As Pérolas Intocáveis de Évora - Livro I
9 Capítulo 8 - Surpresa
Notas iniciais

Adelaide aguardava o médico na poltrona do quarto, quando ouviu o fragor de uma carruagem. Correu até a porta e avistou o Dr. Fontana a descer, junto com um assistente. Mais atrás, vinha o cocheiro.
— Senhorita D’alboquerque! — O médico e o rapaz cumprimentaram-na.
— Que bom vê-lo, doutor Fontana! Acompanhem-me, por favor.
Já no quarto, o médico analisou a situação e constatou que o estado dos acidentados era, de fato, grave. Adelaide informou que um deles não reagira desde a chegada, mas o outro conseguira abrir os olhos por instantes.
Adelaide achou intrigante a reação do Dr. Fontana quando este passou os olhos para o rapaz e voltou-se para ele, novamente, franzindo a testa.
— Mas este... — falou, analisando o rosto do moribundo.
— Algo errado, doutor? — perguntou, preocupada.
— Este cavalheiro é o primogênito dos Lamartine!
Adelaide olhou estarrecida para o médico e depois para o rapaz. Sentiu um desconforto. Aquele cavalheiro pertencia à família rival, que o seu pai lhes ensinara a vida toda a odiar. Curioso como o destino cruzava os seus caminhos
O médico ficou por mais algum tempo a avaliar os dois pacientes e a conversar com o seu assistente. A moça ainda digeria a informação sobre o rapaz que há pouco lhe segurara a mão e agora mal queria olhar para ele.
Assistiu, em silêncio, os homens serem levados para a carruagem.
— Senhorita, pretende retornar à fazenda? — O cocheiro quis saber, tirando-a dos seus devaneios.
— Apenas amanhã, senhor Vasco. Hoje foi um dia cansativo; poupemos energia. Descanse também; retornaremos pela tarde, está bem?
— Como quiser, senhorita. Se precisar é só chamar — despediu com um cumprimento cortês.
Ela sentou-se na poltrona da pequena sala e pôs-se a refletir. Suspirou profundamente, várias vezes. Os seus pensamentos estavam desordenados; era demasiado para a mente processar. Ela salvara e cuidara de um Lamartine. Que ironia!
Logo chegaram o senhor e a senhora Magalhães, os caseiros. Adelaide contara a eles o ocorrido, mas ocultara a identidade do rapaz. O casal ficara horrorizado com tal acontecimento. A senhora Magalhães preparou-lhe um banho e enquanto ajudava a moça a se lavar e a se vestir, contava histórias, sem interrupções, sobre estradas perigosas e carruagens velhas e sem manutenção. Adelaide apenas murmurava qualquer coisa, mas sua mente vagava.
Demorou a dormir. Apesar de cansada, ainda pensava naquele rapaz, no quanto estava machucado e se sobreviveria. Não queria preocupar-se; ele era o inimigo, mas ainda assim...
Antes que o sono a tomasse por completo, pediu a Deus que a ajudasse, novamente, com todas as suas responsabilidades, inquietações e conflitos que ninguém podia entender. Temia muitas coisas naquele momento, e a maior delas era a sorte das irmãs.
~~*~~
— Didila, vou ao roseiral colher umas rosas para os vasos, não me demoro — avisou Emília.
— Sim, vá minha menina.
Emília correu, ansiosa por encontrar Frederico. Não sabia a qual passagem ele se referia, mas deveria ser próxima às limitações da fazenda. Sentou-se numa grande pedra que se encontrava por ali e o aguardou. Mal se sentou, ouviu um barulho de passos quebrando o capim seco.
Levantou-se lentamente e olhou, alarmada; então viu aparecer entre os arbustos o rosto do seu amado, com um sorriso encantador.
— Fred... — E correu para abraçá-lo.
Aconchegaram-se no abraço por alguns segundos, sentindo a realidade a acusá-los de não poderem assumir-se. Talvez nunca pudessem.
Os gêmeos passavam horas idealizando possibilidades para acabar, ou ao menos amenizar, a rivalidade entre as famílias e aceitarem a união dos casais, mas, realmente, isso era muito difícil.
— Ah Emília, não sabes quanta saudades senti de ti — disse, beijando com suavidade as mãos da amada.
— Eu também. Sinto-me feliz e triste a um só tempo... não podemos nos esconder para sempre, Fred...
Eu sei. Já pensei em inúmeras formas de... — Olhou para ela. — Você fugiria comigo, Emília? Mesmo que isso significasse nunca mais ver sua família?
Ela abaixou a cabeça.
— Eu gostaria que não precisasse chegar a isso... mas olha, tenho uma novidade para lhe contar — quis fugir do assunto, por ora. — Papai permitiu, por um milagre, que participemos do Baile de Outono.
— Como? O que o fez mudar de ideia repentinamente? Isso é...
— Estranho? — A moça sorriu. — As “Pérolas de Évora” serão vistas pela primeira vez juntas num baile — brincou com o nome que lhes fora dado.
— Sim. Não deixa de ser curioso tal mudança de atitude — insistiu, pensativo
— De fato, não sei o que deu em papai, mas não o questionamos, afinal, essa é uma oportunidade única para nós. Fico a pensar se o pai estará a mudar... talvez não queira ser rude e apenas sinta falta da mãe e não saiba lidar com os seus sentimentos.
Frederico, então, lembrou-se da cena em sua casa, anos atrás, quando o advogado chegou a dizer a seu pai que ele havia perdido a herança da família. Viu as condições em que ele ficou e como se entregara ao desgosto depois daquele dia. Não! O Barão era, definitivamente, um homem cruel e sem escrúpulos; não havia mudança para ele. Ainda assim, não poderia expor isso a ela. Não agora.
— Fred — a voz dela cortou o silêncio —, como sabia da passagem entre o roseiral?
— Bem, digamos que andei sondando o local e recebi ajuda para cortar alguns galhos da cerca — riram da situação.
— A propósito, diga à sua irmã para não ir à livraria amanhã se encontrar com Pedro. Ele virá aqui no roseiral. O senhor Silva nos alertou a respeito de um cavalheiro fazendo perguntas sobre a frequência das senhoritas lá.
— Oh meu Deus! Deve ser Diogo. Será que suspeitas de algo?
— Ele não entrou em detalhes, mas achou por bem não nos encontrarmos mais lá — disse a puxando para outro abraço.
O barulho de uma carruagem a chegar apressadamente alertou-os
— Céus! Será papai? — Emília se sobressaltou.
Mas logo reconheceu a voz de Vasco chamando por D. Hilda. Achou estranho; mesmo a certa distância, percebeu-o preocupado. Fizeram silêncio para escutá-lo.
— D. Hilda, aconteceu um acidente na estrada que leva ao Chalé. A senhorita Adelaide pediu para avisá-la. Ao que tudo indica, a carruagem perdeu o controle e há dois cavalheiros feridos aos cuidados dela — explicou o cocheiro, apressado.
— Oh Cristo! Vou pedir Amadeu para chamar o Dr. Fontana. O senhor me acompanhe. Pobrezinha da Adelaide! Deve estar muito assustada — lamentou D. Hilda.
— Fred, que coisa terrível! E minha irmã está lá, sozinha!
— Acalme-se, sua irmã saberá o que fazer e o médico logo estará lá.
Ela concordou, ainda duvidosa.
— Torço para que sobrevivam. Acidentes de carruagem tendem a ser desastrosos e quase sempre... — constatou pensativo. — Devo ir, querida; vou sondar a situação e verificar quem são os cavalheiros acidentados.
— Está bem. Quando voltarás?
— Em breve. Enviar-lhe-ei uma carta, mas não se preocupe, serei cauteloso — disse, detectando preocupação nos olhos dela.
Então, selou os lábios da amada e partiu intrigado.
~~*~~
A Viscondessa estava sentada na escrivaninha junto a janela de uma de suas salas de chá, escrevendo uma carta à sua estimada amiga Pilar Diaz Castel. Há muito não se viam. A família Diaz Castel residia em Beja e era uma das famílias mais influentes da região do Alentejo. Seus eventos sempre eram muito comentados, uma vez que estava sempre promovendo temporadas em sua casa de campo e oferecendo jantares e saraus.
Demétria era a jovem filha de sua amiga. Bem nascida, linda e muito inteligente, além de caridosa, ajudando os órfãos e doentes do Convento do Desterro. Possuía todos os atributos para ser uma boa esposa. Por vezes, fizera os seus filhos participarem dos eventos com o intuito de lhes despertarem o interesse, contudo, nenhum deles demonstrava ânimo o bastante para firmarem compromisso.
Isso era inaceitável. Seus filhos já estavam ultrapassando os limites da idade e precisavam desposar uma dama o mais rápido possível. Henrique já tinha seus vinte e nove anos; os gêmeos, vinte e seis e Afonso, vinte e um.
Genitora de belos filhos, a senhora Alcântara Lamartine sempre pensara que não seria difícil que eles se casassem de pronto, já que as mães investiam pesado na "produção" das suas filhas e em excessivos elogios quando um Lamartine estava por perto. Não era falta de opções!
E o pior veio depois, quando soube que dois de seus filhos se enamoraram pelas D’alboquerque; seu coração se apertou. Não queria que seus filhos sofressem, não queria que eles se envolvessem com as filhas do homem que os roubara e quase matara seu marido. Além do mais, tinha algo no passado que envolvia o Visconde e a falecida Baronesa...
Enfim, já estava decidido! Pedro ou Frederico se casaria sim, com Demétria Diaz Castel e isso era um gosto para as duas famílias.
Eleonor estava empenhadíssima em fazer com que os seus planos dessem certo e escrevia para Pilar contando sobre esse repentino interesse dos filhos pelo inimigo a fim de tomarem as devidas providências.
Quanto a Henrique, não sabia mais o que fazer; ele não se entregaria a um casamento tão cedo. Era o braço direito do pai nos negócios da família e isso parecia suficiente para ele; a mãe precisava apressar o passo, ou a família Lamartine terminaria com quatro solteirões. Isto não estava certo!
Afonso ainda era jovem e, em seu coração de mãe, acreditava que não lhe daria tanto trabalho quanto os seus irmãos.
— Meu Deus! Nunca imaginei que ser mãe de homens seria tão difícil! — suspirou Eleonor, olhando pela janela.
Uma carruagem a aproximar-se chamou-lhe a atenção, mas não conseguiu identificá-la. Estranhou.
Desceu as escadas e foi ao encontro da visita inesperada e, ao ver o Dr. Ernesto Fontana, o seu coração acelerou. Ele nunca vinha por motivos fúteis. E os seus instintos estavam certos quando o médico falou sobre Henrique e Xavier.
— Meu filho! Meu filho! O que aconteceu com você? — chorava em desespero, a alisar o rosto do filho desacordado.
— Acalme-se, senhora... — A governanta dizia tentando tirá-la de cima do filho. — Precisa se sentar. Venha comigo.
Os assistentes do médico instalaram os acidentados em seus respectivos quartos.
Elisa veio correndo do quarto ao ouvir os gritos da mãe.
— O que houve, doutor? — perguntou a moça.
Doutor Fontana discorreu sobre como foram socorridos por um cocheiro e uma dama, porém, ocultou os detalhes por saber da divergência entre as famílias. Dissera também que os primeiros cuidados já tinham sido tomados na casa onde eles foram acolhidos.
— Meu Deus! Como isso foi acontecer? — indagou Eleonor, ainda a chorar e agora amparada pela filha.
— Como está o estado deles, doutor? — Elisa quis saber.
— O estado do cocheiro é mais grave. Será preciso que uma pessoa fique constantemente com ele, observando quaisquer mudanças no seu quadro. Já o senhor Henrique, apesar de sobremaneira machucado, acordou por instantes, segundo os relatos da jovem que o cuidou; logo recobrará a consciência. Aguardemos.
— Quem é a tal jovem? Preciso muito agradecê-la. Deus sabe o que poderia ter acontecido se ele permanecesse por mais temponaquela estrada.
— De facto, Viscondessa. Foi Deus quem os mandou. Mas... eu não sei informar sobre a dama em questão — mentiu. — No calor do momento, esquecemos as apresentações. Decerto não reside por estas bandas, pois nunca a vi.
— Ora, mas que pena...
Frederico chegou nesse momento.
— Fred, ah Fred! — chorou a mãe nos braços do filho e Elisa também se aconchegou. — Seu irmão...
Ao ver o estado do irmão, Frederico lembrou-se da conversa que ouvira. Era ele, o acidentado da estrada que o cocheiro mencionara horas antes.
O médico justificou o porquê de não os ter levado diretamente ao hospital. O Visconde não gostaria do alarde que isso indubitavelmente geraria e suas várias teorias. Reforçou as orientações e disse que voltaria todos os dias para ver os feridos. Fred o acompanhou após o Dr. Fontana fazer menção de que gostaria de falar com ele.
— Senhor Lamartine, algo me intriga... as carruagens estavam em perfeitas condições para viagem, não estavam?
— Definitivamente. Papai é demasiado cuidadoso, uma vez que viajamos constantemente. Além do mais, as carruagens são praticamente novas. Por quê?
— Não sou perito, mas, a não ser que as rodas estivessem com defeito, não vejo como ocorrer um acidente dessa magnitude em uma estrada limpa como aquela. Sugiro que verifiquem isso com os responsáveis pela manutenção delas. Eles poderiam ter morrido!
Frederico agradeceu, meditando no que o médico lhe dissera. Pediu para um lacaio enviar uma mensagem ao pai que neste momento estava em Setúbal com Pedro e Afonso. Mas não conseguiu se aquietar. Não era possível que a carruagem estivesse em más condições de uso. Não podia esperar, pediu licença à mãe e foi tirar suas dúvidas.
~~*~~
— Ah meu Deus! Nem acredito que chegou o dia do baile! — gritou Beatrice, empolgada.
— Eu pretendo brilhar esta noite! Quero que os cavalheiros duelem por mim — Joana encenou e Cecília prendeu o riso.
— Joana, se contenha! É um baile e não uma arena — brincou Celeste.
— E por que não? O meu futuro marido pode estar lá hoje me esperando.
— Joana falando de amor? — ironizou Beatrice.
— Quem falou de amor aqui? Eu quero é ser uma dama influente nessa sociedade hipócrita, logo, pretendo me casar com um nobre, querida irmã. Se esse é o destino de nós mulheres, então que seja vantajoso — respondeu, implacável.
Dona Hilda apenas ria delas enquanto bordava. As meninas estavam radiantes de alegria.
— Ai Joana, você tem ideias tão estranhas... Eu quero é me casar por amor. Quero que ele seja carinhoso, fiel, um perfeito cavalheiro! — Beatrice comentou.
— Amor, hum! Isso nunca foi requisito para o casamento e vocês sabem disso. Grande parte já são destinadas desde quando nascem. Eu estou sendo apenas prática.
— No nosso caso, nunca tivemos escolha. Nem fomos prometidas e nem tivemos oportunidade de conhecer cavalheiros, o suficiente, para nos cortejar — emendou Celeste.
— Sim, e quando acontece é um desastre! — Alfinetou Joana, a olhar para Emília e Liana, que até então estavam caladas a analisar os seus vestidos e luvas. — Os Lamartine estarão lá... — concluiu com um risinho.
Nessa hora, a xícara que estava na mão de Adelaide caiu, partindo-se. Ela levantou-se da poltrona, a murmurar algo, pegou os cacos e saiu do quarto. As irmãs se entreolharam curiosas.
— Eu tinha até me esquecido que Adelaide estava aqui. Ela não proferiu uma palavra a respeito do baile.
— Ela está estranha desde o incidente no Chalé... — observou Emília.
— Verdade. Mas bem o podia, foi algo terrível! — comentou Cecília. — Quem eram mesmo os senhores que se acidentaram, Didila?
— Não sei ao certo, apenas viajantes — respondeu com naturalidade, no entanto, pressentia que havia algo mais naquela história.
Adelaide não lhe contara os detalhes daquele dia e esquivara-se das perguntas, mas ao questionar Vasco, este contou que se tratava do cocheiro e do filho mais velho dos Lamartine. Desde então, D. Hilda não falara mais com Adelaide sobre isso, mas conhecendo-a, algo lhe afligia.
As meninas voltaram a tagarelar sobre o baile, então resolveu intervir:
—Vamos, meninas, comecemos os preparativos. Afinal, vocês são sete.
Era preciso pedir que passassem os vestidos, preparassem banhos, separassem sapatos e as fitas dos cabelos, as joias, empoassem cabelos... por Deus! Isso não seria tarefa fácil! Mas nunca estivera tão feliz por elas e rezava para que, ao menos uma vez, o destino lhes sorrisse.
~~*~~
— Olha, Matias, aquele não é Afonso vindo ali? — perguntou Dália ao irmão, aapontar para a frente.
Ele largou o machado e olhou. Era ele mesmo. Seu amigo de longa data, que há algum tempo não via. Foi ao encontro dele com um sorriso no rosto.
— Ainda está vivo? — brincou, abraçando o amigo.
— É verdade. Já faz um bom tempo. O que ele anda a aprontar, Dália?
A menina sorriu e disse:
— Por onde devo começar? — E olhou para o irmão com cara de travessa.
Afonso soltou uma risada enquanto Matias afugentava a irmã para longe, a rir também.
— Vem, vamos entrar. Já terminei por aqui — Matias jogou mais algumas toras de madeira na pilha que se formava.
Caminharam até o casebre e Afonso analisou o interior. Era tudo tão escasso! Apenas alguns tocos para se sentar, um fogão de barro e uma cortina velha que dividia os espaços do ambiente de onde se podiam observar duas camas improvisadas no chão. Como podiam viver daquela maneira? E nos dias frios, como se aqueciam?
Já fazia um bom tempo que não os visitava, devido à faculdade, mas nada melhorara; era a mesma miséria de sempre. Todas as vezes que oferecera ajuda ao amigo, ele não o aceitou. Matias era demasiado orgulhoso para aceitar coisas que não fossem conquistadas pelo seu próprio esforço. Coisas essas que se resumiam a ter o que comer todos os dias e nem sempre as conseguia.
— Sei o que estás pensando e não quero que me diga — falou Matias, com tranquilidade, ao examinar o seu amigo.
Afonso bufou:
— Você é um tosco teimoso, isso sim. Mas eu não vim aqui para discutir, fiquei tempo demais longe do meu amigo para isso. Então, conte-me tudo o que aconteceu na minha ausência — sorriu, sentando-se em um dos tocos de madeira.
— De todas as coisas que aconteceram comigo nesses anos, acho que pelo menos uma me veio trazer algum alento — revelou, um pouco acanhado —, se é que posso chamar assim. Mas não deixe Dália saber; ela é uma língua afiada.
Os dois riram.
— Isso está a cheirar-me a saias. Quem é a moça? Ande, diga-me! — brincou o amigo.
— Ela não é do vilarejo e não sabe que tenho apreço por ela. Não demonstro, é claro. Na verdade, não há nenhuma esperança para mim — confessou.
— Estás apaixonado. Quem diria.
— Sabes bem que eu não tenho tempo para romances, mas Celeste é muito semelhante a mim. É forte, convicta do que quer, gosta de ajudar as pessoas.
— Mas por que dizes que não há esperanças para vocês?
— Ela é uma aristocrata.
— Você e as suas difíceis metas na vida. Havia de se apaixonar por um caso impossível; de outra forma, não seria você, Matias. Ela deve ser diferente, realmente, você odeia aristocratas — acusou e o outro riu.
— De qualquer forma, não há como isso dar certo. Somos de mundos diferentes. Mas tê-la por perto já me basta.
— Inacreditável! Acabo de saber em casa que os meus irmãos Pedro e Fred se apaixonaram por duas das D’alboquerque. Vocês têm espíritos aventureiros demasiado para o meu gosto.
— D’alboquerque?
— Sim. Dá pra acreditar?
— Bem... a moça em questão é também uma D’alboquerque.
— Valha-me Deus! Eu saio por uns tempos da cidade e quando volto todos os homens se apaixonaram pelas D’alboquerque’s? O que aconteceu com vocês?
— Ora, não foi fácil aceitá-la no início, afinal ela é filha do carrasco! Celeste, porém, é uma rebelde. Começou a aparecer no vilarejo às escondidas, e Dália a acobertava. Hoje, ela ajuda-nos com roupas e alimentos, mas acima de tudo, as mulheres e as crianças a ler e a escrever — explicou. — Esse jeito desafiador dela atrai-me muito.
— No fundo, não posso condenar-te, não és o único que tem afeição por mulheres difíceis — desviou o olhar. — Tu sabes que eu não vim aqui somente para ver-te, não sabes? — perguntou, sem ainda encarar o amigo. — Eu preciso saber ao menos como ela está.
Matias suspirou fundo.
Tempos atrás, quando voltaram a ter contato, Afonso se apegara a uma das moças do vilarejo, e foi recíproco. No começo, ela o rejeitara completamente; Irina tivera sempre uma personalidade forte, mas, aos poucos, ao conhecê-lo melhor, os seus sentimentos mudaram, e mesmo compreendendo que sofreria se apaixonasse por ele, deixou-se levar.
No entanto, Afonso teve que ir embora para estudar, deixando a moça com o coração partido, mas não sem a promessa de que voltaria. Afonso cumpria o combinado de escrever-lhe regularmente, e Irina sempre o respondia.
Até que um dia, não houve mais resposta e seu silêncio o surpreendeu. Não sabia o porquê e as tentativas de fazê-la explicar foram em vão. Ficara magoado e quando voltasse, queria entender o porquê de sua desistência.
— Afonso... — começou Matias num tom que não queria continuar.
— Por favor, Matias, eu só quero entender. Eu mereço uma explicação!
O outro continuava com a cabeça baixa.
— Por que ela desistiu de mim, de nós...? Eu prometi a ela que voltaria e enfrentaria o que fosse para ficarmos juntos. Eu estava disposto a me casar com ela. Não consigo entender — falou aborrecido, se levantando.
— Ela não teve escolha, Afonso — Matias disse com pesar.
Afonso olhou para ele atônito e interrogativo ao mesmo tempo.
— O que quer dizer? O que houve com ela? Foi obrigada a se casar? Foi isso?
Matias nada respondeu.
— Diga-me, Matias, eu suportarei! Pode dizer-me!
Matias olhou para aquele que muito considerava. Não tinha como esconder mais. Aquilo o destruiria, mas logo saberia de qualquer maneira.
— Afonso... Irina está morta.
~~*~~
— Oh querida, viemos o mais rápido possível. Mas que horror! — Pilar lamuriou assim que chegou à Casa Lamartine.
— Ah, Pilar... Obrigada por vir — a Viscondessa abraçou a amiga. — Minha querida Demétria, está cada vez mais formosa!
— Obrigada, senhora! Hã… posso falar com Elisa?
— Claro que sim, ela está com o irmão acamado — bateu o sino para chamar a criada, que veio em seguida.
— Lea, leve a senhorita Castel até Elisa, sim?
— Eleonor, mas conte-me, como foi tudo isso? — quis saber a senhora Diaz Castel.
— Ah, Pilar, foi terrível...
Eleonor convidara a amiga e a filha a passarem uns dias em sua casa, pois haveria o baile em Évora e outros compromissos sociais. Precisava de uma amiga por perto nesta hora.
~~*~~
— Oh Céus! Seu irmão está pior do que eu pensava! — Demétria comentou, fazendo uma careta ao vê-lo.
— É... ele está bem mal mesmo — Elisa concordou com tristeza —, mas o Dr. Fontana disse que ele está fora de perigo.
— Que bom. E Pedro? Conte-me como ele está. Mamãe preparará um jantar em breve e seus pais farão o acordo de casamento. Já era hora! Afinal, eu sou uma das mais belas moças do Alentejo, como ele não vê isso? — tagarelou e Elisa pensou que não era momento para esse assunto.
Gostava da amiga, apesar de ela ter um temperamento difícil. Só falava em se casar com seu irmão e sobre joias e vestidos importados que comprava. Elisa sentia falta de conversas mais importantes entre as duas.
— Hã, Demétria... preciso lhe falar.
— O quê? Pedro falou sobre mim?
— Não, não é isso — pontuou com cuidado. — Sabe, Afonso acabou de chegar de viagem e estávamos conversando sobre fazermos visitas naquele convento que você e sua mãe ajudam, o que acha?
A outra não demonstrou muito interesse, mas falou:
— Claro, mas não se animem muito, lá não é um lugar muito agradável e as crianças conseguem ser terríveis quando querem.
— São solitárias, Demétria. Tenho certeza de que gostarei muito. Sinto falta de fazer algo útil, sabe… Podemos chamar Álvaro também — sugeriu.
— Ai, aquele idiota! Eu não o suporto! E continua achando que pode cortejar-me por ser filho de um duque. Só em sonhos!
Elisa deu um sorrisinho tímido. Mantinha uma paixão secreta por Álvaro e sabia que ele nunca olharia para ela. Era louco por Demétria, e só para ela tinha olhos, mesmo que ela o desprezasse.
— Bem, vou para o meu aposento. O baile é daqui a algumas horas e temos que nos preparar. Certamente, o título de a mais bela será meu, outra vez — deu uma risadinha. — Ah, e vou dar-lhe um conselho de amiga! Não use verde, não fica bem em você. Deveria escolher melhor seus vestidos.
E dizendo isso, saiu do quarto deixando Elisa apenas com um suspiro vencido.
~~*~~
— As carruagens estão prontas, senhor — avisou o mordomo do Barão.
Ele apenas acenou com a cabeça. Seu humor não estava dos melhores, sobretudo para participar de um baile. Mas o anfitrião era seu amigo e grandes nobres estariam presentes.
Não gostara nem um pouco de ter que aparecer com suas filhas de maneira tão explícita. Os caça-dotes e curiosos não perderiam tempo.
O dia em que decidisse casá-las seria com grandes propósitos. Elas eram cobiçadas e lindas, e o fato de mantê-las escondidas era a estratégia perfeita para fazer delas armas poderosas e atrair grandes propostas. Mas teve que reconhecer que o baile seria uma ocasião para despertar mais interesse.
Era certo que já tinha alguns planos em mente e outras vantajosas ofertas viriam, com toda certeza. Teria que ser, no mínimo, um negócio lucrativo.
— D. Hilda, chamem-nas! — ordenou.
— Sim, senhor.
O Grande Baile de Outono era o evento mais esperado de Évora e, apesar de ser promovido para um círculo muito exclusivo, a concentração de pessoas era grande; as famílias mais respeitadas de toda a região do Alentejo marcavam presença anualmente.
Segundo rumores, até apostas eram feitas sobre possíveis pares que se formariam no baile. Outra característica evidente deste dia — e atributo específico das damas — era a fofoca. Os melhores e piores vestidos eram avaliados e julgados ali, assim como os melhores partidos, as damas mais belas, e as não tão belas assim, as preferidas para as danças e aquelas que tomavam “chá de cadeira”.
O salão da Casa Gomes de Carvalhal era imenso. As paredes eram em tons pastéis com detalhes em dourado; grandes e belíssimos candelabros decoravam todo o salão, como também, esplêndidos lustres no teto. As janelas ladeavam fora a fora, com seus formatos arredondados na parte superior e os grandes portais de madeira trabalhada. As cortinas, nas cores bordô e dourado, davam o toque final do bom gosto. Para embelezar ainda mais o ambiente, todo o salão era decorado com tulipas, narcisos e jacintos, além de folhagens.
— Dom Lamartine! Que prazer revê-lo! — O Duque o cumprimentou com um largo sorriso, ao lado de sua esposa, a Duquesa Maria Ermínia.
— Dom Carvalhal — cumprimentou, polidamente.
— O prazer é nosso, senhores duques; mais uma vez, agradecemos o convite — Eleonor falou e a Duquesa tomou a palavra:
— Dona Eleonor, querida, soubemos dos últimos acontecimentos com seu filho. Mas que infortúnio! Espero que sua recuperação esteja indo bem.
— Está sim, obrigada. Foi uma tragédia, de fato, mas ainda bem que não aconteceu o pior.
— Os Lamartine estão em número reduzido esta noite, porém, não menos representados — brincou o Carvalhal.
— É verdade. Vieram apenas Pedro, Frederico e nossa filha Elisa. Afonso preferiu ficar para cuidar de seu irmão — justificou a Viscondessa. — Eles estão... — olhou em volta — Ah, vejam, conversando com o vosso sobrinho e Elisa está com a senhorita Diaz Castel.
— Espero que seus filhos se interessem por alguma jovem dessa vez, Dona Eleonor — comentou o Duque —, até porque teremos novos convidados hoje e é sempre bom para os jovens conhecerem novas opções. — E deu um sorrisinho malicioso, quase imperceptível.
— Ah, é mesmo? E quem são os novos convidados?
— Ora aquele patif... — resmungou Maurice ao ver o Barão entrando no salão e Eleonor acompanhou o olhar dele.
— Meu senhor — sussurrou a esposa —, mantenha a compostura.
Nessa hora, ouviu-se por todo o salão, um burburinho que foi ficando cada vez mais audível. Sons de exclamação no ar e todos olhando na mesma direção, pasmados.
Atrás do Barão, uma a uma, enfileirando-se, foram surgindo suas filhas. Belíssimas, elegantes e graciosas. Eram as pérolas intocáveis dando o ar de sua graça, pela primeira vez, na sociedade eborense.
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