As Profecias de Kyoudan
6 - Dimensão de sombras -
Notas iniciais
''Onde eu estou?'' Pensei. ''Onde está Daemon? Daemon? No que estou pensando? É bom ele não estar aqui...''
Logo depois do passar de quinze minutos, percebo que havia alguma coisa errada comigo, e acabo descobrindo no segundo seguinte: estou de olhos fechados. Começo a sentir meus braços e pernas. Retomo o movimento dos dedos das mãos e dos pés e tenho a leve impressão de estar nascendo de novo.
Abro meus olhos.
Estou respirando de baixo d´água? Ou estou em um vazio gravitacional? Ou continuo de olhos fechados? Uma luz vermelha me deu uma resposta simples: Eu estava de olhos abertos esse tempo todo. Esta luz começa a tomar conta de minha visão, e dela começam a aparecer formas distintas, disformes, desproporcionais. Formatos de... Cratera, talvez? Não. Milhares de crateras! Rochas enormes flutuanto e se reconstituindo. A não piscar de olhos me vejo deitado em uma destas pedras. Me levanto e vejo um segmento destas rochas em um formato espiralado. Mantenho me imóvel durante alguns segundos, examino cautelosamente o lugar o nde fui deixado. '' O que Daemon fez comigo?'' Penso. Olho para cima e vejo milhares de crateras planando em plena gravidade morta. Algumas afastadas, outras se colidindo, algumas se raspavam, como se estivessem se cumprimentando. A luz pareceu estar dando vida a outras formas, só que estas eram mais reluzentes, brancas, luminosas. Percebo que a vermelhidão estava sendo substituída por estes pontinhos cintilantes que mais pareciam... Estrelas? Sim! Estrelas. Estive com a certa impressão de ter sido lançado ao espaço. Em algum ponto distantemente aleatório da Via Láctea, a tal galáxia onde vivemos. De tanto que eu estudei para a recuperação do teste de Teoria Científica na Academia Sendu, fiquei com essa informação na cabeça.
– Dizem que o jeito mais fácil de você obter respeito e obediência é na base do medo... — quem mais poderia ter uma voz sem vida, senão Daemon? E se você pensou em Danemon nesse exato momento, melhor esquecê-lo! Nosso negócio não é com ele, certo? — Vale ressaltar que falo no medo que é imposto sobre o indivíduo — Os pontos luminosos abriram espaço para um vermelho maligno, mudando o ambiente de uma Galáxia normal para o de uma Galáxia-Inferno.
– E isso vem ao caso de quê? — Odeio minha arrogância! Odeio mais por ter sido assim. Devo agradecer tudo a esse cara no final das contas.
– Agradeço por perguntar. Além do mais, era crucial que você perguntasse. Pois bem. Aí vai a resposta: vem ao caso de pessoas arrogantes como você. Por isso você foi trazido para cá! Inseto!
– Não fale assim co...
– Eu falo com você do jeito que eu quiser! TRASTE! — Bradou. Se bem que inseto era uma ofensa melhor. — É ASSIM QUE AS COISAS FUNCIONAM AQUI! — O som do grito foi dez vezes maior, fazendo meus ouvidos sangrarem. — Você está sobre meus cuidados, minhas ordens, minha dimensão! Meu mundo! A dimensão sombria! ÔNGNGNO – Uma sensação de medo me apunhala por dentro após aquela palavra desconhecida ter sido dita. Ôngngno? Seria o nome da tal dimensão? Mas por que esse nome? Digo: por que isso? Que nem palavra parece ser – Vamos ver até onde você é capaz de sobreviver!
– O que você está fazendo? Isso não era para ser um teste simples? — Mal conseguia me ouvir, devido ao sangramento constante de meus ouvidos.
– Isso é o que você pensa! É o que na verdade todos pensam. Mas os testes sobre-humanos não são simplesmente testes. São desafios que irão testar você nos limites que estão por vir.
– E que limites são esses?
– Eu não sei, eu realmente não sei. Você saberá por si mesmo, meu caro! Está preparado?
– Não!
– Resposta certa! — tudo começou a cair. Eu, o universo, as crateras, as gargalhadas horripilantes e diversas de Daemon e as estrelas. Mas as estrelas estavam caindo mais depressa. Pareciam estar querendo chegar primeiro, quando na verdade essa era a intenção. Estas estrelas começam a cair cada vez mais depressa. Devido a esse fenômeno, tudo fica completamente escuro, até um buraco vermelho aparecer, se abrir e sugar tudo o que vê pela frente.
Me vejo em outro lugar.
Jurei por mim mesmo que desta vez eu estava no inferno. Digamos que no inverno infernal, ou inferno glacial. Seja como você prefirir. A minha frente vejo pilares e mais pilares de puro gelo sólido e permanente. A meus pés, a neve mais movediça e luminosa que eu já vi, querendo me puxar para baixo ou me cegar, caso eu a olhasse. E o céu o mais puro vermelho sangue. Com camadas misteriosas de auroras transparentes contornando sua atmosfera, como almas condenadas a um rumo sem fim. Me sentia um completo condenado naquele momento. Com frio, orelhas sangrando, ameaçado de cegueira e sem saber o que fazer, ou por onde começar.
– O que você está fazendo comigo? O que eu fiz para você?
– A razão de você estar aqui não se deve ao que você fez comigo, mas ao que você fez durante sua vida, ou pelo que você é ou escolheu ser!
– Ao que eu escolhi ser? Ao que eu fiz? Passei o resto de minha vida aprendendo a ser independente , desde pequeno! Resolvendo meus problemas sozinho sem ter a noção do que eu sou! — Respondi em desespero, sem consciência ou controle de mim mesmo, como se alguém tivesse falado por mim.
– Ah! — Interjeitou Daemon – Certa resposta – Uma sincronia de gargalhadas ''Daemoníacas'' me dá calafrios. Imagine simplesmente um coro de risadas aleatórias, se não consegue, tente da seguinte forma: imagine um sujeito gordo chorando risos. Conseguiu? Agora imagine a gargalhada de um velho caquético, seguido do cacarejo de duas mulheres desinibidas e de risadas que lhe pareçam familiares. Ótimo! Agora você sabe a forma Daemon de achar graça de alguma coisa. — Você tem tudo para resolver seu problema, e aquilo que mais estiver te perturbando pode servir para alguma coisa. Boa sorte!!
– Mas o que? — Perguntei, logo depois gritando pelo seu nome, mas nada. Ele se foi, me deixando para morrer. Mas ele me dissera que eu tenho tudo para resolver meu problema, e aquilo que mais me perturba pode me servir de alguma coisa.
O que mais me perturbava naquele momento? O que mais me perturbava naquele momento? Repeti comigo em pensamentos. Resolvo reformular minha pergunta: O que mais me perturba? O que mais me perturba? Seria o sangramento? Meu frio ou minha perca constante de visão? Não sabia, mas tive a sensação de estar morrendo. Até que perco minhas forças e deixo a neve me levar a um sono profundo.
E deitado fiquei... Durante horas.
Acordo-me de repente. Estou imediatamente de pé, sem nenhuma sensação de frio ou cansaço e nenhum sangramento constante de ouvido. Havia algo estranho em minha visão. Tudo parecia mais nítido aos meus olhos, como se minha visão pudesse me levar aos limites de algo normal, algo limitado. Conseguia ver os pilares aos mínimos detalhes, mesmo à distância. Examino o céu, e as auroras misteriosas sobrevoando o céu no sentdo oposto, assim como o a cor vermelho sangue desapareceu. Tudo era apenas um vazio obscuro, como o céu da noite. Ou eu estava sendo levado ao além da vermelhidão pela minha visão?
Por um breve instante começo perceber que havia algo estranho em mim, e no lugar onde eu estava: os pilares eram completamente menores do inferno onde antes eu estava. A neve foi substituída por um piso de gelo transparente, como se eu tivesse sido colocado de propósito no centro de um oceano congelado. Tanto para meu lado esquerdo quanto a meu lado direito não havia nada, apenas vastas formações de horizontes. Os pilares eram meu ponto de destino Me arrisco e dou alguns passos a frente. Não escuto meus passos.
– Estranho – Falei, mas não me ouvi dizendo. — Estranho – Repito, e logo grito a mesma palavra constantes vezes. Sem resultados. Conclusão: estou surdo. Completamente surdo. E sozinho. Aflito, decido me sentar no meio do ''quase nada'', observando a paisagem de inúmeros pilares e pensando no primeiro passo a ser tomado. E na tal solução que me tiraria dessa espelunca! Levo mais a sério o que Daemon me disse: '' Você tem tudo para resolver seu problema, e aquilo que mais estiver te perturbando pode servir para alguma coisa. Boa sorte!'' O que é que estaria mais me perturbando, e o que isso tem haver com o que eu havia dito a Daemon? ''Seria... Saber o que sou eu?'' ''Quem sou eu?'' Pensei. E me ouvi pensando. — Quem sou eu? — falei, e desta vez consegui me ouvir — Quem sou eu? — repeti, me ouço novamente – Ótimo, agora consigo me ouvir! — mas não me ouvi dizendo isso, e arrisco outra coisa – Olá? — Negativo – Quem sou eu! — Positivo – O que sou? — Positivo – É isso que me perturba! — Positivo, isso eu consigo me ouvir dizendo. Então é assim: Tudo que esteja relacionado ao que me perturba eu consigo escutar, e não o contrário.
Manchas avermelhadas começaram a brotar do chão, elas estavam tomando o formato de um Q, de um S, de um N... Estariam essas manchas formando alguma palavra ou frase? Me levanto do chão e começo a falar:
– Não sei de onde vim, quem são meus pais e de onde vieram meus poderes – Digo, e me escuto. Faço uma esfera de gelo aparecer em minha mão, na vã tentativa de estar tendo a atenção de Daemon naquele momento – O meu principal problema resolve o problema que estou tendo? — Dito isso, mais manchas surgem sobre a forma de uma letra. A frase era mais ou menos assim:
QU O SE NOM AF ?
– Você quer saber o meu nome afinal? — Deduzi. O céu voltou ao seu tom vermelho sangue, assim como os pilares voltaram a ser o que eram antes – Meu nome é CAOS!
Mais letras surgem do chão, tornando a frase a seguinte:
VoCÊ nEgA QUEM AnTES SABIA TER SIDO ENgAnADo AFINAL ?
Como é que é? É essa a pergunta? Dou a resposta que ao menos eu julgava ser a certa:
– Não! — Mas analiso a frase um pouco melhor, e logo mudo o palpite – Sim! ÔNGNGNO!
Após a palavra ter sido pronunciada, comecei a me afundar no piso de gelo. Não conseguia tirar meus pés daquele chão, que começava a tomar conta de meus joelhos, logo passando para a cintura, a barriga, meus braços. Até meu corpo inteiro estar submerso.
Volto a me acordar, com a mesma sensação de frio, cansaço e cegueira. Eu estava de volta do meu sonho, da qual me sentia vivo. Que estranho! Isso fazia parte do teste? E por que eu ainda não morri? Não era para a neve ter me engolido?
Ainda assim, isto é um um desafio. E não estou morto porquê Daemon não quer que isso aconteça. Esta é a razão de eu estar vivo. Mas qual foi a razão de eu ter sonhado e ter vivido meu sonho como uma realidade dentro daquilo que é inexistente? Estranho, não? Ou você não me entendeu? Ainda assim... nunca fui bom em montar teorias. Acho.
Consigo me levantar e decido que os pilares são para onde eu devo me dirigir.
– Meus parabéns, Caos! Você passou do primeiro desafio. Hora de começarmos o segundo. E claro, eis a sua recompensa.
Duas almas (Não preciso mais ficar repetindo que são vermelhas. Você já deve estar enjoado de ficar ''lendo vermelho'' o tempo todo! Então sugiro que grave as seguintes informações: tanto as almas subordinadas quanto os poderes de Daemon são vermelhos) surgem no céu. Ficam circulando por um tempo até decidirem vir a mim. Elas adentram meu corpo como disparos de flechas. E sinto dores agudas nos pontos onde fui atingido: no peito e na perna esquerda. Após exatos dez segundos, me sinto melhor. Assim como o sangramento e a falha na visão se cessaram.
– Bem... Obrigado – Digo.
– Obrigado o que? — Ouvi do céu.
– O-obrigado... professor Daemon?
– Assim está bem melhor! Continue se comportando e ganhará um presente especial no final do tes... desafio!
–Hã? — Indaguei – Teste? Foi isso que eu ouvi?
– Você sabe para onde ir, inseto! Acho que não devo mimá-lo tanto assim! Você sabe que você está em um desafio! E não em um teste! Até a próxima rodada, se você sobreviver até lá.
– Hum! Eu sabia, isso é um teste. Se fosse um desafio eu já estaria morto há muito tempo – Conversei comigo mesmo – Bom, não tenho nada a perder, hora de caminharmos rumo ao deserto dos obeliscos.
– Ei Caos! — Ouço um baixo coro de risadas Daemoníacas – Sem querer ser estraga prazeres mas... Eu não sou surdo. Não diga nada, apenas siga meu conselho: CUMPRA O SEGUNDO DESAFIO, E NÃO MORRA!
Um estrondo de trovão entra em cena, e minúsculos pontinhos pretos caem sobre o céu escarlate. Conforme se aproximavam, ganhavam forma. Até eu perceber que uma chuva de pedras estava a caminho. O desafio começou.
Era preciso ser rápido, e não ser atingido por nenhuma cratera sequer. Testo meus poderes, e eles funcionam com tremendo sucesso. ''Ao menos Daemon não tirou meus poderes'' penso. Bato meu pé com força na neve e faço dela brotar uma prancha de gelo. E começo a entrar em uma zona de fuga...
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