As Pérolas Intocáveis de Évora - Livro I

10 Capítulo 9 - Baile de Outono - Parte I


Notas iniciais
"Se você sabe explicar o que sente, não ama, pois o amor foge de todas as explicações possíveis." (Carlos Drummond de Andrade)

A novidade da festa causara diversas reações. Os olhares de admiração ou de desdém, dirigidos às donzelas recém-chegadas, eram notáveis. Prato cheio para os fofoqueiros de plantão.

— Mas que honra, Dom Rui! E tão bem acompanhado, desta vez, pelas suas belíssimas filhas! — o anfitrião elogiou com uma reverência às damas.

O D’alboquerque não estava com uma feição agradável, mormente porque todos os olhos estavam voltados para elas. As filhas que ele tanto quis esconder, agora obrigado a expô-las.

— Sejam bem-vindas à corte, senhoritas D’Alboquerque — saudou a Duquesa, com leve inclinação de cabeça. — Que esta noite vos seja memorável.

— Obrigada, Vossa Excelência. Sentimo-nos verdadeiramente honradas — respondeu Adelaide.

— Pois bem, imagino que deseje apresentar suas filhas aos demais convidados, não é verdade? — disse o Duque, com um leve sorriso cujo tom não escondia o sarcasmo. — Não se preocupe, terei o gosto de auxiliá-lo. Permita-me apresentar-vos Sua Excelência o Marquês de Canto e Melo, cuja linhagem tem papel honroso nas reformas do Estado.

— Apenas cumprimos nosso dever para com a Pátria — respondeu o Marquês, com visível orgulho. — É um prazer revê-lo, Barão D’Alboquerque. Creio que já se passaram algumas estações desde nosso último encontro.

— Sem dúvida, Senhor Marquês. Que honra tê-lo entre nós em Évora — replicou o Barão com cortesia contida, consciente de que aquele homem circulava entre os mais poderosos.

— Honra maior é conhecer vossas encantadoras filhas, Senhor Barão — disse o Marquês, inclinando levemente a cabeça. Fitou diretamente Adelaide e, num gesto cerimonioso, tomou-lhe a mão com leveza e a beijou com delicadeza estudada. Um leve arrepio percorreu-lhe a espinha. Sonhava com o matrimônio, é verdade, mas aquele homem era velho demais, e aquilo a assustava.

— Não me julgueis precipitado, Senhor Barão, mas teria a honra de solicitar uma dança com vossa jovem filha?

— Decerto, Senhor Marquês. Senhorita Adelaide, sede gentil e apresentai-lhe vosso cartão de dança.

E a moça entregou-lhe para que ele assinasse seu nome.

— Ora veja! Mal chegaram e já tem seus cartões de dança preenchidos — reclamou Demétria, que estava por perto observando os cavalheiros cortejarem as irmãs.

— Elas são belíssimas! — Elisa comentou, admirada, não se importando com as reclamações da amiga.

— Humpf! Não me importa com quem dancem, não sendo com Pedro que em breve será meu marido.

— Acredito que seja tarde demais, minha querida. Veja como Pedro e Fred apreciam-nas. Duas delas, especificamente — provocou.

A jovem Diaz Castel soltou mais um bufo de indignação.

Álvaro Gomes de Carvalhal, filho do Duque, e o seu primo, Raul Antero Casagrande, também foram apresentados às irmãs.

Como era de se esperar, todas as atenções convergiam para elas. Os olhares, curiosos, buscavam confirmar se as filhas do Barão eram realmente tão belas quanto os rumores indicavam — e se seus modos condiziam com o nome que carregavam.

Joana, com seu natural ímpeto e vivacidade, tivera quase todo o cartão de dança preenchido antes mesmo do segundo compasso da noite.

Quando Álvaro convidou Liana para dançar, Pedro perdeu a compostura. Frederico precisou intervir.

— Pedro, pense com sensatez. Não podemos nos expor desta forma. Para todos os efeitos, ainda somos inimigos. Ademais, é apenas uma dança. Contenha-se.

— Está bem — murmurou, contrariadíssimo, sem desviar os olhos do casal que valsava. — Mas não tirarei os olhos desse borra-botas.

— Nada nos impede de dançar com elas também — comentou Frederico, com um sorriso maroto. — Afinal, não é o que exige a etiqueta? Ninguém poderá levantar objeções. Até logo, irmão.

E seguiu em direção a Emília, que hesitou por um instante, dividida entre o temor da reprovação paterna e o desejo de aceitar.

— Não temais, minha doce Emília — sussurrou-lhe. — Por uma noite, quem ousaria julgar-nos?

Ela sorriu, enfim, e estendeu-lhe a mão. O gesto, singelo e audacioso, não apenas provocou cochichos, como incendiou os ânimos entre os patriarcas. O Barão deu um passo, furioso, mas o Duque, que tudo observava, pôs-se à frente.

— Ora, meu amigo... não queiramos transformar esta noite em palco para escândalos.

Pedro esforçava-se para conter o ímpeto de golpear o rosto de Álvaro. Vendo-se impossibilitado de intervir diretamente, tomou a decisão de convidar a irmã para uma dança — o que deixou Demétria visivelmente contrariada.

— Sabes que estás a despedaçar o coração de metade das moças deste salão, ao dançar comigo, não sabes? — gracejou Elisa, rindo discretamente.

— Não te inquietes, minha querida. Entre todas as damas, és a minha predileta.

— Sim, sim... eu e aquela donzela que não desvia o olhar de ti — disse, inclinando levemente a cabeça na direção da jovem que valsava, embora espreitasse Pedro disfarçadamente. — É muito bonita.

— Sim. De fato, é.

— Então, quando esta dança findar, não percas tempo. Vai até ela.

Após duas danças observando Álvaro girar com Liana como se fossem os únicos no salão, Pedro não mais conteve-se. Aproximou-se com passo firme.

— Estais a monopolizar a companhia da dama, Senhor Carvalhal. Tal atitude é, no mínimo, indelicada.

— Não me parece que a senhorita D’alboquerque se mostre contrariada — retrucou o outro, com falsa cortesia.

— Ainda que o estivesse, jamais o diria. Sua educação não permitiria tamanha franqueza.

— Ao que parece, conhecem-se há mais tempo do que imaginei — insinuou, com ar desconfiado.

Pedro ignorou-lhe a provocação e voltou-se à dama:

— Senhorita, concede-me a honra desta dança?

A moça sorriu e estendeu sua mão sem se preocupar com os olhares acusadores e maliciosos para eles. Tal ação era um escândalo devido a eterna rixa das famílias.

Em outro ponto do salão, Beatrice era alvo de ininterruptos elogios por parte do senhor Casagrande, enquanto circulavam juntos pela margem do recinto.

— Obrigada, senhor Casagrande — murmurava, esforçando-se para não deixar transparecer o incômodo. Jamais fora altiva, tampouco desejava parecer ingrata numa ocasião como aquela. Contudo, o cavalheiro falava incessantemente de si próprio, numa tentativa frustrada de impressioná-la, e agora alternava tais discursos com elogios sobre sua beleza e educação, sem qualquer espaço para temas que a interessassem de fato.

Não muito longe dali, entre os pares dançantes, outro cavalheiro exercia sua retórica:

— É verdadeiramente notável como destacas entre vossas irmãs em graça e formosura. Os rumores, ao que parece, não exageraram ao elegê-la uma das mais encantadoras damas do Alentejo — disse o Marquês, com um sorriso calculado.

— Agradeço, senhor Marquês, mas, com o devido respeito, creio que boatos não devem receber tanto crédito. Por natureza, são construídos sobre impressões, e as conclusões costumam ser precipitadas — replicou Adelaide com firmeza e elegância.

O Marquês riu discretamente, como se apreciasse a resposta.

— Podes crer, minha cara, sempre há os que sabem mais do que imaginamos e, neste momento, os olhos encarregados estão captando tudo, para alegria ou não, de seus alvos. Amanhã, tudo estará julgado e decidido.

Adelaide esboçou um sorriso forçado. Todo aquele ambiente a inquietava profundamente. Sabia que os olhares se voltavam para suas irmãs e para os irmãos Lamartine. Não tinha dúvidas de que eram os tais “alvos” mencionados pelo Marquês, vítimas de cochichos, sorrisos velados e murmúrios maliciosos. Conhecia demasiado bem o temperamento do pai diante de situações de exposição pública — e temia, com razão, as consequências.

Além disso, o Barão e o Visconde estavam a ponto de perderem a diplomacia e, por fim, os elogios excessivos do seu parceiro de dança.

— Vossa esposa não vos acompanha esta noite, Senhor Marquês? — indagou com cortês sutileza, na esperança de lembrá-lo a quem, de fato, caberiam tantos adjetivos.

Felizmente, a música chegou ao fim. A oportunidade perfeita para pôr termo àquela conversa — graças a Deus.

— Não me acompanha porque não a tenho, senhorita. Sou viúvo há alguns anos... e em busca de uma nova marquesa — respondeu ele, com olhar sugestivo.

Adelaide conteve o sobressalto e buscou manter a firmeza ao responder:

— Compreendo... Se Vossa Excelência me permite, necessito tratar de um assunto com meu pai.

— Naturalmente, senhorita. A honra foi inteiramente minha.

Fez-lhe um gesto cortês e a acompanhou com os olhos enquanto ela se afastava; agora, mais fascinado do que nunca por ela.

~~*~~

— Celeste, vou buscar uma limonada, quer acompanhar-me? — perguntou Cecília.

— Se não se importa, ficarei conversando com Elisa.

Ela havia feito amizade com Elisa Lamartine, o que era curioso. Mas, verdade seja dita, o que não era curioso naquela noite? Pela lógica natural, certos casais não deveriam estar dançando e nem certas amizades surgindo. Contudo, era preferível acreditar numa noite mágica para elas. Desde que não ultrapassassem os limites da compostura, o Barão teria que aceitar isso.

Cecília estava fascinada com o baile. Tanta elegância, tantos rostos interessantes. Ainda era jovem para ser cortejada, e as danças que tivera até então eram apenas com o pai — mas mesmo assim, divertia-se imensamente.

Ao chegar à mesa de bebidas, deparou-se com uma senhora que murmurava uma queixa quase inaudível: as jarras de limonada estavam muito afastadas da borda.

— Permita-me servi-la, senhora — ofereceu-se com naturalidade.

A Viscondessa voltou-se e, ao vê-la, franziu levemente o cenho.

— Não é necessário, agradeço.

— Mas eu insisto.

Cecília, relativamente alta para a idade, serviu dois copos com facilidade e, sorrindo, comentou:

— Sabia que é bastante difícil encontrar limões nesta época do ano? Como não os cultivamos em Portugal, é preciso importá-los da Índia; um processo trabalhoso e caro, se pensarmos que poderíamos produzir aqui mesmo, não acha?

A Viscondessa olhou-a, surpresa com a desenvoltura. Cecília prosseguiu:

— Tenho grande apreço por botânica e assuntos agrícolas. Acredito, inclusive, que seria capaz de administrar tal atividade, se me fosse permitido. As mulheres são bem mais aptas do que se costuma admitir. Somos valiosas demais para nos restringirem aos papéis de esposas e mães.

— Confesso que também cultivo certa afeição por botânica — respondeu Eleonor, agora mais desarmada. — Cuido, quando posso, dos meus próprios jardins.

Quanto à outra questão... penso que devemos avançar com cautela. Os homens não nos compreenderiam, se nos destacássemos demais.

— De fato. Afinal, não somos nós as responsáveis pela educação da próxima geração?

A Viscondessa fitou-a.

— Não sois nova demais para entender tanto do mundo matrimonial?

— Leio bastante, e temos uma excelente preceptora, D. Hilda. Além disso, conto com o exemplo de uma irmã bem idealista. Que papai não me ouça! — disse, sussurrando com um sorriso travesso. — Adelaide, nossa irmã mais velha, e ela cuidaram de nossa formação desde que mamãe partiu.

Houve um silêncio breve. Eleonor sentiu um aperto no peito. Aquelas meninas pareciam boas moças. Mas era difícil esquecer o passado e tudo o que o Barão fizera à sua família.

— Bem, devo retornar para junto de meu pai. Pode estar à minha procura — disse Cecília com delicadeza.

— Naturalmente. Foi um prazer conversar convosco, senhorita. Quem sabe, noutra ocasião, possamos retomar este agradável tema da botânica... e da sociedade.

— Temo que não, senhora. Papai deixou claro que este é o nosso primeiro e último baile. Mas teria sido encantador.

Já se afastava quando voltou-se brevemente, e com brilho nos olhos, completou:

— A propósito... gostei muito da senhora.

A Viscondessa permaneceu pensativa, os olhos seguindo a menina que se afastava com graça juvenil. Porém, sua contemplação foi interrompida pela chegada apressada de Frederico.

— Mamãe, venha depressa... papai está se exaltando com o Barão.

— Oh, céus, eu já temia por isso!

No centro do tumulto, o Visconde não poupava palavras para insultar o Barão, que, por sua vez, retribuía com ironia gelada.

— Um homem de sua laia não deveria sequer respirar o mesmo ar que cavalheiros honrados! — bradou Maurice.

— Ora, por obséquio, senhor Visconde — respondeu o Barão D’Alboquerque com um sorriso calmo e provocador —, não me acuse sem provas. Se celebra negócios sem sequer compreender os próprios termos, não me cabe responsabilizar-me.

Tomado pela cólera, o Visconde avançou em sua direção. Teria lançado o primeiro golpe se os filhos não o houvessem contido a tempo.

— Acalme-se, meu pai! — disse Pedro, segurando-o com força. — Sujar as mãos com um homem como ele, não vale a pena.

Mas, ao pronunciar tais palavras, seus olhos cruzaram os de Liana e neles viu um constrangimento tão doloroso que imediatamente se arrependeu. Ela não era como o pai.

— Esse miserável ousou insultar o nome dos Alcântara Lamartine! — vociferou Maurice. — E juro que tal ultraje não passará impune!

— Cavalheiros, por obséquio — interveio o Duque com voz firme e autoridade inquestionável —, este salão não é lugar para desavenças. Se desejam trocar insultos, que o façam longe daqui.

Embora a música ainda ressoasse e alguns pares valsassem mecanicamente, grande parte dos presentes observava o conflito com olhos atentos e murmúrios contidos. As filhas do Barão, envergonhadas, não ousava se pronunciar: temiam que o pai as arrastasse dali sem cerimônia.

Contudo, assim que o Visconde se afastou, escoltado pelos filhos, Cecília aproximou-se com cautela.

— Papai... estais bem?

O Barão limitou-se a acenar com a cabeça.

— Aproveitem mais um pouco da festa. Em breve, estaremos de partida.

Frederico viu uma oportunidade assim que o Barão saiu de perto das filhas e resolveu ir ter com Emília, que conversava com uma das irmãs.

— Senhoritas D’alboquerque, perdoe-nos pelo ocorrido. Não queríamos constrangê-las, mas é que...

— Não se preocupe, senhor Lamartine, sabíamos que isso poderia acontecer — respondeu Adelaide.

— Sim, é verdade. A senhorita é...

— Adelaide — respondeu. — Fomos apresentados há alguns dias, no centro de Évora.

Frederico se lembrou do episódio em que ele e Pedro foram recebê-las na carruagem. Deu um sorrisinho de concordância.

Levada pelo impulso, Adelaide perguntou:

— Diga-me, senhor, como está a recuperação de vosso irmão? — Mas, na mesma hora se arrependeu.

Sua irmã a olhou espantada, e depois para Frederico, visto que nada sabia dos detalhes ocorridos no chalé.

No entanto, Fred sabia e não se surpreendeu, apenas achou interessante.

— Está se recuperando bem e obrigado por se preocupar — respondeu.

— Que bom — sorriu sem jeito. — Obrigada por me informar.

— Somos nós os agradecidos pelo que fez por ele, senhorita. Salvou-lhe a vida. Certamente ele quererá agradecê-la pessoalmente assim que possível.

—Mas como...? — quis saber Emília, mas foi interrompida:

— Não será preciso, senhor. Qualquer um faria o que eu fiz. Além do mais, ele nem se lembrará de mim.

— Posso dar minha palavra de que ele se lembra, sim — e sorriu de modo curioso para ela.

Adelaide sentiu a face queimar. Não sabia ao certo o que ele quis dizer, mas foi o suficiente para incomodá-la.

— Com licença — se apressou para sair. — Você vem? — perguntou à irmã.

— Hã... ficarei um pouco mais se não se importa — disse Emília.

— Tudo bem.

Próximo a eles, a Viscondessa escutara toda a conversa. Ela não foi vista, mas acabara de descobrir a identidade da mulher que salvara seu filho.

~~*~~

— Pedro, aí está você — exclamou Demétria, entrando na sacada do salão. — Achei que não conseguiria falar contigo hoje.

— Olá, senhorita Castel — respondeu desanimado.

— Ora, pare com essas formalidades e me chame de Demétria. Nem parece que somos amigos de infância — brincou. — O que está te deixando tão abatido? Você não estava assim há algumas horas atrás — tocou o ombro dele.

Pedro percebeu que o Duque estava incentivando Álvaro a cortejar Liana e sentiu medo de que ele tivesse planos para os dois. O que não era impossível devido as relações dele com o Barão.

— Nada que precise se preocupar. Apenas pensando na viagem que tenho que fazer amanhã — mentiu.

— Tudo bem. Mas prometa-me que não vai isso te consumir. Hoje é um dia de festa, e não gosto de te ver assim — e deu-lhe um beijo próximo ao canto da boca, enquanto Liana presenciava tudo à porta da sacada, com um nó na garganta.

~~*~~

Afonso estava em casa velando seu irmão acidentado, porém, o motivo real de ter escapado do baile era sua dor por Irina. A mulher por quem se apaixonara e que prometera se casar.

Seu peito doía devido a angústia e a raiva que sentia. E duas perguntas martelavam sua cabeça: como isso fora acontecer e por que não estava perto para protegê-la.

Lágrimas desciam pelo rosto e ele não se importava. Ansiava por voltar a vê-la, falar com ela e dizer que ainda a amava. Poderia ter aceitado tudo, menos a morte dela assim. Sentia-se culpado depois das palavras de Matias. E raiva, muita raiva.

O que estás a dizer, Matias? Como morreu? pasmou-se.

— Foi por causa de Diogo. Ele a seduziu e ela se afeiçoou pelas falsas promessas que ele lhe fez. Eu tentava conversar com ela, as mulheres mais velhas da vila também, porém, em vão. Avelar vinha de vez em quando vê-la, mas ele vivia dormindo com outras mulheres, então, eu sabia que queria apenas divertir-se com ela. Infelizmente, Irina acreditava que ele também estava apaixonado e não conseguia ver a verdade.

Afonso escutara tudo de cabeça baixa e lágrimas nos olhos. Não podia acreditar nisso. Não queria acreditar.

— Depois de um tempo continuou Matias –, Irina começou a ficar estranha. Perdeu a alegria, não falava com ninguém e percebi que Diogo desaparecera. Ela vivia chorando pelos cantos e de vez em quando sumia pela mata afora e só voltava à noite. Então, descobri que ela tinha ido procurá-lo, mas ele a rejeitou. Irina ficou desesperada e quando voltou ao vilarejo, vi que estava machucada Matias fez uma pausa. —Forcei-a me contar tudo o que estava acontecendo.

Afonso o olhou com olhos vermelhos e raivosos ao mesmo tempo. A mágoa era grande demais.

Matias continuou:

— Ele havia batido nela, Afonso. Ele bateu nela! gritou de raiva. Aquele cão sarnento! bateu em algo sobre a mesa e jogou no chão, com fúria. Mas foi aí que eu soube. Ela estava esperando um filho dele e foi lhe contar.

Afonso não tinha palavras. Estava engasgado. Era informação demais para ele. Essa não era a Irina que ele deixou quando saiu daqui. Porque ela envolveu-se com Diogo? Sua cabeça estava a mil por hora.

— Eu tentei ajudá-la, Afonso, eu juro! Disse a ela que cuidaríamos dela e do bebê e que ela não precisaria das migalhas de Diogo. Mas ela estava cega demais. Apaixonada demais e transtornada. Foi quando... fungou não a vimos por um dia inteiro e, à noite, ainda não havia retornado para casa. Fui ter com o diabo na fábrica e ele escarneceu dizendo que não falaria com um escravo e mandou-me voltar ao trabalho. Mas quando ele me disse para eu aprender a segurar as mulheres imundas do vilarejo a fim de não se oferecer a ele, não consegui me conter. Eu parti pra cima e o soquei. E enquanto eu batia nele, lembrava-me do sorriso dela que havia sumido, da alegria dela de viver que ele havia tirado. Ela era apenas uma menina, Afonso! disse chorando. Uma menina...e ele acabou com ela.

Os dois ficaram em silêncio. Apenas dores e lágrimas pairavam naquele lugar. Depois de um tempo, Afonso perguntou quase sem voz:

— O que aconteceu com ela?

Matias demorou um tempo para se recompor, e falou:

— Dália veio me contar que haviam encontrado Irina, senti certo alívio, mas durou pouco quando vi o desespero nos olhos dela. Eu temia a verdade. Saí da fábrica correndo, e ao chegar no vilarejo, vi um corpo no chão coberto por uma manta. Era ela voltou a chorar. Foi a cena mais terrível que eu vi em toda a minha vida, irmão! Ela foi encontrada no meio das pedras em um vale. Ela ia muito ao alto de um monte nos últimos dias. Dália me contou. E ficava olhando para o nada até anoitecer.

Respirou fundo e completou:

— Ela jogou-se de lá.”

Ela jogou-se de lá.

Ela jogou-se de lá.

Não conseguia tirar essas palavras da cabeça. Não viu como saiu do vilarejo e chegou à sua casa. Sua mãe percebeu-o estranho, mas já estava de saída para o baile e apenas disse que conversariam no dia seguinte.

Ele apenas balançou a cabeça e subiu para seu quarto.

A dor, a mágoa, a ferida eram grandes demais, lhe corroíam. Após despejar sua dor num choro desesperador, sentou-se ao lado do irmão para observá-lo.

Queria ser como ele. Forte, obstinado, decidido e não apegado às paixões. Por isso parecia não sofrer nunca. Mas Afonso era o oposto de Henrique. Era calmo, dependente e se apegava fácil. Odiava ser assim.

Um gemido de seu irmão chamou sua atenção. Chegou mais perto e tocou-lhe a testa. Estava ardendo em febre e delirando. O médico dissera que os muitos machucados inflamariam e o faria ter febres constantes até que curassem.

Já ia chamar uma das criadas para cuidá-lo quando o ouviu murmurar:

— Ela... olhos azuis... olhos azuis...


Notas finais
Até mais, pessoal! ♥