As Sete Majestosas
14 A Missão
As solas das botas de Alak se afundavam na areia fofa.
Ele estava na área das dunas, irregulares montes de areia branca que se espalhavam até sumir no horizonte, dentro da região das Areias Baixas. Ali, no meio do nada, o vento zunia com força, soprando os minúsculos grãos contra o rosto do jovem mercenário, que se protegia enrolado em turbantes de seda. No corpo lhe caía um manto leve e folgado, que ondulava com a ventania, ocultando duas adagas mortais presas num cinto no qual também portava afiados punhais.
Não estava sozinho. Ren se aproximou com o cavalo, suas roupas sendo as mesmas do homem de pé logo a frente, mas suas armas eram terríveis machadinhas. Esperava não ter que usá-las.
A montaria de Alak relinchou baixo ao lado, o sol do entardecer a atormentava.
— Calma. Já chegamos — disse Alak alisando a crina trançada do animal.
— Então é aqui? — questionou Ren, forçando os olhos e protegendo o rosto com a palma da mão levantada.
— Sim, o oásis de Lorde Soule, conhecido como Purareia. Logo adiante fica seu castelo.
Diferentes de outros países de Calipo, onde normalmente os Lordes Maiores, vassalos do Rei e portadores de terras, moravam em suas fortalezas diante de grandes vilarejos, em Valennas o bioma predominante era árido, por isso não existia vilas, e sim belos oásis com seus enormes lagos e árvores frutíferas. O povo morava em tendas de grandes dimensões, presas por hastes de metal e reforçadas com placas de argamassa especial. Apenas a estrutura do Lorde era de pedra, murado pelo mesmo material.
O local em questão, Purareia, era governado pela Casa Soule, sendo Emery o atual Lorde há pelo menos quarenta anos. Ali, habitavam cerca de setecentas pessoas numa vasta área que tinha como seu centro um majestoso lago de água doce. A visão do lugar era estonteante de tão magnífica, afinal o ambiente paradisíaco contrastava de forma gritante com o espaço desértico que havia ao redor. Existiam mais quatro Lordes Maiores na região das Areias Baixas, e três deles também viviam em seus oásis, enquanto o que sobrara ficara no litoral ao oeste do país, o que resultou em um vilarejo portuário mais próximo do normal do que seria uma cidade com casas e edifícios de pedra.
— É maior do que eu pensava — bufou Ren. — Quantos homens acha que Lorde Soule possui?
— Uma patrulha de cem homens guardam a cidade, enquanto outros cem vigiam os muros da fortaleza — respondeu secamente, ainda odiava o outro pelo que fez ao velho Mazutti. — Também devemos esperar um esquadrão particular de Finareia, a mando do rei.
— Você deve esperar — corrigiu Ren com ênfase. — Essa missão é apenas sua, Cicatriz.
— Obrigado por me lembrar.
Ren suspirou com impaciência e esporou seu cavalo para chegar bem próximo de Alak.
— Sei que eu o enganei e matei um dos seus, mas ainda o respeito por ter salvo minha vida. Infelizmente, na guerra lutamos por aqueles que são mais poderosos do que nós, e Vald possui duas Majestosas. Por Jar, o homem deve ser o mais poderoso do mundo atualmente!
Alak permaneceu em silêncio, inexpressivo.
— O que quero dizer é que apenas fiz o meu trabalho para o homem mais poderoso de Calipo. Logo este país estará em suas mãos e eu serei recompensado por ser obediente. Você deve fazer o mesmo, Cicatriz. Hoje pode pensar que é um escravo sendo manipulado, mas no futuro estará livre junto de seus companheiros. Basta fazer o que é ordenado. É capaz de nós dois brindarmos com vinho no fim de tudo isso, não seria ótimo?
O jovem mercenário queria dizer que no fim iria matá-lo de forma tão vagarosa que sentiria pena, mas achou melhor concordar com um meio sorriso.
— Para mim a liberdade estará de bom tamanho.
— Naturalmente, meu caro Cicatriz. O sucesso nesta missão será o primeiro passo para isso. Já tem algum plano de como conseguirá se infiltrar na fortaleza?
— Conheço os hábitos de Lorde Soule. Ele aprecia laranjas frescas pela manhã, então diariamente uma carroça carregada delas entra na fortaleza.
— Imagino que a carroça é checada, não?
— Não vou estar junto das frutas. Não estarei à vista.
— Engenhoso. Bem, devemos entrar no oásis agora. Lembre-se, somos apenas dois sujeitos fugindo da costa sul. Meu salvo conduto deve nos garantir passagem.
— Deve?
— Sim, por isso é necessário que tenha medo em seus olhos, e desesperança. Aqui, deve ser um artista de teatro, Cicatriz. Pode fazer isso, não?
Ark grunhiu.
— Muito bem — continuou Ren. — Aguardarei em uma das tendas de estalagem. Você terá dois dias para concretizar a missão e voltar ao meu encontro. Se isso não acontecer terei de abandoná-lo, e entende o resultado disso para seus amigos, não?
— Naturalmente — concordou, subindo na montaria. — Chega de papo, vamos.
~~
Fosse o destino ou algo maior, o falso salvo conduto que Ren carregava havia funcionado. Pelas ruas amontoadas de Purareia, Alak se despediu do cúmplice e seguiu caminho sozinho para os pomares ao sudoeste da cidade. Apesar do clima seco, os oásis de Valennas eram como se fossem mágicos nessa questão vegetativa, com frutos nascendo sem problemas se bem cultivados. As laranjeiras cresciam abundantes, e pertenciam em boa parte ao Lorde Soule.
Alak passaria a noite a céu aberto, fingindo ser um mendigo, aguardando pela carruagem das frutas que sairia pela manhã rumo a fortaleza.
Lanchou carne seca de um saquinho que levava a tiracolo, arrumou um canto longe de olhares curiosos, e tentou adormecer. Entretanto, não conseguia. A aparição em seu subconsciente do Cavaleiro Caído se tornara costumeiro, quase sempre tentando matá-lo de alguma forma violenta, a sensação de perigo imediato sendo real demais para um mero pesadelo. Alak tentava correr, escapar, mas seus pés sempre estavam presos. Era horrível. Acordava ofegante, os batimentos atropelados e molhado de suor. Para piorar, nas últimas noites sonhava com a execução de Mazutti. Não conseguia não pensar que a morte do velho companheiro tinha sido por sua culpa. A situação que já não era boa com relação aos outros Cicatrizes, agora despencara, sentindo a moral baixa ao andar pelo acampamento. Olhos derrotados e silêncio oprimido. Porém, o que mais podia fazer? Qualquer outra falha significava morte para os outros, e isso não podia se permitir.
Tornara-se um cão obediente com uma coleira apertada no pescoço, no qual o nome Vald Hales estava gravado em sangue.
Como consequência deste fato, recebera a tão misteriosa missão importante que o rei da Inlícia o incumbiu. Teria de conclui-la com êxito, mesmo que Lydia o odiasse para sempre. Lydia... não a viu mais desde aquele dia. Vald a retirou das cozinhas e a levou para sua tenda particular. Alak não sabia ao certo o que sentia pela mulher. Muitas paixões passaram por sua vida, mas nunca por tempo demais. Ainda assim, Lydia parecia entender que o laço que construíram, seja lá o que fosse, era diferente de qualquer outro sentimento banal. Ele só queria mantê-la segura. Era tudo o que desejava. E faria aquela missão por isso, mesmo que acabassem se afastando. Talvez assim tivesse sido melhor desde o início. Estou amaldiçoado... não, sempre fui. Agora posso ver.
Acabou pegando no sono, mas acordou num sobressalto assustado como sabia que faria, as mãos tateando o peito no qual a espada do Cavaleiro Caído havia lhe transpassado no maldito sonho. Certificando-se que estava bem, notou que o dia ainda não havia nascido. Uma movimentação começava do outro lado da rua, onde as carroças ficavam. Os trabalhadores iniciavam seus trabalhos de madrugada, colhendo os frutos para seu soberano, carregando as carroças com eles. O Cicatriz não precisou esperar muito, assim que o primeiro carro saiu do estábulo, calculou o momento certo para rolar com rapidez para debaixo dela, agarrando-se na estrutura de madeira que ali havia, ocultando-se de qualquer olhar.
Esperava que os guardas, acostumados em deixar os condutores adentrarem a fortaleza todas as manhãs, continuassem a verificar somente o lado de cima onde as laranjas iam cobertas por uma lona. E foi o que aconteceu.
Agradeceu que a viagem estava sendo rápida. Apesar de ter sido mais alimentado do que o normal no acampamento, ainda não estava em plena forma física, e se segurar ali cobrava seu preço. Sentia os braços dormentes e tinha câimbras nas panturrilhas.
Com o sol finalmente iluminando o caminho, relembrou exatamente de como a fortaleza de Soule se apresentava, afinal já estivera dentro daqueles muros muitas vezes. Na verdade, aquela não era sua primeira invasão a propriedade, com as anteriores seguindo o mesmo roteiro quase infalível.
A estrutura dos Soule em si não era muito impressionante. Era sim considerado um castelo, mas nem longe podia ser comparado ao dos Avalennas em Finareia. Com duas torres de quatro metros, e uma terceira central de cinco, a fortaleza contava com estábulos, um pátio de treino para os soldados e um jardim mixuruca que não crescia nada além de arbustos espinhosos. No interior havia o hall de entrada, duas salas comuns, uma sala de jantar, corredores de arenito, e claro, muitos e muitos cômodos. Um desses era seu alvo, e conhecia os atalhos para alcançá-lo.
Assim que a carroça parou e os condutores começaram uma conversa descontraída com os servos locais, deixou-se cair no solo e respirou fundo. Podia ver a parede do castelo a esquerda, e uma curva que o levaria para uma escadaria rudimentar de rocha. Hábil como uma sombra viva, avançou naquela direção, subindo os degraus de forma silenciosa, chegando nas portas de saída das cozinhas. Pelo que recordava, o lugar era comandado por um chefe tão surdo que podia sapatear ao seu lado e não seria descoberto. Torceu para que o mesmo não tivesse tido um ataque do coração por sua velhice, e ainda trabalhasse lá. Utilizando de uma gazua escondida na manga de seu traje, destrancou a fechadura e adentrou. Por pouco não deu de cara com o tal cozinheiro, que podia escutar mal, mas ainda tinha visão aguçada. Agachou-se atrás de um dos balcões, contornando-o até alcançar os primeiros corredores. Agora precisava apertar os passos, pois era de suma importância aproveitar as trocas de turnos dos guardas para passar despercebido. Para ele parecia ser tudo muito fácil e natural. Além de já ter pego com exatidão como a segurança funcionava no castelo, invasão sempre fora seu ponto forte em missões como mercenário. Alak podia ser jovem, mas sua cicatriz era tão antiga quanto as areias daquele deserto.
Por fim, chegara ao corredor desejado. Deste não tinha como fugir do confronto. Uma dupla de soldados sentinelas guardava a porta do dormitório do Lorde, sendo substituída apenas quando outra chegava. E como o corredor era longo, o perceberiam ao longe assim que colocasse os pés ali. O objetivo era não os deixar chamar reforço e forçar que presumissem que dariam conta de um mero invasor desarmado.
Com a face ainda encoberta pelo longo turbante cor de oliva, Alak ocultou punhais sobre a manga folgada da roupa, assim como fizera com a gazua, e revelou-se mostrando as palmas das mãos livres numa tentativa de se mostrar inofensivo.
Os guardas vestiam armadura leve, com placas peitorais e um saiote de ligas metálicas, mas boa parte do corpo se mostrava desprotegido, como os ombros, braços e canelas. Na cabeça, um elmo aberto com uma plumagem avermelhada era a única defesa. Rapidamente sacaram suas espadas curvas, típicas daquela região.
— De onde você saiu? Quem é você?!
— Sou um mensageiro — explicou Alak, ainda caminhando, as mãos às mostras. — Por favor, escutem-me.
— Mensageiro uma ova! — exclamou um dos guardas. — Parado aí! Não dê mais nenhum passo.
Droga, ainda estou longe, pensou o Cicatriz, ousando não acatar a ordem e não parar.
— Venho em nome do Grande Maltês — tentou ele, mencionando o Deus pagão que muitos ali veneravam.
— Você o que...
— Espere — replicou o outro guarda. — Deixe-o dizer sua mensagem.
Ótimo, um deles caiu. Só mais alguns passos...
— Veio lhes informar que o Grande Maltês deseja recebê-los em seus braços arenosos.
A dupla se entreolhou, confusos. Espadas ainda em punho.
— O que isso quer dizer?
— Morte — respondeu Alak, sem emoção.
Já estava próximo o suficiente. Abaixou os braços para o chão, e os punhais deslizaram lentamente para seus dedos. Lançou-os em seguida ao mesmo tempo, cada um perfurando um pescoço diferente. Os sentinelas afogaram no próprio sangue rapidamente, as espadas tilintando no piso pintado de vermelho ao cairem. Era um som mínimo. Mas os corpos dos homens faria barulho, certamente. Alak avançou como um raio, evitando que isso acontecesse, segurando ambos os mortos com seus ombros, e delicadamente os repousando contra a parede.
Matar era quase tão natural quanto andar para ele. Mas ultimamente sentia uma repulsa desesperadora em seu âmago pelo ato. Mesmo que necessário.
E ainda não havia acabado.
Abriu as portas para o espaçoso quarto de Lorde Soule, o encontrando dormindo na larga cama de nobre, sozinho. O homem perdera a esposa há quase uma década, depois não se casou mais. Ele tinha um casal de filhos mais velhos, ainda sem netos. Não os veria nascer.
O Cicatriz caminhou vagarosamente até estar sobre o alvo. Daria-lhe uma morte horrenda, suja e desonrada. Estava acostumado a ser um pária, afinal. Puxou a adaga do cinto e a levantou alto, acima da própria cabeça. Respirou fundo, moveu os braços e…
Parou no meio do caminho.
Havia mais alguém no quarto. Ele não havia percebido antes. Era uma sombra escura e desforme. Olhos vermelhos. O Cavaleiro Caído.
Raios, agora não!
A aparição sumiu mais rápido do que apareceu, mas foi o bastante para fazer Alak hesitar e cambalear para trás numa pisada mais forte no assoalho. Emery Soule se mexeu na cama e abriu os olhos. Assustado, afastou-se até a outra beirada.
— O que significa isso?!
— Eu…
— Guardas!
— Eles não virão.
— Essa voz… — o homem cerrou os olhos cansados. — Eu conheço você.
Alak suspirou, tomando uma nova decisão e torcendo muito para que acertasse dessa vez. Abaixou a adaga e se livrou do turbante no rosto.
— Lorde Soule, eles estão com sua filha.
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