As Rosas Do Conde
16 Capitulo 16
Notas iniciais
A cabeça de Carmelita martelava com a dor mais aguda que já havia conhecido. Ela abriu levemente os olhos. Sua mente, uma confusão total, se repartia em mil pedaços de memória mal formada. Aos poucos, a imagem da luxuosa sala de estar da mansão começou a parecer familiar para a mulher.
Ela pulou para fora do sofá onde acordara, o que lhe causou ainda mais dor. Ao lado de onde dormia, estava seu gracioso e sensual vestido vermelho, dobrado e sem amassados, sobre ele, estava a sua pistola prateada. No mesmo instante, o motorista estacionou lá fora. Os faróis do carro brilhavam entre as vidraças de uma janela e outra.
Carmelita entrou rapidamente no vestido, escondeu a arma entre as dobras da roupa e deixou a mansão escura. Ela estava assustada. Em um minuto, tinha Monffour em sua mira e estava pronta para executar seu plano, no outro, sentiu dor e tudo ficou extremamente escuro, já no minuto seguinte, estava sozinha na sala sem luminosidade.
Cherry abriu a porta para ela, e antes de ligar o carro, perguntou:
– O que aconteceu lá?
– Apenas tire-me daqui! — ordenou, e ele não hesitou em obedecer.
Um longo caminho silencioso se fez até casa. Quando os dois, finalmente, atingiram seu destino, Carmelita se remexeu no banco, relutante para sair.
– Hoje, dormirás aqui.
Cherry deixou escapar um sorriso satisfeito de seu rosto juvenil.
– Se assim desejar.
A mulher suspirou. A verdade, era que estava contente por tê-lo ali e não se sentir completamente perdida em seu próprio jogo. Os dois entraram na moradia escura. Cherry sentia-se livre para ter aquela mulher sedutora e poderosa em suas mãos. Carmelita nunca havia estado tão frágil. Ela permitiu-se ser beijada por Cherry entre os gemidos da escuridão, quando de repente, uma luz se acendeu na sala.
Affonso, o delegado, estava sentado na poltrona vermelha, como se tivesse um pingo de elegância em seu ser. Ele tinha as mãos cruzadas uma com a outra na altura de sua boca, e uma pistola prateada, parcialmente igual a que a esposa carregava, em seu colo. Carmelita e Cherry se desgrudaram de imediato, tomando expressões ridículas em suas faces.
– Affonso... — ela tentou pronunciar algo mais, entretanto, sua voz morreu no começo da frase.
– Eu não quero ouvir teus lamentos e desculpas. És uma cobra das mais venenosas, Carmelita.
– Não disseste que ele só retornaria dias mais tarde? — Cherry sussurrou a indagação para a mulher pálida.
– Eu menti. Era um teste. — o próprio Affonso quem respondeu — Eu vinha desconfiando dos dois, sempre sorrateiros, cheios de cochichos e saídas inesperadas. Mas eu precisava de uma certeza, que tu acabaste de me dar, Carmelita.
Affonso levantou ligeiro, envolveu a arma com habilidade em sua mão esquerda, pois era canhoto, e acertou um tiro no peito de Cherry. Pareceu que Carmelita também despencaria ao lado de amante sangrento. Mas ela se recusava a encarar o corpo.
– Eu disse à você que Catrão deveria ter atirado na maldita esposa também.
– Affonso, por favor, misericórdia!
– Não Carmelita, eu amei você. Por que me desonraste? Por que mentiste?
– Affonso... — choramingou — Não compreendes, não ei de pertencer a ninguém.
– É tarde.... Tarde para você.
A Dama de Vermelho caiu sobre seus joelhos quando o tiro atingiu seu peito. Caiu ao lado do amante que ainda respirava. Ela lamentou, aquele nem ao menos era o amante que ela gostaria de estar, nem tivera a honra de morrer ao lado de quem amava. Mas Cherry sentia-se satisfeito por tê-la ao seu lado. A mulher sabia disso. Nem mesmo Affonso esteve ao seu lado quando ela precisou, era sempre Cherry. O nobre motorista. O único amante fiel. E ali, ao lado da única e exclusiva lealdade que provou em toda a sua vida, Carmelita parou de respirar, no mesmo instante que seu amante.
Affonso voltou a sentar-se friamente na poltrona, encarando os corpos sem vida com seus restos virados um para o outro.
– Agora, pertences à morte, linda Carmelita. Pena que desperdiçaste teu último suspiro com palavras tão inúteis.
"...não ei de pertencer a ninguém."
"...não ei de pertencer a ninguém."
"...não ei de pertencer a ninguém."
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