As Pérolas Intocáveis de Évora - Livro I
7 Capítulo 6 - Destinos
Notas iniciais

Rui D’alboquerque precisava com urgência arquitetar um plano para atrapalhar os negócios do Lamartine e chamou os seus assistentes para uma reunião.
— Como andam os acordos com os trabalhadores de Portalegre, Diogo?
— Senhor, os donos das terras estão inclinados a fechar negócio com o visconde, por mais que aumentamos a oferta.
— Malditos! — resmungou. — E os filhos do imprestável?
— Em Portalegre, seu filho Henrique, está à frente das negociações. Os outros estão em Beja, fechando contratos e nos montados de cortiça.
— Sei. Diga-me Diogo, já resolveu o assunto das carruagens?
— Sim senhor, já está tudo preparado. Os Lamartine terão uma surpresa na próxima viagem — informou o moço, com um sorriso malicioso.
Uma sabotagem havia sido planejada, pagando uma quantia considerável a um lacaio da família rival. — Ótimo... Se é para vencer, temos de usar todas as armas, não é mesmo?
— Certamente, senhor.
Horas mais tarde, o D’alboquerque estava sentado no gabinete do seu aliado, o Duque de Carvalhal.
— Sabe, Rui, o que o senhor me pedes é algo sobremaneira sério. Aliás, coisas desse tipo costumam ter um preço — disse o Duque Carvalhal.
— Oras, não me venha com ameaças! Se o senhor consegue, hoje, manipular o povo com esse jornaleco, foi graças à minha ajuda — rebateu.
— Sei bem, porém, preciso manter a boa fama para continuar servindo a sociedade. São apenas troca de favores e sei que o senhor ainda vai precisar muito de mim. Vejamos, o senhor quer que eu espalhe uma informação falsa através do O Semanário difamando os trabalhadores dos montados em nome do Visconde Lamartine, é isso?
— Isso. Deixando a entender que o seu único objetivo com a compra das terras é aumentar sua riqueza numa tentativa de me desbancar socialmente. Assim, aquelas criaturas não pensarão duas vezes antes de vendê-las a mim. Se há uma coisa que o povo não suporta é a ascensão da burguesia enquanto eles vivem na miséria.
— Estás certo disso? Essa notícia pode repercutir negativamente em todos nós. ara que incitar a ira dos trabalhadores por causa de uma pequena desavença do passado?
— Não é pequena! — refutou o Barão. — Este homem esteve sempre no meu caminho, parece uma pedra no sapato. Preciso destruí-lo, rebaixá-lo, obrigá-lo a sair deste país, derrotado!
— Calma, amigo... A informação estará pronta para circulação logo após o Baile de Outono, que acontecerá em duas semanas.
— Como? O que um maldito baile tem a ver com isso?
— Você precisa de um favor que será bom para seus negócios e eu preciso de um favor que será bom para minha influência. E eu, como o dono do periódico, necessito de uma notícia extraordinária para ganhar ainda mais a confiança e credibilidade do povo eborense e de todo o Alentejo — explicou. — Uma que superará todas as outras; de fato, a que todos esperam.
— Diga logo, homem! O que você quer?
— Quero suas filhas no Baile de Outono. Todas elas! As Sete Pérolas de Évora!
— Só pode estar louco! Nunca permiti que participassem de bailes, nem agora o farei.
— Exatamente por isso que será uma notícia sem igual! E esse é o nosso acordo ou nada feito — determinou.
— Oras, o senhor é um patife! Quer se promover à custa de minhas filhas? Que grande salafrário!
— Não menos que o senhor! Prende-as para que lhes sirvam de armas de poder. Grande estratégia! Pense bem, com mais terras, mais dinheiro e mais poder que Maurice Lamartine. Não é o que quer? — instigou — Então, o que me diz?
Rui olhou-o com raiva, pensou um pouco e respondeu:
— Está bem. Mas será apenas desta vez. Elas não estão disponíveis à caça-dotes, já tenho minhas próprias pretensões.
— Como quiser...
O Barão não sabia, mas os planos do Duque iam além do que uma simples notícia de jornal.
~~*~~
— Adelaide... — chamou D. Hilda batendo levemente na porta do quarto — Estás acordada? Eu lhe trouxe um copo de leite.
— Oh, Didila, obrigada! Você é sempre tão boa para mim — disse se sentando na cama e D. Hilda percebeu seus olhos avermelhados. Havia chorado. A moça bebericou o leite oferecido enquanto a senhora a observava.
— Você é a cópia fiel de sua mãe.
A outra sorriu triste e abaixou a cabeça:
— Está próximo o dia...
Dona Hilda sabia do que se tratava. Sempre que estava próximo o aniversário de passamento da mãe, Adelaide ficava amuada, deprimida.
— Você quer que eu vá ao Chalé do Lago com você, querida?
— Não precisa Didila. Gosto de ficar um tempo sozinha por lá. Faz bem pra mim — explicou, embora ela soubesse. — Mas peço-lhe que acalente as meninas, não as levarei ao cemitério para não haver tumulto de curiosos conforme as recomendações de papai. Apenas Joana e eu iremos pela manhã.
— Está bem, eu farei. Quero que leves um buquê de rosas brancas por mim. Eram as preferidas dela. Afinal, sua mãe e eu éramos boas amigas apesar de eu ser apenas uma criada — relatou a governanta.
— Sabes que nunca a tratamos como tal — disse Adelaide com carinho. — Você sempre foi mais do que nossa preceptora. É nossa segunda mãe.
— Na verdade, estou mais para avó — caçoou e as duas riram.
Adelaide a abraçou e disse:
— Obrigada por tudo. Por nunca me deixar sozinha. Jamais conseguiria sem você.
E rompeu em choro.
A senhora alisou seus cabelos. Sempre fora o porto seguro das meninas e elas a chamavam de Didila desde a infância. A ela, Adelaide confiava todos os seus segredos e fraquezas quando não podia transparecer a mais ninguém.
— Estarei sempre aqui, minha menina. Até você e suas irmãs serem desposadas.
— Então ficarás conosco para sempre. Não tenho mais idade para casar, Didila, meu tempo passou... nem se houvesse oportunidades, nenhum homem quereria desposar uma mulher de vinte e cinco anos de idade — declarou com tristeza na voz.
— Não perca as esperanças, Adelaide, você é uma das moças mais belas que eu conheci na vida. Algum cavalheiro ainda irá te desposar e não será pelo dote, e sim, por amor.
A moça riu sem humor.
— Meu coração queria acreditar nisso, mas não mais se ilude. Meu pai nunca nos livrará de suas correntes e ele nunca permitirá que nos casemos por amor ou por qualquer outra coisa. Afinal, se fosse assim, já teria feito, mesmo por acordos. Ele não se importa conosco. Somos um peso para ele! — desabafou — Mas minha maior preocupação nesse momento é com Liana e Emília.
— Sobre os Lamartine? — A moça assentiu.
— Papai nos castigará, Didila, todas nós. Mas por outro lado eu me entusiasmo porque... — fez uma pausa — não quero que a esperança cesse para elas como cessou para mim. Elas merecem viver o amor, mas este é impossível.
— Sim, elas merecem, mas o destino foi implacável, não é mesmo? D’alboquerque’s e Lamartine’s? Isso parece história de romances.
— A senhora os conhece?
— Já os vi, mas nunca tive aproximação. Certa vez, precisei levar algumas encomendas a Diogo, assim que retornou da faculdade, então cruzei com eles. Os conheci pelo brasão da carruagem e posso dizer que são belos cavalheiros.
— Sei — pensou um pouco. — Conversei com as meninas e elas estão morrendo de amores por eles. É de dar pena! Elas sofrerão uma grande desilusão ao cair em si e se dar conta de que nunca poderão se casar com eles.
— Bem, deixemos o tempo resolver as coisas. Isso pode ser passageiro. Agora, durma um pouco — D. Hilda deu-lhe um beijo na testa e a ajudou a se ajeitar na cama.
Sentou na beira do leito e a esperou dormir passando a mão pelos seus cabelos. Antes de retirar-se sussurrou:
— Você ainda viverá um grande amor, Adelaide. Não morrerei antes de vê-la desposada por um apaixonado cavalheiro.
E cerrou a porta do quarto.
~~*~~
— Está tudo conforme o combinado, senhor Avelar — disse o lacaio.
— Ótimo, não podemos cometer erros. Esse acidente deve ser certeiro. O Lamartine não pode chegar ao seu destino, entendeu? Você está sendo muito bem pago, portanto, não admito deslizes.
— Pode confiar, senhor, tudo ocorrerá como pediu — respondeu o homem contratado.
— Aqui está a quantia acordada — entregou-lhe um pacote. — E não se esqueça, nunca nos vimos nessa vida. Se abrires a boca, não precisará dela para mais nada a não ser para comer vermes. Cuidarei de ti pessoalmente.
O lacaio engoliu em seco e partiu às pressas.
Diogo deu um sorriso maquiavélico enquanto via o homem se afastar. Tinha experiência em lidar com esse tipo e gostava desse poder sobre as pessoas. Isso devia à convivência com seu protetor, o Barão.
Entrou na carruagem que alugara e dirigiu-se a uma das fábricas de seu patrão. Depois visitaria o vilarejo para verificar o trabalho daquele bando de preguiçosos. Não gostava daquele que se colocava como líder deles, sempre a intrometer-se em suas ordens.
Sorriu com ar de escárnio ao se lembrar de como gostava de desafiá-lo, seduzindo ou forçando algumas moças do vilarejo que ele defendia a todo custo. Não tinham o direito de rejeitá-lo, ele fora colocado como administrador pelo próprio Barão e era dever obedecê-lo.
Odiava Matias e seu jeito petulante. A forma como o enfrentava para defender aquele povo imundo, sempre trazia à tona uma raiva que lhe consumia constantemente.
~~*~~
— Aceita a proposta, senhor Moraes? — perguntou o D’alboquerque.
— Obviamente, senhor Barão! Suas filhas são lindas e qual homem não desejaria desposá-las? — se animou Fernam Andrade de Moraes, o juiz de Évora. Um velho viúvo e oportunista.
O Barão articulava planos para o futuro. Era deveras vantajosa, a parceria entre o Barão e o magistrado. Havia rumores sobre traidores da Coroa portuguesa e ele não podia, de forma alguma, sofrer acusações. Seu título, sua posição e respeito, eram coisas que não poderiam padecer quaisquer manchas. Um magistrado como genro, era o passe livre para que seus crimes fossem encobertos caso ameaçassem vir à tona.
— Só peço que espere o momento certo, senhor Moraes. Estarei em viagem nos próximos dias e há o Baile de Outono, no entanto, enviar-te-ei uma mensagem para fecharmos este acordo em um jantar em minha casa — declarou Rui.
— Aguardarei ansioso, senhor Barão. Quanto aos documentos da comarca de Setúbal, podeis ficar tranquilo: assim que estiverem em minhas mãos, providenciarei que sejam devidamente lavrados e autenticados, de modo que nada possa ser contestado no futuro.
— Fico grato. Entrarei em contato em breve. Passar bem.
~~*~~
— Meninas, não fiquem assim... — disse Joana — irei com Adelaide ao túmulo de mamãe para levarmos as rosas e depois reuniremos na capela para uma homenagem especial a ela, está bem?
— Joana, pintei este desenho para colocar na lápide de mamãe — disse Beatrice.
— Oh, Trice, é lindo! — exclamou Cecília.
— Sim. Uma homenagem nossa a ela.
— Emília, Liana — sussurrou Joana —, verei o que posso fazer quanto ao pedido de irem à cidade. Adelaide anda muito preocupada com essa situação e teme por vocês. Ela está certa! Vocês duas estão se arriscando muito! — falou Joana com firmeza, mas ao ver o rosto de tristeza das irmãs, ponderou — Mas quando ela for para o Chalé do Lago, darei meu jeito — e finalizou com uma piscadinha cúmplice.
Liana e Emília abriram um sorriso alegre e abraçaram a irmã.
Adelaide entrou na sala:
— Vamos, Joana, já se faz tarde.
Entraram na carruagem para cumprirem aquela atividade angustiante, entretanto, jamais faziam por obrigação. Nem mesmo o tempo aplacara a dor da falta que ela fazia. Chegando à necrópole, Adelaide sentiu-se mal.
— Adelaide, você está bem? — preocupou-se Joana quando a irmã cambaleou colocando as mãos sobre a cabeça.
— Estou um pouco tonta. Não tomei o desjejum, é isso.
— São as fortes emoções. Você sempre fica assim quando visita o túmulo de mamãe. E segurou o braço da irmã para ajudá-la a caminhar.
Enquanto se dirigiam para o mausoléu, percebeu que havia um homem parado com as mãos no bolso, olhando fixamente o jazigo daquela que fora a Baronesa.
Elas pararam e ficaram, a certa distância, observando. Aquilo era muito estranho. Um rapaz que parecia ser o lacaio as viu. Em seguida, se aproximou do senhor, que revelava já certa idade devido aos cabelos grisalhos, e disse-lhe:
— Senhor Visconde.
O homem apenas balançou a cabeça e as moças espantaram-se quando ouviram de quem se tratava. Por que o Visconde Lamartine estaria olhando o túmulo de vossa mãe? Então ele se afastou acompanhado pelo lacaio, ao passo que, elas voltaram a caminhar rumo ao local. Quando o homem cruzou com elas e olhou diretamente para Adelaide, paralisou. Não conseguiu tirar os olhos da moça, aterrado.
Ao cair em si, retomou sua caminhada, agora mais apressada, e entrou na carruagem, deixando as irmãs intrigadas com o que havia acontecido ali.
~~*~~
A réplica da mensagem que Liana havia enviando a Pedro, logo chegou, e com ajuda de seu lacaio de confiança, Amadeu, ela voltou à livraria, mais uma vez.
Era Amadeu, agora, quem fazia as intermediações entre as irmãs D’alboqueque e os irmãos Lamartine. Apesar de ser questionado, certa vez, por Diogo quando desconfiou de suas constantes saídas, ele conseguiu responder bem às suas indagações.
Mas Avelar era um homem esperto e da alta confiança do Barão. O melhor era esperar mais alguns dias para voltar às comunicações. Todavia, diante do pedido de Liana, o lacaio não pôde recusar. Tinha muito apreço pelas moças e pena por elas viverem trancafiadas, debaixo do jugo do pai.
— Ah, Pedro… nossos pais nunca permitirão que fiquemos juntos — lamentou a jovem, enquanto conversavam na sala reservada da livraria.
— Tem que haver um jeito, Liana. Não vamos desistir — replicou beijando a palma das mãos dela.
— Não vejo saída para nós. A cada dia fica mais difícil nos encontrarmos sem levantar suspeitas. Não quero me separar de ti, Pedro… — O abraçou subitamente.
—Vamos encontrar uma solução. Eu sei que sim. Tenhamos fé. — aconchegou-a, mais ainda, em seus braços.
Tinham certeza do que queriam, mas não do que poderia acontecer a eles, e a cada encontro procuravam eternizar o momento.
Tudo nela inebriava-o. Seu corpo aconchegante, seu cheiro suave. Pedro segurou seu queixo olhando seus olhos caramelos. Os mais belos olhos que já vira em sua vida! Então a beijou com delicadeza, e os beijos foram se tornando intensos.
Ele apertou a cintura dela e a sentiu suspirar. Seus beijos desceram por seu pescoço e ombros. Liana tinha sensações diferentes com ele, das quais nunca havia sentido, e era bom.
Subiu a mão acima da cintura, na altura de suas costelas e apertou novamente. Seu toque era vigoroso e cuidadoso ao mesmo tempo, que despertava nela um anseio inexplicável. A outra mão foi passear pelo joelho e a boca voltou ao seu pescoço. Ele estava sendo tão ousado, mas não conseguia detê-lo, na verdade, não queria. Quando a mão dele subiu sua saia, vagarosamente, e entrou por baixo, acariciando suas coxas, Liana ficou tensa. Sabia que certas intimidades só deveriam ter com o marido, conforme D. Hilda explicou a elas, certa vez.
— Pedro... não devemos...
— Eu sei — sussurrou ele, mas sem parar o que estava fazendo.
Escutaram uma leve batida na porta e os dois se afastaram ofegantes. Provavelmente o Sr. Silva alertando-os sobre a hora. Ele sempre os avisava.
Liana se recompôs ainda muito corada e envergonhada por se deixar levar daquela maneira, no entanto, Pedro a olhava com tanto carinho que ela não resistiu e o beijou novamente.
— Amo-te, minha Liana — declarou.
— Eu também o amo Pedro e quero ser sua esposa.
— E será. Eu prometo.
~~*~~
As irmãs D’alboquerque estavam reunidas na sala esperando o pai sair do escritório com seus assistentes. Ele faria um comunicado e todas aguardavam ansiosas e temerosas, já que não se lembravam de algum episódio em que ele lhes trouxera boas notícias, quando se dirigia a elas, o que não era comum.
Ao surgirem na sala, todas se levantaram e os rapazes fizeram-lhe o cumprimento adequado.
Diogo Avelar, que era um deles, tinha uma atração incontrolável por Beatrice — a loira de cabelos cacheados e olhos esverdeados — e ela não era alheia a esse sentimento, porém, o jovem sabia que o Barão nunca lhe concederia a mão da filha. Diogo não tinha título nem posição de destaque, apesar de ser o administrador de suas fábricas. Além disso, não era um homem de reputação confiável, sempre visto em meio às brigas e esbórnias, ele bem sabia que se o velho ambicioso casasse suas filhas algum dia, seria em troca de grandes vantagens sociais. Ele nada tinha a oferecer.
Ao passarem pelas donzelas, os jovens abaixaram a cabeça, uma vez que sabiam que não deviam admirá-las, pelo menos não na frente do pai. Mas o audacioso Diogo, levantou os olhos ao passar por Beatrice e lhe lançou um sorriso malicioso. A atitude do rapaz a fez corar e desviar os olhos. Ele lhe causava uma sensação esquisita.
— Pois bem — começou o Barão. — O que vou dizer neste momento é algo que só permitirei uma única vez e não quero que me questionem a respeito de minhas ordens ou decisões, entenderam?
— Sim, senhor — responderam em uníssono.
— Como esperado, mais uma vez vocês foram convidadas para o Grande Baile de Outono e, dessa vez, somente dessa vez — reforçou em alto tom —, permitirei que participem.
Totalmente surpresas com a notícia, as garotas comemoram um pouco contidas, mas assim mesmo, a felicidade as tomou por completo. Era algo novo e empolgante e que trazia, pela primeira vez, a sensação de liberdade, saírem do cativeiro em que viviam e se relacionarem com pessoas lá fora.
— Estarão presentes nobres cavalheiros que quererão cortejá-las — continuou o pai —, porém, quem decide o futuro das senhoritas sou eu. Não se pode perder a esperança de fazer bons acordos, mesmo que algumas de vocês estejam velhas demais para se casar — disse olhando para Adelaide e ela abaixou a cabeça, envergonhada.
Não se casara porque nunca tivera uma oportunidade para conhecer cavalheiros, pensou ela, mas em seu íntimo, continuava a ser uma romântica e talvez voltasse a pensar que alguém poderia agradar-lhe.
— A Senhora Hilda e Adelaide encarregar-se-ão das vestimentas de todas vocês. O baile acontecerá em menos de duas semanas e espero que se comportem — direcionou seu olhar para Joana.
— Sim, senhor — todas falaram, mas Joana apenas murmurou.
— Estão dispensadas.
— Hã, papai... — Adelaide chamou — peço-lhe a permissão para ir ao Chalé do Lago. Como o senhor bem sabe, está próxima a data em que...
— Eu sei, senhorita Adelaide — respondeu friamente. — Permito, mas não antes de preparar suas irmãs para o evento.
— Obrigada, papai.
O Chalé do Lago era uma propriedade da família, situado na estrada que levava a Montemor e Setúbal. Era o lugar preferido da Baronesa antes de falecer. Abastado com vários jardins e um vasto campo verde, o chalé era zelosamente cuidado pelos caseiros, um casal de idosos que morava numa casa dentro das imediações da propriedade.
Depois da morte da mãe, Adelaide fez deste lugar o seu refúgio. Era uma forma de mantê-la viva através das lembranças. O Barão só permitia as visitas esporádicas da filha porque ela o havia convencido de que ficaria responsável por manter o lugar predileto da mãe intacto, como ela o deixara. Sabia que era importante para ele de alguma forma e não que se preocupasse com os sentimentos de Adelaide.
Às outras meninas, não era permitido ir tão longe.
Mas agora elas estavam extasiadas. Os sonhos e as possibilidades ousavam nascer, ou renascer, em suas mentes.
— Ah, um baile! Eu sempre quis dançar em um baile com um belo cavalheiro tal qual nos romances! — disse Beatrice, sonhadora.
— Meu Deus! Que cor ficará bem com o meu tom de pele? Celeste exclamou, animada.
— Quanto a mim, iria de preto.
— Joana! — gritaram as irmãs.
— Ora, o que tem demais? Eu apenas aprecio a cor, mas sei que seria inapropriado à ocasião, então irei de vermelho.
— Damas solteiras e decentes não usam vermelho, Joana — lembrou Emília.
— Ora, o que adianta ter tantas cores se não podemos usar as que gostamos? Que se danem essas etiquetas!
— Joana, tenha modos! — ralhou a irmã mais velha. — Irei encomendar fitas e adornos para os cabelos e passarei no ateliê pela manhã para pedir à modista que venha nos atender aqui na fazenda. Não vejo necessidade de irmos todas à cidade e causar alvoroço nessa gente curiosa. Além do mais, papai pediu que fôssemos discretas.
— Emília e eu podemos ir com você, Adelaide? — pediu Liana.
— Por que será...? — cantarolou Joana com um sorrisinho irônico.
— Não sei se devem... — falou Adelaide, oscilante — não quero que encontrem aqueles cavalheiros novamente, isso é muito perigoso. Levarei Cecília dessa vez e vocês se encarregarão dos outros preparativos, ainda temos que encomendar luvas e sapatos.
— Tudo bem — Liana concordou, desanimada.
— Ah, não fique assim, Liana, com certeza você e Emília irão encontrar seus belos cavalheiros no baile — Cecília tagarelou.
Decerto, os irmãos Lamartine estariam presentes. A família era popular. Mas agora era diferente, já que as duas irmãs mantinham, praticamente, um romance escondido.
— Isso pode ser constrangedor — intrigou-se Adelaide e olhou para as meninas.
— Por favor, Adelaide, não leve isso em consideração, senão perderemos nossa única oportunidade — implorou Celeste.
A irmã mais velha sabia o quanto esperaram por um momento desses. Ela mesma desejara tantas vezes participar de um baile. Contudo, o pai deixara bem claro que esta seria a primeira e última vez, tinha o dever de fazer isso dar certo, apesar das inquietações que suas irmãs e os jovens Lamartine, estavam lhe causando.
— Claro que não levarei. Confio no comportamento de todas vocês. Precisamos fazer valer esse dia especial, então tomem cuidado! Agora vamos, se preparem para dormir, amanhã teremos muito que fazer — disse, batendo palma e apressando as irmãs.
Essa noite seria longa para todas elas, tamanha a alegria. Ficariam conversando em voz baixa até altas horas e quando dormissem, sonhariam, certamente.
Mas os anseios eram sobremaneira latentes para Liana e Emília. Veriam novamente, os donos de seus corações e, quem sabe, teriam alguma ajuda do destino.
~~*~~
Adelaide e Cecília chegaram à Praça do Giraldo para fazerem as encomendas. A curiosidade das pessoas era visível quando a carruagem da família chegava ao centro de Évora.
O Barão usualmente usava um cabriolé aberto, mas quando as suas filhas precisavam ir à cidade, exigia que usassem uma carruagem fechada. Quando as mais velhas alcançaram certa idade, ele passou a permitir que uma delas acompanhasse D. Hilda às compras, mas sempre aos pares, e nunca todas juntas.
Ninguém sabia ao certo o porquê de o Barão não apresentar suas filhas à sociedade. Algumas cogitações eram de que ele as guardavam para atiçarem a curiosidade de nobres cavalheiros, e depois, formar alianças promissoras. Outros diziam que sentia vergonha das filhas.
Todavia, as moças D’alboquerque tinham sua própria teoria: seu pai não as amava. A única coisa que expressava era raiva, e o isolamento delas era uma forma de punição por ter tido sete filhas e jamais um herdeiro.
Com seus chapéus de longas abas, as irmãs se preparavam para descer da carruagem.
Não muito longe dali, sentados próximos às janelas de uma casa de chá, dois cavalheiros observavam a chegada de uma carruagem familiar.
— Olha irmão — apontou —, acho que hoje estamos com mais sorte do que o costume. Podem ser elas — disse Pedro, sorridente.
— Gostaria de recebê-las, mas como fazer isso sem causar constrangimento? Hoje não é um dos dias marcados para nos encontrarmos. As línguas afiadas sempre estão a postos — observou. — No entanto...
— No entanto, iremos ao encontro delas mesmo assim — completou o outro já se levantando do seu lugar e deixando o pagamento pelos chás em cima da mesa.
Dirigiram-se até a carruagem e, sem se importar com os olhos espantados por tal atitude, aguardaram as damas para lhes oferecerem a mão e um sorriso encantador. Sorrisos esses que morreram aos poucos quando, por debaixo da aba do chapéu, surgiu outro rosto. Um rosto belíssimo, por sinal, mas desconhecido.
Adelaide olhou para os cavalheiros, desconfiada por estarem parados lá com as mãos estendidas e um pouco encabulados.
— Senhoritas! — cumprimentaram-nas. Perceberam outra dama logo atrás, bem jovem, mas semelhante à outra, tinha cabelos dourados e olhos azuis-celestes.
— Perdoem-nos, pensávamos que fossem outras damas — Pedro explicou.
Adelaide então compreendeu.
— Então, os senhores são os filhos do Visconde Lamartine. — Não perguntou, afirmou.
— Sim, somos — confirmou Frederico. — Mas, por favor, não nos tomem por imprudentes, asseguro que jamais abordamos vossas irmãs desta maneira. Não se repetirá.
— Certamente que não — respondeu Adelaide, firme. — Digam-me senhores, tens noção da gravidade de tal situação? Sejam honestos com minhas irmãs e não levem isso adiante. Meu pai nunca permitirá essa união.
Pedro tomou a palavra:
— Com todo respeito, senhorita, estamos cientes disso. Contudo, não temos a intenção de desistir. Mesmo sem o apoio de nossas famílias, acharemos uma saída favorável para cortejar vossas irmãs.
— Não entenderam, cavalheiros! Não há uma saída favorável quando se trata de nossas famílias. Eu exijo que fiquem longe delas! Com licença.
E saiu com Cecília ao seu encalço olhando com curiosidade os rapazes que estavam perplexos.
— Irmão, temos que admitir, essas D’alboquerque’s têm personalidade, e claro, beleza. — Fred comentou.
— Hã? Desculpe, não ouvi...
— Ora, não vá me dizer que a beleza das irmãs lhe tirou a consciência — brincou rindo e batendo no ombro do irmão.
— São lindas, de fato, mas não se comparam à minha bela e doce Liana — disse, arrancando mais um risinho de chacota do irmão.
~~*~~
Henrique depositava suas malas na carruagem para mais uma viagem de negócios. Ele precisava saber como estavam os ânimos dos trabalhadores a respeito das vendas das terras. Seu pai andava preocupado com as negociações por causa do inescrupuloso rival.
Henrique compartilhava do mesmo ódio pelos D’alboquerque. Para ele não importava que a maioria dos membros daquela família fossem mulheres, “eram farinhas do mesmo saco”, dizia. Sendo criadas por aquele patife, não poderia ser boa coisa. Discordou dos irmãos quando confessaram estar apaixonados por duas delas. Argumentou que não poderiam dar boas esposas e que essas uniões não aconteceriam antes de uma terrível tragédia. Entretanto, os irmãos estavam inflexíveis quanto ao caráter das moças e ao que diziam sentir por elas.
Bando de idiotas apaixonados! Por isso não queria isso para ele. Não tinha pretensão de se prender a mulher alguma. Sua vida sentimental se resumia à atração física, deixando evidente que de sua parte não se devia esperar qualquer compromisso. Não tinha paciência e nem dom para casamento.
Quando era mais jovem e sua mãe o obrigava a participar de bailes, temporadas e jantares, Henrique evitava a todo custo as moças que queriam levá-lo para o altar. Chegava a ser grosseiro deixando a Viscondessa com vontade de virar uma avestruz.
Seu talento era os negócios da família e seu pai se orgulhava disso, afinal, eram parecidíssimos em personalidade. Quando completou vinte e um anos, avisou à mãe que não participaria mais de eventos sociais. Eleonor quase deu um ataque. Seu filho não queria se casar e não lhe daria netos. Com o passar do tempo, ela teve que se conformar e investir em seus outros filhos.
Com a bagagem na carruagem, partiu. Tinha que chegar o quanto antes, já estava há dias sem aparecer nas fazendas de Portalegre, precisava colocar o pai a par de tudo antes que ele sofresse um colapso.
Acomodado, abriu o jornal do dia em busca de notícias de alguma valia para os negócios.
— Diabos! Só vejo porcarias! — resmungou.
Na página principal, estava o anúncio do Grande Baile de Outono que aconteceria em breve:
“O tão esperado Baile de Outono se aproxima. Os mais nobres nomes foram escolhidos para este evento. Mas o que mais se especula é: Quais serão os novos casais que assumirão compromisso nesta temporada? Sabemos que “As Intocadas Pérolas” foram convidadas, como em todos os anos. Mas não se iludam, meus caros leitores, certamente, as tão aguardadas donzelas não darão o ar de sua graça. Será que algum dia darão?”
— Não sei por que dão tanto crédito a essas raparigas — falou consigo. — Aposto que se agradam com a fama que recebem à custa desse jornal de fofocas. São uns idiotas mesmo!
— Disse algo, senhor? — indagou o cocheiro.
— Não é nada, Xavier.
Tirou os olhos do papel e olhou para fora. Ainda estavam longe da estrada principal. Um cochilo cairia bem, depois de umas tragadas em seu cachimbo.
— Xavier, poderia acelerar um pouco o passo? — pediu.
— Certamente, senhor. Contudo, temo que os cavalos se cansem antes de chegarmos ao destino — ponderou o cocheiro.
— Não há de ser problema. Antes ganharmos tempo agora do que nos atrasarmos ao fim. A entrada nos termos sempre nos obriga a lentidão. Aproveitemos, pois, a boa estrada enquanto a temos
— Como desejar, senhor.
E o cocheiro pôs-se a correr com os cavalos. Henrique acendeu seu cachimbo a fim de pensar no que poderia fazer para convencer de vez os agricultores a aceitarem a sua proposta. Nunca tiveram tantos problemas com os trabalhadores como agora, causados pelo assistente do Barão.
Um atípico barulho o tirou de seus pensamentos. Parecia com o de rodas balançando. Achou estranho. Virou-se para questionar o que estava acontecendo, mas neste momento a carruagem tombou para um lado significando a ausência de uma das rodas. Henrique caiu de seu assento e tentou se levantar, mas não houve tempo. Outro estrondo.
O forte golpe do transporte derrapando e pipocando pela estrada, fez com que ele batesse a cabeça várias vezes. Tais movimentos o lançaram para fora do veículo, rolando pelo chão de terra. Não conseguia mexer o corpo e a cabeça latejava. Tentou abrir os olhos, mas não conseguiu mantê-los abertos. A única coisa que conseguiu identificar, antes de desmaiar por completo, foram os cavalos correndo assustados pela estrada, com as rédeas presas a eles.
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