Notas iniciais
"Escrevo sem pensar, tudo o que o meu inconsciente grita. Penso depois: não só para corrigir, mas para justificar o que escrevi." (Mário de Andrade) ♥ Nossa, pessoal! Sem palavras para agradecer por terem vindo ler APIDE ♥ Gratidão eterna, viu? Vou responder os comentários loguinho :) Espero que continuem lendo e expressando aqui os sentimentos de vocês. Isso é pura alegria ♥ Beijos!

Apesar de uma manhã de céu límpido e sol glorioso, a mansão D’alboquerque mantinha-se sombria, um reflexo dos acontecimentos da noite anterior.

Ao deixarem o salão, sob olhares curiosos e acusadores, as irmãs confrontaram a fúria do pai, que as recebeu com gritos e ofensas. Para ele, elas eram as traidoras e culpadas pela opinião comprometedora que macularia o nome da família. Aquilo era um convite à decadência. Liana recebeu a ordem de não deixar o quarto até que seu futuro estivesse resolvido.

“Eu já previa que não saberiam se comportar com dignidade frente à corte de Évora. Merecem viver trancafiadas como animais. Sois a minha vergonha!”

Essas foram as palavras dele antes de se trancar em seus aposentos.

Com exceção de Liana, todos se encontravam à mesa para o desjejum. O clima era tão tenso que mal se ouviam as respirações. Rui estava com um humor terrível, e qualquer ação ou palavra seria inadequada.

Dona Hilda estava em pé ao lado da mesa, com um olhar de compaixão para as moças. Elas não tinham mãe e não recebiam afeto algum do pai, que lhes transmitia apenas medo e terror. Ela sempre quis ajudá-las, mas nada podia fazer contra ele. Restava-lhe apenas rezar e dar-lhes todo o carinho. Eram boas meninas; por que ele não conseguia ver?

Ao levar o café da manhã a Liana, em seu quarto, D. Hilda pensou: 'Meu Deus! Era de dar pena. O que seria delas nas mãos desse crápula!

— Dona Hilda, estou à espera do Duque e de seu filho. O sobrinho dele virá também — informou ele, e Beatrice estremeceu. — Estarei em meu gabinete.

— Sim, senhor — respondeu tentando não transparecer a raiva que sentia.

Ele se levantou e saiu. Segundos depois, a porta do escritório bateu. O clima angustiante que pairava sobre a mesa do desjejum aliviou-se.

Adelaide, que estava próxima a Beatrice, acariciou-lhe a mão, acalmando sua preocupação.

— Adelaide, eu não quero me casar com o senhor Casagrande — sussurrou ela, os olhos suplicando por salvação. Adelaide sentiu pena.

— Acalme-se, minha irmã. Não temos certeza se ele virá para cortejá-la — disse Adelaide, embora soubesse que as chances eram altas.

Joana interferiu:

— A situação pior é a de Liana. Ela não tem mais saída e isso me revolta. Sei que ela foi imprudente, mas essa história não aconteceu como disseram. Certas pessoas nessa sociedade me enojam!

— Joana, cuidado! Papai pode te ouvir e te trancar no quarto — lembrou Celeste. — Conte-nos como tudo aconteceu. Sabemos só pedaços da história — pediu à irmã.

As circunstâncias do dia anterior não lhes permitiram conversar, já que o pai as mandara para seus quartos logo que desceram da carruagem. Como Adelaide dormia sozinha e era a única presente no ocorrido, não conseguiu compartilhar os detalhes com as irmãs. Emília dormira sozinha, pois Liana fora mandada para outro quarto. Puderam ouvir o choro contido e melancólico dela durante a noite. Choraram, empatia, sem saber os verdadeiros motivos.

Joana soubera mais da história porque viera na carruagem com Adelaide e Liana. Dona Hilda, por sua vez, soube ao conversar com Adelaide em seu quarto, como fazia todas as noites.

Adelaide relatou o acontecimento nos jardins da casa do Duque e como Liana teria de se casar com o filho dele.

— Céus! Mas isso parece armação! Não quero julgar ninguém que não conheço, mas essa senhorita Castel não me inspira confiança. Ela me alfinetou a noite toda e Elisa me disse que ela queria se casar com seu irmão — opinou Celeste.

— Quem é Elisa? — perguntou Dona Hilda.

— É a filha mais nova do Visconde, e tem bom coração. Ficamos boas amigas.

— O mais estranho nisso tudo é como ela sabia que os dois estavam no jardim? O Duque e o Barão apareceram de repente, junto com ela? Tem algo podre nessa história — conjecturou Joana.

— O que você está pensando, Joana? — indagou Emília.

— Pensando não. Tenho certeza de que essa Demétria estava vigiando o tempo todo e, mais, planejando tudo. Se ela tem interesse no Lamartine da Liana, não perderia essa oportunidade.

— Isso é mais sério do que pensei! — disse D. Hilda. — E o tal jovem Lamartine, nada disse?

— Tentou, mas nem papai ou o Duque permitiram. Achei que eles iriam matá-lo — respondeu Adelaide.

O mordomo entrou para avisar sobre a chegada dos visitantes. A tensão voltou quando D. Hilda pegou os cartões.

— Didila, de quem são? — perguntou Beatrice, temerosa.

— Do Duque e seu filho, do senhor Casagrande... — Beatrice fechou os olhos. — E... o Marquês de Canto e Melo? — indagou Dona Hilda, franzindo a testa. Desta vez, quem temeu foi Adelaide.

~~*~~

Após a reunião a portas fechadas, Rui D’alboquerque chegou a um acordo com Luís Coutinho a respeito do casamento de seus filhos. Raul Casagrande foi autorizado a cortejar Beatrice e o Marquês, a Adelaide.

Apesar dos pesares, o Barão estava contente com as futuras alianças. Se tudo corresse, logo teria outro grande acordo fechado.

— Estamos acertados então, Barão D’alboquerque. Dentro de um mês seremos todos de uma mesma família e, se tudo correr, haverá mais dois matrimônios pela frente, não é? — Ele olhou para o Marquês e o sobrinho, sorrindo abertamente.

— Sim, espero que em breve — respondeu o Barão, animado —, e espero que vossa filha compartilhe da mesma alegria.

— Ela compartilha — respondeu. — Bem, cavalheiros, darei a notícia às minhas filhas, e então poderão fazer suas visitas regulares.

Álvaro não conseguia dizer palavra. Seus pensamentos viajavam da noite anterior, de Demétria, à sua atual e infeliz condição. Num dia era um jovem solteiro; no outro, estava noivo da mulher errada. Como chegara a esse ponto?

Seu pai tinha conhecimento de sua afeição pela senhorita Diaz Castel, mas isso era irrelevante; o Duque o tratara como um rapaz sem personalidade e incapaz de tomar as próprias decisões. E quem poderia dizer o contrário? Ele fizera as vontades do pai como um títere. Era vergonhoso.

Contido, esse traço de personalidade não o ajudava a ser um hábil cortejador. Mas, apesar de seu talhe apresentável, de seus olhos castanhos e cabelos escuros, nada superava a placa que carregava: o filho do Duque.

No fundo, queria se libertar das sombras dele e de seu título; fazer suas próprias escolhas. Porém, deixou que as rédeas da sua vida fossem decididas pelo pai. O casamento não seria o começo de sua autonomia, mas uma nova fase de manipulações.

~~*~~

Alguns dias depois…

— Quer dizer então que Pedro perdeu a moça para o Gomes Carvalhal? Quem diria! — brincou Henrique, ao saber da história por Frederico enquanto conversavam na sala principal.

Henrique se recuperava, mas era teimoso para permanecer no leito depois de recobrar a consciência e perceber que podia mover-se com firmeza. Em breve, estaria a caminho das vilas, onde trataria dos negócios que, por conta do acidente, fora forçado a adiar.

— Não zombe Henrique, você não sabe como Pedro está mal. Além disso, nosso pai está soltando chamas pelas narinas. Se não fosse por Demétria, Pedro estaria em sérios apuros.

— Hum! Demétria agiu por puro interesse próprio, pode crer nisso. Quanto a Pedro, ele deve agarrar-se à sorte e deixar de vez essa bobagem de se juntar com aquela gente. Já disse e repito: aquelas D’alboquerque não são dignas de carregar nosso sobrenome — concluiu com raiva na voz.

— Irmão, você não pode julgá-las sem conhecê-las. Elas não são como o pai, isso lhe garanto.

— Bobagem! São uns imbecis apaixonados, isso sim. Não conseguem enxergar com clareza diante de um pedaço de saia. Bando de idiotas!

— Olha quem diz. Não sou eu quem ficou delirando com olhos azuis enquanto queimava de febre — provocou Fred, sabendo que o irmão desconhecia a procedência da moça que o cuidou. — Diga-me, ela era bonita?

— Não me lembro! — foi ríspido. — E como você disse, eu estava delirando. Não sou como vocês que se apegam em leque que se abana por aí

— Falou a voz da compostura! És o maior libertino de Évora, não me venha dar lições de decoro. Um dia queimará a própria língua se apaixonando.

Henrique riu com gosto.

— Ora, irmão, estás me rogando pragas? Não perca seu tempo. Isso não acontecerá comigo. Não há uma mulher neste mundo que mereça minha fidelidade, exceto minha mãe. Essa coisa de amor, meu caro, é para os fracos — falou enquanto se levantava para sair.

— Está bem. Já que é imune às mulheres, não se importaria se eu dissesse que descobri a identidade da sua salvadora, não é?

Henrique, que já tinha dado as costas ao irmão, parou no instante e virou-se para ele, procurando em seus olhos resquícios de brincadeira ou mentira. A verdade é que a lembrança daquela mulher o intrigava.

Sabia bem o que queria. Tudo sem apego e em seu devido lugar. Agora, ela havia aparecido para lhe atormentar e, por isso, sentia raiva de si e dela, por afligi-lo sem permissão.

— Sabes... quem ela é? — quis saber, fingindo desinteresse.

O irmão mantinha um sorriso torto na cara como se dissesse: “Te peguei!”.

— Sei. Mas se quiseres saber, terás que agradecê-la — propôs Fred. — Ou ao menos lhe enviar flores.

— Ora, fale! Deixe de rodeios, homem!

— Antes, prometa-me que lhe enviará flores e um cartão.

— Está bem. Fale de uma vez, quem é ela? — perguntou com nervosismo, e o irmão deu um risinho.

— Se sente atormentado por ela, não é? E não diga que não é verdade, pois, Afonso e eu presenciamos seu estado enquanto estava inconsciente.

— Ora, maldição! — praguejou. — Eu não sei, não sei! Apenas... não me sai da cabeça o seu rosto, os seus olhos... seja porque ela me ajudou quando precisei. Nada disso, tenho certeza — disse mais para si mesmo do que para o irmão. Olhou para ele e perguntou com curiosidade: — Quem é ela?

O outro suspirou e respondeu: — O nome dela é Adelaide. Ela é a primogênita dos D’alboquerque.

~~*~~



Já de volta à sua residência em Lisboa, Demétria conversava com a mãe sobre os acontecimentos do dia do baile. Transbordava de felicidade com o desenrolar da história. Álvaro se casaria com Liana, e Pedro estaria livre para ela. Era uma moça conhecida por sua beleza, bondade e educação. Todos queriam cortejá-la, mas ela recusara vários pedidos. Desejava ser uma Lamartine desde pequena, e suas vontades nunca eram frustradas.

O pai quis aliançar-se com o Duque de Évora, porém, a mãe intercedeu pela filha, fazendo o marido desistir da ideia. O Duque não se mostrara interessado nesse contrato para alívio da menina. O alvo de Demétria era Pedro, e ela o dominaria com suas habilidades de mulher.

— Mamãe, acredito que agora seja o momento ideal para oferecermos o jantar à família Lamartine, não acha?

— O que tens em mente? Tu não me enganas, Demétria.

— Eu não preciso enganá-la, mamãe, sabes bem o que eu desejo.

— Vá com calma, filha. Pedro está desolado e a vê como uma irmã. Como pretende conquistá-lo?

— Irei consolá-lo depois desse terrível episódio. Mulheres devem saber usar as cartas certas na hora certa, não é?

— Mas tenha cuidado! Lembre-se que tens uma reputação a zelar — aconselhou Pilar.

— Não se preocupe, mamãe, os artifícios que usarei serão os mais inocentes e doces — deu uma risadinha. — Nada melhor do que uma amiga fiel para acalentá-lo e fazê-lo esquecer daquela caipira.

— Vamos planejar esse jantar. Mandarei o convite para a Viscondessa hoje. Ela faz gosto dessa união. Com a ajuda dela, em breve serás esposa de Pedro.

— Tomara mamãe, tomara!

~~*~~

— O que será que foi decidido naquela reunião? — perguntou Beatrice, aflita. — Eu não consigo imaginar aquele senhor Casagrande me cortejando. Ele é demasiado vaidoso.

— Nossa, ele é intolerável? Achei-o educado e gentil no baile — comentou Celeste, tirando os olhos do livro.

— Isso é porque não ficou horas ouvindo-o falar de si e de como eu era bela — fez uma careta. — De toda forma, minha sorte é melhor do que a de Liana. Ela não merecia isso, só queria viver um amor...

Ficaram em silêncio.

— Bem, eu vou pintar um pouco — Beatrice falou, deixando a xícara de chá na bandeja. — Alguém quer me acompanhar? Vou colocar meu cavalete no roseiral. Pintar ao ar livre é mais agradável, e Deus sabe que precisamos espairecer.

— Desculpe, minha irmã, mas vou subir para escrever algumas cartas. Espero manter contato com minha nova amiga. Que papai não me ouça — disse Celeste, levantando as mãos.

— E eu vou fazer companhia à Liana — Emília informou.

Joana e Adelaide já haviam se retirado para seus aposentos, e Cecília continuava bordando. Beatrice partiu sozinha para o roseiral.

Enquanto preparava seu cenário artístico, Diogo a viu. Precisava deixar os livros de contabilidade no escritório do Barão, mas desviou sua rota.

Ele era o responsável pela administração das fábricas desde que voltara da Universidade de Coimbra. O Barão lhe pagara os melhores tutores e estudos, o tratara como filho e confiava a ele seus negócios. Ele lembrava que fora trazido para a fazenda, menino ainda, ficando aos cuidados da Baronesa e de D. Hilda, depois que sua mãe morreu. Seu pai fora um grande amigo do Barão e morrera em uma emboscada, anos atrás. Desde então, devia-lhe e era grato por fazer dele um homem respeitável. Tinha vinte e quatro anos e era sucedido.

Quando entrou na maioridade, o Barão lhe comprou uma casa. Não era bom para um rapaz viver entre as mulheres na fazenda. Tinha que trilhar seus próprios rumos.

Todavia, Diogo fora apaixonado por Beatrice. Quando crianças, eles foram unidos, mas a Baronesa os separava, dizendo que meninos e meninas não brincavam juntos. Anos depois, ele foi estudar fora e perderam contato.

Ainda que a rejeitasse por vezes, eles trocavam olhares às escondidas. Seus olhos esverdeados, seus cachos dourados, sua pele o deixavam louco. Ele a desejava com fervor.

Ficou por instantes parado, olhando-a ir e voltar da Casa de Artes, até que resolveu se aproximar. Ela estava dentro do aposento, mexendo em paletas de tintas e pincéis, quando sentiu uma presença às suas costas.

— Senhor Avelar?! — assustou-se ao se virar.

— Olá, Beatrice! — disse com um sorrisinho. — Precisas de ajuda?

— Hã... não, não, obrigada. Já levei quase tudo para o roseiral. Vou pintar um pouco — justificou, desconfortável.

Ele continuava olhando-a sem dizer nada. Seus olhos eram maliciosos, e Beatrice corou ao perceber como ele a encarava. Baixou a cabeça, envergonhada, e sentia um pouco de medo. Ele tinha um jeito estranho.

Pensou em dar uma desculpa e sair, mas ele começou:

— Sabe, senhorita — disse, caminhando na direção dela —, tens noção do que me faz sentir?

Ela o olhou, assustada, enquanto ele continuava: — Tens noção de que toma meus sonhos à noite e quando eu acordo, o que desejo é estar perto de você? — Ele se aproximou. — Sentir seu cheiro... — Deu mais um passo. — Beijar você? — Sua respiração roçava a face de Beatrice, e ela estremeceu. — Tocar-te? — sussurrou, por fim, com os lábios próximos aos dela.

Ela tinha medo dele, sim, mas era um homem imponente. Alto, pele bronzeada, cabelos e olhos escuros, másculo. Isso aguçava a curiosidade dela quanto ao mundo masculino, ao que acontecia entre um homem e uma mulher..

Não sabia o que sentias naquele momento, mas sabia que era algo diferente do medo. Sua respiração acelerada encontrava-se com a dele.

Estavam próximos demais para pessoas solteiras, e ele olhava para a boca dela como se estivesse hipnotizado.

Diogo percebeu que ela não o recusara como nas vezes anteriores, e isso o deixou surpreso e satisfeito. Colocou as mãos na cintura dela, olhando em seus olhos, mas ela os fechou quando sentiu seu contato.

— Olhe pra mim — sussurrou ele. — Quero que veja em meus olhos o quanto me arrebatas; o quanto sou atormentado por ti.

Beatrice não queria alimentar os sentimentos de Diogo. Não se insinuara nem demonstrara interesse por ele, entretanto, sua irmã Joana mencionava coisas a seu respeito, como sua voz ou sua forma de andar, e outros atributos que ela passou a observar.

Ela estava tremendo quando a mão dele tocou sua face, e Diogo encostou seus lábios nos dela. Suave, delicado.

A moça sentiu um choque percorrer seu corpo. Era seu primeiro beijo. Sentiu quando ele puxou o lábio inferior, depois fez o mesmo com o superior. Continuou o carinho com a boca, apertando-lhe a cintura e esperando sua reação. Moveu os lábios, usando a ponta da língua, e ela abriu os seus, deixando que ele começasse um beijo profundo. Ela não sabia o que fazer, mas era algo que não queria que cessasse. Tentava acompanhá-lo.

— Oh Beatrice! — murmurou seu nome entre o beijo.

Ele colocou uma das mãos nas costas dela e subiu até a nuca. Foi caminhando e guiando-a até encostá-la a uma mesa, sem interromper o beijo. Ela segurou suavemente os ombros dele assim que sentiu o corpo dele pressionar o seu. Diogo a sentou na mesa e se encaixou entre suas pernas.

— Se... senhor — tentou falar, extasiada. Não conseguia pensar com clareza. Ela não devia estar fazendo aquilo. Se alguém os pegasse, teria que se casar com ele, como aconteceu com Liana. — Por favor, senhor Avelar, pare... — pediu, hesitante.

— Me chame de Diogo, Diogo — resfolegou, beijando a pele do pescoço dela enquanto apertava suas coxas que estavam ao seu redor.

Aquilo era um sonho, e ele não queria acordar. Ela estava ali à sua mercê e não o rejeitava como fazia todas as vezes. Era nela que ele pensava enquanto estava com outras mulheres, era ela quem o fazia perder a cabeça, que povoava seus pensamentos em noites de insônia.

— Pararei se disseres que não quer meus beijos. Então eu a deixo ir. Mas diga-me, olhando nos meus olhos — pediu, encarando-a. — Diga-me

— Eu... eu nunca beijei alguém, isso é novo para mim — respondeu corando e desviando o olhar dele. Ele ainda a segurava pela nuca, com os rostos bem perto, e pressionava sua ereção no meio de suas pernas. Se ela dissesse não, ele ficaria louco, mas se dissesse que o queria, perderia a razão.

— Você não gostou do seu primeiro beijo? — questionou, tentando ser cavalheiro numa hora tão difícil. No entanto, estava feliz por ele ter sido o primeiro a beijá-la e sem forçá-la.

Ela abaixou a cabeça, ficando mais vermelha. O que ele falava, a forma como a olhava ou a tocava, deixava-a arrepiada e com sensações desconhecidas. Ela queria dizer não, e ele não prosseguiria com aquilo, mas estaria mentindo. No fundo, ela desejava que ele continuasse. Aquele beijo fora melhor do que ela imaginara. Melhor do que os mencionados em livros de romance.

— Diga-me, Beatrice — insistiu. — Seu silêncio me fará pensar que não gostou do beijo, então a deixarei ir — completou enquanto fazia menção de se afastar dela.

— Não! — disse ela, segurando-o. — Eu gostei.

Aquilo foi o suficiente. Ele a beijou com furor enquanto suas mãos passeavam pelas coxas e cintura. Subiu a saia do vestido, investindo mais contra ela.

Beatrice sentia a respiração acelerada. Sua pele estava quente, podia sentir. Era algo como febre. A mão dele percorreu a extensão da meia dela e a puxou para baixo, a fim de sentir sua pele. Era macia, como ele imaginara. Os seios dela, pressionados ao peito dele, roçavam com os movimentos dos corpos. Ele começou a desamarrar as tiras frontais de seu espartilho enquanto lambia sua clavícula e colo. Beatrice achou que iria explodir; o ponto entre suas pernas queimava e exigia a fricção do corpo de Diogo.

Ela sentiu a mão dele subir ainda mais em direção ao seu ponto latejante quando ouviu uma voz chamá-la. Era Cecília.

— Trice, onde estás? — perguntou a irmã com a voz mais próxima

— Meu Deus, é Cecília! — desesperou-se tentando amarrar seu corpete. — Papai irá nos matar, Diogo!

— Acalme-se. Faremos parecer que estávamos conversando — disse ele enquanto passava a mão pelos cabelos. 'O que essa pirralha veio fazer aqui?', pensou.

Beatrice ajeitou seu vestido e saiu ao encontro da irmã.

— Oi Ceci, estou aqui — tentou parecer tranquila.

— Papai chegou e nos solicita para uma reunião... Senhor Avelar?! — pasmou ao vê-lo sair da Casa de Artes.

— Senhorita — cumprimentou enquanto ela abria a boca num 'o'. — Sua irmã e eu conversávamos um pouco, não é? — olhou para Beatrice com um sorrisinho.

— Evidentemente — respondeu rapidamente. — Bom, é melhor irmos. Não deixemos papai esperando. Ele pode se zangar.

E saiu na frente em disparada.

— Ei, Trice, me espere! — Cecília a chamou enquanto corria para alcançá-la. — Você está corada — observou, ao seu lado.

— É o calor — disse sem olhar para ela.

— Sei. O que você e o senhor Avelar conversavam? Ele tentou algo com você? — indagou, indignada, porém sussurrando para ele não escutar, pois vinha atrás.

— Cecília! Não! Pare de cogitar coisas! — ralhou. — Vamos!

— Está bem. Mas ele sente algo por ti que eu sei. E não desperdiçará oportunidade se achar que o queres também.

— Cecília, chega de disparates! — ralhou — Vamos logo!

— Demorou, senhorita Beatrice, onde estavas? — perguntou o Barão quando a filha chegou à sala. Todos já estavam presentes, e Liana exibia um semblante abatido.

— Estava no roseiral, papai, pintando — respondeu, e Cecília a olhou de esguelha.

— Pois — começou o Barão. — Pedi a presença de todas para lhes fazer um comunicado.

Nesse momento, Diogo adentrou a sala, atraindo a atenção.

— Desculpe-me, senhor, senhoritas, voltarei em outro momento — e fez sinal com a cabeça, despedindo-se.

— Oras, Diogo, fique e participe da reunião. Farei um comunicado e és da família — disse o patriarca, complacente.

As moças sabiam que o pai tinha enorme apreço pelo rapaz. O tratamento com ele era melhor do que com elas.

— Obrigado, senhor. — E sentou-se em uma das poltronas do salão, olhando disfarçadamente para Beatrice, que não ousava levantar a cabeça.

— Ele é bonito... — sussurrou Joana a Emília.

— Joana! — repreendeu a outra, sussurrando.

— Retomando a minha fala — continuou —, vou fazer um importante comunicado às senhoritas Liana, Adelaide e Beatrice — disse, olhando para cada uma delas. As duas últimas soltaram um sopro surpreso.

— O casamento de Liana está marcado para daqui a um mês com o senhor Álvaro Gomes de Carvalhal. Ele lhe fará visitas regulares.

Liana saiu da sala correndo, aos prantos, com D. Hilda ao seu encalço. O Barão observou e continuou:

— Quanto a ti, senhorita Adelaide, permiti que o Marquês de Canto e Melo venha lhe fazer a corte.

— Mas papai... — a filha tentou argumentar.

— Não há o que contestar, senhorita Adelaide. Já está acordado! — bradou. — Ele se agradou de ti e devias ser grata por isso. Na sua idade não é fácil arrumar pretendentes e, ainda por cima, ele é um Marquês.

Diogo sentiu-se incomodado com o rumo daquela conversa, porque olhou para Beatrice e a notou inquieta e preocupada. Seria a próxima.

— Senhorita Joana não me questione! — dizia Rui, nervoso, enquanto Joana tentava defender a irmã.

— Só estou dizendo que ela tem o direito de recusar o pedido de casamento caso ele venha a fazê-lo — retrucou.

— Mas não se recusará porque será um contrato vantajoso! Estás certo de que fará o pedido em breve.

— Com licença — disse Adelaide. Joana foi atrás.

— E quanto a ti, senhorita Beatrice — ela tremeu, olhando para o pai —, firmará compromisso com Raul Casagrande. Ele não possui título, mas é filho de um general e sobrinho do Duque. E não me venha com lágrimas! Vocês são todas cheias de capricho! Não permitirei que atrapalhem meus negócios. Amanhã me agradecerão — informou o Barão.

A tristeza e o desgosto nos olhos de Beatrice, ou o desespero de suas irmãs, não o fariam mudar de ideia. Esses contratos eram como prêmios. A posição dele seria de grande destaque depois dessas alianças.

Diogo ficou paralisado ao escutar aquilo. Sabia que não tinha chance, mas havia retomado a esperança depois de ter estado com ela. Observou-a quando se levantou com Celeste, Emília e Cecília para saírem. Seus olhos tristes cruzaram-se com os dele e a realidade lhe socou a face quando viu que a perdera.

Odiou sua sorte. Odiou o Barão por isso. Fechou a mão em punho e sua mandíbula estava tensa. Tinha que se segurar para não pular no pescoço dele.

— E senhorita Emília! — o pai interrompeu sua saída. — Não penses que eu não sei o que se passa ao meu redor. Seu destino estará determinado em breve. Pode ir.

Uma angústia se apoderou dela enquanto caminhava pelo corredor rumo ao seu quarto. Só pensava em Fred e questionava em seu íntimo o que elas poderiam ter feito de errado para o pai odiá-las. Não eram suas filhas; eram moedas de troca em suas mãos.

Lembrou-se do amor da mãe enquanto lágrimas lhe escorriam pela face.


Notas finais
Aguardo vossas considerações ;) ♥