As Profecias de Kyoudan
5 - A conclusão -
Notas iniciais
Sobre a companhia dos lobos-leoninos, partimos em direção ao templo de Echizen a busca das minhas respostas. Durante toda a viagem fiquei pensando e temendo que a história de Muatzlam fosse verdade. E se ele for mesmo meu irmão? E se eu tiver vindo de Shinú? E como Mouri está envolvido na história? A única coisa que me resta é saber a resposta dessa verdade, da qual não acredito que seja. Então se eu realmente não estou sonhando, me parece também que não estou na realidade, ou seja, não estou acordado para o que está a minha frente. Desde o acontecimento de um cerco de lobos até o de um velho bêbado assassino, perdi completamente a noção de tempo e espaço. Só tinha consciência de uma coisa: estar montado em um Leão-Canino que corre como se tentasse me tirar de suas costas. Tenho de admitir que eles são bonitos, e possuem uma aparência inofensiva demais: quase o corpo inteiro envolto de pelo dourado e ao redor de sua cabeça uma pequena juba, e seu rosto idêntico ao de um cão manso, mas tudo tem seu porém. Muatzlam aconselhou não olhar diretamente aos olhos do animal, senão ele estaria imaginando ser convidado a um banquete, onde eu seria a especiaria do dia. E que costumam ficar calmos com peixes. Era só você estender um na frente do seu focinho que ele fica de bem com a vida. Fiz um teste com o meu Lobo antes da partida, e não é que funcionou?
Percorremos um longo trajeto por dentro da Floresta dos Lobos. Shirem e Solara bem a nossa frente, enquanto eu e meu meio-irmão andávamos lado a lado atrás. Ficamos um bom tempo em silêncio enquanto íamos passando árvores, riachos de gelo e algumas encostas. De vez em quando um e outro lobo aparecia a busca de alguma coisa. A cada um que passava, Muatzlam ia explicando sua espécie, quebrando o silêncio de tempos em tempos. Se bem que tive um bom aprendizado com ele sobre os diferentes lobos existentes em toda Kyoudan: haviam os lobos normais, os Focinho de Tubarão, os raposinos, os Rhinopinos, os listrados, os calvos, os Canis-salmão, os inofensivos e perigosos Mandrins e milhares de outros por quais passamos.
E mais horas se passam.
É incrível ver como os lobos-leoninos são incansáveis. Não diminuíram a velocidade desde o nosso ponto de partida, na casa-árvore gigantesca (apenas imagine um plátano gigante, que toma o espaço de cerca de vinte dessas árvores de tamanho normal). Por causa disso, uma ânsia estava se formando em meu estômago, que parecia inflar. Um degrau de pedra estava para vir ao nosso encontro. Seria necessário o lobo saltar para passar o obstáculo e era justamente isso que eu temia. Comecei a respirar exageradamente, como um louco perdido em uma floresta em chamas, a fim de acalmar o meu abalo estomacal, mas isso só fez com que a náusea escalasse do meu estômago para a minha garganta.
– Caos, você está bem? — Notou Muatzlam.
Eu não estava bem, não estava mesmo. Mas tive de agradecer a minha montaria e sua surpreendente ideia. Meu lobo simplesmente parou, e me fez voar de cara na neve. Todos estavam do outro lado do degrau, menos eu.
Drasticamente, vomito com a cara enterrada na neve e por pouco que não morro afogado. Olho para trás e vejo meu lobo tossindo. De repente ele abre a boca em minha direção, afasta suas pernas umas das outras e sua barriga toma o movimento de uma lagarta.
– Caos! Cuidado! – Grita Solara do alto da pedra, montada em seu lobo.
– Tarde demais, tarde demais – Sussurrou Shirem.
Sim, era tarde demais. Meu lobo me dá um banho de puro vômito no momento em que decido olhá-lo. Meu primeiro momento de pura humilhação...
– C-c-caos... – Solara não pôde segurar – Eu avisei... — E começa a rir
– Veja pelo lado bom – introduz Shirem, zombeteiro – Não se dá carne de urso para lobos... — E suas gargalhadas começam um espetáculo de provocação.
– Mas eu o alimentei com um peixe!
– Caos, você devia ter se esquivado. Bem como solara avisou. — Ao menos Muatzlam não caiu na gargalhada. Quem sabe ele seja mesmo meu irmão. Apenas seu sorriso concluía que ele também achou graça.
– Ótimo! — Me enfureci — Ótimo! Viu o que você fez, lobo? Agora onde vamos achar um lago que não esteje sólido? Alguma sugestão?
– Bem, próximo do templo de Echizen há um lago incongelável. É a lagoa onde seus animais costumam beber e se lavar – Sugeriu Solara.
– Se esqueceu que ele não é um animal de Echizen? — Acrescentou Shirem.
– Ora seu..
– Shirem – Intervém Muatzlam – Cale-se! Por que tamanha implicância com Caos?
– Certo, desta vez eu me controlo. Mas devemos rir e achar graça de vez em quando. É ou não é? — Sua gargalhada é mais irritante que suas brincadeiras de mau gosto. — Bom, faltam apenas cinco quilômetros para chegar ao templo, vamos logo! E vê se fica longe de mim, garoto!
– Pode deixar! — Retruquei.
– Bom, você já pode montar no seu lobo. Ele está melhor – Diz Muatzlam. — Garanto que isso não vai acontecer de novo. Apenas dê um pouco da sua água para ele e não a use para se lavar...
– Mas posso reabastecer minha garrafa no lago de Echizen, não posso?
– Não – Diz Solara – A água da lagoa não é própria para humanos beberem. Acredite.
– Mas se... — Resolvo não discutir e subo nas costas de minha montaria. Obrigando-a a suportar o mau cheiro de seu próprio vômito.
Mais horas se passam, e luto para não cair no sono. A única maneira de se manter acordado era conversando, como Solara e Shirem faziam. Pensava no assunto que eu iria discutir com Muatzlam. Se eu o pedisse para contar mais sobre meu passado, ou conversasse sobre alguma coisa banal. Mas decidi começar com uma coisa melhor. Um detalhe:
– Não era para você estar na frente?
– Suspeitei que fosse notar – Ele responde, com um sorriso – mas não sou eu que tenho total conhecimento sobre esta floresta. Shirem é quem vive aqui tempos antes de meu próprio exílio.
– É mesmo? Chega até ser uma ironia: Você, um homem-lobo que vive na floresta dos lobos, que conversa com lobos...
– É, eu sei! E se quiser saber, a explicação para isso seria a continuação sobre o seu passado.
– Não seria o nosso passado? — O que foi que eu disse? — Digo...
– Não diga nada. Espere até chegarmos ao templo, e você verá a verdade por si mesmo.
– Se assim diz... — Bom que seja assim! Se ele me contasse mais sobre meu passado, não sei como me sentiria. — Tenho que admitir que eu quero acreditar na história que você me contou antes.
– Você verá a verdade por si mesmo – Repetiu – E você precisa mesmo de um banho. Você está fedendo a bessa!
– Culpe seu lobo! Você ao menos poderia ter previsto o incidente...
– Poderia mesmo. E me esqueci de lhe dizer que o seu lobo é jovem. Tem apenas oito anos de idade e essa é sua primeira viagem a distância.
– Oito anos de idade e tem esse tamanho todo? Quanto tempo eles duram, em média?
– Entre trinta e quarenta e cinco anos. — Responde. Surpreendente! Considero isso um recorde de longa vida entre os lobos. Isso me faz lembrar de um dia qualquer de minha pré-adolescência na Academia Sendu (digamos que meus treze anos), quando a professora de Sendografia pediu para que todos os alunos (de todas as classes) fizessem um trabalho aleatório sobre quaquer livro disponível da biblioteca Sendu, com exceção dos livros xiao. Como sempre Luna era fascinada pela cultura Taiji e ficou com um livro chamado ''Diferenças entre Taijis yin e Taijis yang''. Naquele dia eu não estava com paciência para ler. Traduzindo: eu não estava no melhor dos meus dias. Caminho à força em direção a uma estante qualquer e pego o primeiro livro que vejo. O nome dele era '' Básico conhecimento sobre Cães e Lobos''. As primeiras páginas falavam sobre características gerais, semelhantes e diferentes de ambas as espécies. O resto era uma descrição de cada raça comum de cães e de lobos. De quase todos os que li o tempo de vida era entre 13 a 19 anos. Depois de ler todo o livro, era preciso fazer o resumo. Que acabou me fazendo ganhar o dia. Um aviso: Perca seu tempo. E me desculpe por isso:
Conclusão sobre cães e Lobos:
'' E o resumo é dedicado ao livro Básico conhecimento sobre cães e lobos, cujo objetivo é lhe dar básicas informações sobre ambas as espécies, assim como exemplos de cada.
Uma coisa que não consigo entender é o que diferencia o Cachorro de um lobo. Digamos que o cachorro seja um tipo de lobo, só que inofensivo e domesticável. Para mim, o livro que eu li me ensinou sobre uma raça em especial: a dos Caninos. Já que eu aprendi nas aulas de Teoria Científica que tanto o Cão quanto o Lobo são de classe Canina, para mim o que diferencia ambos é que um é selvagem e outro é doméstico. Porém, na minha opinião, um cão não é um cão, e sim um lobo. Ou seja: Cão ou cachorro é um nome dado a um ser lupino inofensivo.
Tanto o lobo quanto o cão possuem um excelente olfato, audição apurada, fôlego superior ao de um humano e gostam de carne. Mas os lobos são livres enquanto os cães são submissos a nós, e são alimentados com ração especial. Nada contra a forma de vida do cão ou sobre poder domesticar um. Eu gosto de cachorros, mais até do que lobos. Mas... a conclusão de tudo é que Lobos inofensivos existem e que convivemos com eles.''
Duas horas depois, a professora nos devolve as redações com suas respectivas notas. Porém, comigo a coisa foi diferente. A própria professora me chamou para uma conversa em particular em uma pequena salinha. Me surpreendi com o que recebi. Uma salva de parabéns e elogios e um obrigado pelo meu resumo. Ela me explicou que minha redação ajudou a ela responder a uma pergunta que muitos de seus alunos xiao faziam: Qual a diferença entre um Cão e um Lobo? E ela também concordou com minha teoria de que a única diferença entre estes é que o Lobo é selvagem e o Cão é doméstico, mas que são da mesma espécie. Tanto que ela gostou da forma de eu explicar isto. Recebo meu resumo com uma nota dez estampada em destaque no canto superior direito da folha. Mas ela me disse que quebrei uma regra, e que isso fora demasiado uma falta de atenção minha, de certa forma. Ela alegou ter me visto ir em direção a estante dos livros xiao. Mas o lado bom é que meu resumo compensou e me salvou de um grave desconto de nota. Sendo que a professora de Sendografia era rígida, mas naquele dia ela não teve nada disso.
Compartilho de minha lembrança com Muatzlam, que acabou rindo de tudo, chegando a dar uma gargalhada. — Vai ver que não sejamos irmãos mesmo, e você seja o Caos errado! — Diz ele, sarcástico.
– Como você mesmo disse: verei a verdade por conta própria – Respondi.
– Se eu soubesse, deixava para você montar em um cão – Rebateu.
– Pensei que você fosse o melhor amigo dos lobos.
– Não. Eu sou o melhor amigo dos caninos. Você mesmo que disse que tanto cão quanto lobo são da mesma espécie.
– Mas o que diferencia é a natureza de cada um.
– E eu que pensei que cães fossem lobos...
– De certa forma são, porém domesticáveis...
– Os selvagens também podem ser domesticáveis, sabia?
– Mas você tem o dom de domesticar os selvagens e de falar com eles...
– Acho que chega vocês dois – Solara finaliza o nosso debate amigável – A conversa de vocês termina em um debate para ver quem tem melhores argumentos? O que vocês pensam que são?
– Cheguei a uma conclusão diante toda a conversa deles – Diz Shirem – que cães selvagens e lobos domésticos não são tão amigos assim.
– Muito engraçado, cão selvagem – e Muatzlam nocauteia Shirem, que fez uma cara de alguém que se arrepende de ter se intrometido onde não foi chamado.
– Shirem me fez levar a uma outra conclusão – Diz Solara – De que existem cães selvagens.
– Ficamos então com sua conclusão – Respondemos em uníssono, novamente. E novamente nos entreolhamos, exatamente como na casa-árvore. Mas desta vez houve uma troca de sorrisos em sinal de concordância.
– Eu hein – Argumenta Shirem.
E neste momento, pensei comigo mesmo nos indícios de Muatzlam realmente ser meu irmão, e de como levei a distância minha mesquinhez com ele. Pensei em pedir desculpas, de me entregar de vez e admitir que errei, de dizer a ele: você é mesmo meu irmão. Mas faltou coragem. Faltou vontade. Faltaram palavras...
E ainda me falta aquele ''pingo de verdade''.
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