois deles se apunhalassem sem querer na confusão de tentar acertá-lo com a visão comprometida, enquanto o que sobrou, aquele do chapéu de navegador, recebeu uma sequencia selvagem de golpes nas costelas, depois no peitoral e fora finalizado com um gancho bem dado. Sangrando, os outros marinheiros ainda de pé cambalearam na direção de Volo numa última tentativa de furá-lo, o que lhe arrancou gargalhadas. Arv mal acreditava no que assistia. Nunca viu alguém lutar daquele jeito em tamanha desvantagem. O homem parecia estar se divertindo!
Com uma facilidade assustadora, Volo saltou para o lado, agarrou a cabeça dos dois inimigos que cometeram o erro de emparelharem os ombros, e simplesmente lançou-os um contra o outro. O choque de cabeças foi audível, com Arv fazendo uma careta de desconforto pelo ato presenciado.
Antes que pudesse avisar, o investigador viu seu salvador ser pego pelas costas pelo enorme homenzarrão de grandes músculos e peitoral largo, que aguardara aquela brecha como uma serpente desonrada. O brutamontes capturara Volo, aproveitando seu único descuido, e o levantava do solo com seu abraço de urso.
— Vou quebrar cada uma de suas costelas pelo que fez aqui, seu merdinha!
Por mais que se debatesse, o fryereene não conseguia se livrar daquele poderoso aperto, sentindo seu corpo se contrair cada vez mais, as costas arqueando, o fôlego se esvaindo...
— Meu plano — murmurou com dificuldade, sem ar.
O cachorro latiu e rangeu os dentes com os caninos a mostra.
— Acha que tenho medo de um peludo sarnento?! — questionou o musculoso marinheiro, ainda apertando os braços ao redor de Volo.
— Não é ele... idiota...
Antes que se desse conta, o brutamontes foi acertado na cabeça por Arv, que desceu a ripa de um porrete com toda a força que tinha. Um melado vermelho desceu da altura da nuca do sujeito, seus olhos esbugalhados encarando o céu escuro, sem ver que Volo sorria com deboche após sentir o aperto ser aliviado até finalmente se soltar. Seu captor mancou para cá, depois para lá, e despencou feito uma montanha.
— Assim que se faz — elogiou Volo para Arv, sentando-se para se recuperar. Seu cão veio correndo para o encher de lambidas e latidos preocupados. — Estou bem, Rufus, estou bem... para, eu sei que me arrisquei um pouco.
Arv ofegou com repulsa, soltando o porrete. Seus braços estavam vibrando e ombros tensos depois da porrada que desferiu, porém não havia nenhum zumbido de cigarras que chegasse mais alto em seus ouvidos, o que significava que nenhum dos homens ali estava morto, somente desacordados.
— C-como você... como você enfrentou todos eles? — indagou surpreso.
— Você não assistiu?! Espero que não tenha sequer piscado! Não vou fazer de novo — respondeu Volo.
Arv sorriu por fim.
— Você é completamente louco. Mas agradeço a ajuda. Se não aparecesse... seria meu fim.
— Talvez sim, talvez não. A sorte favorece os audazes, não?
— O que? Onde você...
Volo deu de ombros, levantando-se e limpando a poeira das calças que vestia.
— Fico feliz de ter ajudado, sr. Armstrong. Porém, minha intenção é lhe cobrar um favor. Não poderia fazer isso se estivesse todo furado na sarjeta.
— Um favor? Você disse sabe sobre mim. Quem exatamente é você?
— Lembra da pessoa dormindo no balcão lá no Bafo de Bode?
Arv arqueou as sobrancelhas, realizando.
— Sim — confirmou Volo com um sorriso metido, cheio de pompa. — Pode-se dizer que sou um bisbilhoteiro.
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