Notas iniciais
O último desejo da dama de vermelho

Tudo estava deveras tranquilo em mais uma noite comum em Paris, mas não ficaria assim por muito tempo. Naquele dia, o Delegado Affonso fora estreitar os laços com a cidade vizinha devido aos últimos acontecimentos na região. O homem retornaria ao lar em dois dias. De fato, ele não gostava de largar a amada esposa sozinha,porém tinha uma confiança cega e não merecida em sua mulher.

Dona Carmelita estava disposta a por seus planos maléficos em prática. Afinal, com o marido fora tudo seria mais simples. Cherry, o motorista, havia ido busca-la no meio da noite. Os dois agora trabalhavam juntos em uma parceria nada honesta. O caminho deles ficava após o bosque, em um canto mais afastado do movimentado centro da cidade: A mansão do Conde Monffour.

– Tem certeza que não quer que eu a espere? — Cherry insistiu em perguntar.

– Não é necessário, Cherry. Já lhe disse. Esteja aqui em uma hora, nem um minuto a mais ou a menos.

– Uma hora?

– Não foi o que eu disse?

– Mas é bastante tempo.

– Não me questione. Se digo que preciso de uma hora, é por que tenho meus motivos. Faça o que digo e esteja aqui na hora marcada.

Cherry saiu do carro, abriu a porta para Carmelita e depois sumiu na rua escura. Tudo havia sido planejado rigorosamente por Camelita, inclusive seus próprios passos. Pondo um pé na frente do outro com precisão, caminhou graciosa até a porta e de punho fechado, bateu-a algumas vezes. Em poucos segundos, Monffour veio e atendeu-a.

– Carmelita, que surpresa vê-la aqui. — O homem pareceu realmente surpreso.

– Espero que não seja uma surpresa ruim, querido.

– Claro que não, meu amor. Gostaria de entrar?

A mulher lhe beijou de leve e logo após, adentrou seu lar. Carmelita sempre havia sido eminentemente misteriosa e sedutora. Uma mulher capaz de transformar até o mais santo dos homens em um predador nato. Porém exatamente naquela noite existia um rastro de uma maldade extraordinária em seu olhar. Se Monffour não ficasse tão cego pela beleza estonteante de Carmelita, talvez pudera ter reparado algo de errado em seu jeito épico de ser.

– Diga-me, á que devo a honra desta maravilhosa visita? Pensei que só a veria na terça.

– Sim. Na terça, mas fiquei com saudade, caro amante.

Ela passou sorrateiramente por ele e largou o leque que carregara na mão em uma pequena mesa ao lado do sofá. Depois o fitou com um olhar convidativo e atraente, desabotoando com classe seu vestido vermelho.

– Leve-me para o seu quarto, querido. Realize, como das outras vezes, o desejo que meu marido jamais pudera satisfazer.

E foi o que ele fez. Apesar da falta de razões obvias para ela estar ali, Monffour, simplesmente a obedeceu.