As Pérolas Intocáveis de Évora - Livro I

13 Capítulo 12 - Desventuras - Parte I


Notas iniciais
"Não confie no amor industrial, cheio de padrões e patrões. Cada amor é único, cada amor é um artesanato do coração." (Zack Magiezi) ♥

Henrique A. Lamartine


Henrique Lamartine se preparava para sua viagem de negócios enquanto conversava com seu pai e o cocheiro Xavier, que ainda estava impossibilitado de voltar às suas tarefas devido ao seu estado. Sua situação fora mais grave, rendendo-lhe duas costelas quebradas, muitos pontos pelo corpo, alguns dias desacordado e a cabeça bastante machucada. Doutor Fontana recomendara ao Visconde que o poupasse de seus serviços por um mês para que se recuperasse de todo.

— Eu não me sentirei bem, senhor, recebendo por um trabalho que não realizei. Ficarei ainda um bom tempo em repouso, de forma que não precisas me pagar — disse o cocheiro.

— Ora, deixe de bobagens, homem! — ralhou o Visconde — Esse infortúnio não foi culpa sua e além do mais, você é de confiança. Receberás normalmente e não se fala mais nisso.

— Concordo com meu pai, Xavier. E fique bom logo pra me acompanhar nas viagens. Quem mais vai aturar minhas rabugices? — brincou Henrique e eles riram.

Xavier era um pouco mais velho do que Henrique e companheiro de viagens por anos. Era um bom ouvinte quando este começava a reclamar dos negócios e outros intempéries da vida. Havia respeito mútuo entre o cocheiro e os membros da família Alcântara Lamartine.

— Obrigado senhores. Prometo recompensar com minha eterna fidelidade — retribuiu e completou: — Fico pensando no que poderia ter acontecido se a tal dama e seu cocheiro não tivessem nos encontrado. Não tenho nada a oferecer, mas gostaria de agradecê-los pessoalmente.

Henrique inquietou-se

— Já sabe quem eles são, Henrique? — perguntou Maurice.

— Não.

— Há algo também que preciso que vocês saibam — reiterou o Visconde. — Eu mandei investigar sobre o acidente. Tenho razões para acreditar que a carruagem pode ter sido sabotada. O próprio Dr. Fontana alertou Frederico sobre isso.

— O senhor suspeita do....

— Sim — confirmou. — Tenho minhas cogitações, mas preciso de provas. No mais, vamos aguardar o resultado.

— Aquele... bom, estou indo ao centro de Évora para buscar os livros de contabilidade, precisarei deles para a viagem. Melhoras Xavier — despediu Henrique.

— Obrigado senhor.

Subiu ao cavalo. Seria mais rápido cavalgar do que ir de cabriolé. Pegaria a estrada tão logo e o contador já preparara os livros para a continuidade dos negócios. Tivera notícias das investidas pesadas do Barão para a compra das terras de Portalegre e esse assunto já estava lhe tirando a paz. Odiava-o com todas as forças por todo o mal que fizera à sua família e nunca desistira de se vingar dele.

Enquanto cavalgava e pensava, o sangue lhe fervia fazendo-o aumentar a velocidade. Lembrava também da revelação de seu irmão Frederico. A loira dos olhos azuis que não saía de seus pensamentos era filha dele. Do carrasco!

— Maldição! — rosnou enquanto avançava à galopadas.

Ela era o inimigo e agora estava devendo favores a ela. O acaso era cruel.

Estava tão cego na própria raiva que não percebera a proximidade da Rua Cinco, de modo que virou a esquina, sem diminuir a velocidade, para chegar ao seu destino.

— Aaaaah! — escutou gritos agudos.

Tentou parar ou se desviar diante do susto, mas já era tarde. O cavalo também se assustou derrubando-o.Viu-se no chão e seu corpo todo doía. Ainda sentia os reflexos do acidente anterior. Esforçou-se para se levantar e viu alguns cavalheiros ajudando uma moça a se erguer do chão enquanto ela tirava a sujeira de seu vestido.

Era só o que faltava! Agora ele atropelava mulheres indefesas pelas ruas? Estava sem controle de suas faculdades mentais.

Correu até a mulher e disse:

— Senhora, por favor, perdoe-me. Estás machucada? — perguntou preocupado.

— Senhora não, senhorita! — respondeu a moça rispidamente ao levantar a cabeça para olhar o culpado.

— Você?? — perguntaram ao mesmo tempo.

~~*~~

— Afonso, me diz o que tens? — disse Elisa passando a mão pelos cabelos dele enquanto permanecia deitado no colo da irmã.

— Angústia, minha irmã. Mágoa. De não ter sido corajoso o suficiente para tomar certas decisões.

— Falas em enigmas. Se abra comigo. Sabes que pode confiar em mim.

Afonso pensou um pouco. Precisava mesmo se abrir com alguém senão explodiria. Matias era um amigo confidente, mas não podia vê-lo sempre. A irmã sempre fora uma ótima ouvinte e consoladora nessas horas.

Contou toda a sua história para Elisa, não poupando nenhum detalhe. Desde a época em que conheceu Irina. Sua tristeza era sobremaneira, e sua irmã se emocionou muito enquanto ele relatava seu drama pessoal.

— Afonso, meu Deus! Isso é terrível. E esse tal Diogo não foi punido por isso?

— Quem acreditaria na história de um joão-ninguém, minha irmã? O pior é que o tal sujeito age como se nada tivesse acontecido. Como se ela nunca tivesse existido.

— Eu queria poder te falar muitas coisas para confortar seu coração, mas estou tão pasma e indignada com essa história quanto você — manifestou Elisa. — Mas quero lhe pedir mais uma vez, que não se sinta culpado. Você não podia ter assumido um compromisso sem antes buscar sua independência. Quanto a ela, era muito jovem e foi iludida por um crápula, infelizmente.

— Ele a seduziu. Ela era apenas uma menina. Não sabia o que estava fazendo — argumentou.

— Então, porque achas que tens culpa? As nossas vidas seguem rumos que, muitas vezes, não temos como interferir. Você precisou partir, ela precisou ficar. Não havia outra saída naquele momento — reiterou com firmeza. — Sei que não posso pedir que esqueça isso, seria desumano de minha parte. Mas peço-te que não te rendas a amargura, forçando seu coração a secar por uma culpa que não é sua, Afonso. Por favor, meu irmão — implorou.

Ela o abraçou carinhosamente e ele retribuiu. Era bom ter alguém que o entendia, por perto e que sabia falar as coisas certas na hora certa.

— Obrigado. Suas palavras sempre me acalentam. Amo-te!

— Eu também — sorriu para o irmão. — Aliás, eu também tenho segredos e de vez em quando precisamos compartilhá-los com pessoas confiáveis — completou com um sorriso travesso para descontrair.

Afonso a olhou levantando uma sobrancelha e disse:

— Segredos, hã? Que tipo de segredos?

— Bem, eu fiz uma amiga no baile. Uma pessoa maravilhosa. Ela também gosta de cavalgar como eu, é alegre e disposta... Bem, trocamos cartas porque ela não tem permissão para sair, coitadinha...

— Como assim?

— Digamos que ela é uma... D’alboquerque — confessou. — O nome dela é Celeste.

Celeste? Pensou ele. Já ouvi esse nome?!

— Algo me diz que se nosso pai descobrir ficarás de castigo por toda a eternidade.

— Ele não saberá. A não ser que contes.

— Seu segredo estás seguro comigo — beijou os dedos cruzados e eles sorriram — Mas é só isso? Achei que teria algum cavalheiro nessa história. E fique sabendo que não é qualquer par de calças que chegará perto de ti.

Elisa riu.

— Na verdade, meu coração pertence a alguém sim, mas é algo impossível — relatou desanimada. — Aliás, parece que os irmãos Lamartine têm dom para amores impossíveis.

— Nem me fale. E quem é o sortudo? — perguntou a ela.

— Álvaro Gomes de Carvalhal.

— O Carvalhal? Mas já está de compromisso firmado!

— Sim, porém, não com a moça que ama. Ele ama Demétria — suspirou entristecida.

— Sei. E já gostas dele há tempos?

— Sim, mas ele nunca olhou para mim. Tem olhos apenas para Demétria e é totalmente manipulado por ela.

— Homens assim não merecem mulheres como você, Elisa. Ele é um fantoche nas mãos do pai. Você merece alguém melhor que Álvaro — concluiu apertando a bochecha da irmã.

— Álvaro? O que tem esse idiota? — indagou Pedro entrando no recinto com Fred.

— Elisa e eu estávamos apenas comentando sobre esse infortúnio entre você e sua amada, Pedro. Acho que teremos que clamar aos deuses por uma salvação. Os irmãos Alcântara Lamartine estão enfeitiçados pelas Vasquez D’alboquerque! — brincou Afonso, fazendo drama.

— Você também, irmão? — perguntou Fred à Afonso, já alarmado.

— Não, obrigado. Sou ciente de minhas ações. Já vocês, resolveram brincar com o destino.

— Ora Afonso, não diga tolices! Ninguém escolhe essas coisas — ralhou Elisa.

— Eu sei, irmãzinha, estou apenas descontraindo para amenizar a situação. Sei que é complicada. Mas confesso que estou pasmo com Henrique. Por mais que não queira admitir, já está caído pela tal dama de “olhos azuis”.

— É mesmo? Para mim, ele parece um cão raivoso — Elisa levantou as mãos em sinal de socorro. — E eu a conheci no baile. És de fato, belíssima! Aliás, não me assustaria se todos os homens solteiros de Évora estiverem fazendo fila na casa delas.

— Não consigo imaginar minha Emília sendo de outro homem. Preciso fazer algo antes que o pai resolva casá-la também.

— Não sei quanto a você, irmão, mas Carvalhal não se casará com Liana — falou Pedro, convicto. — Já tomei uma decisão e estou indo colocá-la em prática.

E saiu da sala deixando os irmãos preocupados.

~~*~~

Frederico caminhava pelo centro de Évora, decidido a aproveitar suas horas livres, quando não acompanhava o pai às vilas vizinhas, para seguir com suas investigações sobre o acidente da carruagem. Por mais que desconfiasse da mão do Barão por trás da tragédia, carecia de provas. Precisava agir com astúcia e infiltrar-se nos círculos frequentados por Diogo. Sabia bem que certos homens não hesitavam em vender-se por algumas moedas.

— Senhor Lamartine! — chamou um rapaz que vinha ao seu encontro. Era Amadeo, o lacaio da família D’alboquerque.

— Bom dia, Amadeo! Algum recado de Emília? — indagou afoito.

— Desculpe abordá-lo desta maneira. Tenho sim um recado da senhorita, aqui está — e lhe entregou um envelope, olhando para os lados. — Eu já estava a caminho de sua casa, mas vi o senhor...

— Não há o que se desculpar. Grato por isso.

— Senhor Lamartine... — o lacaio recomeçou com certo receio — Se me permite, eu gostaria de tratar outro assunto com o senhor. Creio que seja de seu interesse.

Frederico o analisou e viu preocupação nos olhos do mensageiro.

— Algo relacionado à Emília? — perguntou desconfiado.

— Também. E algo relacionado ao acidente com vosso irmão. — Se agitou.

— Venha Amadeo. Acompanhe-me, por favor.

Foram até a uma casa de chás mais próxima. Acomodaram-se e pediram dois refrescos.

— Agora conte-me tudo o que sabes.

— O senhor deve saber que nós, criados, temos olhos e ouvidos apesar de muitos acharem que não temos — começou sob a extrema atenção do outro à sua frente. — Moro há muitos anos na casa dos D’alboquerque e já presenciei, assim como ouvi, muita coisa naquele lugar. O Barão é um homem que não mede consequências para obter poder, o que não é segredo para ninguém. Há alguns dias, ele mandou que Diogo sabotasse a carruagem do seu irmão. Só que ele não podia fazer isso com as próprias mãos, então subornou um de seus empregados.

Frederico estava chocado.

— Mas... — ele ia falar, porém, a garçonete havia chegado com os refrescos à mesa. Esperou que os servisse e agradeceu.

— Mas Amadeo, como assim um dos nossos empregados? Todos eles são da mais inteira confiança! Trabalham conosco há anos.

— Eu sei que é difícil acreditar, senhor Lamartine, mas um dos lacaios da vossa família não é tão confiável assim. Oscar. Já o vi várias vezes conversando com Diogo em um bordel... — falou meio envergonhado — se é que o senhor me entende...

— Sim, sim. Não precisa se explicar. Continue.

— Bom, constantemente ele reclamava que Xavier tinha mais benefícios do que os outros empregados mesmo sendo um mero cocheiro da família e que se achava melhor do que eles. Sempre teve inveja dele. Ele também fala mal do Visconde dizendo que é injusto e paga mal. Então quando surgiu a proposta, ele uniu o útil ao agradável.

— Patife! — praguejou — Estou pasmo! Meu pai saberá de tudo isso. Mas primeiro terei uma conversa com esse ingrato!

— Mas peço-te, senhor Lamartine, o Barão ou Diogo não podem saber que eu os delatei. Perderei a vida. Eles não me deixarão impune.

— Pode ficar tranquilo, Amadeo. Não mencionarei seu nome. E agradeço muito o que fizeste. Mas me disse que também se tratava de Emília. Não vejo como ela se encaixa nessa história — quis saber.

— Bem. O Barão precisa de alguém para acobertá-lo e livrar sua pele das atrocidades que comete. Isto é, juridicamente falando.

Frederico franziu a testa.

— Há algum tempo, ele fez um acordo com o Magistrado de Évora, o senhor Fernam Andrade de Moraes. Em troca de não passar por qualquer tipo de acusação, caso venha a surgir provas, o Barão deu a mão de Emília a ele — explicou.

Frederico empalideceu. Não, ela não!

— Você tem certeza disso?

— Sim, senhor. Eu o vi em uma visita e ouvi tudo por detrás da janela do gabinete. Ouvi muito bem quando o magistrado disse que queria desposar a senhorita Emília e com a permissão, logo lhe estará fazendo visitas.

— Ela sabe?

— Acredito que não, mas logo saberá.

— Obrigado pelas informações, Amadeo. Foram de fato, muito valiosas. Nunca esquecerei seu gesto.

— Estarei sempre às ordens. Faço tudo pelas jovens, elas já sofrem demais.

Fez um cumprimento com o chapéu e foi embora. Frederico seguiu de volta para casa. Tinha muitas coisas para resolver. Estava consternado com a notícia. Ao chegar, abriu o bilhete.

“Meu querido,

Acabo de saber que meu futuro noivo logo estará aqui para cortejar-me. Estou desesperada! Com o coração dilacerado!

Estou com medo, Fred! Por favor, seja lá o que esteja fazendo, apresse-se.

Espero que consiga logo seu propósito e nos salve!

Com profundo amor, Emília.”

~~*~~

— Emília — chamou D. Hilda, entrando no salão em que a menina estava olhando pela janela, desolada. — Trouxe-lhe uma bandeja de chá com biscoitos, percebi que não tomara seu desjejum direito. Não podes ficar sem se alimentar, filha.

— Obrigada, Didila, mas estou sem fome...

— Tome ao menos uma xícara de chá, sim? Eu vou preparar do jeito que gosta.

As duas se sentaram nas poltronas e D. Hilda comentou:

— Confesso que tenho medo do que os jovens Lamartine podem fazer.

Emília suspirou antes de responder:

— Papai deixou claro que meu destino já está traçado, Didila...

— O que é isto? — D. Hilda apontou para um livreto sobre a mesa do salão.

— Um diário. Decidi escrever coisas que não consigo compartilhar com ninguém e descobri que gosto — a moça declarou.

— Segredos? — questionou a senhora sorrindo.

— Também — Emília corou e riu. — Procuro anotá-lo todos os dias.

— Sua mãe também tinha esse hábito. Eu era sua amiga confidente, mas ela gostava muito de escrever — olhou pela janela relembrando. — Era uma boa mulher, muito amável... pergunto-me como pôde amar alguém como o ... — interrompeu-se — perdoe-me!

— Não precisa. Ele é meu pai, contudo, ele é mau e... — suspirou — trata o senhor Avelar melhor do que nós. Como pode isso? Por que não gosta da gente?

— Não sei menina, não sei. O que sei é que Diogo também sofreu bastante. Perdeu a mãe muito cedo e se não fosse pelos seus pais, ele estaria na sarjeta.

— Didila, qual é a história dele? Eu sei que ele não tem culpa, era apenas um menino órfão, mas é como se papai tivesse uma obrigação, entendes? — questionou — E sabemos muito bem que papai não é adepto às caridades.

Dona Hilda inquietou-se.

— Qual é o problema? — Emília quis saber estranhando a atitude dela.

— Nada, eu apenas...

— Didila, onde está Adelaide? — Beatrice entrou perguntando.

A senhora sentiu certo alívio por ela interromper essa conversa.

— Ela foi tratar dos livros de contabilidade a pedido de seu pai, junto com Joana e Cecília. Diogo não pôde buscá-los por conta de assuntos imediatos na fábrica e ele não confia em mais ninguém para isso — respondeu.

— Ah sim. E o que vocês duas estavam conversando, hein? Estão muito suspeitas...Oh, que flores lindas! Quem as deu Emília? — quis saber a irmã visualizando um enorme buquê de narcisas na mesinha do canto.

— Do senhor Moraes... dizendo que breve virá para uma visita — suspirou cansada.

— Ah, Emília... sinto muito... o senhor Casagrande também virá. Estamos mesmos perdidas.

— Mas pela forma como a vi namorando um ramalhete horas atrás, não estás tão consternada assim...

— Não era do senhor Casagrande... — disse e se arrependeu. Agora teria que se explicar.

— Eu sei. Eram de Avelar — Emília declarou deixando Beatrice desconcertada.

— Diogo? — indagou D. Hilda, surpresa, olhando para as duas moças.

— Oras, deixe de bobagens! Você sabe que isso não tem fundamento! — brigou Beatrice.

— Ah não? Então por que corou? Sei que ele tem afeto por ti.

— Como assim? Que tipo de afeto? — Dona Hilda questionava.

— Pare Mila! Chega de necedades! — pediu Beatrice.

Emília continuou:

— Ele é apaixonado por ela, Didila. E não adianta negar, Trice, pois você mesmo disse que ele queria pedir permissão a papai para cortejá-la e você...

Enquanto as duas irmãs discutiam o assunto, D. Hilda, aflita, se perdeu em pensamentos, mas os tais foram interrompidos por uma criada que chegara à porta.

— Com licença, D, Hilda os...os... — a criada estava agitada.

— O que foi Matilda? O que se passa? — perguntou a senhora, preocupada.

— Tem dois cavalheiros na sala de visitas e querem falar com o Barão.

— Sim. E você os anunciou?

— Não. Não sei se seria apropriado — respondeu com os olhos arregalados.

— Céus! Diga logo Matilda! Quem são esses cavalheiros? — D. Hilda já estava impaciente.

— Os filhos do Visconde, senhora. Os Lamartine estão aqui.

~~*~~

— Vocês se conhecem? — perguntou Joana olhando para Adelaide e o rapaz.

— Não! — disse a irmã rapidamente. — Quero dizer... — não sabia como falar, pois, suas irmãs não tinham conhecimento do episódio no chalé. Pelo menos não de toda a história. Não havia tido tempo para conversarem sobre isso ou apenas não quisesse falar.

— Porventura o senhor seria o mesmo que Adelaide cuidou no chalé quando sofreu o acidente? — perguntou Cecília, surpreendendo a todos com sua astúcia.

— Sim... — respondeu ele, não gostando daquela situação.

— Imaginei, pois, de onde mais Adelaide teria contato com algum senhor, não é mesmo, Joana? Eu não me lembro do senhor no Baile de Outono...

— Cecília... o senhor não está interessado em detalhes... — Adelaide falou a irmã entre dentes. Estava sendo completamente inconveniente.

— A propósito, aproveito a oportunidade para lhe agradecer, senhorita — disse seco.

— Hã, não foi nada... digo... eu faria por qualquer um — respondeu simplesmente.

— Evidentemente — afirmou olhando-a com superioridade. — Mas a senhorita deveria olhar por onde anda, para não ser mais atropelada por aí. Eu não sou tão generoso.

Ela ficou indignada.

— Como? Pelo que pude ver, o senhor é quem não tem o mínimo de controle pelos seus atos — retrucou chateada com a atitude dele. Esperava que ele fosse mais cortês, mais amigável.

Joana olhava tudo, animadíssima, enquanto Cecília estava boquiaberta.

— Oras, agora eu sou culpado se a senhorita não sabe caminhar pela rua? E me dê licença que tenho coisas mais importantes a fazer.

— Que absurdo! O senhor não é nada cavalheiro! — retrucou ela e foi em direção ao escritório do contador, acompanhada por suas irmãs. Nunca agira dessa forma. Estava atordoada.

— Aonde a senhorita pensa que vai? — perguntou ao vê-la passar pelo portão.

— Agora eu tenho que lhes dar satisfações? Isso não lhe diz respeito! — Adelaide virou-se, alterada para responder e percebeu que ele estava mais próximo do que o esperado. Os dois se analisaram sem dizer nada. Ele desceu o olhar para a boca dela e voltou para seus olhos. Meu Deus! Ela era mais bonita do que podia se lembrar... Mas era uma D’alboquerque!

— Ham, ham! — Joana pigarreou fazendo com que os dois se movessem desconfortáveis com aquela situação. Ele entrou rapidamente na casa deixando-as para trás.

Joana comentou:

— Ele é muito bonito. Quem me dera poder cuidar de um moribundo assim — brincou maliciosa.

— Não diga tolices, Joana! — ralhou Adelaide e entrou.

O contador ainda não havia aparecido, de forma que Henrique esperava-o impaciente. Olhou para o relógio de bolso e o guardou. Adelaide apenas o olhava de esguelha. Cecília o observava, curiosa, e Joana resolveu se sentar abanando-se com seu leque.

— Senhor Lamartine! — exclamou o contador entrando com felicidade na voz, mas ao ver Adelaide, assustou-se: — Senhorita D’alboquerque!? — Ela que aparecia, às vezes, quando Diogo não podia, mas o fato de ter um Lamartine e uma D’alboquerque no mesmo lugar e hora, isso não era bom.

As irmãs de Adelaide levaram um susto.

— Lamartine!? Oh Deus! Já vi tudo! — Joana reclamou abanando-se mais ainda.

— Bom dia, senhor Magalhães. Vim buscar os livros de papai — disse Adelaide ignorando quaisquer comentários de suas irmãs. Elas estavam cochichando agora. Certamente cogitando coisas.

— É claro, senhorita. Já estão prontos. Apenas preciso fazer algumas considerações para que as levem a seu pai — explicou o contador.

— Eu gostaria que o senhor conferisse os meus livros, senhor Magalhães, estou atrasado para uma viagem — Henrique interrompeu. — Se não fosse certos imprevistos — olhou para Adelaide, petulantemente —, eu já estaria a caminho.

— Acredito que o senhor usará o mínimo de cavalheirismo, se bem que eu duvido que possua algum, e esperará sua vez, já que sou uma dama e cheguei aqui primeiro — contrapôs Adelaide, com firmeza.

Henrique a fuzilou com o olhar enquanto o contador olhava de um para outro, apavorado.

— Bem — interferiu o contador —, prometo que será rápido, senhor Lamartine. Já deixarei os livros do senhor aqui enquanto atendo a senhorita D’alboquerque.

Pegou os livros da Casa Lamartine e depositou-os na mesa, junto com os da Casa D’alboquerque.

— Aqui estão, senhorita. E, por gentileza, transmita a seu pai que os rendimentos das terras da região de Setúbal apresentaram queda desta vez. Recomendo que considere estratégias de reinvestimento para que voltem a gerar os lucros habituais. De todo modo, peço-lhe que solicite uma audiência, pois creio ser oportuno conversarmos pessoalmente.

A simples menção a Setúbal fez Henrique estremecer de raiva. Na memória, o dia maldito em que seu pai fora enganado e quase morrera de desgosto.

— Isso deve ser um castigo por usurpar aquilo que nunca lhe pertenceu! — explodiu, fitando Adelaide com os olhos inflamados.

O contador engoliu em seco ao ver a jovem virar-se, com o rosto firme e indignado:

— O que disse? — retrucou. — Suas acusações carecem de provas. São meras especulações e joguetes políticos!

— Ah, disso seu pai entende como ninguém! — rebateu Henrique, com sarcasmo gotejando em cada palavra. — Manobras de poder, ambição, e pouco lhe importam os meios. Imagino que esteja aprendendo com ele a mesma arte. Só espero, senhorita, que quando aquele canalha finalmente morrer, tenhas ao menos a decência de devolver o que não é teu.

Adelaide sentiu a garganta fechar. Estava sem palavras diante de tanto ódio.

— Senhor Magalhães — disse Henrique, voltando-se para o contador —, levarei comigo os livros-registros. Falaremos depois. Passar bem.

Tomou os livros e saiu às pressas quase derrubando Adelaide. Seus olhos estavam arregalados e um sentimento de angústia a consumiu. Seria verdade toda essa história? Seu pai seria capaz de roubar toda uma família?

O fato era que, ela sentira todo o seu ódio e isso a atingiu severamente.

~~*~~

— Senhor meu marido, posso falar-lhe? — perguntou a Viscondessa na porta do escritório de seu marido.

— É claro querida, entre.

— Os Diaz Castel acabam de nos enviar um convite para jantarmos amanhã em sua casa. Posso enviar a confirmação da nossa presença?

— Claro, claro! O convite veio em boa hora. Aproveitarei a oportunidade para tratar de assuntos importantes com Edgar.

Um silêncio pairou e o Visconde percebeu que havia algo mais.

— Maurice eu...

— Algo aconteceu? Venha, sente-se aqui — percebeu a inquietação da esposa e estendeu a mão para guiá-la.

— Sim, algo me atormenta desde o baile me fazendo pensar se não fomos injustos em nossos julgamentos — começou olhando para as suas mãos.

— E o que seria?

— Bom, no baile eu não pude deixar de observar, assim como todo mundo diante da novidade, as filhas do... Barão. E o que me ocorre é que... bem... tive a oportunidade de conversar com uma delas, a mais jovem, e me pareceu tão disposta e educada. Tão diferente do pai... — completou pensativa.

— Onde está querendo chegar? Vá direto ao ponto, Eleonor — pediu o visconde desconfiado daquela conversa.

— Que eu não posso julgar Pedro e Frederico por gostarem das moças, Maurice! Quero dizer, eu sei que o Barão é um crápula e que não merece viver, mas, será que as filhas precisam pagar o preço dele? A culpa não é delas do sangue que corre em suas veias — falou como se quisesse convencê-lo de algo.

— Oras! Quer dizer que aceita as sandices de seus filhos para se unir àquela gente? Você só pode ter enlouquecido mulher! Elas têm o mesmo sangue daquele canalha, portanto, são farinhas do mesmo saco!

— Meu marido, apenas me escute — pediu brandamente. — Não quero dizer que estou de acordo com as ideias de nossos filhos, apenas estão encantados e isso é passageiro, sei que é; apenas... — direcionou seu olhar para o nada, lembrando-se de algo — os olhos delas, sabe... eles eram tristes, Maurice. Eu vi, as observei toda a noite. Elas estavam deslumbradas com o fato de estarem no baile, entretanto, vi também a forma como o pai as trata e como elas sentem medo dele. Elas não passam de pássaros enjaulados.

— E o que me diz do acontecimento da noite, hã? — indagou o marido — Uma delas foi vista nos jardins dos Carvalhal com o filho deles. E justo a que Pedro se diz apaixonado. Isso é muita falta de vergonha!

— E nem é a história toda... — suspirou falando mais consigo mesma.

— Como? — ele a olhou — Por que estamos tendo essa conversa, Eleonor? Nada que se refere àquela gente nos diz respeito.

— Porque na verdade, era Pedro quem estava com a moça no jardim — revelou.

— O que estás dizendo? — o Visconde se levantou — Eu mato aquele moleque!

— Acalme-se! Ele tentou defender a moça e esclarecer tudo, porém, o Barão e o Duque já tinham resolvido casar a moça com o jovem Carvalhal. Acredito que apenas usaram da oportunidade.

— Menos mal! E espero que seu filho entenda de uma vez que existem outras moças. E por isso vamos tratar o quanto antes, do casamento dele com a senhorita Diaz Castel — disse desgostoso com o filho. — E, aliás, minha senhora, não justifica o fato de a tal moça estar no jardim com um homem, sendo ainda solteira!

— Mas tem outra coisa...

— O que é dessa vez? — reclamou já cansado daquela conversa.

— A moça que resgatou e cuidou de Henrique e Xavier, é a mais velha das D’alboquerque — declarou, esperando sua reação.

Ele arregalou os olhos e ficou parado sem dizer nada, apenas tentando absorver tal informação.

— Maldição! Maldição! Como se não bastasse Pedro e Fred correndo atrás daquelas lá, feito dois idiotas, agora estou devendo favores àquela gente?! O que eu fiz pra merecer isso? Diz-me? Por que sinceramente, não me lembro de ter feito algo de tão ruim assim para poder pagar por isso — gritou à sua mulher.

— Não pense dessa forma, pense que somos agradecidos por ela salvar o nosso filho de uma sorte pior. E além disso, foi o acaso, não foi? — pegou na mão do marido para tentar acalmá-lo. — Só uma pessoa de bom coração faria o que fez — completou, esperando que ele concordasse.

O Visconde apenas suspirou e tentou conter-se. Era um mau sinal. O filho havia murmurado algo como “mulher”, ou “olhos azuis”, enquanto estava desacordado. Isso não podia acontecer! Henrique não! Ele era sensato e não caía em armadilhas sentimentais, além de odiar, mortalmente, toda a família D’alboquerque. Poderia ser apenas lembranças e nada mais.

— Ele sabe? — perguntou seco.

— Acredito que não. Mas quando souber, não sabemos como lidará com isso.


Notas finais
Obrigada por acompanharem ♥ Comentem também, viu? Beijocas!