Notas iniciais
"Vaidade e orgulho são coisas diferentes, embora as palavras sejam frequentemente usadas como sinônimos. (...) O orgulho diz respeito mais à opinião que temos de nós próprios, enquanto a vaidade ao que pretendemos que os outros pensem de nós." (Orgulho e Preconceito - Jane Austen) Referência: https://citacoes.in/autores/jane-austen/ ♥ Especialmente para você, Jenny ♥ Boa leitura a todos!

“Faz exatamente uma semana que mais uma linda pérola nasceu. A chamei de Emília. És tão bela quanto as suas irmãs Adelaide, Joana e Liana. Hilda disse que todas se parecem comigo, mesmo sendo tão diferentes umas das outras.

Vi nos olhos de meu marido, outra vez, a decepção por ter nascido mais uma menina. Ele sorri e beija-me a testa, mas por dentro corrói-lhe o desejo de um filho. Eu queria poder dar-lhe um filho, no entanto, Deus tem me agraciado com lindas joias, como posso reclamar? Elas são tudo para mim.”

Diário da Baronesa. 1796.

~~*~~


— Fale, seu infeliz! Há quanto tempo trabalha para o crápula? Vamos, diga! — gritava Henrique ao empregado enquanto o socava.

— Eu... eu... — Oscar tentava falar, mas foi jogado ao chão.

— Acalme-se Henrique, senão o matará antes de confessar. Querendo ou não, precisaremos desse traste! — rezingou o Visconde — Quantos idiotas são?

— Seis, senhor — respondeu um dos integrantes da Guarda.

— Levemos então para o interrogatório — ordenou o Magistrado.

— E os façam falar! — berrou Maurice — Estão todos coligados com aquele infame.

— Sabemos fazer nosso trabalho, senhor Visconde.

— Tenho minhas dúvidas — alfinetou Frederico. — E esperamos que não coloque sua amizade com o Barão acima da justiça.

— Estás ameaçando-me, senhor Lamartine?

— Apenas refrescando sua memória.

O Magistrado tentava transparecer formalidade para não discutir com o jovem, por fim, falou:

— Assim que eu tiver novidades entrarei em contato. Estejam certos de que esses homens pagarão por seus crimes e quem mais estiver por trás disso.

— Assim esperamos. — respondeu Maurice enquanto os guardas colocavam os capangas na carruagem e partiam.

— Eles não pegaram o Avelar. Será que eles os entregarão? — Afonso disse com ar preocupado.

— Não sei filho, mas tenhamos fé de que não ficarão imunes. O Barão sairá do hospital em breve. Precisamos saber de todos os seus passos e de seu capanga. Contratarei homens para segui-los e vigiar a fazenda. É preciso, por causa das moças.

— Ele é capaz de coisas terríveis, precisamos tirá-las de lá o quanto antes — Fred interveio.

— Legalmente não podemos fazê-lo. Só resta-nos fazer com que ele seja preso, exilado ou, de preferência, morto.

~~*~~

— Joana, preciso ir ao vilarejo — Celeste anunciou. — Agora que Adelaide está em melhor estado, gostaria de visitá-los, saber se precisam de algo. Além de esclarecer meu sumiço a Matias...

Joana sorriu. Celeste tinha um grande coração. Sempre altruísta e apesar de tão jovem, tinha seus princípios definidos e, nesse ponto, as duas eram bem parecidas.

Sentiu vontade de conhecer o vilarejo e o trabalho solidário da irmã. Até mesmo Amadeo já conhecia e a ajudava, por que não se envolver? Além disso, tinha planos para convencer os trabalhadores das fábricas de seu pai a se manifestarem por melhores condições de vida.

— Vá, minha irmã, mas tenhas cuidado. Diogo deve estar por aí vigiando nossas saídas para avisar ao Barão. Não sabemos como será nossa situação no dia em que ele voltar — relatou nervosa.

As duas ficaram em pensamentos por alguns segundos.

— Quando isto findará, Jô? Não consigo entender porque ele nos despreza tanto — Celeste suspirou.

— Eu já não quero mais entender. Vou enfrentá-lo enquanto viver e não deixarei que ele nos machuque mais.

— Meninas! — chamou Emília enquanto entrava no quarto de Joana. — Estava eu pensando que, como fomos jantar na Casa dos Lamartine’s poderíamos retribuir...

— O que tem em mente, Mila? — Se interessou Celeste.

— Bem, pensei que poderíamos convidá-los para um jantar aqui em casa também e retribuir a gentileza. O que acham?

— Acho que estás querendo ver um tal loiro de olhos verdes — brincou Joana fazendo a irmã corar.

— Não negarei — confirmou. — Contudo, é uma ótima oportunidade para celebrarmos essa nova aliança, depois de tanto ódio e tragédias.

— De fato. Quem diria que um dia iríamos aliar com a família rival. — Celeste comentou.

— Principalmente com tantas coisas do passado...

— Passado? Refere-se às terras de Setúbal, Emília? — indagou Joana.

— Também... há outras coisas, mas, compartilharei em outra ocasião. Onde está Beatrice?

— Em seu quarto, ainda abalada com o que Diogo lhe fez. Se não fosse por Amadeo ela estaria perdida...

— Não pensemos nesse infortúnio. Não consigo imaginar tal coisa. Diogo não pode ficar impune, temos que avisar à Guarda!

— Poderíamos até fazer isso, Celeste, mas nessa situação, Beatrice ficaria exposta. Por mais que seja injusto, Diogo é influente e seria a palavra dele contra a dela. Quando é que uma mulher é ouvida? — Joana declarou exaltada.

— Isso é tão injusto!

— Eu vou vê-la e depois irei ao vilarejo. Voltarei antes do cair da tarde — informou Celeste.

— Ah, Joana! Antes que eu me esqueça, chegaram dois ramalhetes de rosas. Um para Beatrice, de seu noivo, e outro para você... — Emília estava com um sorrisinho no rosto.

— Para mim? De quem seria? — indagou surpresa.

— De um tal Marquês, talvez... — provocou e a outra corou.

— Estás... corada? — Celeste se admirou. — Veja só, Mila, um cavalheiro que consiga essa façanha, merece um prêmio. Estupendo!

— Ora, parem agora mesmo! — ralhou a mais velha — Ele está apenas sendo gentil depois de algumas conversas proveitosas que tivemos.

— Proveitosas, é? Ele não é mais o noivo de Adelaide e estás livre para cortejar outra dama, o que diz? Terá ele uma chance, querida irmã? — brincou Emília e Celeste a olhou, interessada.

— Oras, não seria nada mal ser a Marquesa de Canto e Melo — deu de ombros.

~~*~~

— Senhor Carvalhal, a senhorita Castel espera para vê-lo. Devo anunciá-la? — quis saber o mordomo.

Álvaro não queria recebê-la e, além do mais, estava à espera de Afonso. Depois que se aproximaram, os dois visitaram o vilarejo e traçaram algumas ideias juntamente com Matias a fim de ajudar os trabalhadores, e logo fariam reuniões noturnas para planejarem, também, os motins, no entanto, um projeto ainda secreto.

Quanto à Demétria, ele teria que resolver essa situação de uma vez. Deixar claro que ele não era mais seu capacho. Suas maldades ultrapassaram todos os limites e não compactuaria mais com suas maquinações. Já houvera tragédias demais.

— Eu a receberei, mas espero outra visita para breve. Quando Afonso chegar, faça-o entrar, assim ela saberá que deverás partir — pediu.

— Sim, senhor!

Demétria entrou na sala e Álvaro sequer se levantou para cumprimentá-la. Apenas a fitou e disse:

— Diga logo o que quer, senhorita Castel!

Ela espantou-se um pouco com a rispidez dele, mas vestiu sua máscara de boa moça arrependida.

— Álvaro... vim pedir-lhe perdão. Bem sei que fui muito injusta com você, mas... quero que entendas que eu estava cega de amor por Pedro e não vi o quanto me foste fiel e gentil todo esse tempo.

Ele continuava impassível, olhando para ela.

— Eu sei que o desprezei deveras — continuou—, mas estou arrependida. Quero de volta a sua confiança, e não apenas isso, estou disposta a aceitar o pedido que me fizeste — completou.

Ele levantou-se calmamente, passou as mãos pelos cabelos e as enfiou nos bolsos. Todos os seus movimentos eram analisados por ela.

“Ele ainda vacila por mim”, pensou. Certamente cairia como um idiota em sua armadilha e seu casamento estaria garantido. Ainda queria Pedro, mas agora as coisas estavam mais difíceis com o consentimento do Visconde em relação às D’alboquerque. Se se insinuasse para ele, estaria nas suas mãos, novamente. Grande otário!

— Aceitaria ser minha esposa? — perguntou ele.

— Sim, meu querido, como sempre quis. — E chegou mais perto colocando a mão sobre o peito dele. — Eu farei o que for preciso para tê-lo de volta. Serei totalmente sua — subiu suas mãos para os ombros, olhando em seus olhos.

Álvaro começou a rir e Demétria arregalou os olhos, afastando-se dele.

— Demétria, Demétria... não sejas ridícula! Já se olhou no espelho? Veja o quanto estás desesperada, submetendo-se a um papel tão baixo. Você é medíocre!

— Como? O que diz seu... idiota! — gritou encolerizada — Você não pode fazer isso comigo, não pode recusar-me! Tudo o que eu fiz foi com sua ajuda.

— Porque eu acreditava que a amava, agora sei que não passava de algo descabido. Como se pode amar uma mulher que não mede as consequências de seus atos para conseguir o que quer? Você armou para mim e para a senhorita D’alboquerque, no dia do baile. Foi você quem avisou ao meu pai sobre a fuga dela e de Pedro e usou da ingenuidade de Elisa para obter informações. Você é uma mulher traiçoeira, egoísta e cruel, Demétria!

— E agora aprendeu a ser homem? Toda essa revelação tem a ver com Elisa? — debochou e começou a rir quando viu a resposta no rosto dele. — Você é um borra-botas mesmo, fará um ótimo par com ela, o otário e a sonsa.

— Não vou admitir que me ofendas e muito menos a Elisa. Ela não é como você. Não mereces a amizade dela. Espero que ela descubra quem és de verdade.

— Pois te digo! Eu faria tudo novamente. Não me arrependo de nada, ouviu? Nada! E eu prefiro que Pedro morra do que ficar com aquela caipira! — terminou aos berros.

Um soluço de choro fez com que os dois se virassem na direção da porta. Elisa chorava e seu irmão Afonso, olhava a cena, estupefato.

Elisa saiu correndo porta a fora e Álvaro fez menção de ir atrás, chamando-a, porém, Afonso o segurou pelo braço.

— Deixe-a ir, Carvalhal.

— Mas eu preciso lhe explicar...

— Não é o momento. Achas mesmo que conseguirás algo depois disso tudo?

Foi saindo, mas voltou para deixar um recado ao rapaz atordoado:

— Se fizeres por merecer, ainda serás bem-vindo em nossa casa. — E olhou para Demétria — Você, não!

~~*~~


“Recebi uma carta inesperada de uma mulher chamada Odília, moradora do vilarejo, revelando-me coisas absurdas que sequer consigo aqui descrever.

Não pode ser verdade! Ele não seria capaz!

Ainda assim, estou inclinada a aceitar seu convite para ir ao vilarejo e lhe ouvir, sem que o Barão saiba. Será que devo seguir pelo caminho da dúvida ou esquecer-me de tais alusões?”

Diário da Baronesa D’alboquerque. 1796

~~*~~


Emília conversava com Beatrice em seu quarto, tentando animá-la, quando Cecília juntou-se a elas trazendo uma bandeja com chá e biscoitos.

— Trouxe pra você, Trice, sei que não se alimentou durante todo o dia, que eu percebi.

— Sim, mamãe — brincou a irmã.

—Vocês sabiam que o Marquês está interessado em Joana? — informou enquanto servia o chá.

— Como sabes, Ceci? — Beatrice se fez surpresa.

— Bem, eu acabei de ouvir uma conversa entre Jô e Didila lá embaixo. Tudo leva a crer que Joana compartilha do mesmo interesse. Quem diria, não é mesmo?

— Cecília, você é muito jovem para tais cogitações. Não é assunto para você — ralhou Emília.

— Oras, não são cogitações, são verdades! Não tenho culpa de viver num reboliço de acontecimentos. Sei de muitas coisas, inclusive que ficaste aos beijos no roseiral com o senhor Lamartine.

Emília ficou vermelha e abriu a boca para se defender, mas saiu apenas:

— Cecília!

As irmãs começaram a rir.

Acalme-se, Mila, seu segredo está bem guardado comigo. Aliás, eu não a repreendo, pois quero amar assim um dia... — fez ar de sonhadora.

— Tens apenas quatorze anos — lembrou Beatrice.

— Quase quinze — objetou. — Fico pensando como ele será lindo e valente...

— Quem sabe Afonso... — sugeriu Emília — Ele é bonito e solteiro.

— É bonito, de fato, mas verdade seja dita, é um pouco quieto demais. Prefiro um senhor como Henrique — declarou sorridente.

— Humm, Henrique, hã? Adelaide deve se preocupar?

— Certamente que não. O que mais desejo é que minha irmã acorde logo e se case com seu amado. Ela merece ser feliz. Quanto a Afonso, sei que tens interesse em Celeste — disse tranquilamente enquanto mordia um biscoito.

— Hã??? — as irmãs se espantaram.

— Sim, pela forma como ele a olha. Será que apenas eu percebo as coisas nessa casa? — fingiu irritação — É tão engraçado...

— O que é engraçado, Cecília? — perguntou Emília já impaciente com a tagarelice da caçula.

— Tudo isso. As coisas que aconteceram desde o baile. Foi uma grande reviravolta em nossa vida pacata, não é mesmo?

— Sim — concordou Beatrice. — Parece artifício do destino todos os Lamartine se apaixonarem justamente pelas D’alboquerque, com tantas pessoas nesta cidade.

E Emília lembrou-se de sua mãe e do Visconde.

Sim. Todos os Lamartine’s, alguma vez, amaram as D’alboquerque.

~~*~~



— Filha... estás certa disso? — pergunta a Viscondessa — Não é possível!

— Também não acreditei, mamãe, quando ouvi tais barbaridades da boca dela. Ela era minha amiga... — choramingou — como pude ser tão tola?

Eleonor a abraçou:

— Ah, Elisa. És muito ingênua, mas não fiques assim. Demétria não merece suas lágrimas e, ao menos, sua amizade sincera. Ela não te foi verdadeira, mas, não deves cultivar tristezas em seu coração — disse e beijou-a na testa.

A moça balançou a cabeça e a mãe continuou:

— Muitas vezes, não queremos ver as coisas como ela são, ou no seu caso, não vê maldade nas pessoas. Eu demorei a perceber que Pilar também não me é sincera, e isso, desde a mocidade. No entanto, sempre gostei dela e me recusei ver seu jeito egoísta, tal qual Demétria. Ela só é assim porque aprendeu com a mãe, entende?

— Sim... mas a senhora não se sente aborrecida? Isso é como uma traição.

— Olha para mim, filha. Temos que aprender a priorizar nossa felicidade, mesmo que haja circunstâncias desfavoráveis no caminho. Se conseguir entender isso, sempre haverá uma chance.

Elisa olhou com ternura para a mãe e sorriu.

— Achas que devo dar uma chance a Álvaro?

— Por que não? Ele é um bom rapaz e pelo que me contou, abriu os olhos a tempo. Se você gosta realmente desse jovem, deve lutar por ele. Receba-o quando ele vier vê-la e deixe-o se explicar.

— Obrigada, mamãe, amo-te — Beijou-a e deixou o quarto da mãe.

Eleonor ficou envolvida por um tempo em seus pensamentos e não percebeu quando seu marido entrou no aposento.

— Querida — chamou.

— Oh, desculpe-me, estava desatenta.

— Percebi — sorriu e sentou-se perto dela. — Algo se passa?

— Sim, mas falaremos disso depois. O que mais nos interessa nesse momento é que nossa filha está amando, mas está sofrendo.

— O quê? Que insanidade é essa? Elisa ainda é uma criança! — falou nervoso — Como isso aconteceu? Quando?

— Quando já se tem dezoito anos — cantarolou Eleonor.

— Pois sim, e és muito nova ainda para pensar em casamento.

— Eu tinha dezoito anos quando nos conhecemos — lembrou a esposa.

— Sim, mas... é diferente.

— Não vejo como.

— Oras! Ela é ingênua e doce... Bem, quem é o sujeito que se atreve?

Eleonor riu do desconcerto do marido.

— Nem desconfias? Ele tem vindo muito por aqui ultimamente, com a desculpa de falar com Afonso...

O marido a olhou como se visse uma assombração.

— Carvalhal? Oras, mas eu acabo com a raça daquele...

— Acalme-se, meu marido. Ele também tem apreço por ela. És um bom cavalheiro, apenas um pouco imaturo, mas aprenderás. Deixemos as coisas acontecerem — disse a esposa tentando aliviá-lo.

Ele resmungou alguma coisa e disse:

— Quero ver se ele sobrevive ao meu interrogatório e de Henrique.

Ela começou a rir do marido enquanto ele tentava ficar sério, mas não suportou e pôs-se a rir também.

Os dois se olharam por um momento e ela disse com ternura:

— Obrigada.

— Pelo o quê? — indagou confuso.

— Por tudo. Por ser um homem honesto e prestativo. Um bom marido e pai. Sou feliz por ser sua esposa e agradecida por estar todos esses anos ao seu lado.

Os olhos de Maurice brilharam diante da declaração da esposa e passearam pelo rosto dela, analisando-a.

Ah, se ela soubesse! Há muito ele já a amava. É certo que amou por anos, Amélia, mas depois, soube que Eleonor ocupava grande espaço em seu coração. Um espaço apenas dela. Pela mulher que sempre fora. Amável, alegre, sábia, carinhosa...

— Eu a amo, Eleonor — disse e ela pareceu surpresa. Ele continuou quando ela não disse nada. — Perdoe-me, por não dizer... Eu devia ter dito antes... você merecia. Sempre mereceu.

E foi surpreendida por um beijo apaixonado do marido, e entregando-se às carícias dele pôde, pela primeira vez, sentir-se amada de verdade, em todos esses anos de casada.

~~*~~

“Depois de tantos anos, eu aprendi a amar seu diferente jeito de ser. Ele sabe ser delicado quando quer. Temos nossas preferências, gostamos de caminhar ao ar livre, e ele gosta de me ouvir quando leio para ele, deitado ao meu colo, no roseiral.

Mas sinto-o distante, às vezes. Não gosta de estar com as meninas, por mais que eu insista. Parece que algo o perturba.Ainda penso, algumas vezes, como seria minha vida com Maurice... ele parece feliz com a esposa. Acredito que, há muito, me esqueceu, como ela mesma relatou-me na carta...

Não devo pensar mais nisso, bem sei. Apenas desejo que meu marido demonstre amor por suas filhas, e assim, sermos também uma família feliz. De nada serve dizer que me amas, se não as tem com mesmo afeto.

Estou esperando mais um filho e rogo a Deus que sejas um menino para que ele fique um pouco mais feliz.”

Diário da baronesa Amélia D. 1798. Alguns meses antes de Celeste nascer.

~~*~~



No hospital, Liana saía do quarto de Adelaide quando Henrique atravessou a porta de entrada.

— Senhorita D’alboquerque — fez-lhe uma mesura.

— Boas tardes, senhor Lamartine.

— Alguma novidade?

A moça balançou a cabeça negativamente. Já se passara muitos dias desde que os médicos declararam melhora no estado de sua irmã e de Pedro. No entanto, eles ainda permaneciam em coma.

— Parece uma eternidade... — falou evasiva.

O outro nada respondeu.

Liana sentiu-se mal. Estava indisposta desde o desjejum, que na verdade, mal conseguira tocar.

— Senhorita, se quiseres descansar um pouco, chamarei sua carruagem. Já passaste do horário do almoço...

Analisou-a. Parecia doente.

— Sente-se bem? Parece pálida. Quer que chame Dr. Fontana?

— Não, obrigada. É apenas uma indisposição... vou ficar mais um pouco e partirei. Sinto-me cansada...

— Como quiser.

— Senhor Lamartine... — começou Liana —, quando minha irmã retornar, o que pretendes fazer? — questionou.

Espantado com a pergunta repentina da moça, pensou um pouco e respondeu:

— Não entendo o que a senhorita quer saber...

— Entende sim — sorriu. — Adelaide nunca expôs, mas sabemos o que ela sentes por ti. É verdade que andava deprimida por ter sentimentos pelo senhor; afinal o senhor era o inimigo e ainda a odiava...

Henrique suspirou fazendo uma careta. Desprezá-la era algo que lhe incomodava ao lembrar.

— É por isso que preciso que ela viva — tentou explicar. — Preciso dizer que... — não conseguia dizer. Era algo difícil para se expressar.

— Que sentes algo por ela também? — completou Liana sorrindo pelo jeito atrapalhado do rapaz.

— Veja bem, senhorita... — foi interrompido por alguém batendo palmas. Era o Barão.

— Lindo, lindo! — começou ele com um sorriso cínico no rosto — Só esqueceste de um detalhe, nunca permitirei tal aproximação. Muito menos dessa ingrata com seu irmão — e olhou para Liana. — Isto é, se ele acordar... — E riu.

— Ora, seu canalha! — Henrique voou para cima do velho, porém, Liana passou na frente tentando segurá-lo.

— Henrique! Não suje suas mãos, pense bem. Se fores preso, não poderás se casar... resolver sua situação com Adelaide...

Ele ponderou um pouco mesmo com fúria. Ela tinha razão, precisava agir com racionalidade. Mas era difícil quando se tinha vontade de matar o homem há tempos. Soltou a roupa do velho, dizendo:

— Fique de sobreaviso, seu covarde! Percebeu que seu plano não dera certo? — riu furioso. — Saiba que seus capangas foram pegos e agora é apenas uma questão de tempo para que todas as suas maldades o enterrem vivo.

O Barão se enfureceu. De fato, o plano dera errado, prova disso era o Lamartine à sua frente. Mas quanto aos homens de Diogo serem pegos, isso ele não esperava. Maldição! Precisava urgentemente falar com o Duque e o Magistrado para reparar as pontas soltas dessa história agora.

— Perdeu a língua, papai? — Liana ironizou.

— Cale-se, sua idiota! Pagarás caro por sua insolência! Você e suas irmãs! — rosnou como um cão.

Doutor Fontana apareceu.

— Senhor Barão? O que fazes fora de seus aposentos? Ainda não estás liberado!

— Mas eu estou me liberando. Não fico mais um dia nesse lugar. — E saiu mancando em direção ao quarto. — Mande chamar minha carruagem, vou para minha casa! — gritou para algum assistente.

Ao ouvir isso, Liana sentiu suas pernas cederem. Agora suas irmãs e ela estariam novamente à mercê de seu pai. O medo e o pavor a tomaram e ela não viu mais nada. Henrique a segurou enquanto o médico preparava-lhe um leito.

Minutos depois, ela voltou a si e viu o médico anotando algo em um papel.

— Doutor Fontana, o que ocorreu? — indagou confusa.

— Tivera um desmaio, senhorita. Como se sente? — quis saber.

— Um pouco sonolenta, mas bem. Eu não tomei meu desjejum com prudência esta manhã.

O médico ficou em silêncio por um momento, depois perguntou:

— Senhorita... tens se sentido indisposta ultimamente?

— Bem... há alguns dias venho me sentindo cansada, enjoada... mas, porque perguntas, doutor, estou doente? — preocupou-se.

Doutor Ernesto Fontana respirou fundo e disse:

— Senhorita D’alboquerque, o que vou lhe perguntar é algo muito pessoal, mas preciso contar com vossa sinceridade, pois, conforme as suas respostas, essas sensações podem explicar muita coisa...

Ele estava suando e tentava falar as palavras com cautela. Liana desconfiou.

— Pois bem, doutor, o que queres saber?

— Eu... preciso saber... quero dizer, gostaria que me informasse, se pudesse... se a senhorita faltou com a... desculpe, senhorita, isso é uma coisa demasiada difícil de perguntar — declarou o médico enxugando o suor da testa com um lenço.

A moça o olhou, confusa, mas não disse nada.

— Senhorita — retomou —, preciso que me fale, se tivera certas… certas intimidades com o senhor Lamartine — completou com o tom quase inaudível.

Liana abriu a boca e arregalou os olhos. Porque ela teria que se expor desta maneira? Porque isso era relevante?

— Doutor Fontana, eu... — falou quase sem voz.

— Apenas afirme ou negue com a cabeça. Será o suficiente, senhorita — pediu.

Ela abaixou a cabeça sentindo as faces queimarem e, em seguida, confirmou fazendo um gesto apenas.

Agora estava exposta. Seria excluída da sociedade e mal falada para todo o sempre.

— Não se preocupe, senhorita D’alboquerque, seu segredo estará bem guardado comigo, porém, rezemos para que o senhor Lamartine acorde logo.

A moça assustou-se.

— O que se passa, doutor? Eu vou morrer?

— Não, senhorita... mas serás condenada para sempre se não casares com o pai de seu filho. A senhorita, muito possivelmente, está esperando um bebê.

~~*~~


— Didila, viu Joana e Celeste? — pergunta a mais nova das irmãs.

— Elas foram preparar os cavalos para irem ao vilarejo — respondeu D. Hilda. — Joana quis ir com ela e no fundo acho isso uma coisa boa, ainda que perigosa. Se seu pai fica sabendo....

— Papai não voltará tão cedo — declarou Cecília. — Acho até que sairás do hospital direto para a prisão.

— Sei que o ama, querida, mas, seu pai precisa pagar pelas maldades que faz.

— Bem sei, Didila. Eu tinha esperanças que papai se redimisse, mas depois de tudo o que aconteceu, não vejo possibilidades — concordou tristemente.

— Didila, não achas que Liana demora? — questionou Emília descendo as escadas com Beatrice — Já eras para estar aqui.

— Talvez quisera ficar mais um pouco no hospital. Quase não tem ido. Ainda se sente culpada pelo que aconteceu a Pedro e Adelaide, pobrezinha! — D. Hilda lamentou.

— Os únicos culpados de tudo isso é o Barão e seus capachos — Beatrice interferiu com raiva na voz e todas olharam-na, surpresas.

Beatrice nunca levantava a voz para falar, nem quando estava nervosa. Emília ia mencionar algo, mas o barulho de uma carruagem tirou a concentração das mulheres.

Hilda foi até a janela e puxou uma parte da cortina para ver de quem se tratava. Após alguns segundos de avaliação, constatou:

— É a carruagem do Duque... será que é o jovem Carvalhal?

— Não avisou que viria, mas vem sempre para tratar de assuntos com Joana — Cecília relembrou.

As moças foram espiar em outra janela. O Duque Luis Coutinho desceu da carruagem.

— O que ele quer aqui? — perguntou Emília, estranhando a visita do homem.

Entretanto, atrás do Duque, desceu o velho de barba e cabelos brancos. Apoiado em uma bengala, dirigindo-se a casa. Era o Barão.

As quatro se entreolharam e o pânico tomou conta das mulheres.

— Didila! — exclamou Beatrice.

Ela não sabia o que dizer. Também estava apavorada. Não o esperava tão cedo.

A porta se abriu num impulso e os dois homens adentraram ao recinto. O Barão estava com os olhos acesos quando olhou para elas.

E, como se entrasse por aquela porta por todos esses dias, falou sem deixar de encará-las:

— Vamos ao meu escritório, senhor Duque, temos muito o que tratar!

~~*~~



Liana se encontrava chorando junto ao leito de Pedro. O que faria agora? O que seria dela e de seu filho?

— Por favor... acorde meu amor, eu te imploro. Você precisa voltar... — choramingava.

Ela não percebeu, mas Pedro ouvia um choro ao longe e tentava abrir os olhos. A vontade de dormir era enorme, mas aquela voz o despertava do sono.

Forçou mais um pouco e abriu os olhos devagar. Uma forte claridade fez com que os fechasse automaticamente. Vagarosamente, tentou abri-los outra vez e, aos poucos, foi conseguindo visualizar. Não conseguia identificar nada. Ainda estava tudo embaralhado, tal qual a sua mente.

Atentou-se, mais uma vez, para aquele choro contido. Fechou novamente os olhos porque a luz os incomodava e movimentou sua mão devagar, tateando a cama ao lado de seu corpo até tocar nos cabelos de alguém.

— Liana... — murmurou com dificuldades na voz.

Ela se levantou de repente. Não podia acreditar no que via. Deus ouvira suas preces.

— Pedro! Você voltou!

~~*~~


“Ele trouxe o menino para casa. A mulher da carta tinha razão em tudo o que dissera. Eu o questionei, mas ele não me deu muitas explicações, apenas disse-me que era uma criança órfã do vilarejo que ficara aos seus cuidados.

Calei-me. Mais uma vez a vida decepcionou-me.O primeiro homem que eu jurei amor, casou-se com outra. O outro, que me jurou amor, traiu minha confiança.”

Diário da Baronesa D’alboquerque – 1798


Notas finais
Até mais! ♥