Notas iniciais
Ola! Neste cap eu fiz um retcon no capitulo de “o bisbilhoteiro” onde narro que eram 7 países originais e depois o Fryer faz mais 7 somando 14. O retcon é que vou falar que sempre foi 14 paises desde o começo, e que Jar selecionou 7 reis de 7 reinos que fossem dignos de empunhar as 7 majestosas. É isso! Valeu e boa leitura

Lydia Soule segurava uma bandeja de prata no qual continha em travessas separadas: pão escuro, queijo e ovos cozidos. Além das comidas havia uma jarra de vinho doce. Por um momento, enervou-se ao notar que não tinha nenhuma taça sobre a bandeja, mas lembrou que o rei inliciano mantinha um recipiente particular em seu quarto.

O homem estava cada vez mais metódico quanto aos seus itens de uso diário. Acreditava que carregar duas Majestosas na cintura também o fazia ter um alvo pintado nas costas, por isso não permitia que ninguém lhe trouxesse utensílio novo ou algum objeto fora de sua rotina.

Ele levantou um grande pavilhão a alguns minutos do acampamento de seu exército. Praticamente montou um vilarejo do zero, com a diferença de que em vez de ter uma população de camponeses, tinha uma concentração de soldados e escravos. Este pavilhão servia como uma fortificação avançada com salas para estratagemas e aposentos mais confortáveis do que as tendas comuns. Obviamente, ainda não era de total agrado da modesta corte inliciana, uma vez que tomaram o castelo do Lorde Kallari e que este atenderia muito melhor às suas necessidades de nobreza. O problema era que o castelo ficava muito ao sul do país, e Vald desejava preparar sua infantaria próximo das Areias Baixas. Um ponto mais estratégico para viagens de ofensiva.

Um dos sentinelas, vestido em armadura completa, retornou do cômodo real e permitiu a entrada de Lydia. Encontrou Vald sobre a cama junto de suas magníficas espadas. Ao seu lado, uma mulher de cabelos ruivos com duas tranças enfeitadas com acessórios de ouro e presilhas de prata, que a encarou como se lhe transpassasse a alma. Uma rameira?

— Bom dia, Vossa Majestade — disse Lydia de forma apressada, curvando-se. — Trago-lhe seu desjejum matinal.

— Não se acanhe — respondeu Vald notando o desconforto da jovem. Ele ainda vestia seu pijama de barra longa, mas seus olhos estavam em alerta. — Esta situação não é o que julga ser.

— Não julguei nada — explicou-se de cabeça baixa, em seguida repousou a bandeja sobre a mesinha em frente a cama.

— Claro, claro. Esta é minha filha, Pavlena.

Lydia ousou encarar a moça de volta, constatando a beleza nobre que aquele rosto trazia. Sentiu-se uma idiota por pensar que o rei havia passado a noite com uma prostituta. Jamais compartilharia a visão de suas espadas com uma, muito menos as deixaria a mercê na cama como daquele jeito. Não, Pavlena era sua filha, possuía o mesmo semblante duro, com um toque de selvageria e desafio em suas finas sobrancelhas. Suas roupas eram de uma amazona, com botas e luvas de equitação de alto nível, e uma calça que lhe apertava de forma sexy a modelada silhueta. Provavelmente havia acabado de chegar de uma cavalgada.

— Encantada, Vossa Alteza — outra mesura.

— Medaline, não? — chamou Pavlena pelo nome que Lydia havia informado logo no primeiro dia que fora capturada, tomando o cuidado de não relevar o verdadeiro desde então. — Meu pai contou-me sua história. Uma mercenária, amante do líder de seu grupo. Você deve ser... interessante, além de muito bonita.

O rei bufou.

— Agora sou eu que estou desconfortável. Por favor, querida, prove tudo que trouxe rapidamente. Estou faminto.

Levemente desnorteada pela atenção atrevida que recebia da princesa inliciana, Lydia experimentou cada um dos itens por pequenos pedacinhos, e também bebericou do vinho. Por fim, nada aconteceu, mas passou a ser estudada por tempo demais antes do rei dar de ombros e pegar uma fatia do pão, seguro que não seria envenenado. Como ele ainda não a dispensara, Lydia permaneceu no lugar em silêncio; ombros curvados, mãos atrás das costas, cabeça abaixada em submissão. Sentiu um peso invisível e desconfortante ao redor. Queria ir embora, voltar para as cozinhas, seguir sua monótona rotina como criada-escrava.

Nos últimos dias vivia no automático, quase em transe. Pavlena a chamou de mercenária, mas não se reconhecia mais como aquela mulher destemida e aventureira. A garota que fugiu de um imponente castelo, das roupas de linho nobre, dos bailes da alta classe, entre outras coisas para ter uma vida perigosa e alucinante, não existia mais. Desde que seu grupo fora aprisionado, desde que Alak entregou o nome de seu pai, e desde que fora tirada do acampamento, depois de assistir o velho Mazutti ser friamente executado, sentia-se quebrada, sem ânimo, insignificante ao poderio daqueles invasores.

Poder... Seu olhar fora naturalmente atraído para as lâminas sobre o lençol. As armas mais poderosas de Calipo que um dia já foram empunhadas pelos Campeões dos Céus, pelo Senhor dos Vis e pelo Eleito, ali, como se fossem meros souvenirs num colchão de feno. A Lâmina dos Ventos parecia emitir linhas de energia azuladas ao redor do aço escovado, enquanto a outra, conhecida como Lâmina das Sombras, tinha o fio cortante de um negrume assustador a ponto de enegrecer a visão se o fitasse por muito tempo.

— Lindas, não? — indagou o rei Vald ao perceber a atenção de Lydia nas espadas. — Beldades, devo dizer... não, divinas seria o mais correto. Belas e mortais.

— Desculpe-me, Vossa Majestade. Não era minha intenção observá-las.

— Não, está tudo bem. Não é como se eu fosse cortar a cabeça de qualquer um que as olhasse — brincou, mas seu olhar era sombrio. — O que sabe sobre espadas?

Aquilo a pegou de surpresa. Vald terminara de comer o pão, e agora abocanhava os ovos cozidos com uma das mãos, a outra coçava as grossas costeletas grisalhas. A filha não comia.

— Eu... não quero atrapalhar a reunião de vocês, acho melhor eu...

— Eu lhe fiz uma pergunta — constatou visivelmente irritado.

— Conheço pouco, Vossa Graça — mentiu.

— Bem, estou me sentindo entediado, então aqui vai uma breve aula. Existem vários tipos de armas cortantes ou perfurantes, mas sem dúvida a espada é a mais equilibrada e elegante para qualquer notório guerreiro que se preze. Faz sentido de terem sido escolhidas por Deus como o receptáculo de seu poder divino, uma vez que são de fácil aprendizado. Claro que há distintas formas de se forjar uma espada, com algumas possuindo segredos milenares dependendo da região e cultura em que está sendo criada em Calipo — o rei então passou as mãos pelo cabo de obsidiana da Majestosa das sombras, os olhos concentrados na sua lâmina negra e inebriante, como se a medisse mentalmente. — Neste mundo há espadas de lâmina larga e pesada, as de ponta curva, as de apenas um gume, as de alcance curto, mas as Majestosas são todas do mesmo tamanho e formato. 75cm de aço com uma ponta em folha e 15cm de cabo da empunhadura. Um tesouro dos céus, sem dúvida. O espadachim pode escolher entre empunhá-las com ambas as mãos ou somente uma. Vai da habilidade de cada um.

Ele terminou a explicação. Parecia um tanto que emocionado, como se venerasse aquelas armas com toda sua alma. Por um momento, Lydia esqueceu que aquele homem era um soberano de um país invasor, mais se assemelhando a um simples senhor do campo que admirava seu gado. Levantou os olhos para a criada em busca de qualquer resposta que a mesma havia se esquecido de dar.

— Compreendo… eu... agradeço pelos ensinamentos — disse inexpressiva, sem saber exatamente quais palavras usar.

Pavlena deitou-se apoiando os cotovelos na cama, um sorriso de divertimento brotando em seus lábios de um intenso vermelho. Lydia sentiu-se ruborizar ao notar seu provocante decote.

— Esse assunto dá sono a pobre moça, papai — repreendeu-o rindo.

— Bobagem. Diga-me, minha jovem… E o que sabe sobre os Majestosos?

Onde aquele homem queria chegar?

— Não muito, Vossa Graça. Apenas que eram os Campeões dos Céus, e que foram derrotados por Ghalaggar depois do mesmo roubar a Majestosa do Cavaleiro Caído — respondeu tentando não dar muita brecha para sua alta educação que obtivera sendo filha de um Lorde.

— Sim, mas e a história de cada um deles?

— Não sei.

— Eles eram sete, naturalmente. Como dizem as Antigas Escrituras, sete reis dos quatorze países foram escolhidos dignos por Jar para empunharem as Majestosas. Eles liderariam seus reinos e comandariam seus exércitos contra a ameaça em comum de todos os homens e mulheres desse mundo! Os terríveis Monscap. Eles conseguiram, trouxeram a paz, mas depois guerrearam entre si com as Majestosas que tinham ganhado. Então, decepcionado, Deus criou Ghalaggar, um Monscap superior, afinal o inimigo original era forte, mas não esperto o suficiente para organizar uma guerra, isso mudaria com uma criatura evoluída. Ainda assim, as Majestosas unidas novamente seriam suficientes para derrotá-lo. Porém, um acontecimento pegou até mesmo o Criador de surpresa… A traição de um dos Majestosos! Tornando-se o Cavaleiro Caído, ele traiu a Jar e seus semelhantes, e depois a si mesmo ao perder sua espada para o Senhor dos Vis. Mas quem era de fato o Traidor?

— O Campeões nunca contaram qual foi o rei que traiu Calipo — respondeu Lydia sem pensar.

Vald sorriu com malícia.

— Vejo que teve uma educação descente. Sim, tem razão, nenhuma Escritura diz qual Campeão nos traiu porque não houve qualquer relato sobre isso de seus ex-companheiros, mortos em seguida por Ghalaggar. Mas eu descobri sua identidade, enfim... acredite ou não, ele era um Avalennas! Ele foi um rei valennense!

Aquilo quase fez Lydia rir. Se o seu pai, Lorde Emery escutasse tal acusação, era provável ter um ataque de raiva e depois um ataque do coração devido seu patriotismo. O fato era que o Traidor podia ser qualquer um dos Majestosos, e não teria como descobrir tal informação, perdida para sempre quando todos morreram há muito tempo. Todavia, ficou curiosa de onde o rei inliciano tirara aquela ideia.

— E posso perguntar como descobriu isso?

— Pode, mas não significa que respondei — disse com um olhar demorado para a filha.

— Então este é o motivo pelo qual iniciou essa guerra? Invadir a fortaleza Avalennas para destruir a linhagem do Cavaleiro Caído?

O rei franziu a testa. Não esperava aquele súbito confronto da jovem por seus motivos de guerra. Pavlena acabou rindo, como se aprovasse a audácia.

— Não — respondeu Vald, levantando-se da cama com ambas as espadas nas mãos. Sentia-se poderoso com elas, e realmente era. — A verdade é que todos os Campeões dos Céus eram fracos. E o Cavaleiro Caído foi o mais fraco de todos. Sua linhagem continuou fraca e amaldiçoada. Por isso comecei esta guerra primeiro por Valennas, sua terra natal. Mas depois… levarei meu controle por toda Calipo. E todas as Majestosas serão minhas.

Lydia ficou em silêncio. Um homem e suas espadas mágicas. Sem aquilo ele não era nada. Infelizmente, precisava guardar esse pensamento bem fundo no baú de sua cabeça. Entretanto, ele pareceu avistar um desafio em seu olhar.

— Acha que isso é ambição demais para mim, mercenária? — questionou daquele jeito narcisista e duro que tinha. — Eu não serei como Ghalaggar ou o Eleito. Serei como os Majestosos em uma só carne, uma só pessoa. Sabia que eles se vestiam com túnicas e protetores nos membros? Mas o que mais os distinguia de outros guerreiros eram suas enormes capas que esvoaçavam ao vento. Mandei que criassem uma para mim. Estarei a caráter, e como um Majestoso, farei o mundo se ajoelhar diante de minha vontade.

Ele fez um sinal com o dedo indicador, apontando para o chão. Lydia apertou os punhos na cintura, contrariada. Mas cedeu, se ajoelhando aos pés daquele homem.

— Assim mesmo — disse seco, aprovando a ação. — Filha, vou me retirar para me vestir e ir para a sala de estratégia. Aguarde-me lá.

— Entendido, meu pai.

Com o rei fora do cômodo, Lydia se levantou apenas para dar de cara com Pavlena. A moça estava perto, perto até demais. Precisou recuar alguns passos.

— Homens e seus egos do tamanho de castelos. Você o irritou. Ele pensa que só porque é rei, possui duas Majestosas e tem um pau murcho entre as pernas, pode colocar qualquer pessoa de joelhos a hora que quiser.

— Bem, são bons motivos.

— De fato — sorriu com desdém. — Mas saiba que mesmo entre os sete Majestosos havia uma mulher.

Lydia pareceu confusa.

— Desculpe-me a sinceridade, Vossa Alteza, mas eu não entendo de onde vocês estão tirando essas informações. As Escritu...

— Esqueça esses papéis velhos. Você não precisa entender, minha querida. Apenas saiba que ela foi a mais poderosa entre eles. Tadinhos, ela os tinha na palma da mão com sua sedução e habilidade de luta. Então, não se deixe impressionar por capas esvoaçantes… Não é a roupa que importa, muito menos se é homem, cavaleiro, nobre ou rei. Quem empunhar aquelas belezinhas… possui o verdadeiro poder — concluiu passando a ponta da língua em seus lábios inferiores de maneira lasciva.

— Então pretende conquistar esse poder para si?

— Eu? Não, apenas digo baixo essas coisa para não magoar o papai, mas detesto toda essa arrogância pomposa dele. E você… Gostei de você, Medaline. Talvez eu possa te usar... de algum jeito — piscou, depois a pegou pelo braço para andar. — Mas agora devemos sair desse quarto. Os guardas logo ficarão preocupados.

— Como quiser, Vossa Alteza.

Despediram-se assim que Lydia se colocou a caminho das cozinhas. Nunca pensou que levar a refeição matutina para alguém fosse tão complicado. Descobrira que o rei inliciano não só desejava dominar Valennas, mas também todos os países do mundo, roubando para si as Majestosas restantes. Essa era uma ganância digna de nota, e um tanto que pautada em sua loucura obcecante para com os Majestosos do passado, cismando até mesmo em possuir suas características vestimentas, atualmente extintas. E sua filha também não parecia nada normal. Que papo fora aquele de poder? Estaria de olho em furtar as espadas do pai? Seria capaz de conspirar contra o trono para conseguir as Majestosas? Lydia não gostava do jeito que a mulher lhe fitava, nem como se comportava. Era uma luxúria perigosa, cheia de más intenções. Mas até onde sabia, aquele lugar era sobre más intenções.

Como havia chegado ali? Em um momento, ela era a pessoa a receber uma bandeja de comida na cama, agora era quem fazia isso. Começou quando se apaixonou por um mercenário e decidiu abandonar tudo para segui-lo. Não, não fora por ele que deu esses passos. E sim por si mesma. Por aquela vida de adrenalina e impossibilidades. Talvez, só talvez estivesse recuperando aquele ímpeto.

Pavlena falou que o poder estava em empunhar tais nas espadas.

E as espadas estavam bem ali.