As Pérolas Intocáveis de Évora - Livro I
32 Capítulo 31 - Buscando a paz
Notas iniciais
Beatrice D'alboquerque
“ ...Beatrice, a alegria de viver é sua. Seu brilho contagiará a todos ao seu redor. Mas cuidado com aqueles que se aproximam, pode não ser para o seu bem. E quando entenderes e vier a angústia, haverá alguém para acalentar seu coração e trazer o brilho da sua alegria de volta.”
Carta da baronesa D’alboquerque às suas filhas
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Ao ser questionada por seu noivo sobre estar naquele lugar, e sozinha, Beatrice contou que fora visitar o pai, deparando-se com a tragédia. O senhor Carvalhal foi ter com o chefe da Guarda depois de ter encaminhando a noiva até a carruagem e constatou a veracidade dos fatos.
Raul a levou de volta a Casa Lamartine, mas durante todo o trajeto, não pronunciou palavra. Ela estranhou sua atitude e temeu o que ele poderia estar pensando. Normalmente, o noivo sempre se mostrava dedicado e amoroso, mas agora, seu semblante era indiferente.
— Beatrice, você havia saído? — indagou Eleonor ao vê-la chegando com o noivo — Não quero ser indiscreta, senhor Carvalhal, mas não é adequado que Beatrice saia sem a permissão devida, afinal, vocês ainda não se casaram.
— Peço-lhe, desculpas senhora, não acontecerá novamente — disse, enquanto a moça permanecia calada.
— Viscondessa... aconteceu algo grave. São notícias nada agradáveis as que trago — notificou Raul.
— Oh senhor Casagrande, não digas isso! Já estamos rodeados de tragédias! — lamentou. — Sente-se, por gentileza e conte-me o que mais contribuirá para nos tirar a paz que tanto almejamos.
O jovem então anunciou:
— O barão D’alboquerque e seu assistente, senhor Avelar, morreram na prisão.
Eleonor arregalou os olhos e perguntou:
— Mas como? Quem os matou?
— O próprio Avelar. Atirou no homem e se matou em seguida.
— Oh céus! Pode parecer cruel da minha parte, e perdoe-me de antemão, Beatrice, mas aqui se faz, aqui se paga — proferiu a viscondessa.
— Não há o que perdoar, senhora, tenho ciência das maldades deles enquanto vivos — concordou a moça.
Raul olhava a noiva de modo inquisidor e pediu permissão para falar com ela a sós. A viscondessa permitiu que eles conversassem, mas somente por um breve tempo e saiu para preparar as moças para a notícia, principalmente a jovem Cecília.
Ao ficarem a sós na sala, Beatrice o observou levantar-se e caminhar pela sala como se estivesse escolhendo as palavras para dizer.
Aguardou. Não sabia o que fazer.
— Senhorita D’alboquerque — começou ele e ela não gostou do tom. Afinal, ele não a chamava pelo sobrenome já há algum tempo —, sempre fui muito sincero contigo e gostaria que retribuísse da mesma forma. Algo me atormenta e não posso conviver com essa dúvida. Portanto, diga-me, que tipo de apreço tinhas por Avelar?
Ela sobressaltou-se com a pergunta direta de seu noivo. Certamente ele desconfiara de algo, mas não podia perdê-lo. Sendo assim, respondeu:
— Como? Não sei o que cogitas, senhor Carvalhal. Diogo e eu crescemos na fazenda e por um breve período fomos amigos, antes de se tornar o que foi, portanto, tive sim, certo apreço por ele outrora, mas não da forma que supõe.
Raul a fitava sério, porém, não disse nada. Beatrice se sentiu constrangida pela forma como ele estava tratando-a, mas tentou convencê-lo:
— Raul, ouça-me... — e se levantou do seu lugar para ir de encontro a ele —, seja lá o que estiveres pensando em desfavor de meu comportamento, não o faças. Eu apenas sentia pena de Diogo, ele era um bom menino quando morava conosco e criamos laços de amizade. Eu apenas tinha esperanças que voltasse a ser, mas me enganei. Por favor, não me culpes por isso.
Eles se olharam nos olhos e ele perguntou outra vez:
— Fostes mesmo ver o Barão na prisão?
Ela abaixou o olhar e resolveu ser sincera:
— Não... após a revelação sobre Diogo ser nosso irmão, eu vi o quanto ele ficou atormentado por ter sentimentos por mim, afinal, não sabíamos e imaginei a luta que devia estar travando pela culpa e por seu passado. Ele sempre venerara o barão e este matou sua mãe, foi um grande golpe para ele; queria dar-lhe um pouco de paz com minhas palavras, apenas me coloquei em seu lugar, por favor, entenda — completou com os olhos marejados.
O rapaz desviou o olhar da moça e pôs-se a pensar. Estaria ela dizendo a verdade? Deveria deixar de lado toda essa história e prosseguir? Diogo não poderia ser a sombra em seu casamento.
Ela percebendo sua demora na resposta, insistiu:
— Raul, uma vez me disse que independente de meus sentimentos, me amaria e me esperaria. Eu não sentia nada por você na época, mas hoje eu sei que o amo. Não deixe que a circunstância nos afaste para sempre, podemos ser felizes.
Diante da voz suplicante da noiva e de sua declaração, ele a contemplou. Ela nunca havia dito que o amava e isso fez com que seu coração se aliviasse.
— Sim, eu disse — confirmou — e ainda tem a minha palavra quanto a isso. Também quero que sejamos felizes, mas entenda-me, não posso conviver com a dúvida.
— Não a tenha. Eu o amo e quero ser sua esposa, a mãe de seus filhos. Só preciso que compreendas meus conflitos neste momento e me aceite. Só você poderá ajudar-me nessa hora tão difícil — pediu e ele a beijou ternamente; ela retribuiu abraçando-o em seguida, fechando os olhos e pedindo mentalmente a Deus para tirar Diogo de seu coração e ser completamente de seu futuro marido.
~~**~~
Joana se encontrava pensativa na varanda da mansão e Emília veio ter com ela depois de passar um tempo com Liana e contar-lhe como Adelaide estava se recuperando, podendo tão logo voltar para casa.
— Jô...
— Oi, minha irmã — respondeu, despertando de sua abstração.
— Com tantos acontecimentos ainda não tivemos tempo pra falarmos. Mas quero que leia isto — e entregou a carta da mãe para a irmã.
Ela fitou o papel e o pegou. Leu o cabeçalho a carta e olhou para a irmã como que se perguntasse: “é de mamãe?” e Emília respondeu com um sorriso e completou:
— Leia, mas atente-se principalmente para a mensagem que ela escreveu para você e para Celeste. Mamãe de alguma forma pareceu prever nosso futuro; é estranho, entretanto, tudo o que está escrito aí é verdadeiro.
Deu um beijo em seu rosto e saiu a fim de deixar a irmã ter suas próprias reflexões.
Joana pôs-se a ler a carta e cada frase dita pela mãe sentiu o seu coração apertar, mais ainda, quando leu a mensagem específica para ela. Não pode conter as lágrimas.
“Joana, és forte e decidida. O desejo de lutar por uma causa justa estará sempre em seu coração, portanto, siga-o. Seu espírito livre te guiará e terá grandes conquistas mesmo em uma sociedade hostil. Mas ouça-me: não sinta-se culpada diante de uma possível perda. Há muitas coisas que envolvem nossa vida e que não entendemos de imediato.”
E para Celeste:
“Celeste, o altruísmo em você desperta admirações. Gosta de ajudar e seu coração disposto não mede esforços. Nasceste para um grande propósito e o saberá no momento de sua escolha. Será a decisão da sua vida.”
E foi como se tudo se explicasse. A clareza das palavras da mãe serviu de bálsamo para sua dor. Era difícil, mas era a permissão para que seguisse em paz.
— Dói muito, e sei que ainda doerá por muito tempo. Mas obrigada por isso, mamãe! — falou de olhos fechados segurando a carta junto ao peito.
~~*~~
Uma reunião se fez necessária na Casa Lamartine. Eleonor contara ao marido sobre a morte do barão e de Diogo, assim que ele e os filhos retornaram de seus negócios.
“Bem, não posso negar que essa seja a melhor notícia no meio de todo esse alvoroço. Aquele bastardo poupou o serviço que muita gente queria fazer, inclusive eu, e ainda fez um favor pra si mesmo”.
Foram as palavras do visconde e nem a esposa ou seus filhos falaram algo para repreendê-lo. No fundo, todos concordavam.
Estavam as duas famílias reunidas no salão maior da mansão, exceto D. Hilda que fazia companhia à Adelaide no hospital e Liana que não podia sair de seu repouso.
O visconde entrou para fazer o pronunciamento, enquanto todos de pé, aguardavam.
— Bem, senhores, senhoras e senhoritas, não sei como classificar a notícia que aqui darei, pode ser que para alguns seja trágica, porém, para outros, um alívio. Mas acabo de saber que o barão foi morto há poucas horas na prisão, pelo seu capataz e também bastardo, Diogo, que se matou em seguida.
Cecília soltou um grito e levou as mãos à boca deixando as lágrimas rolarem. A viscondessa a abraçou. Entendia a dor e os conflitos da menina.
Os outros integrantes da sala nada disseram. As outras irmãs permaneceram com semblantes impassíveis. Era estranho sentir alívio com tal notícia, apesar de que o pai sempre fora um completo estranho e as maltratava, exceto para Ceci que sempre acreditara na redenção dele.
Joana pediu a palavra:
— Poderemos agora definir nossas vidas. Preciso ser sincera, essa notícia não me causou espanto ou qualquer sombra de remorso. Posso transparecer frieza, mas sem ele a paz é mais que um sonho. E Ceci — virou-se para a irmã —, não a condenamos pela dor que sentes, sabemos que sempre teve esperanças de sermos uma família feliz, assim como mamãe lutou antes de partir. Você é doce como ela era e não desejo que te tornes uma pessoa dura.
E foi até a irmã e a abraçou, deixando que chorasse. Os outros não interromperam esse momento em respeito aos sentimentos da moça. Quem poderia condená-la por amar alguém mesmo que este não fosse merecedor pelo julgamento humano?
~~**~~
— Que disparates estão me dizendo? — indagava nervoso o Duque de Carvalhal ao saber pelos Diaz Castel que a filha estaria esperando um filho de Álvaro.
Demétria continuava calada enquanto farpas eram trocadas entre o duque e os pais.
— Eu exijo que seu filho repare a honra de nossa filha e case-se com ela! — cobrava Edgar.
— Oras, não me venhas com patavinas! Sei que desejas dar-me o golpe. Que provas tens? E pelo que sei a senhorita Castel, se é que ainda a posso chamar assim, não é tão inocente quanto parece — acusou o duque.
— Como ousa difamar minha filha? — gritou Pilar — Oh, minha filha querida, tape os ouvidos diante dessas atrocidades que esse homem fala a seu respeito — dirigiu-se à filha, fazendo uma cena dramática.
— Mas o que está havendo aqui? — indagou Álvaro entrando no gabinete do pai — Até os empregados estão alarmados.
— Esses... interesseiros vieram tentar me dar um golpe, mas perderam seu tempo. Saiam daqui imediatamente! — gritou mais uma vez o duque.
— Não sairemos enquanto o casamento de seu filho e minha filha não for marcado!
— O quê? — assustou-se o rapaz — Do que estão falando?
— Da desonra que causou à nossa filhinha e agora tem que arcar com seus atos. Ela vai ser mãe e o senhor é o pai. Quem mais poderia ser? — atacou a senhora Diaz Castel.
— Ela está... isso é verdade Demétria? — perguntou à moça e ela nada respondeu. Apenas o olhou de esguelha abaixou o olhar e balançou a cabeça levemente em concordância.
— Eu não acredito... E porque me acusam? Eu nada fiz a ela. Mesmo quando tinha apreço por vossa filha, nunca tentei nada que colocasse em jogo sua reputação; muito menos agora.
Essa declaração causou certo desconforto em Demétria.
— Oras, não venhas tirar o corpo fora, meu rapaz! Esse filho é seu e terás que arcar com as consequências ou terão que pagar uma boa quantia por isso — o pai da moça propôs e recomeçou uma nova briga entre os três. Álvaro olhava a moça, de cabeça baixa e séria. Conseguiu sentir pena dela, por mais que não merecia. Ela praticara muitas maldades contra ele, Pedro e Liana.
— Basta! — gritou Álvaro e todos se calaram — Peço uma audiência rápida com a senhorita Castel. Quero falar com ela a sós se os senhores me permitirem.
— Não permitirei! — disse Edgar — Tenho certeza de que tentarás persuadir nossa filha e não cumprirá com suas obrigações.
— Eu falarei com ele. — Demétria falou pela primeira vez — Por favor, papai.
O homem grunhiu alguma coisa.
— Está certo. Mas não passará de cinco minutos.
Álvaro levou a moça para a saleta do escritório e olhou sério para ela:
— Como pôde permitir que seus pais me acusassem? Sabe que nunca lhe toquei.
Ela abaixou a cabeça e Álvaro percebeu lágrimas pingarem em seu lenço.
— Porque és minha única esperança. Estou perdida, Álvaro. Ninguém me quererá. Se você não me salvar, estarei condenada para todo sempre; serei apontada — disse em desespero.
— Como isso foi acontecer? Eu não entendo...
— Diogo... ele forçou-me — e chorou mais ainda —, sei que sou a culpada de estar vivendo isso. Fui cruel com muitas pessoas e estou pagando por isso. Deveria cobrar de Diogo, mas eu ficaria exposta. E que futuro eu teria com ele? Serás condenado e exilado.
— Demétria... Diogo está morto.
A moça olhou espantada para ele.
— Matou o barão e se matou durante uma audiência na prisão— completou.
Demétria caminhou lentamente pela saleta e disse:
— Não há paz para os que semeiam tragédias, não é mesmo? Cada um recebe o preço que merece. — fez uma pequena pausa — Uma vez você me disse que eu engoliria as minhas palavras e correria para você, e olha onde estou — riu sem gosto. Ele nada disse.
— Eu não cobrarei nada de você, Álvaro, não mereces uma pessoa como eu ao seu lado, muito menos criar um filho bastardo. Irei para o convento como meu pai sugeriu e lá terei meu filho.
— Eu sinto muito, mas eu não posso me casar com você, Demétria — explicou. — Elisa e eu estamos comprometidos. Nós nos amamos.
A moça sorriu levemente e disse:
— Ela sim, será uma boa esposa. É a pessoa certa para você; faço votos de que sejam muito felizes. E obrigada Álvaro, por ter me amado um dia. Arrependo-me de não enxergar antes, os seus atributos.
E saiu da sala.
Os pais da moça e o duque, ainda nervosos, olharam em expectativa para os jovens.
— E então? — quis saber Pilar.
— Vamos embora, minha mãe. Tenho malas para preparar, pretendo ir ainda hoje para o convento — disse a moça.
— Como? O que dizes? Você se casará com o filho do duque!— retrucou Edgar.
— Não, meu pai! Chega de tantas mentiras e maldades! Estou cansada, quero paz, será que não entendem? Contei toda a verdade a Álvaro, ele não merece pagar pelos meus erros! — respondeu e se encaminhou para a saída deixando os pais estupefatos.
~~*~~
Afonso descia a escada com suas malas. Na sala principal, todos esperavam reunidos e Eleonor tentava não chorar ao ver o filho prestes a partir. Cecília lhe contou sobre as intenções do rapaz e como ele amara, no passado, uma moça do vilarejo e depois, Celeste. Com duas decepções dolorosas, a morte dos amigos, e agora, a raiva que desenvolvera do pai, ele não poderia ficar. A viscondessa chorou quando foi conversar com o filho dizendo que o entendia, mas que escrevesse sempre como prometera a Cecília.
“Filho, peço-te, perdoe seu pai, ele não teve culpa na morte de Matias e das pessoas do vilarejo... foram as circunstâncias filho...”
“Circunstâncias que ele contribuiu, minha mãe. Se não tivesse desamparado Matias e sua família por puro preconceito, hoje eles estariam vivos. Sei que não podemos mudar as regras, mas podemos aplacar o sofrimento das pessoas quando queremos.”
Essa foi parte da conversa entre eles. Afonso não conseguia olhar para seu pai desde então. Estava irreconhecível para a família, se tornando frio e também temia por nunca mais ter seu filho de volta. O filho que sempre fora.
O visconde olhou para Afonso despedindo-se da mãe, dos irmãos e das moças D’alboquerque. Seu semblante mesclava entre dor, cansaço e frieza. Lamentou sua partida, mas, lamentou ainda mais por ele estar partindo cheio de ódio. Se ele pudesse mudar as coisas... no entanto, uma vez aCecília se aproximou da carruagem e disse:
— Não te esqueças da sua promessa. Estarei esperando ansiosamente por cada palavra que escreverá. Quero conhecer o mundo at pedra lançada, não mais retorna.
Tentou lhe falar quando o viu indo para a carruagem:
— Filho...
Mas ele não o atendeu. Passou direto sem mencionar palavra. Aquela atitude trouxe-lhe um amargor na alma.
— Deixe-o, Maurice... só o tempo tratará de melhorar as coisas. Damos esse tempo a ele — disse a esposa, tocando-lhe o ombro.
— Não esquecerei, pequena tagarela. Tentarei ser o mais detalhista possível, porém, nunca conseguirei vencê-la nesse quesito.
Os dois riram e ele beijou-lhe a testa, subindo no veículo.
— Até breve, amigo...
Ele fez-lhe um aceno e se foi.
~~*~~
Incrivelmente, depois de dias atormentadores, aquela manhã carregava tranquilidade na Fazenda D’alboquerque. Joana resolveu voltar com Didila a fim de promover mudanças definitivas naquela casa. Tirar o estigma enraizado por toda uma vida. Se é que isso seria possível, mas já era um começo.
Não tinha a intenção de se desfazer da fazenda, e muito menos ficar na casa, e se tivesse sorte, convenceria as irmãs também. Porém, apesar dos males que ali viveram, era também um lugar de lembranças da mãe, e tinha também os empregados. Não poderiam simplesmente despedi-los. Sendo assim, decidiriam o rumo a ser tomado.
Não obstante, tantas outras coisas precisariam ser ordenadas a partir de agora.
O enterro do barão e de Diogo ficara a cargo do mordomo. Cecília pediu para estar presente, então a viscondessa a acompanhou. Ninguém se opôs.
Adelaide logo sairia do hospital e teria que tratar de assuntos da herança. O título morrera com o pai já que o barão não tivera filhos homens, mas os bens seriam transferidos ao marido quando ela se casasse, e aí estava mais um problema, Henrique não queria ao menos falar sobre tal assunto. Não escondia o ódio pelo rival mesmo após a sua morte e não queria ser responsável por nada que fora dele em vida.
E tinha ainda o casamento de Beatrice. Com a morte do patriarca D’alboquerque, o duque Carvalhal quis intervir nas decisões de seu sobrinho Raul e desfazer a aliança com a tal família, no entanto, suas imposições não foram acatadas.
E para completar a lista de afazeres, o décimo quinto aniversário de Cecília se aproximava e ela seria apresentada à sociedade. Se bem que a moça não estava animada com tais etiquetas. Ultimamente, buscava transferir seu poder eloquente aos papéis e esse novo hobby rendia-lhe crônicas, poesias, contos, e dizia pretender escrever um livro.
— Didila, eu estava pensando... — começou Joana retirando alguns objetos da sala e depositando-os numa caixa — vou ajudar o povo do vilarejo a se estabelecerem. Pedi ao visconde para liberar parte das nossas finanças para a construção do lugar novamente e da... fábrica queimada — suspirou.
— Isso é muito bom, menina. Fico muito feliz! Ah, coloque este também — e entregou um cinzeiro de prata para Joana colocar na caixa. — Tenho certeza de que Celeste e sua mãe estão felizes com sua decisão. E quanto às fábricas, quem as administrará?
— Bom, pensei em falar com o marquês De Canto e Melo. Ele entende dos negócios e poderá indicar pessoas para esta função — e deu um sorrisinho quase imperceptível — mas ainda devo falar com Adelaide.
— Vejo brilho em seus olhos quando menciona o marquês? — D. Hilda perguntou, divertida.
— Não mesmo. Eu apenas o tenho em grande estima por ser um idealista. Pensamos da mesma forma e uma parceria como esta não se pode dispensar.
E as duas riram.
— Mas, e se o marquês... ... — quis saber mais, porém, um som de carruagem se fez audível na entrada da fazenda.
— Deve ser Beatrice ou Emília — cogitou.
No entanto, observaram um cavalheiro descendo do carro e aproximando após falar com um dos empregados da fazenda.
— Olha só... falando nele... — brincou D. Hilda ao constatar que era o marquês.
Joana disse ao criado que iria recebê-lo.
— Senhor marquês, que surpresa! — cumprimentou Joana ao interceptá-lo na varanda.
— Senhorita D’alboquerque, desculpe aparecer sem aviso, mas eu não poderia esperar mais. Fui à Casa Lamartine e a senhorita não se encontrava... — estava afoito e amassava a aba do chapéu nas mãos.
— Ocorreu algo? Vamos entrar, assim conversaremos melhor — sugeriu a moça um pouco assustada.
— Não! — respondeu rápido demais — Preciso lhe falar agora, senhorita, não posso mais esperar.
Joana e D. Hilda olhavam espantadas para o marquês, um pouco desnorteado. Ele tirou uma caixinha do bolso e a abriu. Era um belíssimo anel opulento. Ajoelhou-se diante da moça.
— Senhorita Joana D’alboquerque, há um tempo cultivo um sentimento de grande afeto e admiração por ti, e o desejo que se torne minha esposa é imenso. Sempre almejei uma dama com seus atributos para partilhar de meus ideais.
Joana se sentiu surpresa diante do homem curvado em devoção à sua frente, e D. Hilda procurou um lenço para enxugar o canto dos olhos, emocionada. Mais uma de suas meninas estaria casada em breve. Isso era maravilhoso!
— E então, senhorita D’albquerque, aceita meu pedido? — indagou num misto de medo e nervoso.
Joana olhou para ele divertida e respondeu:
— Achei que nunca fosse pedir.
~~**~~
— Adelaide! Você voltou! — Ceci comemorou ao ver sua irmã chegar acompanhada de Henrique e sua dama de companhia.
Entrou devagar e se acomodou na poltrona com ajuda da viscondessa. As mulheres estavam eufóricas com a chegada da moça que dias atrás estivera à beira da morte.
— Ah, minha irmã, não posso conter-me de tanta felicidade — Emília beijou-lhe o rosto. — Breve estará totalmente recuperada.
— Sim, e estou maravilhada em saber que tão logo serás minha irmã também — comemorou Elisa. — Serás a noiva mais linda que Évora já viu.
Adelaide corou diante de tantos olhos atentos ao casal. Henrique tentou disfarçar passando a mão pelos cabelos, mas Fred não resistiu a tentação de provocá-lo:
— Mereces um prêmio, senhorita Adelaide. A única mulher capaz que quebrar o gelo do coração de meu irmão — e riu juntamente com Pedro. O mais velho os fuzilou com o olhar.
— Quem diria! — completou Pedro — E ainda ficava delirando com seus olhos enquanto estava enfermo — zombou, rindo com Fred.
Adelaide só sabia corar diante de tal assunto e as outras mulheres olhavam com ar de sentimentalismo para o mais novo casal enquanto Maurice resmungava coisas ininteligíveis.
— Oras, não os atormente mais! — ralhou a mãe daquela família — Sei que não podemos negar que são um belo casal e que nos darão muitos netos lindos, não acha Maurice? Quero a casa cheia deles!
— Diabos, mulher! Nem chegou o primeiro neto e lá vem a senhora com ideias — rezingou o visconde.
— Oras, papai, tenho certeza de que serás um avô encantador! Quando eu me casar, quero ter ao menos meia dúzia de filhos. Álvaro e eu já acordamos — Elisa comentou, sonhadora, deixando o pai pasmo.
— Conversam sobre isso? Estás ouvindo isso minha senhora? Olha o comportamento de sua filha! Isso é inaceitável! — reclamou com a esposa.
— Ah, senhor meu marido, deixe de sandices! Eles estão noivos, o que mais falariam? — Eleonor replicou tranquilamente com os olhos ainda em Henrique que perguntava alguma coisa à Adelaide.
— Bem... acredito que Adelaide necessite repousar de acordo com as recomendações médicas — disse Henrique dando fim aquela conversa que já o incomodava. Ele nunca ficava à vontade com esses assuntos e agora sua vida pessoal tinha até platéia.
— É verdade filho. O aposento dela já está preparado. Venha querida, vou ajudá-la a se acomodar — concordou Eleonor — Emília, Beatrice, me ajudem com ela, sim? E Ceci, por favor, peça a camareira para ajeitar os travesseiros da cama e Elisa peça para que lhe façam um chá de ervas — ordenou com seu jeito descontraído e as moças assentiram.
— E Pedro, Liana também precisa repousar. Não se demore e a leve para seu aposento.
— Sim, senhora — respondeu se divertindo com a mãe e suas preocupações.
No caminho, Adelaide sentiu-se um pouco indisposta e sentou-se novamente.
— Eu estou bem. Apenas faltou-me o ar e desequilibrei-me.
Henrique, sempre atento e preocupado com sua saúde, agora frágil com um de seus pulmões comprometido, perguntou à noiva:
— Permita-me, senhorita, eu levá-la até seu aposento?
— Sim, eu permito, senhor — respondeu olhando amorosamente para ele.
Então ele a tomou em seus braços e a carregou até seu quarto.
~~*~~
— Isso é um despropósito! Não soube usar sua arma contra os Gomes Carvalhal! E agora, o que faremos, hã? — questionou Edgar à filha — Estamos falidos. Falidos! Essa era a nossa única chance! Você não pensa na sua família!
Demétria permanecia calada, preparando sua bagagem de mão para partir em seguida, rumo a um convento que ficava na Espanha. Todas as suas malas estavam na carruagem e Pilar chorava copiosamente.
A moça ficava imaginando como seria sua vida dali para frente. Iria viver trancafiada em um convento e lá teria seu filho. Entretanto, apesar de tudo, cuidaria dele e o ensinaria a ser uma pessoa melhor. Seria melhor mesmo criá-lo longe de toda essa perversidade que aprendeu. Quem sabe um dia poderia voltar...
Enquanto pensava e o pai falava ininterruptamente aos seus ouvidos, o mordomo anunciou a presença do senhor Ivo Alencastro, para falar urgente com a senhorita Diaz Castel.
— Mas o que este homem quererá com nossa filha? — indagou Edgar.
— Só saberemos se o recebermos — empolgou-se a esposa — Pode ser um pretendente.
— Que difamará nosso nome quando souber que... Oras, vamos logo com isso! Eu o receberei! — Informou ao mordomo.
O senhor Alencastro parecia um pouco nervoso quando os pais aparecerem na sala juntamente com a filha.
Ele se levantou os cumprimentou:
— Senhores. Senhorita Diaz Castel, boas tardes!
— Boas tardes, senhor Alencastro. Que ventos lhe trazem? — perguntou Edgar, desconfiado.
— Bem, senhor Castel, sou o advogado, ou melhor, fui o advogado do senhor Diogo Avelar e tenho uma carta que me foi deixada por ele à vossa filha. E se o senhor me permitir, gostaria de entregá-la e alcançar dela uma resposta.
— Do que se trata? Tenho certeza de que podemos resolver esse assunto aqui mesmo— respondeu o homem, secamente.
— Certamente. Pois bem, meu cliente, senhor Avelar, ainda em vida — limpou a garganta — me confiou uma missão. Na verdade, se trata de uma proposta. Eis duas cartas, uma deixada para mim e outra para a senhorita Diaz Castel.
Todos estavam surpreendidos diante de tal notícia. Por que Diogo deixaria uma proposta à Demétria?
Demétria tomou a carta nas mãos, um pouco trêmula, e sentou-se na poltrona para lê-la:
“Cara Demétria,
Já decidi meu destino e enquanto estiver lendo esta carta, não estarei mais aqui. Não há mais espaço para redenção, portanto, pretendo deixar um último ato de complacência, se isso ainda me for possível.
Sei que a condenei quando a tomei sem seu consentimento e isso, obviamente, causou grandes complicações ao seu futuro. Mesmo com todas nossas tramas em prol da desgraça alheia, não desejo esse mal para ti.
Tenho conhecimento da falência de sua família, portanto, deixarei todos os meus bens a você, contudo, com uma condição: deverás aceitar ser esposa do senhor Ivo Alencastro. Ele administrará os seus bens e terá renome com a fortuna que deixarei, garantindo assim, seu futuro e sua posição social. Deverão ir para a Inglaterra para evitar difamações e para que ele se torne um renomado advogado.
Vosso pai não terá poder sobre essa herança, recebendo apenas o dote que já afirmei com o senhor Alencastro.
Essa é a imposição ou ficarás apenas com sua condenação. Espero que aceite; ele é um bom homem.
Diogo.”
Demétria terminou de ler a carta e olhou para o senhor Alencastro. Essa era sua salvação ainda que não fosse o que almejara a sua vida inteira. Tinha consciência de que, no momento, não havia alternativa, deveria aceitar a prescrição de Diogo.
O advogado aguardava a resposta da moça. Não sabia se aceitaria a condição deixada a ela. Mas Diogo também deixara uma condição a ele, em sua carta:
“Senhor Alencastro,
Deixarei minha fortuna para a senhorita Diaz Castel, porém, esta só poderá usufruir se casares com o senhor. Entretanto, o senhor deverá aceitá-la como esposa sem questionar sua reputação. Tenho motivos para tal pedido, pois fui o seu malfeitor e isso lhe trouxe graves consequências. Se porventura, ela tiver um filho, crie como se fosse seu.
Se ela o aceitar, deverão ir para a Inglaterra para investir em sua profissão como desejas, e paga-lhe o dote ao seu pai, o valor de ***. Sei que necessitas de uma esposa para que sua posição social e carreira se eleve.
Caso contrário, siga o seu caminho da maneira que o achares conveniente, se desprendendo de qualquer responsabilidade.
Contudo, espero que meu último desejo se concretize para o bem de ambos.
Diogo”
— Eu aceito, senhor Alencastro — disse a moça simplesmente.
— Aceita o quê? — quis saber o pai da jovem — Diga logo, menina!
Então o advogado explicou toda a situação aos pais de Demétria. A senhora Pilar não poderia estar mais contente; apesar de lamentar a partida da filha para longe, seu futuro estava garantido. Estaria casada e afortunada e não esquecida num convento para sempre.
Edgar não tivera a mesma visão otimista.
— Como assim não terei controle dessa fortuna? Teremos apenas o dote? Mas que despautério! — reclamou.
— Ora, senhor meu marido! Agradeça aos céus por essa oportunidade. Demétria não terás mais que se esconder! Além disso, o dote que receberemos é bem generoso. Teremos uma velhice tranquila e garantido nosso status social.
O homem ficou resmungando enquanto a esposa não cessava o falatório.
— Senhor Alencastro... — começou a moça, sem jeito —, acredito que antes preciso esclarecer certas coisas ao senhor de caráter ... constrangedor...
O advogado entendeu o que a jovem tentava falar e disse:
— Não temas, senhorita Castel. Sei de tudo o que preciso saber. Não se preocupe, terás o meu respeito sempre.
Demétria deu um leve sorriso e Ivo correspondeu.
— Obrigada, senhor. Retribuirei da mesma forma.
~~*~~
“Os tempos de paz apresentam seus primeiros lampejos. Infelizmente, à custa de muita dor e sofrimento, mas sempre com a esperança de o amor prevalecer. Celeste se foi; Adelaide voltou; Joana tenta seguir com seus ideais; Liana pode viver seu grande amor; Beatrice busca de volta a sua alegria e Cecília tem uma família que sempre quis.
Eu, ainda tento entender os mistérios da vida e as peças do quebra-cabeça que o destino nos entregou. Acredito que sou sensitiva como mamãe... sinto que tudo tem um propósito e que nenhuma história fica com pontas soltas...”
— Escrevendo em seu diário? — indagou Fred entrando na sala de chá. Era tarde da noite e Emília não conseguira dormir. Resolveu descer um pouco e anotar em seu diário.
— Fred! — levantou-se e o abraçou — Que bom que vieste. Ainda não tivemos um tempo só nosso diante de tantos acontecimentos... — sussurrou com a cabeça aninhada no peito do rapaz.
— Sim, é verdade minha pérola. Mas teremos todo o tempo do mundo, nosso casamento está na fila da família — respondeu ele, divertido.
Ela o olhou sorrindo e em seguida, o beijou.
— Amo-te — falou entre beijos. — Ainda não acredito que tudo isso acabou.
— Eu também não, meu amor. Foram tantas coisas, tantas tragédias; um preço tão alto...
— Bem sei. Certas coisas nunca entenderemos. Fico pensando se o amor de sua mãe e meu pai se concretizasse, todo esse sofrimento teria sido poupado; não existiríamos e, por consequência, as rivalidades? Ou haveria o padecimento de outra forma? — prosseguiu afagando os cabelos da moça.
Emília pensou um pouco e respondeu:
— Acredito que nada é por acaso e o padecimento é um propósito. Uma forma de nos mostrar que há sempre algo pelo que lutar. A vida é um ciclo e não se permite ter pontas soltas nas histórias.
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