Notas iniciais
Uma alma enfurecida
Dona Carmelita

Já se passava das onze quando ouvi o barulho acuado de pedrinhas vindo de encontro a minha janela. Pulei da cama imediatamente e debrucei-me sobre o parapeito da janela, a fim de descobrir que alma suicida se pusera ali naquela madrugada. Afinal, ao invés de mim, podia muito bem ser Affonso a espreitar com curiosidade quem atirava pedras em sua janela no meio da noite.

Através da nebulosa escuridão, vi sua silhueta enfiada numa jaqueta enorme e um chapéu intrigante sobre a cabeça. É claro que era ele. Só podia ser ele. Mas o que poderia Monffour querer justamente aquela hora? Iriamos fugir na terça e ainda era domingo. Eu havia ficado brava em pensar que ele estava se arriscando, porém ao considerar te-lo em meus braços, logo deixei a raiva de lado.

Agarrei um roupão qualquer que estava no cabide e sai do quarto com cuidado, não antes de checar se Affonso dormira profundamente como um porco, e logo após me fui. Os passos que dei na escada foram os mais silenciosos de minha vida. Quase ouvi um grito de Aleluia quando abri com cuidado a porta da entrada. Ele se aproximou com passos largos. Havia algo de estranho nele. Me joguei em seus braços sem pestanejar.

– Não sabe que não pode vir aqui? É arriscado. — murmurei.

– Senti sua falta. — Quase pulei para trás ao ouvir sua voz. Cherry tirara o chapéu e pude enfim vê-lo perfeitamente.

– O que faz aqui? — indaguei irritada. — Já não haviamos conversado?

– Você não confirmou se fugiria comigo, querida.

– Sim, eu fugirei. — menti.

– E quanto aquele canalha do Monffour?

– Cale a boca! Você não deveria nem pronunciar o nome dele, quanto mais se dirigir de forma bruta. — retruquei.

– Na verdade, foi para falar dele que realmente vim aqui.

– O que quer dizer com isso?

– Pobre Carmelita. — o homem deu uma volta em si mesmo e depois ao meu redor. — Não sabe, não é?

– Pare de enrolação Cherry. Se de fato tem algo dizer, que diga logo.

– Então, você não sabe!

– Cherry, estou a perder a paciência.

– Eu o vi Carmelita.

– Dona Carmelita pra você.

– Que seja. Mas ouviu o que eu disse? Eu o vi. — repetiu.

– Até então nada de mal em vê-lo. Eu o vejo o tempo todo.

– Eu o vi com outra.

– Outra? — questionei duvidosa. — Como assim?

– Ele estava com ela há alguns metros daqui, no velho bosque.

Arfei decepcionada. Tive que me conter. Aquilo podia ser uma grande mentira de Cherry. Monffour não faria isso. Faria? — Quem...é ela?

– Essa é a melhor parte da história.

– Diga de uma vez.

– A noiva de seu sobrinho.

– Marieta?

– Sim, a própria.

Cega pelo ódio, o fitei. — O que você ganha com isso?

– A sua expressão decepcionada paga tudo. Eu sabia que esse homem não era tão perfeito assim.

– Que seja Cherry. Fugiremos na terça-feira.

– Você está falando sério?

– Sim.

E dessa vez estava falando realmente sério. Fugir com Cherry agora não era uma opção tão ruim, mas antes eu tinha que tomar uma providência. Se eu não podia ser feliz com Monffour, ninguém mais podia.

– Se essa bastarda pensa que está se dando bem, ela não perde por esperar.

– O que pretende fazer?

– Eu não. — o corrigi. — Você.

– O que quer eu faça?

– Você sabe exatamente o que deve fazer.

– Quer que eu... — o cortei a fala.

– Não se faça de tonto Cherry. É exatamente o que eu quero que você faça. Deixe o resto comigo.

– O resto?

– Sim. Ou você pensa que deixarei Monffour livre para outra que não seja eu mesma?

– Você é cega por esse homem. — cuspiu as palavras.

– Sim, eu sou. Mas sou mais cega pelo dinheiro e por mim mesma.