Notas iniciais
Narrado: Freira Angelina

“ Ave Maria cheia de graça...” rezava eu, pela terceira vez na capela do convento. Era a melhor coisa a se fazer; tentar redimir os pecados. Oh senhor, eu era uma pecadora, suja e medíocre, manchando o convento.

Mas a irmã Doroteia me disse uma vez: Amás ao próximo como a ti mesmo. E não era o que fazia? O amava? Sim, eu o amava demais, eu poderia dividir este amor para cada ser vivo, e ainda sobraria, com certeza eu poderia amar á todos.

Perdida em meus pensamentos, nem conseguira mais rezar. A Madre Maria Guta se aproximou de mim tão quieta, que até me surpreendi com sua presença.

– Madre! Que susto me deste. Porque passos tão silenciosos?

– Creio que estavas tão distraída com sua reza, que nem me notou, irmã Angelina.

– Sim, eu receio.

– O que rezas?

– Ave Maria.

– Promessa? – ela indagou. –

– Não.

– Então porque rezas a esta hora tão tardia?

Madre Maria Guta era bastante esperta, astuta e sensitiva. Se eu mentisse, ela saberia. E eu também não podia, nem deveria mais mentir, minha divida com Deus já estava bem grande.

– Para redimir os pecados. – tentei não olhar-la nos olhos.

– Para tanta concentração, presumo que o pecado há de ter sido grave.

– Nem tanto.

– Pois então, conte-me. – insistiu. – Ajudará a redimir-se.

– Não acho que seja necessário. – senti-me encurralada.

– Deus sabe toda a verdade, não há como mentir para ele.

Eu me levantei enfim.

– Pois é irmã, a senhora está certa, não se pode mentir para Deus. Me desculpe, mas a senhora não é Deus, então acredito que não deva saber de tudo. Com a sua licença. – eu me retirei, antes que ela pudesse contestar ou castigar-me severamente.

Eu me perguntava até quando duraria essa situação: Mentiras, pecados e amor, tudo pelo Conde, valeria mesmo à pena? Estava eu confusa, parada no jardim, não poderia mais manter isso, estava insustentável, a culpa me consumira.

Então eu houvera tomado minha decisão, escrevi-lhe um bilhete:

"Querido Conde Monffour,

Não consigo mais mentir e esconder, eu amo você e amarei para sempre, porém, não quero mais viver com esta culpa. Receio que conheceremos o termino. encontre-me no velho poço, como sempre.

Enviei ao Conde através de uma pobre criança de rua, em troca de centavos. Estava feito, abandonaria o amor.

Ass: Freira Angelina.