Notas iniciais
Narrado: Freira Angelina

A Puritana encontra o Pecador.

Depois de pensar um pouco, comecei a achar que o Conde não recebera a carta. Onde ele estava? Há quantas horas eu esperava perplexa ao lado do velho poço? Talvez duas ou três, Terei de ir, pensei. Precisarei mesmo ir, conclui. Virei-me para ir embora quando a mão gelada tocou o meu pulso. Estremeci.

– Monffour. — murmurei com o coração acelerado. -

– Desculpe a demora.

– Comecei a achar que você não viria.

– E eu não queria vir. Para que vir? Para ser desprezado? Porém felizmente tenho um orgulho a presar, enfrento minha penitencia como homem. Diga com pressa, o que sabes que me cortará o coração em dois.

Seus olhos lembravam-me cachoeiras cristalinas no verão, quase me ajoelhei e pedi perdão por causar-lhe tristeza, porém permaneci firme.

– Monffour, não posso mais fazer isso, não me peça para prosseguir com tal loucura.

– Eu realmente seria um louco se pedisse, não posso pedir-lhe isso, simplesmente está fora do que eu posso pedir a ti.

– Não queria que as coisas terminassem assim.

– Case-se comigo Angelina.

– O que?

– Largue o convento, vamos morar comigo em São Francisco.

– Eu sou casada com Jesus Cristo, não posso obter matrimonio.

– Me desculpe Angelina — ele então se ajoelhou aos meus pés. — O fato é que estou desesperado, não quero perder-te, não sei viver sem você, nem quero.

Estatelei, o que eu deveria dizer-lhe? Que lamentava? Não era suficiente. Também não queria viver sem ele, seria a mesma vida cinza de antes. Debrucei sobre os joelhos, acarretando seu rosto em minhas mãos.

– Teremos de ser fortes. disse blasfêmia.

– Não serei.

– Terás de ser.

– Não serei. — repetiu.-

– Tu és um homem maduro, de escrúpulos e boa educação, terá de prosseguir com sua vida.

– Não vou prosseguir, nem ficarei parado aqui. — fiquei confusa. -

– Pra onde irás então?

– Falar com o teu Deus, depois de passar pela morte, e pedi-lhe que a livre deste carma para que possa ser minha, mesmo que eu não volte para isso.

Arregalei os olhos para ele. — As ideias de Deus condenam em todos sentidos o suicídio, se o fizesse, nem mesmo poderia falar com ele.

– Tentarei.

– Conde. — desabei. — Não quero lhe deixar, realmente não quero, porém a culpa vem me consumido.

– Abandone de vez então a vida santa, isso mudará tudo.

A irmã Doroteia havia me ditado Se afasta de tudo que te afasta do plano de Deus Mas como poderia me afastar daquele homem? De sua paixão, intensidade e olhar ameaçador.

– E se fossemos embora? — sugeriu. — Se fossemos mesmo para São Francisco?

– É muito arriscado.

– Me arrisco por você. Fuja comigo Angelina. — segurou com força minhas frias mãos. — Deus quer que você seja feliz e não desperdice sua vida com algo que não acredita mais.

Era como se ele andasse vasculhando os pensamentos vagos da minha cabeça. Persuadi-lo não era uma opção. Mas cá com os meus pregos, dei-me conta da sanidade daquelas palavras que me pareciam tão loucas.

– São Francisco. — sussurrei.- Eu adoro São Francisco.

– Pensei que só adorasse a Deus.

– Era antes.

– Antes do que?

– De decidir fugir com você para São Francisco. — sua afeição que antes era deplorável se tornou animada novamente, como sempre fora. -

– Vens comigo?

– Sim amado, irei com você. — beijei seus lábios com leveza, como se fossem feitos de vidro. — Irei para São Francisco.