Notas iniciais
Narrado: Marieta F.A dama encontra o vagabundo

7:30 da manhã. A ave que gorjeava na minha janela todas as manhãs, fez o mesmo nessa. Eu já havia feito os planos ontem à noite para o meu dia, e já os havia confirmado. Arrumei-me com capricho, tentando não deixar escapar um sequer detalhe.

Ao acabar, desci as escadas, esperando encontrar-me com mamãe e papai a tomar café, mas ela estava sozinha, com a cabeça debruçada sobre o punho, onde repousava a testa. Observei-a um pouco antes de me aproximar, suas olheiras estavam escuras.

– Mamãe? – seu pensamento estava longe. – Mãe?

Ela balançou a cabeça, como quem quer afastar os pensamentos.

– O que você quer Marieta?

– O que houve com a senhora?

– Não tive sono está noite.

– Vos nunca sofrera antes de insônia.

– Não foi insônia, foi dor.

– Dor? — preocupei-me. – Estas doente? – toquei com as costas da mão sua testa.

– Doente. – mamãe riu com desdenha. – Doença malévola essa. Ser trocada, substituída, mal amada.

– Do que estas falando?

– Seu pai tem uma amante.

Fiquei chocada, a ponto de não ariscar movimentos.

– Mamãe, não acredite sempre nas fofocas alheias.

– Não foi fofoca, eu o vi, o vi com ela. — a mulher descontrolada choramingou.

– Quem é ela?

–A secretária do seu escritório.

– Eu sinto muito mamãe. – toquei seu ombro. – O que fará agora?

– Nada.

– Como assim?

– Querida, nessa vida se você quer ser feliz tem que abrir mão de muita coisa, inclusive do orgulho.

– Não sei se abriria mão do meu orgulho por uma traição.

– Você abrirá por quem ama.

Pensei comigo mesma, que tolice, eu jamais faria aquilo. Que felicidade seria essa?

– Mamãe, eu tenho de ir à feira.

– Não está muito cedo?

– Quero pegar o melhor, e para isto, tenho de chegar cedo.

– Vá então, chamarei a criada para acompanhar-lhe.

– Não! Não é necessário, ela está a dormir e eu lhe prometo voltar logo. – ela pensou um pouco e estudou suas palavras.

– Bem, seja breve.

– Obrigada mamãe. – lhe sorri. – Tente descansar. – beije-a a testa.

Peguei minha égua Penellope no celeiro. Seu pelo era escuro e brilhoso como a noite. Cavalguei com velocidade até o bosque, estava coberto de neve, minhas botas afundaram levemente. Havia uma silhueta em meio as árvores, coberta com um grande capuz.

– Conde Monffour?

Eu nem conseguiria descrever a quantidade de sentimentos que me atravessaram, na pequena parte do tempo que ele demorou a virar-se e me olhar.

– Marieta! – caminhei apressada até os seus braços acolhedores. – Fiquei preocupado, achei que não conseguiria vir.

– Estou aqui. – acariciei seu rosto.

– Eu sei, agora vejo você.

Entristeci-me ao lembrar o que tinha de lhe falar.

– O casamento com o Lorde será em uma semana.

–Você não pode casar-se com ele, eu não deixarei.

– Não quero casar-me com ele. Quero casar-me com você.

– Então fuja comigo.

– Fugir? – questionei. – Para onde iriamos?

– Não sei, para o norte, para o sul, até para as estrelas. O importante é que você esteja ao meu lado. – o encarei nos olhos. – Então Marieta, foge comigo?

– Fujo. – alucinei. – Eu sei que é loucura, mas fujo, vou a qualquer com você. Até as estrelas. – sorri.

– No dia do seu casamento, eu a pegarei quando estiveres saindo de casa, nem um segundo a mais.

– Vou lhe esperar.

Ele desceu seu rosto levemente até seus lábios gelados tocarem os meus. Eu devia estar maluca e sabia disso, mas já fazia um tempo que eu deixara de me importa com muitas coisas, inclusive com sanidade.