As Pérolas Intocáveis de Évora - Livro I
6 Capítulo 5 - Sem Esperanças
Notas iniciais

Pedro A. Lamartine
O Visconde Lamartine saiu da mesa de jantar e chamou os filhos ao escritório. Pedro e Frederico sabiam que não seria uma conversa fácil e que poderiam sofrer as consequências por desafiarem o pai, pois ele veria isso como uma afronta, uma desonra à família.
Todos estavam no escritório, inclusive Henrique que estava a par de tudo. Por serem tão unidos, decidiram enfrentar juntos a situação.
“Vocês só podem estar loucos!” — gritou o irmão mais velho na ocasião da conversa — “com tantas mulheres em Évora, vocês tinham que se afeiçoar a essas, essas...” — cuspia as palavras.
“Henrique, elas não são assim, acredite em nós! — defendeu Frederico — Não estamos pedindo que interceda por nós, mas que esteja ao menos presente na conversa que teremos com papai. Você é nosso irmão e não temos segredos uns com os outros.”
“Ele vai matá-los!”— disse Henrique.
“Então nesse caso, pediremos para interceder por nós” — finalizou Pedro.
— Então? Estou ouvindo — resmungou o patriarca.
— Meu pai... — começou Pedro, cautelosamente. — Antes de tudo, queremos dizer ao senhor que nada do que vamos contar foi proposital ou com a intenção de desafiá-lo, no entanto... — procurava as palavras certas —, gostaríamos de pedir ao senhor que nos ouvisse com toda a atenção e depois fizesse seu julgamento.
Maurice estreitou os olhos e ajeitou-se na cadeira, a olhar gravemente para cada um dos filhos
— Pois bem, comecem! — Disse seco, acenando com a mão.
Por mais que a postura intimidadora do visconde dificultasse a conversa, os gêmeos contaram ao pai tudo sobre a possível corte, ocultando apenas o detalhe principal: a identidade das donzelas.
— E os senhores estão me pedindo permissão para cortejarem as moças? — indagou o velho olhando com desdém para os filhos. — E por acaso vocês são homens ou sacos de batatas? Ora vejam! Vocês têm idade suficiente para fazerem suas próprias escolhas e desposarem quem quiser, desde que sejam moças que não irão macular o nome da família, obviamente.
— Garantimos ao senhor que são damas honradas e bem-educadas. — Frederico tomou a palavra.
— Então, onde está o problema? Não vão dizer-me que desonraram as moças e agora têm que se casar? — questionou nervoso.
— Claro que não, meu pai! — respondeu Pedro, apressado.
— Então, meus caros, não vejo onde querem chegar, pois não estou vendo quaisquer dificuldades aqui. A não ser que... — o velho olhou duramente para os filhos e perguntou com um misto de raiva e temor na voz:
— Quem são as damas? Pertencem a qual família? — foi mais uma imposição do que uma pergunta.
Frederico engoliu seco e demorou alguns segundos para responder:
— Vasquez D’alboquerque, meu pai.
O soco que o visconde desferiu na mesa de carvalho foi tão sonoro que os assustou. Ele se levantou com tanta raiva nos olhos e mãos em punho que tiveram certeza de que seriam enforcados.
— Acalme-se meu pai! — Pediu Henrique tentando evitar o inevitável.
O homem raivoso olhou para Frederico e Pedro e vociferou:
— Por acaso vocês são idiotas?
— Não, senhor — respondeu os dois.
— Então me respondam agora! O que vocês ouviram na mesa quando eu repreendi a irmã de vocês? — Os gritos já ecoavam pela casa.
— Que o senhor não permitiria nenhum tipo de vínculo com a família D’alboquerque — respondeu prontamente, Fred.
— Alguma dúvidaquanto a isso? Se os senhores tivessem um mínimo de amor próprio não me chamariam para uma conversa dessas. O que pensaram? Que eu iria abraçá-los e parabenizá-los por tamanha desonra? Com tantas moças na cidade, vocês tinham que se interessar pelas filhas daquele canalha?
Os berros eram tão altos que não espantariam se, no outro dia, o jornal da cidade noticiasse o acontecimento do ano: “Tragédia: os irmãos Lamartine se apaixonam pelas irmãs D’alboquerque!”.
— O que eu fiz a vocês para merecer isso? Como podem me trair desta forma? — estava indignado.
— Pai, nós não escolhemos isso! Não foi intencional, entenda! — tentou argumentar, Frederico.
— Não? Não foi intencional? Então porque se permitiram encontrar mais de uma vez com elas? Por que não deram um fim nisso antes de se apegarem? Não vejo como isso pode ser menos proposital. Vocês sabiam quem elas eram.
Eles nada disseram. O pai continuou:
— Digo uma coisa a vocês dois e espero que guardem bem as minhas palavras. Prefiro vê-los mortos a formar laços com as filhas daquele patife!
E Maurice saiu do escritório deixando os filhos arrasados. Henrique passou pelos irmãos, sério, e nada disse. Queria entendê-los, porém, naquelas circunstâncias era impossível. Ele mantinha acesa a chama do ódio por aquela família, assim como o pai.
Frederico subiu apressadamente para o quarto. Pedro continuou olhando para o nada dentro do escritório, tentando digerir as palavras do pai. Era uma reação esperada, mas, tinham esperanças de haver uma saída.
Foi se refugiar em seu aposento, sentado na mesinha de chá, abaixo da janela e olhando para fora. Um tempo depois, ouviu uma batida na porta.
— Pedro, sou eu, Elisa. Posso entrar?
— Entre.
Ao ouvir os gritos no escritório, soube parte da conversa, logo depois, passou pelo aposento de Frederico e lhe ofereceu um chá. Ele não aceitou, então, o abraçou com carinho. Mas seu coração doía mesmo era por causa de Pedro; ele era quem lhe segredava os planos para a vida, os desejos do seu coração inquieto. Ela era uma romântica e ver seu irmão sofrer daquela forma doía muito.
Aproximou-se silenciosamente e o abraçou. Afagou os seus cabelos por longos minutos. Não havia muito que fazer naquela situação, apenas esperar e torcer para que os irmãos desistissem da aventura amorosa e evitar mais conflitos entre as famílias rivais.
~~*~~
— Afonso, meu filho, que saudades! — disse Eleonor agarrando-se ao filho que acabara de entrar na sala com suas bagagens.
Elisa também veio correndo receber o irmão.
— Eu também estava com muitas saudades das minhas mulheres preferidas — disse Afonso afavelmente.
— Sei bem — respondeu Elisa. — Isso seria verdade se não tivesse se enamorando com damas por aí.
— Elisa! — ralhou a mãe. — Essas não são palavras adequadas para uma jovem virtuosa! Onde já se viu?!
— Ora mamãe! Eu sou um jovem bem informada. Tenho irmãos mais velhos e não sou surda — respondeu a moça, despreocupada.
O irmão riu com a declaração da irmã e com a cara de espanto da mãe.
— Eu dou minha palavra, querida irmã, que vocês duas são o bem mais precioso que tenho, além disso, vocês me conhecem, não faço o tipo aventureiro e galanteador como Henrique — respondeu o mais novo dos irmãos enquanto acompanhava a mãe e a irmã até o sofá da sala.
— Me conta as novidades, filho.
— Bem, meu curso terminou e posso dizer que essa será a maior temporada que passarei em casa. Devo ajudar Frederico com o armazenamento e transporte da cortiça, como papai me informou por carta, e... — Fez uma pausa — pretendo rever velhos amigos.
A mãe se preocupou, pois sabia a quem o filho se referia.
— Filho, peço-te! Deixe de lado certas amizades, não vão lhe fazer bem. Se seu pai descobre... não quero nem pensar nisso!
— Mamãe — interveio Elisa —, não vejo nada de errado na amizade de Afonso com Matias. As pessoas do vilarejo são pessoas honestas; são trabalhadores que lutam para sobreviver.
— As coisas são da forma que são, filha, e não vão mudar! As pessoas nunca aceitarão ou entenderão a amizade de Afonso com um operário! — retrucou a viscondessa.
— Minha mãe — disse o filho com suavidade pegando a mão dela —, eu tomarei cuidado, prometo, mas não vou abandonar as pessoas que tenho apreço por conta de uma disparidade social. Tenho consciência de que a sociedade se escandaliza, mas tenho Matias como um irmão e vou continuar ajudando-o no que for preciso. Ele e aquele povo já sofrem demasiado nessa vida.
— Está bem — considerou a mãe dando leves tapinhas na mão do filho. — Só quero que tome cuidado, filho, mas aprecio seu bom coração. Aliás, só tenho a agradecer a Deus pelos filhos que tenho — e sorriu.
— Até mesmo Henrique? — brincou Elisa e Afonso riu abertamente.
— Oras! Não fale de seu irmão desta maneira! — Eleonor disse com um meio sorriso, mas fingindo estar brava. — Ele pode ter o gênio do pai de vocês, mas no fundo, é um homem de bem.
— Sabemos disso, mamãe — Afonso concordou, divertido. — Bem, agora quero saber as novidades por aqui. Você se encarregará disso, senhorita Elisa? — perguntou, ao se levantar do sofá e puxar a irmã pela mão.
— Certamente. E acredite, elas são surpreendentes...
~~*~~
— Então, quer dizer que Pedro e Fred se apaixonaram por duas irmãs D’alboquerque’s? Céus! Imagino como papai reagiu.
— Sim, ele ficou furioso, Afonso! E eu de coração partido por nossos irmãos. Eles não têm culpa se o destino quis assim.
— Sim, essas guerras sociais são sempre árduas. Veja Matias e eu, crescemos juntos quando sua família ainda trabalhava nos montados de papai. Eu ia lá com Henrique e brincávamos ou ficávamos horas conversando. Até que um dia papai descobriu, se alterou e os levou para longe. Na época, não tinha muito o que se fazer, então, tempos depois eu soube que a família tivera de trabalhar para o carrasco do barão.
— Eu não sabia que a história tinha sido assim... — comentou Elisa e o irmão afirmou anuiu.
— Mas depois que seus pais morreram, nos aproximamos novamente e desde então sinto que tenho uma dívida com ele, sabe, por terem tido um destino tão infeliz. Se nosso pai não tivesse os mandado embora da fazenda por minha culpa, talvez tivessem uma sorte melhor — confessou com tristeza.
— Oh meu irmão! — disse Elisa segurando o rosto dele fazendo-o olhar para ela — A culpa não foi sua! Como podes pensar assim? Vocês eram apenas crianças...
— Mas eu não fui cuidadoso o suficiente, Elisa. Descobriram nossa amizade e ele e sua família foram jogados na rua, sofrendo as consequências por minha causa.
— Afonso... lamentavelmente vivemos em um mundo desleal. Ele sofreria da mesma forma, entendes? Mas veja o lado bom, estou certa de que Matias não o vê como culpado, ele tem essa consciência e tem em ti, grande apreço.
Afonso olhou a irmã atentamente e disse:
— Às vezes nem parece que tens apenas dezoito anos.
Ela sorriu.
— Só digo o que estás em meu coração e quero que me prometa algo.
— O que quiseres.
— Quero que me leves com você quando fores visitar o vilarejo.
— Elisa, não sei se devo...
— Afonso, eu lhe imploro! Eu preciso fazer alguma coisa útil na vida! Não quero ser como minhas amigas que só pensam em vestidos, bailes e casamentos. Você me conhece, sabes que não sou assim — reclamou a irmã. — Aliás, Demétria falou-me que aquelas pessoas sofrem muito nas mãos de ferro do barão. Ela ouve muitas conversas entre seu pai e o Duque de Carvalhal.
— Bom. Vamos ver o que pode ser feito. Mas não lhe prometo nada. Essas visitas são perigosas e podem atrapalhar os negócios do nosso papai. Não queremos isso, certo? — A irmã concordou com a cabeça e Afonso continuou — Além disso, isso pode comprometer sua reputação. Não quero que minha irmã fique mal falada por estar se comportando como uma rebelde e isso pode lhe custar o arranjo de um bom casamento.
Elisa apresentou semblante desanimado.
— O que se passa, hã? — apertou a ponta do nariz da irmã.
— Não é nada, não se preocupe.
A verdade é que Afonso não sabia que o coração da irmã já palpitava por alguém, mas esse alguém era um sonho distante demais para ser alcançado.
— Acredito que são os famosos irmãos Lamartine chegando — avisou Elisa ao ouvir o som de uma carruagem e agradecendo por se esquivar do irmão de mais perguntas.
Afonso levantou-se e afastou a cortina. Eram mesmo seus irmãos chegando com seu pai. Alegrou-se. Era bom estar em casa novamente. Tinham seus problemas, mas se amavam no fim das contas.
— Vem, vamos! Eles ficarão surpresos com sua chegada — Elisa saiu puxando o irmão porta afora.
~~*~~
— Quem é você e o que faz aqui? — Perguntou Matias.
— Hã... desculpe, eu não quis atrapalhar, só estava observando — disse a moça.
— Matias, ela é minha amiga! — defendeu Dália.
Ele a analisou com uma carranca. Com certeza era uma aristocrata, mas era ainda assim linda. Observou seus cabelos cor de ébano e olhos, também escuros. O que ela queria ali? Por que estava ali? Certamente uma espiã para fazer seu povo sofrer ainda mais, pensou ele.
— Não queremos você aqui! Volte para seu mundo e deixe-nos em paz! — respondeu com brusquidão e saiu pisando firme.
A moça, no entanto, não se importou. Sabia o que queria e nada e ninguém a faria desistir. Virou-se para a menina ao seu lado e disse decidida:
— Não se preocupe, Dália, eu volto!
Subiu em seu cavalo e cavalgou de volta para casa.
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