As Pérolas Intocáveis de Évora - Livro I
1 Prólogo: Pérolas
Notas iniciais

Évora, Portugal. 1802
— Mamãe, podemos ir ao chalé do lago amanhã? — perguntou Adelaide enquanto embalava a pequenina irmã no berço.
— Podemos sim, querida, mas antes iremos fazer uma visita à marquesa de Canto e Melo que se recupera de uma forte gripe. Devemos sempre ser prestativos com as pessoas, não é mesmo?
— Sim, mamãe.
— Então vamos nos preparar para dormir, pois amanhã será um dia longo. Quem sabe não passemos na livraria e compramos livros novos, hã?
A menina bateu palmas, empolgada.
— Tenho certeza de que Joana se agradará, ainda que sua preferência seja uma bandeja cheia de biscoitos de gengibre.
A baronesa riu.
Joana era a mais geniosa das filhas, mas não deixava de ser gentil e prestativa quando necessário. As irmãs tinham características bem contrastantes. Joana tinha olhos e cabelos castanhos escuros, assim como a irmã Celeste, traços herdados do pai, e eram bem parecidas em personalidade. As mais aventureiras entre as demais, de espírito livre e amavam cavalos.
Liana também possuía cabelos castanhos, mas de um tom mais claro e seus olhos tinham cor de âmbar. No que dizia respeito à personalidade, era reservada, sentimental e melancólica, particularidades que Joana dizia não ter paciência. Era mais próxima de Emília.
Emília, por sua vez, era a mais reservada, mas muito prestativa. Podia-se dizer que era loira como suas outras irmãs, mas à luz do sol, seus cabelos exibiam tons avermelhados que os deixavam com um aspecto ruivo. Sua pele clara salpicava leves sardas, e seus olhos eram esverdeados, tais quais os de sua avó materna.
Mas a detentora de grandes olhos verdes era Beatrice. Também loira e de cabelos cacheados, sempre desgrenhados; a menina vivia em meio às tintas e pincéis pintando tudo o que via pela frente. Alegre, suas risadas podiam ser ouvidas pelos jardins ou pela casa, principalmente, enquanto corria de suas irmãs depois de ter manchado seus vestidos com respingos de pincel molhado. No entanto, apreciava sua própria companhia ficando por horas entre os livros ou na Casa de Artes que tinha na fazenda.
Adelaide, a primogênita, também era loira e de olhos azuis-safira como os de sua mãe. Todos, ao vê-la, falavam sobre a imensa semelhança. Uma adulta em miniatura, gostava de ajudar nas coisas da casa e ralhava com as irmãs desobedientes. Tinha apenas doze anos e já surpreendia a todos com suas habilidades. Era a mais apegada à mãe.
Cecília, com apenas um ano de vida, provavelmente seria mais uma menininha loura de olhos azuis. Era um bebê muito calmo e passava o dia todo no colo das irmãs ou brincando em seu berço com os seus grandes olhos atentos.
Deus havia agraciado Amélia com sete lindas filhas, e embora sempre desejasse dar um herdeiro ao marido, sentia-se feliz e abençoada. Casara-se com ele por acordo entre famílias, contudo, aprendera a amá-lo com o tempo. Rui poderia ser um homem rude às vezes, mas ele a respeitava e a tratava com estima.
Certa vez, ele a presenteara com um colar de pérolas, dizendo que não existia joia mais bela pela forma como se diferenciava das outras em sua natureza. As pedras precisavam ser lapidadas, mas a pérola não, ela já nascia pronta, perfeita, assim como ela.
Ele não era um homem romântico, tampouco demonstrava qualquer disposição para isso, mas tentou expressar seus sentimentos por ela neste dia, de um modo só dele. Então soube que ele a amava.
O colar de pérolas seria o símbolo desse amor tão peculiar que ambos aprenderam. O marido então, a pediu para usá-lo todos os dias, pois assim, ela sempre se lembraria de que era única e especial.
— Minhas pérolas... — sussurrou Amélia olhando para as filhas dormindo tranquilamente naquele enorme quarto. Beijou cada uma delas e fechou a porta.
Quando Amélia adoeceu, acometida por uma avassaladora gripe com tosses constantes e febre alta, pediu ao marido que retirasse sete pérolas do seu colar e mandasse fazer gargantilhas; uma para cada filha. Ele perguntou o porquê daquele pedido, ela então respondeu:
— Assim como o senhor me pediu para usá-lo todos os dias e lembrar-me de que era uma joia especial, quero que não se esqueças disso quando olhares para elas, pois elas são a soma de nós dois; são as pérolas mais preciosas que pudemos gerar. Nunca as deixe sentir que não são únicas ou amadas. Olhando para elas, estarás me vendo.
E o Barão, naquele momento soube que era uma despedida. Ajoelhou-se ao lado da cama da esposa, tomou uma de suas mãos e a beijou. Lágrimas derramaram de seus olhos.
Amara a esposa mais do que poderia imaginar, todavia, não seria capaz de demonstrar isso a mais alguém, nem mesmo às suas filhas. Olhar para elas todos os dias e lembrar-se da esposa seria doloroso demais. Sabia que não seria capaz.
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