Notas iniciais
O último desejo da Falsa Puritana

Angelina tentou se encobrir melhor no manto grosso que lhe envolvia. Seus passos pareciam mais sem rumo que nunca. Sua mente tinha certeza de que os próprios pés já haviam lhe guiado àquela mesma rua durante a caminhada, mas ela desviava, parecendo se negar a escolher caminhar por ali.

Foi então, que acabou por decidir ceder ao desejo persistente de seus pés e seguir o caminho daquela rua obscura serpenteada por galhos secos e negros. Nuvens neblinosas e pesadas faziam o papel de esconder a lua, e tornar ainda mais difícil a visão da rua de paralelepípedos.

E ao longe, se via a mansão estonteante do Conde Monffour. No fundo, Angelina sabia o que pretendia fazer ali. Ela sentia a falta dele, queria vê-lo. A verdade era que, Monffour tornara-se uma necessidade insubstituível. Entretanto, ainda existia dentro de si vestígios de santidade, tal que, a fazia resistir a esse desejo descontrolado.

Antes mesmo de se aproximar da porta, avistou uma vela acesa no andar de cima. Isso deixou-a encabulada, pois não era natural de Monffour estar acordado a tal hora, exceto se estivesse a sua espera. Um instinto incomum se rebelou dentro dela. Angelina sabia que algo estava errado. Talvez, a sua ligação com Deus não houvesse se dissipado por completo e agora, ele lhe dera um sinal divino.

Sorrateiramente, ela rodeou a mansão, o que tomou minutos de seu tempo, e chegou a porta dos fundos. Sem muita dificuldade, forçou sua entrada. Com passos não audíveis, a jovem subiu a escadaria dourada que levava ao andar de cima. Seguiu a única luz que cintilava no quarto de seu amado. E lá estava a cena que fez com que seus olhos queimassem.

A esposa do delegado estava de costas para porta, de relance era possível ver a pistola prateada em suas mãos apontada para a cabeça do Conde, que estava de costas para a mulher, sentado em uma poltrona confortável. Angelina achou que não haveria tempo para mover um musculoso, porém, a mulher armada ainda permanecia parada numa incerteza obvia do ato impulsivo, ou até então, mal planejado.

Ao lado da porta do quarto, havia uma pequena mesa decorativa, e sobre ela, dois candelabros apagados. Agindo, tão impulsiva quanto achava que a esposa do delegado era, ela agarrou o candelabro pesado e dourado em suas mãos e entrou veloz no quarto. Acertou um golpe violento no meio da cabeça de Carmelita, e a mesma despencou no chão, deixando cair longe a pistola prateada.

Angelina andou até a mulher de roupas intimas desmaiada no tapete do chão daquele maravilhoso quarto luxuoso, e lhe deu mais um golpe certeiro na cabeça. A adrenalina que lhe consumiu tempos atrás, ao assassinar a Madre Superior, lhe correu as veias. E ela gostou daquilo, mas novamente, aquele tal fio com Deus lhe trouxe a realidade. Angelina cambaleou para trás, largando o candelabro no chão e soltando um grito quase doloroso.

Monffour estava de pé, completamente nu, a observando assutado com olhos arregalados. A jovem arfava, tentando encontrar oxigênio como se ele não existisse. O homem ainda parecia processar tudo o que havia acontecido, quando Angelina se dissolveu em lágrimas.

– Não. Oh, não! — as mãos tremulas dela lhe cobriam o rosto — Por favor, diga-me que ela vive. Imploro-te. Não ei de sofrer a dor de um assassino mais uma vez.

– Angelina, — principiou Monffour — sobre o que falas? Mais um vez?

– Veja se ela respira! — ordenou, sem tirar as mãos do rosto delicado.

Monffour se ajoelhou perante Carmelita, checando seus pulsos e sua respiração.

– Ela vive. — afirmou.

– O que faremos?

– Leva-la para casa.

– Por qual motivo ela apontava a arma de fogo para você? Ela ia matá-lo.

– Sim. Entretanto, me salvaste.

– Responde-me a pergunta. — finalmente, a jovem pareceu notar que o homem estava nu — Aliás, onde foram parar tuas vestimentas? — Angelina hesitou — Deitaste com essa mulher?

– Eu, sequer, sabia que ela estava aqui.

Um alivio instantâneo se fez no peito da freira.

– Agora, voltai para casa e eu cuidarei disto.

– Tens certeza?

– Mas é claro. — Monffour andou até lá, seu corpo escultural era levemente iluminado pela luz dançante da vela. Ele segurou o rosto molhado dela, e disse — Salvaste-me. Agora, a minha vida e a tua andam juntas.

Depois de beijar os lábios rosados dela, ordenou mais uma vez que partisse e voltou-se para Carmelita. A mulher parecia mais bonita que nunca. Sua falta de movimentos, e a boca entreaberta a fazia parecer quase morta. E por um momento, Monffour pensou que ela já não pertencia aos vivos.