As Profecias de Kyoudan
7 - Mio -
Notas iniciais
Tudo aquilo que uma vez era luz, agora irá se tornar escuridão.
A cada dia meu passado vem me torturando mais... E não consigo escapar dos frequentes pesadelos que começam a me consumir. Todos os dias acordo com as mesmas lembranças horrendas: Elxion e seus subordinados invadindo minha antiga cabana, matando a única pessoa que eu amava e nunca me abandonara, e me enterrando viva em um covil, deixando-me por lá ficar, até morrer.
E toda vez que me acordo, Mihtra atende a meus socorros, me consolando e executando o Culto Asor, uma de suas magias efetivas contra a insônia. Conhecida também como a ''Magia Flor-Mãe''.
Mihtra foi a pessoa que me acudiu quando mais precisei, me respondeu quando mais duvidei e me consolou quando mais chorei. Entre muitos fatores. Ele também era mentor. Sua aprendiz fora sequestrada pelos necromantes e desapareceu desde então. E seu propósito é resgatá-la. Meu propósito é similar ao dele, porém com suas diferenças: devo resgatar meu mentor e meu inimigo é outro. Minha luta não é com os necromantes. Se bem que o inimigo do meu maior amigo, é também meu inimigo.
Por que não começamos esta nova história desde o princípio? Bom, para começar, meu nome é Mio, e também sou uma profecia: a da Lua.
Sei de pouca coisa sobre mim, apenas tenho conhecimento de tudo que minha avó me contou. Vim de Pteron, um antigo vilarejo cujo povoado tinha um forte regimento contra seus visitantes, que eram considerados intrusos, mesmo aqueles que não o eram. Eles tinham esse sentimento ''tribalístico'' por assim dizer . Só entra aqui quem for daqui, era o lema dito por todos de lá, assim como executavam inúmeros rituais em homenagem a Luana, a Deusa-lua, e minha mãe era a sua bisneta. Minha avó contara que Luana era a antiga profecia da lua em seu tempo, e que seu poder seria passado para a pessoa certa, ou seja, a mim.
Mas ainda não entendo. Por que eu? O que tenho de tão especial para ter sido a escolhida? Teria alguma relação ao meu destino? As coisas seriam bem melhores se eu não fosse a futura profecia: Pteron existiria, eu saberia quem eram os meus pais e meu avô, pois estariam vivos assim como minha avó, e Elxion não iria existir (Pelo menos não para mim) e não haveriam perseguições e vingança. Mas devemos encarar este fato de que meu destino é ''especial'' de alguma forma...
Antes de eu nascer, Pteron era tranquila do jeito que tinha de ser: com seus pescadores e ferreiros qualificados; arqueiros protegendo a aldeia dos ursos vulcânicos e Zauriuses; os camponeses com suas plantações; os conservadores de espécies com suas criações de bisontes e javalis-pantânicos e, acima de tudo, a expulsão de qualquer novo indivíduo que tentaria por os pés na aldeia e os rituais a Luana. Minha avó era a agricultora anciã da tribo. Ensinava aos iniciantes da área conhecimentos de plantação, mistura de temperos, venenos que não nos afetam, entre outros. Minha mãe era uma das tecelãs mais respeitadas, pela sua agilidade em costurar com ossos- agulha. Meu pai e meu avô seguiram a hierarquia de todo ''homem de Pteron ser bom pescador, e guerreiros são arqueiros, senão ferreiros''(eles eram pescadores).
Três anos se passaram, e correram as notícias de minha mãe estar grávida, assim como os profetas da tribo alegavam que o nascimento da menina-lua estava tão próximo quanto imaginavam (já me conheciam antes mesmo de eu nascer). Tempos depois, o que era ruim aconteceu: Eu nasci. Muitos comemoravam por esse momento e tantas foram as cerimônias que prepararam para minha chegada. Mas uma pequena armada de guerreiros se aproximava de nossa aldeia. Os próprios arqueiros alertavam sobre a chegada destes guerreiros-fantasma e seus corpos sem vida. Estes guerreiros montaram um cerco sobre Pteron e apenas um deles adentrou a aldeia. Muitos foram os guerreiros e arqueiros que tentaram barrá-lo, mas todos morreram em vão. Inclusive meu avô e meu pai, que tentaram impedí-lo de entrar na tenda de parto da aldeia, onde estavam eu e minha mãe. Minha avó estava ajudando nos preparos festivos quando uma de suas ajudantes contou o que estava acontecendo. Foi quando ela agiu por instinto.
Enquanto muitas eram as pessoas que impediam este guerreiro de entrar na tenda, minha avó aproveita a situação e me tira dos braços de minha mãe.
– Sinto muito – Disse a ela – Nada disso deveria acontecer...
– Entendo perfeitamente – Foi sua resposta – Vi tudo isso acontecer antes. Mas não queria que ninguém soubesse...
– M-mas... Por que você não avisou antes?
– Isto também fora previsto. Nós nos prevenimos de elxion, abandonando Pteron e habitando as proximidades da Selva Tengu. Porém, todos nós inclusive minha filha aparecíamos mortas em minha visão. Cabe a você protegê-la.
– Não, você deve ir conosco! — Insistiu.
– Se eu for, Elxion irá também.
– Você sempre foi uma boa menina. Pena que você não cumprirá seu papel de boa mãe...
– Eu já o cumpri – Foram as suas últimas palavras.
Sendo assim, minha avó não tinha outra escolha senão fugir comigo.
Passaram-se três anos, e minha avó sempre me lembrara de como ela tentava me ensinar a plantar quando pequena nesta época. A única coisa que me lembro deste período é de ter comido as sementes de morango.
Quatro anos depois, eu já estava crescidinha, e sabida demais, como dizia minha avó. Foi exatamente nos meus sete anos que tive indício de meus poderes. Era uma noite friolenta. O céu escuro com uma lua atraente roubando a sua cena. Eu estava do lado de fora da nossa pequena cabana, olhando para a única direção que me mostrava interesse. Meus olhos se permaneciam fixos a ela. Paralelos a uma espécie de troca de energias. Minha visão parecia me levar a mais perto desta lua, ou então o contrário... Mas foi a partir deste momento que algo sobrenatural toma conta de mim.
Minha avó me chama para dormir, eu entro na cabana e me deparo com ela segurando uma tigela com batatas cortadas e frescas. Ela olha diretamente para meus olhos, e eu os dela. Suas retinas diminuem enquanto as minhas parecem aumentar e tudo ao nosso redor fica completamente escuro.
Estou em um humilde vilarejo, num pequeno casebre, em cima de uma cadeira prostrada em uma janela, observando uma fileira de guerreiros alinhados em posição de ataque, com suas lanças apontadas para frente. Seus elmos e escudos reluziam sua cor bronze a luz do sol. Havia uma atraente mulher na frente de todos eles, segurando uma espécie de lança com três pontas em cada uma das extremidades. Seu cabo era detalhado com símbolos lunares. Cada um representava as fases da lua: Cheia, Nova, Crescente e Minguante.
– Mamãe!! Mamãe!!! — Me vejo gritando.
Mãos largas e pesadas me seguram pela cintura e me tiram da cadeira calmamente. Começo a gritar e espernear, insistindo em ficar e ver o que vai acontecer. Sendo que eu não estava sob controle de mim mesma.
– Está bem Niara, está bem!! Você pode ver sua mãe mais um pouquinho! — Responde o dono das mãos Largas, me soltando por um instante. Então, eu estava no corpo de... Minha avó! Seria mesmo possível?
Por um instante esta atraente mulher olha exatamente para mim. Seus olhos intensamente chamativos expressavam ajuda, ou algo como ''preste atenção''. Seu olhar passa para a lança. Meu olhar segue a instrução, e noto seu polegar circundando um dos símbolos da lança: Minguante. A mulher sorri.
– Isto é tudo, querida! Vamos para o porão!! Depressa! — Responde o homem protetor, me segurando novamente, desta vez não tomo nenhuma reação — Vou te protegê-la dos brutamontes necromantes. Se eles tocarem suas mãos em você, eu juro que arranco o intestino deles e faço-os comê-los! — Esse homem possuia uma voz paterna e protetora.
Me vejo voando em direção a uma porta discreta, situada num dos cantos do cômodo onde me encontrava. O homem me põe delicadamente no chão e começa a vasculhar sua calça. Pega um molho de chaves e passa a destrancar cerca de doze fechaduras de uma única portinha. O homem era alto demais. Sua pele era um bege empalidecido e enrugado. Era cabeçudo, possuía mãos e pés muito compridos, sendo que esse homem calçava botas com furos onde apareciam os dedões de cada pé. Seu olho esquerdo era maior que seu direito e havia um calombo em seu queixo. Quando este olhou para mim, fiquei assustada, mas a menina não.
– Você é a coisa mais preciosa para nós, minha neta. Garanto a você que pelo que depender de mim, nenhum mal irá te pegar – Diz o homem, dando um sorriso desdentado, mas muito verdadeiro — O que espera? A porta está aberta! Damas primeiro!!
Corro em direção ao corredorzinho estreito e que cheirava a terra. Desço os degraus de raízes, quanto mais prosseguia, mais amarelo ficava o pequeno túnel. Pequenas plantinhas douradas luminosas começavam a nascer conforme me aproximava do cômodo. O homem seguia logo atrás. Estranhei o fato de ele estar andando de pé, com uma tocha. O túnel ganhava espaço a medida que ele caminhava.
– Daninhas movediças. Você se lembra delas, Niara? — Pergunta o homem.
Faço que sim com a cabeça.
– Ótimo! Ótimo... Agora, estamos protegidos por elas, e você por mim!!
Volto a realidade. Minha avó permanece fixa com seu olhar por questão de segundos, até sua perna começar a tremer, e ela desabar com tudo para trás. Seu corpo passa a tremer e um filete de sangue percorre seu nariz. Corro em sua direção.
– Vó!!! VÓ!!! Você está bem? O que eu fiz? O que foi que eu fiz? — Desabei-me aos prantos. Fiquei próxima a ela segurando firme a sua mão. De repente uma essência púrpura passa a contornar nossos corpos. O sangue que escorria de minha avó passou a voltar de onde saiu. Seus olhos retomaram seus postos... E torna a respirar novamente.
– ARGH!! — Resfolega – Seus... Poderes! Estão aparecendo!!!!
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