As Pérolas Intocáveis de Évora - Livro I
24 Capítulo 23 - Eu não devo te amar! (Bônus P.O.V.)
Notas iniciais

~~*~~
(P.O.V. Afonso Lamartine)
Desde a minha ida para a Universidade de Coimbra nunca pensei em outra moça que não fosse Irina. Eu era apenas um rapazote, porém, eu me encantei assim que a vi.
Seu sorriso e sua alegria de viver mesmo em meio às condições desoladoras, faziam-me admirá-la cada vez mais.
Irina era uma donzela muito bonita, de pele parda e olhos escuros. A primeira vez que eu a vi, estava procurando por Matias. Eu acabara de saber que eles estavam no vilarejo da Família Gomes Carvalhal, após meu pai tê-los mandado embora das fazendas de sobreiro. Estavam trabalhando nas fábricas do Barão D’alboquerque.
— Procuras por alguém, senhor? — indagou uma voz feminina e virei-me para responder.
Eram os olhos mais vívidos que eu já vira. Duas ágatas negras olhando para mim com curiosidade.
Vendo que eu ficara emudecido, ela riu-se do meu embaraço.
— Meu nome é Irina. Vejo que estás perdido...
— Hã...desculpe-me senhorita. Procuro por Matias — falei meio sem jeito, coçando a nuca.
— Ah, Matias! Estás bem ali cortando algumas toras. Vem, eu te mostro.
Foi neste dia que reatei meus laços com meu amigo de infância. Matias e eu nos conhecemos quando seus pais eram trabalhadores na fazenda de meu pai. Sempre que ele ou Henrique iam até lá eu pedia para ir junto, para fugir até Matias e brincarmos a tarde toda naqueles campos e no riacho que lá havia.
O Visconde não sabia. Se soubesse, eu poderia ficar de castigo por um bom tempo. Não era permitido ter amizades com os filhos de trabalhadores.
Henrique sabia, mas nunca contou a papai. Certa vez, brincando próximo ao riacho, jogando pedras, competindo quem jogava mais longe. Já era tarde e não percebemos o passar das horas. Henrique foi me procurar e nos encontrou, porém, não me repreendeu, apenas disse:
— Tenham mais cuidado! Não percam a hora da próxima vez.
E colocou Matias e eu no cavalo enquanto ele o puxava pela rédea, caminhando. Nunca me esqueci disso e passei a admirar ainda mais meu irmão. Ele era carrancudo como papai, mas eu sabia que era justo.
Entretanto, como o passar dos anos, meu pai desconfiou e mandou um de seus capatazes vigiar minhas idas à fazenda. E quando descobriu que eu mantinha uma amizade com Matias e ainda fazia certas refeições com a família dele, irou-se. E como castigo, os despediu sem aviso, desamparando-os.
Fiquei revoltado, mas não podia ir contra as ordens de meu pai. Matias e a família tinham uma vida simples na fazenda, porém, tranquila. Henrique, conhecendo meu drama, prometeu me ajudar-me a encontrá-los, mas com a condição de fazer o possível para ninguém saber.
E então, ali estava eu, procurando por meu amigo depois que descobrimos o seu paradeiro. Criamos laços mais fortes do que antes. Éramos como irmãos. Entretanto, minha revolta foi grande quando eu os vi em condições de total miséria e doenças. Aquela comunidade era como um depósito de lixo humano. Afastado de todos. Desprezados por todos.
Eu queria ajudá-los, mas ele era orgulhoso demais para aceitar qualquer ajuda. Era um rapaz honesto e lutava com todas as garras por seus iguais, mesmo sabendo que eram como “invisíveis”.
Eu sentia-me culpado por tudo o que acontecera a ele e à sua família. Seus pais já haviam falecido. A mãe morrera de cólera e seu pai amanhecera morto inexplicavelmente.
No entanto, Matias nunca me desprezou. Sabia que eu também não tinha poder para mudar as imposições. E para completar meu pesar, eu me apaixonei por Irina. Sem pensar nas consequências, prometemos que, enquanto eu estivesse na Universidade, trocaríamos cartas e ela esperar-me-ia para ficarmos juntos. Enfrentaríamos o que fosse preciso. Mas, as coisas não saíram como planejamos.
Irina escrevia-me cartas amorosas nos primeiros anos em que eu estava longe e eu retribuía da mesma forma. Algum tempo depois, ela cessou de enviá-las e somente eu prossegui, estranhando sua atitude.
Tentei contatar Matias quando não recebi mais nenhuma resposta dela. Mas quando ele me respondia não me dava muitas informações, apenas palavras vagas que me deixavam mais ansioso e preocupado.
Um pouco antes de voltar para casa escrevi para ela, mais uma vez, dizendo que eu estava retornando e, enfim, conversaríamos. Já considerava que ela não me quisesse mais devido a nossa relação difícil e por isso desistira.
Mas eu não. Eu a queria como minha noiva e esposa.
Sempre fui um homem pacato e discreto; não compartilhava minhas preocupações e anseios com quase ninguém. Apenas Matias e, às vezes, Elisa, apesar de ser uma menina.
Embora, foi ela quem me ajudara quando, ferido e desacreditado, eu soube da morte de Irina.
Sempre que eu me lembrava dela, eu quebrava-me mais ainda por dentro. Sofria sozinho, por culpa de não ter feito nada para protegê-la ou de não ter me arriscado mais.
Minha mãe já havia percebido algo errado, no entanto, após minha chegada, aconteceram tantas coisas que mal tivemos tempo para falarmos.
Com o acidente de Henrique e, em seguida, a tragédia com Pedro e Adelaide, nos aproximamos das irmãs D’alboquerque, e assim, conheci Celeste, a garota que Matias amava.
Forte, decidida, aventureira e meiga. Eram atributos que consegui perceber em pouco tempo. Não era para menos que ela tocara o coração do meu amigo. Assim como Irina, ela sempre mantinha seu sorriso cativante mesmo sofrendo com suas irmãs, nas mãos do pai.
Ela ajudava as pessoas do vilarejo e era dona de um bondoso coração. Durante a visita que fiz com minha mãe e minha irmã à Fazenda D’alboquerque, tivemos momentos de conversas prazerosas sobre Matias e o vilarejo. Pude notar o quanto ela o admirava ao mencionar seu nome e seus ideais de vida. Seu positivismo impressionava-me e motivava-me. Ativou algo bom em mim desde a morte de Irina.
Comecei a pensar mais do que deveria em Celeste e isso me deixou em estado de alerta.
Transmitia a Matias as ideias de Celeste sobre o vilarejo e, por mais resistente que ele fosse, não conseguia esconder sua alegria de tê-la sempre por perto. Eles estavam apaixonados.
Como condená-lo? Ela era admirável!
— Agora sei o que sentias, amigo — disse Matias a mim, certa vez, com angústia — amar alguém que não se pode ter, dói demais...
E quanto mais eu pensava em Celeste, mais eu me condenava. Eu não podia! Ela era de Matias, e ele era meu melhor amigo! Eu não podia ser um maldito traidor!
Tentei então, reprimir, ao máximo, esse sentimento conflituoso. Mas Elisa disse-me inocentemente:
— Ora Afonso! Celeste é uma bela dama e minha amiga. Seria um gosto se você a cortejasse. Já percebi como olhas para ela...
— Não digas tolices, Elisa! — ralhei. — Celeste e eu nunca poderemos viver um romance.
— Por que diz? — indagou franzindo a testa — Vocês dois são livres e papai está mais suscetível quanto às relações entre D’alboquerque's e Lamartine's.
— Mas não interessa-me! — menti — E chega disso, Elisa!
— Desculpe-me, apenas quero que ame novamente e cure de uma vez a ferida de seu coração... Amo-te e quero que fiques bem.
Beijei sua testa e afaguei seus cabelos.
— Eu sei, minha querida, no entanto não podemos obrigar ninguém amar a outrem.
Elisa concordou, considerando que se tratava de mim, quando na verdade, eu falava de Celeste. Ela amava Matias.
A amizade dela seria o suficiente para me fazer feliz. Estávamos mais próximos devido às nossas pretensões com o vilarejo, e nosso amigo em comum. Eu me tornara o menino de recados entre os dois.
Sentia vergonha do meu amigo quando este perguntava radiante por ela e eu respondia com poucas palavras para não transparecer qualquer indício de sentimentos.
Como eu pude deixar isso acontecer?! Eu pensava incessantemente. Sentia-me o pior dos homens; um traidor!
Eu, contudo, poderia viver mil anos e, nem Celeste ou Matias, saberiam disso.
Olhando pela janela, em pé no meu quarto, a vi chegar em seu cavalo, atravessando os portões da Casa Lamartine.
Linda! Admirável!
Elisa foi recebê-la. Parecia afoita ao conversarem. Devia ser pelas cavalgadas. Era uma exímia amazona.
Observei, mais um pouco, as duas amigas conversando e, com as mãos nos bolsos, suspirei, pensando alto:
— Eu não devo amá-la, Celeste...
— E por que não? — Uma voz questionou-me atrás de mim e me virei, assustado.
Encontrei, pois, Frederico me olhando esperando uma resposta.
~*~
— Isso não pode ser! É o fim! Eu não mereço isso! — murmurava o senhor Diaz Castel, exaltado, para a filha aos prantos no colo da mãe.
— Acalme-se, senhor meu marido. Tenho certeza de que acharemos uma solução para isso — a esposa tentava argumentar.
— Como? Diga-me? Como esconderemos tal tragédia? Estamos arruinados. Sua filha nos arruinou! — esbravejou.
— Papai... por favor, eu não tive culpa... — soluçava — Foi Diogo... ele me atacou. O que será de mim agora?
— Pois, eu te digo, estarás de partida para um convento distante onde ficarás por toda a vida. Não suportarei essa vergonha e meu nome jogado na lama!
— Não, meu pai! Imploro-te! Não quero partir!
— Não, Edgar! Ela é nossa única filha, não me separarei dela! — protestou Pilar.
— E como esconderás isso, hã? Diga-me, minha senhora! Logo a desonra reinará sob nosso teto com a infâmia dessa... dessa... — e olhou para a filha com desaprovação — Como pôde, Demétria? Pactuar com aquele energúmeno e ainda... És a minha vergonha!
— Ele forçou-me — gritou. — Eu não tive culpa! O que queres que eu diga para que acredites em mim, meu pai?!
— Não me venha com lamúrias! Nada disso teria ocorrido se não tivesse de tramas com aquele idiota. Nem tampouco agora, poderá ser desposada por ele, já que estás preso e sabe lá por quanto tempo. Ele não tem título, mas pelo menos tem posses, e nem isso poderemos exigir diante das circunstâncias que o envolve. O escândalo seria inevitável. Por Cristo! É uma desgraça!
Demétria estava desolada. Após o ataque de Diogo foi encontrada pela camareira, ainda na casa dele, toda ferida e descomposta. Ela a levou até à família e prometeu total sigilo. Desde então, não saíra mais de casa, ficando totalmente amuada, sem querer comer ou falar com alguém. Dias depois, sentiu-se mal e percebeu que sua regra não veio como costume. O médico da família os deixou de sobreaviso: era precipitado, mas Demétria poderia estar grávida. A moça desesperou-se e Pilar viu todas as possibilidades quanto ao futuro da filha, caírem por terra. Sabia que isso era a declaração da miséria e exclusão de sua família da sociedade aristocrata.
Ademais, fora terrível o que ocorrera com ela. Ver a filha em estado deplorável, sem esperanças e sem vontade de viver, e ainda, sem poder reivindicar nada ao seu malfeitor.
Criara Demétria para um casamento ideal, cheio de pompas e riquezas, principalmente depois que a situação financeira da família Diaz Castel entrou em decadência. Agraciada com uma beleza incrível que atraía inúmeros candidatos a cortejá-la, não seria difícil alcançarem tal propósito. Porém, a cobiça pelos bens dos Lamartine’s sempre os levava a esperar o pedido de um dos filhos ou um acordo por parte do patriarca.
Eram bem próximos e, a certeza de que seria apenas uma questão de tempo até que ele e o visconde acordassem uma aliança, não permitia que nenhum outro possuidor de riqueza cortejasse a moça. O tempo passou e a proposta não veio. Arquitetavam um plano. Entretanto, agora...
— Prepare suas malas, Demétria, breve estarás de partida — impôs o pai sem se importar com as súplicas da filha.
— Espere! — pediu a esposa — Acabei de pensar em algo. Ainda temos um trunfo. Logo visitaremos o Duque Carvalhal. //// — Que disparates estão me dizendo? — indagava nervoso o Duque de Carvalhal ao saber pelos Diaz Castel que a filha estaria esperando um filho de Álvaro.
Demétria continuava calada enquanto farpas eram trocadas entre o duque e os pais.
— Eu exijo que seu filho repare a honra de nossa filha e case-se com ela! — cobrava Edgar.
— Oras, não me venhas com patavinas! Sei que desejas dar-me o golpe. Que provas tens? E pelo que sei a senhorita Castel, se é que ainda a posso chamar assim, não é tão inocente quanto parece — acusou o duque.
— Como ousa difamar minha filha? — gritou Pilar — Oh, minha filha querida, tape os ouvidos diante dessas atrocidades que esse homem fala a seu respeito — dirigiu-se à filha, fazendo uma cena dramática.
— Mas o que está havendo aqui? — indagou Álvaro entrando no gabinete do pai — Até os empregados estão alarmados.
— Esses... interesseiros vieram tentar me dar um golpe, mas perderam seu tempo. Saiam daqui imediatamente! — gritou mais uma vez o duque.
— Não sairemos enquanto o casamento de seu filho e minha filha não for marcado!
— O quê? — assustou-se o rapaz — Do que estão falando?
— Da desonra que causou à nossa filhinha e agora tem que arcar com seus atos. Ela vai ser mãe e o senhor é o pai. Quem mais poderia ser? — atacou a senhora Diaz Castel.
— Ela está... isso é verdade Demétria? — perguntou à moça e ela nada respondeu. Apenas o olhou de esguelha abaixou o olhar e balançou a cabeça levemente em concordância.
— Eu não acredito... E porque me acusam? Eu nada fiz a ela. Mesmo quando tinha apreço por vossa filha, nunca tentei nada que colocasse em jogo sua reputação; muito menos agora.
Essa declaração causou certo desconforto em Demétria.
— Oras, não venhas tirar o corpo fora, meu rapaz! Esse filho é seu e terás que arcar com as consequências ou terão que pagar uma boa quantia por isso — o pai da moça propôs e recomeçou uma nova briga entre os três. Álvaro olhava a moça, de cabeça baixa e séria. Conseguiu sentir pena dela, por mais que não merecia. Ela praticara muitas maldades contra ele, Pedro e Liana.
— Basta! — gritou Álvaro e todos se calaram — Peço uma audiência rápida com a senhorita Castel. Quero falar com ela a sós se os senhores me permitirem.
— Não permitirei! — disse Edgar — Tenho certeza de que tentarás persuadir nossa filha e não cumprirá com suas obrigações.
— Eu falarei com ele. — Demétria falou pela primeira vez — Por favor, papai.
O homem grunhiu alguma coisa.
— Está certo. Mas não passará de cinco minutos.
Álvaro levou a moça para a saleta do escritório e olhou sério para ela:
— Como pôde permitir que seus pais me acusassem? Sabe que nunca lhe toquei.
Ela abaixou a cabeça e Álvaro percebeu lágrimas pingarem em seu lenço.
— Porque és minha única esperança. Estou perdida, Álvaro. Ninguém me quererá. Se você não me salvar, estarei condenada para todo sempre; serei apontada — disse em desespero.
— Como isso foi acontecer? Eu não entendo...
— Diogo... ele forçou-me — e chorou mais ainda —, sei que sou a culpada de estar vivendo isso. Fui cruel com muitas pessoas e estou pagando por isso. Deveria cobrar de Diogo, mas eu ficaria exposta. E que futuro eu teria com ele? Serás condenado e exilado.
— Demétria... Diogo está morto.
A moça olhou espantada para ele.
— Matou o barão e se matou durante uma audiência na prisão— completou.
Demétria caminhou lentamente pela saleta e disse:
— Não há paz para os que semeiam tragédias, não é mesmo? Cada um recebe o preço que merece. — fez uma pequena pausa — Uma vez você me disse que eu engoliria as minhas palavras e correria para você, e olha onde estou — riu sem gosto. Ele nada disse.
— Eu não cobrarei nada de você, Álvaro, não mereces uma pessoa como eu ao seu lado, muito menos criar um filho bastardo. Irei para o convento como meu pai sugeriu e lá terei meu filho.
— Eu sinto muito, mas eu não posso me casar com você, Demétria — explicou. — Elisa e eu estamos comprometidos. Nós nos amamos.
A moça sorriu levemente e disse:
— Ela sim, será uma boa esposa. É a pessoa certa para você; faço votos de que sejam muito felizes. E obrigada Álvaro, por ter me amado um dia. Arrependo-me de não enxergar antes, os seus atributos.
E saiu da sala.
Os pais da moça e o duque, ainda nervosos, olharam em expectativa para os jovens.
— E então? — quis saber Pilar.
— Vamos embora, minha mãe. Tenho malas para preparar, pretendo ir ainda hoje para o convento — disse a moça.
— Como? O que dizes? Você se casará com o filho do duque!— retrucou Edgar.
— Não, meu pai! Chega de tantas mentiras e maldades! Estou cansada, quero paz, será que não entendem? Contei toda a verdade a Álvaro, ele não merece pagar pelos meus erros! — respondeu e se encaminhou para a saída deixando os pais estupefatos.
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