Notas iniciais
"Teus olhos são meus livros. Que livro há aí melhor, Em que melhor se leia A página do amor? Flores me são teus lábios. Onde há mais bela flor, Em que melhor se beba O bálsamo do amor?" (Machado de Assis) ♥

Adelaide D'alboquerque



Celeste acabara de chegar de uma das suas cavalgadas. A propriedade era vasta, e quase todas as tardes explorava os espaços verdes. Não tinha permissão para o fazer sem a companhia de um cavalariço, no entanto, sempre o convencia de que não era perigoso se não se aventurasse para além dos limites da fazenda.

Promessa difícil de cumprir já que havia ido por três vezes no vilarejo próximo, para espiar.

A curiosidade de Celeste e o anseio por conhecer coisas novas eram manifestos. Sabia que se arriscava, pois, se o seu pai descobrisse, estaria em sérias dificuldades; mas era inevitável. A menina tinha o espírito inquieto que lhe transmitia a sensação de que nascera para realizar algo notável, ainda que a sua vida não manifestasse vislumbre de possibilidades.

Foi numa dessas “espiadas” que Celeste conheceu Dália e seu irmão, Matias, trabalhadores das fábricas de seu pai. No começo houve alguma resistência quando souberam de quem era filha, mas depois, ao conhecê-la melhor, descobriram que poderiam ser bons conhecidos.

Agora, a passear em meio aos jardins da fazenda, pensava neles. Um povo excessivamente sofrido! Nunca poderia imaginar que viviam de modo tão desumano se jamais tivesse ousado entrar lá. Crianças e mulheres tão negligenciadas, a trabalhar por diversas horas sem descanso. Muitos doentes e mortes constantes.

Os seus olhos marejaram. Sentia uma indignação imensurável dentro de si e um crescente desejo de fazer algo por eles. Por Dália, Por Matias... ele era tão forte, cheio de convicções, mesmo sendo invisível aos olhos da maioria. Ele lutava por seu povo, por sua classe e isso era admirável. Estava com o rosto e braços sempre sujos e os cabelos castanhos desgrenhados. Seus olhos também eram castanhos. Ora vívidos, ora duros. Mas ele a fascinava.

Sorriu ao lembrar-se dele, mas em seguida, tentou afugentá-lo de sua mente. Percebeu que ultimamente fazia-o com frequência.

Pensou no baile e nas possibilidades de, agora, terem pretendentes. Não dizia que não sonhava em se casar; o fato era que não gastava o seu tempo a pensar nisso, como Liana e Emília, mas queria que a sua vida fosse útil aos outros; que tivesse um sentido

Sabia também que se seu pai permitisse cortejos após o baile, seria para firmar acordos vantajosos. A sua palavra imperava e, se quisesse, obrigá-las-ia a isto.

Desde que entendia por gente, domínio era o único sentimento que lhes demonstrava. Tinha poucas lembranças do seu sorriso quando ele olhava para a sua mãe. Raras foram as vezes em que sorrira de verdade. Com a morte da mãe, as filhas nunca mais presenciaram tal coisa por parte dele.

No fim, ela não era alheia às coisas que poderiam suceder-lhe, mas evitava pensar nisso.

Vozes se aproximaram. Eram Beatrice e Cecília, ainda a conversar sobre o grande acontecimento das suas vidas, o baile.

— Estou muito feliz com a escolha do meu vestido. A cor verde irá realçar meus olhos, você não acha Ceci? — Perguntou Beatrice.

— Com efeito. E o meu será o rosa-azalea, para combinar com o meu tom de pele — disse a caçula.

— O vestido da Celeste é o tom de amarelo mais belo que já vi — argumentou Beatrice vendo a irmã se aproximar.

— Isso porque eu queria lilás, mas a modista falou que eu ficaria apagada. Ora vejam só! — reclamou Celeste e elas riram.

— Mas o amarelo foi uma ótima escolha, minha irmã, pode acreditar.

— Ah, será que belos cavalheiros nos tirarão para uma dança? — suspirou Beatrice.

— Uma apenas? Seremos a atração principal. Nunca fomos vistas em bailes, lembra-se? Isso significa que os cavalheiros trocarão socos por nós — brincou Celeste e as três riram novamente.

Não podiam esconder a magnificência dessa novidade na vida delas. Por mais que as regras do evento fossem claras como água, não o tratavam como um martírio, e sim, como uma noite de sonhos, tal qual a história da Cinderela.

— E por falar em cavalheiros... você já percebeu como Diogo olha para você, Trice? — Cecília emendou o assunto. Apesar de muito jovem, era demasiada astuta.

— Oras, como se eu fosse retribuir seus galanteios. Aquele... aquele energúmeno! — enfureceu-se a outra.

— Por acaso ele já lhe dirigiu a palavra de forma inoportuna? — quis saber Celeste.

— Uma vez ele veio buscar alguns documentos de papai e ao sair do gabinete, aproximou-se e disse que eu era a moça mais bela de Évora. Então, eu me afastei e ele teve o atrevimento de falar que se tivesse um lampejo de esperança, se arriscaria a enfrentar papai por mim — relatou Beatrice.

Celeste e Cecília arregalaram os olhos e abriram a boca, pasmas.

— Oh meu Deus! Eu sempre soube que ele a olhava de forma diferente, mas nunca imaginei tal ousadia! — escandalizou-se Celeste. — Contaste a papai?

— De que adiantaria? Papai confia demais nele para ouvir uma mera palavra minha. Além do mais, a presença de Diogo provoca-me uma sensação estranha... principalmente depois do que eu respondi e do olhar raivoso que me lançou.

— Conte-nos — pediu Cecília, atentíssima.

— Bem, eu disse exatamente assim: Não se comprometa em enfrentar o Barão, senhor Avelar, já que esperança é algo que não posso lhe oferecer.

— Beatrice, você o enfrentou! — admirou-se Celeste.

— Eu sei, mas já está feito. Depois disso, ele nunca mais me dirigiu a palavra, mas às vezes sinto seus olhos em mim. Isso me dá calafrios.

— O curioso é que praticamente crescemos juntos aqui na fazenda, mas Diogo sempre foi estranho. Lembro-me de que vocês dois brincavam muito juntos. Mas depois que ele se foi da fazenda e perdemos contato, ele voltou diferente — recordou-se Celeste.

—Sim, mas isso já faz muito tempo. Não somos mais próximos — rebateu Beatrice.

— Bem, não falemos mais nisso. Sigamos, que Didila já nos espera para o almoço. Eu prometi a ela que tocaríamos piano depois.

Dona Hilda, ou carinhosamente Didila para as meninas, era uma senhora bondosa, que fora por muitos anos, dama de companhia e amiga de Amélia. Viu cada uma das filhas nascerem e, após a morte da amiga, ela fez um acordo com o Barão em permanecer na casa para ajudar Adelaide na educação das irmãs, já que esta era muito nova para tantas responsabilidades. Não tinha intenção de contratar outros tutores para as filhas; sabia que D. Hilda era de confiança e daria a educação adequada a elas.

Assim, ela e Adelaide criaram um elo ainda maior. A senhora se compadecia daquela menina que era a própria tristeza em pessoa e, por diversas vezes, oferecia-lhe colo para que chorasse quando não podia expressar-se na frente do pai ou das irmãs. Sentia necessidade de ser sempre forte e Didila sentia profunda pena dela.

Educou as meninas para uma vida social que nunca puderam fruir. Aulas de piano e de dança, etiqueta, boa literatura, escrita para cartas, bordados, língua inglesa e francesa. Mas ainda assim, sonhava em vê-las desposadas com maridos que as amassem, pois eram boas jovens.

As sete irmãs a tinham como uma avó, afinal Adelaide, apesar de jovem, se colocara na função de mãe por sentir-se responsável pelas irmãs, talvez para aplacar a dor com tantos afazeres. Mas no fim do dia, D. Hilda ouvia o choro contido dela; então entrava no seu quarto e aconchegava-a no seu colo até que dormisse.

— Joana, tire as mãos do prato! Onde está a educação? — ralhou D. Hilda.

— Ah, Didila, estamos em família, não se faz necessária tantas etiquetas. Gosto de comer com as mãos — falou, com despreocupação.

— Vou ao Chalé do Lago hoje — avisou Adelaide, subitamente, atraindo a atenção de todas. — Volto em dois dias a tempo do baile, estejam preparadas.

Elas concordaram, mas não aprofundaram no assunto. Sabiam o que se passava com Adelaide.

— O baile é daqui a cinco dias, mal posso esperar! — Emília se manifestou.

— Mesmo? Não vejo o porquê... — provocou Joana, deixando a irmã corar.

— A propósito — interrompeu Cecília —, Adelaide e eu conhecemos os cavalheiros Lamartine.

— Quando foi isso? — indagou Liana surpreendida.

— Na nossa ida à modista. Eles vieram nos receber, acreditando serem vocês. Ficaram constrangidos quando nos viram. Foi engraçado — a caçula riu.

— Eles perguntaram sobre nós? — Emília se interessou.

— Não trocamos muitas palavras, mas perguntaram, sim, e eu disse que estavam bem. — Adelaide mentiu; não queria magoá-las. Cecília olhou para a irmã, mas não se contrapôs.

— Eles são muito belos. Achei que eram terríveis devido à forma como papai sempre os retratou — constatou a mais nova.

— E a senhorita por acaso sabe diferenciar os senhores feios dos belos? Mal vira alguns em seus passeios. Aliás, és ainda muito nova para reparar na beleza dos cavalheiros — retrucou Joana.

— Mas eu não sou cega e você, Joana, disse-me certa vez, que o senhor Diogo era belo. Porém, eu o comparei aos senhores... Lamartine — sussurrou o sobrenome — e cheguei à conclusão que existem os feios, os menos feios e os belos. E Diogo nada mais é do que um “menos feio” — finalizou e todas à mesa riram.

Nessa hora, uma das criadas chegou com a bandeja de cartas e entregou-as à D. Hilda.

O Semanário noticiou esta manhã em sua coluna que As Pérolas Intocáveis de Évora foram convidadas mais uma vez, contudo, a sociedade não deve esperar que elas apareçam... — A senhora comentou sorrindo.

— Bem, eles terão uma grande surpresa, não é mesmo? — Adelaide brincou.

— Imaginem os rostos de espantos ao nos verem chegando. Isso será épico — gargalhou Joana.

A conversa continuou animada por um tempo e ao se retirarem da mesa, D. Hilda pediu que Liana e Emília as acompanhassem até seu quarto. Entre as cartas que chegaram, duas eram endereçadas a elas, e apesar de não haver remetente, ela sabia de quem se tratava.

— Meninas, essas duas cartas são para vocês e suponho de quem sejam. Mas, peço-lhes que tomem cuidado... se o vosso pai suspeitar de algo, não quero nem pensar nas consequências.

Radiantes, as moças concordaram e beijaram o rosto da senhora correndo em seguida para o quarto.

Há dias não viam Pedro e Frederico. Adelaide não permitia mais as saídas delas. Por um lado, entendiam a preocupação da irmã, mas por outro, queriam burlar as regras.

Liana, tomada por tamanha ansiedade, quase rasgou a carta. Esperara tanto por ela!

“Minha amada Liana,

não imaginas quanta saudades estou de ti. Cada pensamento meu pertence a você. Não posso mais esperar para vê-la. Preciso falar a sós contigo urgentemente. Estarei na livraria amanhã, no horário combinado.

Aguardarei ansioso.

Pedro.”

Para Emília, Frederico escreveu:

“Querida Emília,

Todos esses dias afastados, têm sido sobremaneira difíceis. Acredito que para ti também.

Por mais que seja um grande risco, sei de uma passagem próxima ao seu roseiral, onde posso entrar. Esteja lá pela tarde. Não posso esperar sequer mais um dia para vê-la.

Com todo meu amor,Fred.”

As jovens permaneceram em silêncio, cada uma com seus pensamentos. Uma sorria olhando pela janela, a outra, tinha a carta no peito segurando como se fosse a joia mais preciosa do mundo.

Não havia mais volta. Elas estavam irrevogavelmente apaixonadas, e isso lhes tolhia a real percepção do perigo que essa paixão representava.

~~*~~

Adelaide mantinha o olhar preso na estrada enquanto a carruagem seguia. Pensava em sua mãe e no quanto deveria se esforçar para guardar as boas lembranças dela. Tinha tanto medo de perdê-las com o decorrer do tempo.

Estava momentaneamente contente por poder ir ao baile pela primeira vez. Ainda que considerada já para lá da idade para ser desposada, em seu íntimo, desejava ardentemente conhecer o amor.

Ao pensar nisso, lembrou-se também dos últimos acontecimentos em suas vidas. A paixão das irmãs pelos irmãos rivais, que aparentavam ser cavalheiros educados e de bom caráter. Mas quem poderia garantir? Aquela família não era nada confiável e o julgamento de duas moças apaixonadas não servia de termômetro. Ademais, poderiam usá-las para dar algum golpe e isso ela jamais permitiria!

Inerte em seus pensamentos, sentiu que o veículo diminuía a velocidade, mas antes de perguntar qualquer coisa, o cocheiro já havia descido para verificar algo na estrada.

— Há algo errado, senhor Vasco? — perguntou, preocupada.

— Senhorita, há uma carruagem quebrada na estrada e, ao que me parece, há dois senhores bastante feridos.

— Por Deus, senhor Vasco, ajude-me a descer!

— Não sei se seria apropriado a senhorita ver tal cena...

— Não podemos deixá-los aqui! Seria muito desumano de nossa parte.

A moça caminhou até o local. Levou as mãos à boca, pesarosa, ao se aproximar dos homens ensanguentados. Um deles gemia ainda.

— Senhor Vasco, eles estão muito machucados…

— Sim. Tudo indica que o acidente ocorreu há pouco tempo. O que faremos?

— O chalé está próximo, vamos levá-los para lá. Cuidarei deles enquanto buscas por ajuda.

— Como a senhorita preferir.

Enquanto o cocheiro colocava um dos homens na carruagem, Adelaide acalentava o que estava agonizando de dor. Não sabia ao certo o que fazer.

Com dificuldade, eles colocaram os dois homens na carruagem. Adelaide fez o restante da viagem ao lado do cocheiro. Vasco desceu rapidamente quando chegaram e enquanto Adelaide abria a porteira do local, ele carregou os feridos para as camas.

— Senhor Vasco, volte e fale com Didila, ela saberá o que fazer. Traga o médico. — Deu as ordens enquanto colocava água para ferver em uma chaleira.

— Sim, senhorita, voltarei logo. Tem certeza de que ficará bem, sozinha?

— Chamarei os caseiros para fazer-me companhia. Não se preocupe, ficarei bem.

Pouco tempo depois ela voltou ao quarto com uma bacia e panos limpos. Verificou com mais atenção os homens e seus estados. Eles estavam severamente machucados.

Olhou o primeiro e, pela roupa, era o condutor da carruagem; tinha o rosto cheio, era quase ruivo e possuía uma barba farta. Observou muitas feridas no rosto e nas suas mãos. Começou a limpá-lo com um pano e água quente. Estava totalmente imóvel.

Foi até o outro e olhou para seu rosto. Este era louro, tinha uma barba aparada, lábios finos, o queixo levemente pontudo, nariz impositivo, um rosto que chamava a atenção apesar do estado.

Ele ainda gemia e, de vez em quando, tentava abrir os olhos. AAdelaide continuava a limpar o seu rosto com delicadeza e a analisá-lo. Nunca em sua vida olhara para um homem tão de perto. — Quem é você…? — sussurrou para ele mesmo sabendo que não responderia.

A dor que ele sentia, decerto, levava-o a gemer insistentemente. Resolveu fazer-lhe um chá de ervas. Levou os panos para a lavanderia e colocou mais água para ferver. Ficou olhando para o nada, pensando em muitas coisas. Era um reboliço e tanto, mas não havia muito a fazer a não ser observá-los e esperar por alguma reação.

Decidiu também não avisar os caseiros para não ter que deixá-los sozinhos. Talvez o casal aparecesse ao cair da tarde, como de costume.

Colocou as mãos na cintura e suspirou fundo.

Ouviu um gemido alto, montou a bandeja apressadamente e correu para o quarto. Preparou o chá, mexendo com a pequena colher, e deu-o a ele, erguendo a sua cabeça com suavidade. O efeito viria rápido. Aprendera a fazê-lo com D. Hilda, o tal chá de ervas tranquilizantes que amenizava a dor.

Com dificuldade, conseguiu fazê-lo engolir algumas doses com a colher, depois voltou a torcer os panos e a colocá-los na sua testa. Não sabia o porquê daquilo, apenas seguia o procedimento que sempre vira, principalmente quando sua mãe estava doente. Lembrou-se do estado dela, da dor que ela sentia, da forma como ela se esforçava para respirar e como segurava a mão dela naquele dia. Lágrimas começaram a correr-lhe pelo rosto e, tomada por um súbito sentimento de proteção, agarrou a mão do rapaz.

— Por favor, não morra — pediu.

Abaixou a cabeça fazendo uma rápida prece. Fizera tudo o que podia.

Outro murmúrio, e viu que ele tentava abrir os olhos.

— Shhh! Acalme-se, vai passar. O médico já está a caminho — dizia ela, ainda segurando a sua mão.

Lentamente, ele abriu os olhos. No primeiro momento, não conseguiu identificar a pessoa que estava junto a ele, mas sentia uma pequena mão macia segurar a sua. Tentou firmar a visão e, pouco a pouco, uma figura foi se formando. Cabelos louros, pele alva e olhos azuis, como os dele, mas um azul intenso... como safiras.

Quem era ela? Onde ele estava? Continuou olhando fixamente a mulher à sua frente. Parecia uma pintura, de tão bela! Tentou falar, mas não conseguiu, a dor era intensa até para respirar.

— Acalme-se, o médico logo estará aqui, você vai ficar bem — a ouviu dizer.

Ele sentiu os olhos pesarem. Uma vontade enorme de dormir o consumia. Mas antes, apertou sua mão e olhou novamente para aqueles olhos...

Eram olhos hipnotizadores e, também, os mais tristes que já vira em toda a sua vida.


Notas finais
Beijos! ♥