As Sete Majestosas
7 A Guardiã
Lyanna não gostava de suco de beterraba.
Lyanna não gostava do som do alaúde.
Lyanna não gostava de guisado com cebola.
Lyanna não gostava de perder.
Bem, sem dúvida Lyanna não era igual as outras mulheres de Valennas, mas não era por conta de seus gostos pessoais até que não raros.
Enquanto as outras donzelas tinham ajuda de suas amas e criadas para vestir longos vestidos complexos em seus corpos, Lyanna tinha ajuda com outro tipo de vestimenta. Uma armadura. E não qualquer armadura, mas sim uma feita sobre medida para seu corpo feminino direto de Avin, e que pesava quase um terço de seu peso. A armadura de uma Guardiã.
Guardião é o título dado para o guerreiro espadachim mais capaz do país, e seu dever é proteger sem descanso o único herdeiro vivo ao trono. Uma vez que essa condição caiu tragicamente sobre o menino Lief Avalennas, o Rei reconheceu as incríveis habilidades de Lyanna e a colocou no cargo. Não sem o desagrado dos inúmeros cavaleiros homens do reino. Mas a verdade era que a jovem sempre fora promissora na arte da guerra e espada, vencendo os principais torneios de duelo que participara, perdendo apenas quando o Príncipe Oriel estava do outro lado. O que não diminuiu o preconceito por simplesmente não ter um órgão masculino entre as pernas. De fato, não era comum as mulheres escolheram as batalhas para viver, mas nunca deixou de existir corajosas figuras que quebravam esse tabu durante os anos. E lá estava ela sendo a primeira Guardiã que Valennas já conhecera. Provavelmente assim seria até Lief ascender ao trono, uma vez que sua missão terminaria com a coroação ou se o Rei tivesse mais um filho homem, pois assim diminuiria o risco de não ter um próximo progênito para a coroa. Poderia acontecer, mas Ligtar já tinha idade avançada. O mais correto era seguir seu destino, protegendo a todo custo o herdeiro atual. Baita responsabilidade para um jovem de apenas vinte e seis anos? Não para ela, que sorriu ao colocarem o elmo alado, específico de um Guardião, sobre sua cabeça de longos cabelos loiros e lisos.
Lyanna era mesmo diferente das outras.
As amas precisavam levantar as placas em duplas para prendê-las no corpo da jovem. Primeiro fora a parte das costas, depois o peitoral, seguido das ombreiras e gorjal. Lyanna tinha o corpo esbelto e malhado, levemente musculoso nos braços, fruto de seus incansáveis treinos desde menina com seu pai. Para ela, o peso daquela armadura não era problema. Infelizmente, só era um saco estar dentro da lata praticamente quase todas as horas do dia, afinal tirava para dormir breves cinco horas, para então recomeçar este processo diário com as criadas reais. Mas era uma honra sem tamanho, muito mais do que um dia sonhou.
Após as partes superiores estarem encaixadas, vieram-se as calças de couro, e depois as grevas e botas. A tintura da armadura era por inteiro branca com detalhes de linhas cruzadas alaranjadas em bordas negras. Havia também desenhos em espiral nos cantos e pingos dourados chapiscados pela placa central, lembrando areia. Mas era puro em ornamentos, salvo as graciosas asas angelicais que brotavam de cada lado do elmo, que possuía viseira fechada, mas nada que cobrisse do nariz para baixo da moça. Avin era o reino que tinha os melhores ferreiros, não só na qualidade do material de suas armaduras, mas também no avanço de desempenho que podiam ter. Por exemplo, apesar de ser sim uma proteção pesada, possuía excelente mobilidade por conta das dobradiças especiais confeccionadas de forma quase restrita para o reino de Valennas. Lyanna não queria nem pensar quanto ouro Ligtar gastou com aquele pedido, uma vez que fora feito quase tudo do zero unicamente para ser usado por ela. Porém, valeu a pena, nos treinamentos que realizava sentia-se quase como se não estivesse vestindo nada, era surpreendente!
Por último, mas não menos importante, a espada. Essa não foi preciso mandar fazer, porque estava no reino por gerações. De cabo azulado em forma ondulada e pomo de cabeça de serpente, a Arisca, como chamavam, pertenceu há vários guardiões antes dela. E mesmo assim, o fio da lâmina permanecia tão afiado quanto no primeiro dia. Era difícil manejá-la, pois sentia como se todas as mãos dos notórios cavaleiros que a possuíram em outrora estivessem a forçando para baixo numa pressão assustadora.
Engoliu em seco quando a levantou no ar naquela manhã, deixando o aço beber da luz solar que adentrava pelas janelas.
Lyanna guardou a espada gentilmente na bainha presa a cintura.
~~
Já era meio da tarde, Lyanna agora estava em pé como uma verdadeira sentinela, observando seu protegido sobre a mesa da pequena biblioteca do palácio dos Avalennas. Depois da morte do irmão, Lief decidiu que além dos estudos convencionais nas seis artes (história, religião, sociologia, ciência, medicina e estratégia de guerra) usaria todo o tempo livre para se aprofundar em questões mais complexas desses mesmos assuntos, para que quando assumisse o trono estivesse pelo menos preparado para tomar algumas decisões por conta própria. Ela admirava o garoto por conta disso, embora não tivessem trocado muitas palavras durante aqueles dois meses.
Lief era um garoto bonito, cabelos negros e encaracolado desciam aos ombros largos. Uma fisionomia que lembrava a de seu pai, mas tinha o temperamento impaciente de sua mãe. Enquanto apertava os fios na cabeça com uma mão e com a outra folheava um pesado livro, movia em pêndulo ambas as pernas embaixo da mesa com inquietação.
As portas da biblioteca se abriram com um estrondo, e um homem gordo adentrou o recinto. Lyanna descansou a mão na bainha quando o fogo das velas iluminou o rosto de Hugo Laporte, o Lorde das Escrituras. Vestindo um tipo de batina que cobria o corpo inteiro e portando uma notória peruca na cabeça oval, o homem pareceu se divertir com a ansiedade do jovem príncipe.
— Já disse que não achará nada de que procura nesta edição, Mi Príncipe.
— Então me consiga algo de útil, Lorde Laporte — pediu o garoto. — Eu sei que deve ter alguma coisa esquecida naquele templo cheio de poeira.
— Ora, e por que o senhorzinho mesmo não me acompanha até lá? O Primor Santo ia adorar sua visita. Quanto tempo que não pisa no altar de Jar?
Lief suspirou.
— Não tenho tempo para rezar, e isso eu já sei fazer. Preciso aprender outras coisas.
— Religião faz parte das seis artes.
— Sim, por isso o livro que necessito pode estar no templo.
O homem obeso olhou para Lyanna com uma expressão de que não era fácil convencer o Príncipe de certas coisas, mas não obteve qualquer resposta dela. Por fim, ele caminhou até se sentar a mesa, se ajeitando com demora na cadeira que estralava sob seu peso. O Lorde das Escrituras era o responsável para o bom relacionamento entre a coroa e o templo, mantenho um equilíbrio entre as duas forças em prol do reino. O Jardinismo era considerada a religião primordial e dominante por toda Calipo, por isso houve alguns períodos sombrios na história, quando os Reis eram tão desespiritualizados que se irritavam com a ideia de existir um ser soberano a eles, ou quando na outra visão, os Primores Santos se tornaram fanáticos demais ao Criador a ponto de obrigarem seus dogmas sobre todo o país com violência, oprimindo o povo com a Ordem de Jar , uma armada de cavaleiros devotos, para tal feito. Atualmente, isso não era mais um problema graças a criação do título de Lorde da Escritura, um homem crente ao Criador, mas que serve a Coroa através do estudo meticuloso das Escrituras em si, que nada mais eram do que relatos escritos a mão sobre a história do mundo, hoje transformados em mais de duzentos livros, como aquele que Lief tinha nas mãos. Oficialmente as Escrituras foram divididas entre as Antigas e as Novas.
— Eu não entendo, Lorde Laporte. Você já foi um Primor Santo, não? — perguntou Lief, ainda batendo os pés.
Um Primor Santo era o líder de um templo de Jar, sendo que em cada país de Calipo existia somente um. Eles respondiam ao Primor Santo-Mor, cargo supremo dentro da religião, que se localizava numa Cidadela Santa, em Enderghar. Os Primores Santos comandavam seus aspirantes, conhecidos como Solares, e levavam os ensinamentos do Jardinismos através de seus estudos pelas Escrituras, pregando nos altares de seus templos todas às manhãs.
— Sim, todo Lorde da Escritura precisa ser dominante na arte da religião, e consegui chegar ao Primor Santo antes de seu pai me fornecer tal honraria como Lorde das Escrituras.
— Então, me diga, como não há qualquer autor conhecido sobre as Escrituras Antigas?! Como não assinaram seus nomes ou indicaram onde viviam! Como sabem que eles realmente existiram?!
O homem sorriu. Era fato que as Escrituras Antigas não continham informações sobre as pessoas que as escreveram, na verdade nem os textos eram tão claros sobre suas ideias e narrações. Isso só foi mudar na última Ruptura, quando as Escrituras ficaram a cargo dos Primores Santos, que continuaram a escrever e relatar sobre como estava o mundo de Calipo de acordo com o tempo em que vivenciavam para as futuras gerações. Por isso, houve uma separação e chamaram de Novas Escrituras. Uma tarefa digna e abençoada.
— Não acredita em Jar?
— Você me entendeu, não brinque comigo, não sou mais uma criança.
— Sinto muito, Mi Príncipe, mas essa sua pergunta sempre será uma incógnita para nós, meros mortais. O que sabemos é que nosso mundo ainda é muito novo. O tomo mais antigo que conhecemos data de somente mil e quinhentos anos atrás! E nela, o nome Jar, já estava escrito e reverenciado como nosso único Deus, então é entendido que não importa quem escreveu as Escrituras Antigas, no fim foi tudo por intermédio Dele.
O garoto assentiu e irritado fechou o livro. Hugo levantou as finas sobrancelhas.
— Receio que esta sua obsessão para com as Majestosas não dará resultados. Tudo o que sabemos sobre as espadas já foi relatado.
— Se eu descobrisse um ponto fraco nelas...
— Há outras formas de proteger o reino. Que tal os Códigos Absolutos de Guerra? Não queria um livro com autor conhecido? Pois aí está o maior de todos eles!
— Não quero saber do Eleito — resmungou Lief chamando o homem de quem falavam pelo título que ganhara no passado, há cem anos. — Seria bom se ele tivesse mencionado onde a última Majestosa foi parar.
Lyanna compreendeu em silêncio. Agora que o Rei da Inlícia mostrou-se possuir uma das Majestosas, restava apenas uma desaparecida.
— E você iria até la buscá-la?
— Por que não? Posso ainda ter pouca idade, mas tenho uma Guardiã para me auxiliar.
Mais uma vez Hugo sorrio com desdém, depois olhou direto para Lyanna, que permaneceu inerte como uma estátua.
— Está vendo o elmo que sua Guardiã usa, Mi Príncipe? As asas nele são uma alusão ao elmo do Eleito. Fryer foi um homem humilde, sem nome ou reinos, mas justo como um soberano deve ser. Ele derrotou Ghalaggar e seus monstros do abismo, os Monscap, mesmo quando o inimigo possuía todas as Majestosas. Ele nos libertou por intermédio de Jar, o Rei dos Deuses, que o fez seu Eleito. Então, o homem criou os Códigos Absolutos de Guerra para tentar amenizar o conflito infindável entre os reinos. Ele acreditava que eram as batalhas que faziam nascer as horrendas criaturas que destruíram os Majestosos originais.
— Eu já sei de tudo isso — bocejou Lief pouco interessado. — E não há relatos desses monstros a mais de noventa anos. Não podemos nos esquecer, também, que existe a possibilidade de terem relatado suas aparências de forma fantasiosa nas Escrituras ou de termos interpretado erroneamente suas características físicas
— Ah, eu sei disso, meu jovem cético, foi um dos assuntos que mais estudei na vida, um verdadeiro dilema, é verdade. Mas só estou lhe relembrando tudo isso pelo simples fato de que talvez precise achar respostas naquilo que existe. Pois Ghalaggar realmente existiu. Homem ou monstro, ele mergulhou o mundo nas trevas, indo contra tudo que Jar pregava.
Por um momento, Lyanna pensou que finalmente a discussão havia sido concluída, mas o Príncipe levou uma das mãos ao queixo, como se estivesse matutando em outra linha de pensamento e decidindo qual o melhor modo de revelá-la.
— E se... existisse uma outra vertente sobre ao fatos relatados nas Escrituras — começou ele com um pouco de receio. — Fatos estes que talvez nem tenham sido concebidos em tomos, e sim passado de geração em geração através de meras conversas. Eu ouvi falar de um grupo chamado Filhos dos Mortos, e...
— Basta — disse Hugo, a voz severa de repente. — Não deve ir por esse caminho, Mi Príncipe. Essas pessoas... elas são abomináveis! Rejeitam as Escrituras e rejeitam seu Criador, Jar! São miseráveis pedintes e bêbados que se aproveitam daqueles que perderam a fé e a esperança. Deve desistir de saber qualquer coisa sobre esses emprestáveis.
Lyanna não percebeu, mas apertou forte o cabo da espada por conta das palavras daquele homem. Algo dentro de si se agitou como uma chama raivosa, e precisou se conter antes que se alastrasse em descontrole. Sua atual situação chamou a atenção de Lief, mas ele não disse nada, tendo ficado envergonhado ao ser repreendido. Ainda o tratavam como uma criança boba. Respirou fundo e concordou silenciosamente com o pedido de Hugo.
Então, a porta fora aberta novamente, dessa vez era uma criada com um andar apressado.
— Lorde Laporte, vim avisá-lo que a reunião do conselho está para começar.
— Ah, naturalmente. Obrigado pelo aviso.
— Vou também — disse Lief já se levantando. Ultimamente ele vinha se infiltrando nas reuniões da coroa para ter mais experiência nos assuntos discutidos.
— Ora, irá se entediar como sempre, Mi Príncipe.
— Não espera que vá me fazer desistir de duas coisas no mesmo dia, não é mesmo?
O homem deu um sorriso meio amarelo, dando-se por vencido nessa questão.
— Muito bem, então vamos todos.
Referiu-se a Lyanna, que naturalmente seguiria o príncipe como uma sombra protetora.

Fale com o autor