As Sete Majestosas

16 Anúncios e Riscos


O esplêndido sol avermelhado de Calipo ganhou os céus límpidos das primeiras horas de uma manhã tranquila em Finareia.

Ao sul da praça central, do lado do hospital principal, se encontrava o belo templo do Deus Jar. O monumento fora construído com paredes de arenito rosado com linhas laranjas, como estrias volumosas percorrendo toda sua superfície. Possuía quase oito metros de altura sustentados por grossas colunas de obsidiana, e praticamente tinha o comprimento em área quadriplicado em comparação aos prédios dos comércios que o cercavam. De fato, o templo era majestoso, ganhando destaque no mundo inteiro pelo seu tamanho e estética, perdendo em valor somente para a sede que ficava em Avin.

Os vitrais produzidos particularmente pelas areias da cidade também faziam parte de sua construção, enfeitando artisticamente as janelas e o teto com claraboias. Aliás, era lá em cima, no centro, que ficava a torre do sino. Feito inteiramente de bronze, medindo 2 metros e pesando 300 quilos, dava sua primeira badalada exatamente às 6 horas da manhã, passando a badalar a cada hora até completar outras onze, quando o sol se punha.

Os caliponianos aprenderam a marcar as horas com complexos mecanismos de engrenagens produzidos pelas academias de ciência, depois que constataram que um único dia era dividido em 12 horas para sol e outros 12 para a lua. Era trabalho do Lorde da Ciência de cada país distribuir esses mecanismos, denominados Conta-Horas, por todo o território.

Lief estava diante de um deles, aguardando impacientemente o ponteiro menor chegar ao sexto ponto. Ainda faltava alguns minutos. A coisa ficava sobre um tipo de palanque protegido por uma camada de vidro, e nunca parava de funcionar. Lyanna o observava a poucos passos. Ela estava de armadura completa e com a Arisca na bainha, e anda não gostava nenhum pouco da ideia de estar ali, mas o jovem príncipe fazia o que dava na telha, indiferente aos riscos. Acordou bem cedo e pediu um riquixá real, dizendo às suas amas que iria até o templo rezar como desculpa para escapulir do palácio tão cedo ao domingo. No caso, ambos marcaram de se encontrar com o tal Volo, o fryerenne bisbilhoteiro que invadiu a torre da biblioteca na noite anterior, prometendo levá-los até um membro do misterioso grupo dos Filho dos Mortos, atual obcessão do menino herdeiro.

A praça ainda tinha as barraquinhas de produtos diversos fechadas, a feira ao ar livre. Porém começava a se encher com os primeiros devotos que viam prestar seus clamores ao Deus Jar e seus Santos na primeira hora solar. As portas do templo se abriam ao soar do sino, e os visitantes se apinhavam lá dentro, apesar de que a maioria fosse natural de Valennas. O número de turistas religiosos havia diminuído consideravelmente por conta da recente guerra.

— Jovem Lief — chamou Lyanna. — Talvez devesse ficar menos a vista.

— Tem razão — concordou o garoto.

Ele não vestia roupas chamativas, mas a armadura única de Lyanna chamaria atenção dos plebeus. Embora fossem respeitosos com seus soberanos, não era boa ideia o príncipe ficar no meio deles, uma vez que havia uma crescente de ladrões e pedintes que poderiam ter más intenções. Caminharam até as sombras de uma das colunas que sustentava a área coberta da igreja. Dali podiam ver as imagens dos Santos de Jar se enfileirando em quadros na parede. Cada Santo ou Santa um dia viveu em Calipo, e de acordo com as Escrituras, ascenderam para este sagrado título por vontade de Jar. Era normal que cada templo representasse em suas paredes os Santos que nasceram no país. Em Valennas, por exemplo, havia cerca de 11 Santos, sendo os mais famosos a Santa da Sede e o Santo da Honra. A Santa da Sede era conhecida por ter sido uma peregrina que vivia nas dunas levando os ensinamentos de Deus para os locais mais remotos do deserto, e encontrando aqueles que se perdiam nas areias, dando-lhes água para matar a sede. Já o Santo da Honra foi um homem que jurou proteger o pai, acusado injustamente por um crime hediondo, e que nisso enfrentou sozinho um exército inteiro sem se entregar.

— Ele nunca foi um Primor Santo, sabia? — apontou Lief para o quadro do Santo da Honra, a imagem de um rapaz com barba ruiva de semblante cansado e vestes rasgadas, mas empunhando uma espada e escudo. — Mesmo assim ele ascendeu como um Santo por chamado de Jar.

— Sim, jovem Lief. Assim como nem todo Primor Santo se torna um Santo. Veja a própria Santa da Sede, nem poderia se tornar um por ser mulher — a imagem dela era de uma figura carregando coldres de água na cintura, descalça sobre dunas de areia.

— Eu sei, mesmo assim... essas histórias sempre me confundiram. O que os fizeram tornar tão especial aos olhos de Deus?

— As pessoas se inspiram neles. Há muitos livros sobre isso. E as Escrituras possuem diversas páginas focadas em seus feitos, também.

— Sim, mas... você nunca duvidou nenhum pouco? Por que tudo tem que ser tão absoluto? Não quero parecer um descrente. Fui ensinado a seguir os dogmas de Jar, e acredito neles por conseguir distinguir que é um caminho de paz... Ainda assim, sinto que há algo errado. O mundo nunca alcançou esse estado. Sempre houve guerra.

— Você ainda é novo. Sua fé precisa ser lapidada.

— A sua está lapidada? Disse que cresceu numa família dos Filhos dos Mortos.

— Shhh — alarmou-se. — Não é bem assim, nem todos meus familiares eram.

— Seja como for, hoje estou curioso para conhecer um deles. Quero saber o que pensam sobre essas histórias. E sobre as Majestosas.

— Devo avisar para não criar tantas expectativas. Não acho que seja tão fácil conseguir essas respostas. Mesmo que...

Finalmente o sino badalou, cortando as palavras de Lyanna. O som ressoou por longos segundos, com o povo se amontoando na frente da igreja e se colocando de joelhos para rezar. As robustas portas de madeira do lugar começaram a se abrir. De dentro, jovens rapazes saíram para receber os devotos. Eles vestiam longas túnicas de cor amarelo vivo, com broches de sete sóis no cachecol de seda que adornava seus pescoços. Esses eram os Solares, aspirantes do Primor Santo, que surpreendentemente saiu logo em seguida. Sua aparição cedo era rararidade, e Lief se escondeu para não ser percebido pelo homem, sem vontade de socializar naquele momento.

O Primor Santo era um senhor esbelto de sorriso largo sob um bigode espesso de fios grisalhos. Tinha um monóculo na face enrugada e vestia um robe de pura seda sobre uma camisa que trazia um enorme sol rubro costurado, com detalhes em ouro. Na cabeça, um chaperon vermelho, um tipo de chapéu de pano com uma cauda lateral carregada de pingentes em forma de sóis.

— Meus queridos fiéis — disse ele com um vozeirão impressionante, contrariando sua aura idosa. — Venho encontrá-los antes que adentrem a casa de Deus, pois recebi uma informação importante. O arauto real irá pronunciar algumas palavras de Vossa Majestade no palco central da praça, por isso peço humildemente que o escutem com atenção antes de iniciarmos nosso rotineiro encontro com o bom Criador. Por favor, se dirijam até lá. Será rápido!

— Deve ser o anúncio do casamento e aliança com Enderghar — lembrou-se Lief.

Uma massa bem maior de pessoas passou a se concentrar na praça, rumando em direção ao palco que havia no centro, ao lado da estátua de bronze do Majestoso que representava o país. Helmet Avalennas fora um dos sete reis escolhido por Jar a empunhar a espada mágica no início dos tempos, e para sempre era lembrado e celebrado.

— Com toda essa gente como vamos encontrar seu amigo?

— Basta seguir o peludo.

— Peludo?

O garoto fez um sinal com a cabeça na direção de um cachorro que se coçava mais adiante. Lyanna não soube identificar sua raça, mas era grande e corpulento, embora talvez fosse sua grande quantidade de pelos brancos que desse essa impressão. Latiu quando se aproximaram, arquejando com a língua de fora e se esfregando nas pernas de Lief, o rabo balançando de um lado para o outro.

— Também senti saudades, Rufus! — exclamou o príncipe, afagando as orelhas do cão. — Que tal nos levar ao seu dono agora?

Rufus pareceu entender, colocando-se em marcha para fora da praça. Lief e sua Guardiã o seguiram. Ainda conseguiam ouvir um pouco da proclamação do arauto real, suas palavras eloquentes surgindo após sons de cornetas. Palmas e vivas concluíram o anúncio um tanto que breve. O arauto servia para comunicar eventos importantes da corte para plebeus, e certamente a mensagem seria repetida ao longo do dia. A boa aceitação dos primeiros ouvintes, demonstrou que o povo via com bons olhos aquele tipo de união. Estavam desesperançosos demais após perderam a última guerra, mas aquilo significava que o reino estava se fortalecendo de novo, dessa vez com uma nova Majestosa que, ainda que fosse de outro país, serviria de auxílio caso houvesse novos confrontos com os inlicianos.

O cachorro levou a dupla por vielas e caminhos distantes. Lyanna mantinha a mão na empunhadura, mesmo que não houvesse perigo iminente. Estavam cada vez mais se distanciado dos bairros patrulhados, o que provava a péssima ideia que julgava ser se encontrar com aquele patife fryerenne. Lief, por outro lado, gostava da ideia de se aventurar, sem de fato ter noção do peso de ser o próximo na linha de sucessão do trono.

Após mais um tempinho de caminhada e algumas paradas para Rufus marcar território, finalmente encontraram Volo recostado nas ruínas de um casebre, no bairro das pulgas, área norte e relativamente pobre de Finareia. Uma fumaça de fogueira recém apagada ainda subia do interior dos muros desabados. O rapaz tinha um alaúde nas mãos no qual dedilhava com habilidade as cordas, tocando uma suave melodia de olhos fechados. Ele cantava com uma rouquidrão estranhamente afinada e satisfatória:

“A lua no deserto;

Brilha na areia;

Conforme o tempo passa;

O dia se clareia;

Fulgor, sol rubro...;

No brasão dos Avalennas;

A coroa do Rei Ligtar;

Para sempe se permeia;”

Lief bateu palmas. Volo abriu os olhos e sorriu, realizando uma mesura exagerada. Lyanna não gostava do som de alaúde em geral. Um tipo de trauma que gostava de deixar enterrado bem fundo. Porém, não pôde deixar de notar a aptidão musical do outro, o que obviamente não mascarava seu estado deplorável. Vestia roupas um tanto que surradas e remendadas, para não dizer maltrapilhas.

— Bom dia para vocês! Que bom que vieram — disse animado, se ajoelhando para receber o cachorro. — Ótimo trabalho, amigão. Estou evitando a praça ultimamente. Muita cheia, sabem?

— Perdeu um importante anúncio.

— Sobre o casamento de sua irmã?

— O que? Como sabe?

Ele piscou, convencido.

— Está óbvio que seu amigo espia o que acontece na fortaleza sem permissão. Seu pai não gostaria disso, jovem Lief — repreendeu Lyanna.

— Já tivemos essa conversa ontem, bela dama. Não sou uma ameaça para a coroa, muito menos para Vossa Alteza. Lief é um amigo, assim como foi seu irmão para mim.

— Então por que está colocando em perigo seu amigo? — questionou a cavaleira, sem ceder. — Sabe muito bem que é melhor que esteja seguro na fortaleza.

— Deixe de drama. Aquele lugar não é para ser uma prisão. O jovem rapaz precisa respirar! Está cheio de energia nessa idade. E você fará a segurança dele muito bem. É uma Guardiã, não é mesmo? Mostre o motivo de receber tal honraria.

— Pode ter certeza que vou mostrar — respondeu ameaçadora.

— Chega vocês dois — pediu Lief com impaciência. — Sim, eu quero ter liberdade sobre minhas ações, mas eu também sei que não devo correr tantos riscos. Sendo assim, vamos terminar logo com isso. Onde está o membro dos Filhos dos Mortos que me prometeu, Volo?

— Bem, sobre isso...

— O que houve?

— O safado me deu um perdido — explicou Volo coçando a cabeleira branca salpicado de mechas vermelhas. — Ele deve ter notado que eu o segui nos dias anteriores, e hoje não apareceu. Esses nômades conseguem ser mais escorregadios que sabão!

— E agora?!

— Não se preocupe. Eu sei onde ergueram um pequeno acampamento. Podemos tentar uma aproximação.

— Está louco? — indagou Lyanna. — Está dizendo que devemos deixar Finareia?!

— Não será por muito tempo. Alcançaremos o lugar a pé.

Lief suspirou, pensativo.

— Jovem Lief, não pode estar considerando...

— Esse deve ser o último grupo de uma grande caravana que se instalou aos arredores da cidade para abastecer mantimentos — disse Volo. — Eles seguirão viagem em breve. Não sei se terá outra chance, Vossa Alteza.

— Muito bem, mostre o caminho.

Volo sorriu vitorioso.

— Devemos seguir pelo portão norte. Na verdade... há um caminho menos vigiado que conheço. Seria um problema se os sentinelas de seu pai o vissem saindo de repente.

— Concordo.

— Jovem Lief!

— Guardiã — chamou o garoto. Lyanna demorou alguns segundos, mas se colocou numa postura de respeito e serviço. — Jura me proteger de todo o mal?

— Com a minha vida.

— Então, vamos — sorriu, passando a seguir Volo e seu cão.

— Que emocionante — sussurrou o fryerenne.

Lyanna apenas o fuzilou com os olhos.