As Sete Majestosas

17 Duelo dos Três Trapos


Quanto mais se distanciavam da cidade, mais Lyanna se preocupava com a segurança de Lief.

O que seria dela se algo de ruim acontecesse com o único filho herdeiro ao trono? Sor Gilles era um Cavaleiro Primor e mesmo assim fora destituído de seus serviços, sendo que mal teve culpa do que aconteceu ao príncipe Oriel na guerra. Provavelmente ela seria levada à forca pela rainha, nem mesmo o rei Ligtar apaziguaria a fúria da esposa.

Não tinha que pensar assim. Era capaz de proteger o menino mesmo que isso lhe custasse a vida. Era uma Guardiã, e poucos conseguiram a proeza de chegar em tal posição. Ainda assim...

O caminho para o norte era cercado pelos primeiros indícios de vegetação que era característico dos países que ficavam nas fronteiras adiante, embora ali em Valennas crescesse uma flora um tanto que estranha. Chamavam de Enroscados os conjuntos de arbustos ou sebes de formas distintas que se erguiam por vários metros pelas beiradas da estrada. Eles cresciam em vinhas, galhos e folhas que se torciam e retorciam entre si de forma esquisita. Tinham cor de ferrugem, mas na rara chuva ficavam rubras como sangue, e eram praticamente impossíveis de se atravessar a mão nua, sendo uma barreira natural, apesar de ser inviável o controle de sua progressão pelo solo. Por conta dessa barreira nas laterais, Lyanna se tranquilizava um pouco, pois diminuía o risco de serem surpreendidos por bandidos que viriam pelos flancos. Se ela pudesse ver de onde o perigo nascia, sendo o caso ali unicamente em linha reta, isso bastava para contê-lo.

Porém, sua paz de nada durou. Volo indicou uma pequena entrada pelos arbustos, no qual precisavam se agachar para passar.

— Por aqui. Estamos quase chegando — disse ele com um sorriso.

— É bom que seja verdade — retrucou Lyanna, sem confiar totalmente. — Já nos distanciamos o bastante, e vossa alteza precisa estar de volta antes do desjejum do meio-dia. Ou vão começar a procurá-lo.

— Estamos próximos — garantiu o rapaz de cabelos pálidos, mantendo a dianteira junto de Rufus. — Os Filhos dos Mortos erguem suas tendas nas vegetações, longe dos olhos dos viajantes.

— Parece-me arriscado — comentou Lief, ainda animado por se aventurar, mas um pouco mais cauteloso. — Não há coiotes nesses enroscados?

— Toma esses nômades por desprotegidos? — indagou Volo achando graça.

— Os Filhos dos Mortos não temem os animais. Eles estão de conluio com a natureza — respondeu Lyanna sem pensar.

— Ah sim, me esqueci que você tem família entre os membros desse grupo — observou Volo. — Não me olhe assim. Meu ouvido é muito bom para escutar coisas, principalmente quando a voz é feminina. Mas voltando ao assunto. Sim, você tem razão, eles meio que tem essa ligação com tudo que é natural, papinho bem bizarro para falar a verdade... Só que também não são indefesos a ameaças, digamos, mais humanas. Entre eles, existem aqueles que sabem lutar.

— Estou ainda mais ansioso por conhecê-los — disse Lief, recuperando o brilho no olhar com aquela informação. — Nunca saí do país e mal pisei nas Areias Baixas... quero conhecer gente nova e como eles vivem, no que acreditam e o que defendem. Quero conhecer suas culturas!

— Você será rei, jovem Lief — avisou Lyanna. — Ainda vai conhecer vários países em toda Calipo por conta de sua importante posição.

— Isso se estes países ainda existirem após tantos conflitos. De qualquer modo, deve ser no mínimo chato visitar outros lugares sendo um rei — resmungou o fryerenne. — Claro, tem a parte boa como banquetes e bailes. Vai poder comer e beber o quanto quiser, afinal será o convidado de honra máxima. Por outro lado, terá que fazer politicagem, aguentar as conversas entediantes dos lordes de bolsos fundos, e não terá nenhuma privacidade, sendo constantemente vigiado, sem poder cortejar uma bela donzela, ou entrar em torneios de duelos com os melhores espadachins de cada reino, ou se arriscar em aventuras nas regiões inexploradas!

— Ele não deveria nem se arriscar aqui — lembrou Lyanna com a voz séria.

— Ora, você tem que relaxar, bela dama. Não corremos nenhum perigo aqui.

Assim que Volo disse tais palavras, uma flecha passou zunindo sobre sua cabeça, se cravando na parede de arbusto retorcido logo atrás.

— Lief, atrás de mim! — ordenou a Guardiã, puxando a espada e se colocando em posição de combate.

O jovem príncipe correu para a retaguarda da moça, seus olhos assustados indo na direção de onde a flecha parecia ter sido disparada. Não conseguira ver nada a princípio. Nem mesmo Lyanna reconheceu a forma de um inimigo naquele ambiente de terreno irregular, tomado pelos enroscados. Eles cresciam por diferentes caminhos, produzindo um enorme labirinto natural. Rufus começou a latir sem parar, as patas dianteiras juntas ao solo. Volo, por sua vez, levantou as palmas das mãos.

— Não estamos aqui com más intenções — ele disse com firmeza, muito diferente de seu tom desleixado de outrora. — Por favor, revele-se.

Então, saindo por detrás de uma das paredes de sebe, um homem se mostrou. Ele vestia roupas negras com flores secas grudadas nos locais de remendo. Em seu rosto fino havia uma barba rala, olhos tristonhos e um nariz maior do que o normal. Na cabeça, cabelos lisos e presos sob um chapéu de palha bem maltrapilho. Nas mãos, o arco de sabugueiro que usou para disparar a flecha através de um buraco oculto que fizera estrategicamente no enroscado.

Eles sabiam mesmo usar a natureza ao seu favor.

— Você é o enxerido que vivia me seguindo pela cidade enquanto eu comprava suprimentos — disse o homem misterioso, reconhecendo Volo.

— Ah... então você me notou mesmo — Volo sorriu amarelo. — Perdoe-me por isso, sou apenas um curioso.

— Não me importa o que seja. Teve a audácia de vir até aqui, mas perdeu seu tempo. Vão embora, não posso deixá-los passar.

— Calma, calma. Tenho um amigo que deseja falar com seu líder.

— Não temos líderes.

— Mas servem a alguém.

— Somente à natureza e à verdade.

— Profundo, bem profundo. De tocar a alma — ironizou Volo. — Temos o direito de ir e vir. Isso não é uma das coisas que vocês pregam?

O homem cerrou os olhos contrariado.

— Por favor, diante de si está vossa alteza, Príncipe Lief Avalennas — tentou Lyanna. — Compreendo e respeito seus costumes. Mas ele vem respeitosamente tratar com vossos mentores sobre questões que o assombram. Peço humildemente que o iluminem com vossos conhecimentos e palavras de paz.

O homem se alarmou ao perceber de quem se tratava, e até se desarmou um pouco com o pedido relevante e singelo daquela cavaleira, embora sua espada ainda estivesse em riste. Por fim, deu de ombros. Nem que fosse o próprio rei permitiria a passagem. Entretanto, algo lhe chamou a atenção.

— Esse elmo que você usa, — disse ele, impressionado. — Você é uma Guardiã...

— Eu... sou.

— Sendo assim, meu nome é Alistar — apresentou-se guardando o arco às costas, e revelando uma bainha de espada de aço curvo na cintura, comum nas regiões das Areias Baixas. — Seu nome, Guardiã?

Ela trocou olhares com Volo em busca de alguma dica das intenções de Alistar, mas o fryereene somente arqueou as sobrancelhas e assentiu para que o respondesse.

— Lyanna.

— Bem, o meu é Vol...

— Eis o que vou propor, Lyanna — cortou o homem, impaciente. — Vença-me me no duelo dos Três Trapos, e deixo seguir caminho para nosso acampamento com seus amigos.

— Impossível — retrucou ela. — Meu dever é proteger o príncipe. Não entrarei em jogos que possam me distrair.

— Lyanna — sussurrou Lief ao seu lado. — Este é o único jeito, precisa fazer. Vou ficar bem.

— Não posso, jovem Lief. Mesmo que me ordene, não o farei. Nada deve sobrepor meu juramento de protegê-lo a todo instante. Principalmente num lugar como este!

— Por isso não estou ordenando, e sim pedindo! — enfatizou.

Maldição, por que está me colocando nessa posição? Sentia-se incapaz de decepcionar aquele garoto, mas se não o fizesse, colocaria em risco seu juramento como Guardiã. Porém... que tipo de Guardiã seria se não fosse apta a protegê-lo enquanto enfrentava um adversário ao mesmo tempo? Seria indigno não ter tal capacidade.

— Muito bem, eu aceito.

— Ótimo — disse Alistar, retirando dos bolsos alguns pedaços de pano. Três ele jogou para Lyanna, outros três permaneceu em sua posse. — Devo mencionar as regras?

Ela suspirou.

— Apenas para que não haja nenhuma artimanha de sua parte.

— Jamais. Bem, faremos do jeito tradicional e simples. Devemos amarrar os panos em nossos corpos. Um na perna, um no braço e um no pescoço. O objetivo é parti-los usando nossas espadas. Quem rasgar os três trapos primeiro, vence.

— De acordo.

Conhecia muito bem aquele tipo de duelo. Venceu alguns torneios usando essas regras dos Três Trapos, embora não fosse o mais usual em grandes disputas nos reinos, afinal o público gostava de ver algo mais selvagem, e ali os combatentes focavam em acertar diretamente o pano, o que indicava pura cautela de golpes, priorizando a estratégia de movimentos. Não que aquele tipo de embate não trouxesse alguns riscos. O espadachim precisava ser absurdamente preciso para cortar somente o tecido amarrado no membro do oponente. Nem todos eram. Presenciou mais de uma vez pessoas que sofreram cortes profundos em seus corpos. E para os mais corajosos, ou mais burros, que lutavam sem gorjal, poderiam morrer se a lâmina transpassasse a garganta junto do pano. Aliás, esse era o caso ali. Alistar não usava gorjal como proteção no pescoço, mas não demonstrou qualquer receio ao amarrar o pano em volta dele.

— Fique junto de Rufus — pediu Lyanna para Lief.

— Eu cuido dele, não se preocupe — disse Volo.

— Confio mais no cachorro. Mas... esteja avisado, se algo acontecer ao garoto...

— Eu sei, eu sei.

— Espero acabar logo com isso.

Ela andou para mais próximo de Alistar, onde o espaço era um pouco mais amplo para a peleja. Pegou os panos do chão e começou a amarrar em seus membros. O homem amarrou um tecido na perna direita sobre a coxa, logo acima do joelho, e no braço esquerdo no antebraço. Poderiam escolher em qual local posicionar o tecido, mas Lyanna decidiu imitá-lo nisso, com a diferença que deixou tudo do seu lado esquerdo, onde tinha a defesa mais forte por conta de ser destra. Era melhor usar a mão da espada para bloquear os ataques do que tentar esquivar, pelo menos essa era sua estratégia de início. Por fim, enlaçou o último tecido no pescoço.

Enquanto fazia essa preparação, observava atentamente Alistar. Ele retirou o chapéu e começou a se alongar. Como não possui nenhuma placa pesada de proteção vai tentar se valer da velocidade? Seria perda de tempo, mesmo que essa armadura pareça me deixar lenta, não limita em nada meus movimentos. Seguiu o assistindo.Não parecia ter menos de trinta anos, nem devia ter um impressionante porte físico escondido por debaixo das mantas escuras e largas, na verdade parecia bem mirrado, apesar de ter uma envergadura interessante. E aquela lâmina curva poderia ser problema uma vez que não estava acostumada a encontrá-la na capital. Preciso ser rápida em vencê-lo. Tenho confiança de minha vitória. Mas há algo que me intriga. O que é?

Alistar terminou sua preparação, retirou o arco com a aljava das costas, e sorriu. Então ela percebeu. Diferente de seus costumeiros adversários nos torneios de duelo, aquele homem não a olhava com ódio ou arrogância, nem a subestimava por ser mulher. Não, ele parecia compreender o quanto tinha que tomar cuidado para não perder. Estavam em pé de igualdade, não importasse se um deles vestisse armadura e o outro não. O duelo dos Três Trapos garantia isso.

— Podemos? — ele indagou.

— Sim — confirmou, se pegando sorrindo.

Por mais que odiasse ter sido levada para aquela situação, pela primeira vez sentia-se verdadeiramente feliz dentro daquela armadura, segurando Arisca firmemente nas mãos.

Entraram em posição. Guarda alta, aço levantado, pés nunca parados. Observavam-se enquanto vagarosamente quebravam o espaço que os separavam. Mas nenhum dos dois tentou algo no primeiro minuto. Estudavam os movimentos um do outro, circulando o terreno como os ponteiros dos Conta-Horas.

Afastados, Lief e Volo assistiam a cada detalhe.

Lyanna mantinha a espada acima do ombro destro, os quadris para o lado direito, e joelhos levemente flexionados. Alistar, por sua vez, mantinha-se ereto, segurando a arma frente ao rosto, e o braço livre em L atrás das costas para esconder o pano do alcance de qualquer ataque.

Esperto. Pensou a cavaleira. Como sua lâmina curva é menor em cumprimento, ele pode esconder o braço sem perder o equilíbrio, e o pescoço é protegido pela mesma lâmina. Mas a sua coxa ainda está exposta. Arisca possui grande alcance, basta eu esperar o momento certo e... agora! Lyanna tentou aproveitar uma breve mudança de terreno para atacar o rival diretamente em sua perna. Porém, no último instante, ele se esquivou para trás com uma rapidez impressionante.

Volo percebeu primeiro que todo mundo.

— Saí na frente — disse Alistar, indicando a ponta de sua espada curva no qual continha um pedaço de pano rasgado.

— O quê?! — questionou Lyanna sem entender.

Ao conferir o braço e a perna, os tecidos ainda estavam lá, mas em seu pescoço havia sumido! Impossível, quando ele fizera o movimento? Eu nem pude sentir! De alguma forma que a Guardiã ainda não formulava, Alistar havia cortado o primeiro pano num contra-ataque.

— Muito bem, vamos continuar — disse o homem, voltando para a posição de defesa, se aproximando.

Sem tempo para pensar ou cair em pressão, Lyanna retomou a postura com a Arista erguida. Entretanto, era impossível não se conter agora. A insegurança de atacar de novo e perder outro pano era esmagadora. Ele queria que eu o atacasse ali! Eu o subestimei e caí na armadilha. Bem, vamos deixar que faça o próximo movimento, então. Decidiu que ia tentar a mesma estratégia dele. Aguardar pelo golpe, aparar e tentar atingir seu ponto aberto.

Focou em fitá-lo com atenção, a lâmina curva separando em perfeita simetria seu rosto, pois a levantava frente aos olhos. Como ela não atacou, ele moveu a espada, tomando a iniciava. Lá vem...

Mas não era qualquer movimento. Lyanna reconheceu rapidamente aquela técnica. A lâmina de Alistar se balançou no ar criando uma espécie de sombra de igual molde e desenho, como uma miragem mágica que se formava e se desfazia no ar em questão de segundos. Um tipo de rastro que enganava quem for que o visse. Parecia que a lâmina estava em um lugar, mas na verdade estava em outro. Era impossível se defender daquilo se os olhos não fossem devidamente treinados com a sutileza do deslocamento do objeto. Os de Lyanna não eram.

Alistar a golpeou na perna e depois recuou. Atônita, ela observou o segundo pano perdido no aço de seu adversário.

Agora restava somente um para que perdesse o duelo.


Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.