As Pérolas Intocáveis de Évora - Livro I

30 Capítulo 29 - Diogo Avelar (Bônus P.O.V.)


Notas iniciais
"A vaidade e o orgulho são coisas diferentes, embora as palavras sejam frequentemente usadas como sinônimos. Uma pessoa pode ser orgulhosa sem ser vaidosa. O orgulho relaciona-se mais com a opinião que temos de nós mesmos, e a vaidade, com o que desejaríamos que os outros pensassem de nós." (Jane Austen) ♥ Mais um capítulo pra vocês. Agora é a vez de Diogo! Comentem sobre o que estão achando da história, ok? Obrigada, boa leitura! ♥

Diogo Avelar


Mamãe! Mamãe!

Filho, vai ficar tudo bem... Não! Deixe-me!Por favor, não o tire de mim, eu imploro... Diogo!

Eu tentava agarrar seu pescoço, mas um par de mãos me tiraram dela.

Filho... a mamãe te ama para sempre!gritava enquanto se afastava forçadamente.

Mamãe... mamãe...

E eles a levaram. Os homens maus.

Por muito tempo achei que isso era apenas um sonho ruim que persistia em voltar e me atormentar. Eu não conseguia lembrar-me de muita coisa, mas eu recordo de suas mãos tentando me alcançar e suas lágrimas de desespero enquanto gritava meu nome.

Eu chorava também e a chamava, mas fui dado a uma mulher dentro de uma carruagem que tentava acalentar-me enquanto eu, desesperadamente, tentava sair para me aconchegar ao colo de minha mãe.

Agora tudo viera à tona. Meu passado obscuro que eu negava reconhecer. No fundo, eu sabia que esses sonhos eram lembranças; peças desconexas de minha história. Eu tinha medo, porém, de descobrir.

Me corroía a ideia de não fazer parte de um mundo que eu não pudesse ser superior ou ter controle. Eu gostava disso. Eu queria ser alguém.

O Barão havia me dado essa chance; havia me dado poder para coordenar seus negócios e os trabalhadores das fábricas.

Quando eu ainda era um menino, ele me levou para a Fazenda D’alboquerque. A baronesa me recebeu muito bem e ela cuidava, conversava comigo e sempre lia para mim antes de dormir. Eu comecei a me acostumar com a vida naquela casa e, nessa época, Beatrice e eu nos aproximamos. Passávamos horas brincando nos campos e conversando sobre as viagens que faríamos quando crescêssemos. Ríamos muito, juntos.

Quanto às outras meninas, eu não tinha muitas afinidades, trocávamos algumas palavras no desjejum ou nas reuniões pós jantar, enquanto algumas das irmãs iam tocar piano. Não era costume meninos e meninas terem contatos, por isso o Barão sempre repreendia Dona Hilda por me deixar em demasia entre as moças.

Mesmo com toda a comodidade daquela casa e com o carinho da Baronesa e D. Hilda, alguma coisa não se encaixava. Eu sentia que aquele não era o meu lugar e, às vezes, a cena daquela noite angustiante voltava à minha mente. Eu sentia uma agonia e raiva, sem saber o motivo ao certo, à medida que eu ia crescendo.

A única coisa que me fazia esquecer minhas angústias era Beatrice. Sua alegria contagiante e seu sorriso para mim faziam meu coração bater mais forte.

Então eu tive que partir.

O Barão sempre se preocupara com minha educação dizendo que eu precisava estar preparado para cuidar de seus negócios. E sempre afirmava que devia isso à sua grande amizade pelo meu pai, um grande amigo que morrera ao tentar negociar com pessoas inescrupulosas. Minha mãe morreu logo depois, de desgosto e tristeza.

Grande mentira da minha vida!

Com o passar do tempo, a sede pelo poder, por posição e prestígio ante a sociedade elevaram meu ego e eu não queria mais que fosse diferente. Além do mais, era uma questão de honra e de tempo, casar-me com Beatrice e, como genro do Barão, e certamente eu ganharia um título e seria um homem respeitado por todos.

Na faculdade, eu impunha medo aos mais fracos e me tornei popular. Os amigos gostavam de estar ao meu redor devido ao meu espírito dominador e inconsequente e, claro, esse reconhecimento era satisfatório.

Nossas saídas se resumiam em beber, brigar e se esbaldar com as mulheres fáceis. Mas meu pensamento sempre se voltava a ela. A bela dama de cabelos dourados e olhos verdes. À noite, deitado em minha cama eu cogitava se ela também pensava em mim.

Eu contava os dias para sair daquele internato quando o Barão me concederia a sua mão. Eu apenas precisava me empenhar e mostrar a ele que era capaz de administrar sua riqueza e bens, além de ser uma pessoa de sua plena confiança.

Ao retornar, não consegui ter contato com Beatrice como eu imaginava. A via somente ao longe e o pai não permitia elas estarem presentes quando eu ia ao casarão tratar de assuntos em seu gabinete.

Minha fama de brigão e sedutor espalhou-se pela cidade. O povo do vilarejo temia minha presença, porém, havia um dos trabalhadores que ousava me desafiar: Matias. Eu o odiava por fingir não me ver e ignorar meus comandos.

Como administrador do Barão e autoridade abaixo dele, eu não podia aceitar que suas atitudes instigassem os outros a me desobedecer. Eu o vigiava e sempre que podia, lhe castigava.

Mas minha maior vingança foi seduzir uma das moças do vilarejo, Irina. Eu sabia que Matias a tinha como uma irmã e a defendia assim como todas as mulheres do vilarejo.

A tarefa foi fácil. Seduzi-la para provocar a ira dele foi como um prêmio. Em pouco tempo a moça já estava em minhas mãos. Só não contava que ela pudesse engravidar e quando me revelou, dizendo estar apaixonada, com expectativas de formar uma família, não pude deixar de lhe dizer que era apenas uma trabalhadora das fábricas e que servia-me como um passatempo. Meu trabalho para afrontar Matias, já estava feito.

No entanto, a moça morrera e os pesadelos com a mulher chorando e gritando voltaram a me atormentar.

Eu não podia ser fraco. Não podia perder o foco. Tinha que continuar impressionando o Barão e conquistar sua confiança para ter Beatrice. Ela, por sua vez, já não me tratava como antes, e em uma de minhas idas à fazenda para buscar uns documentos, propus falar com o vosso pai e pedir sua mão, no entanto, foi fria e evasiva.

Mesmo assim, não estava disposto a perdê-la. Apesar de me rejeitar, eu conseguia captar seus olhares analisadores em mim, que ela tentava disfarçar quando eu os encontrava. Isso era bom. Era um sinal de que ela não havia me esquecido completamente.

Então passei a vigiá-la e tentar uma aproximação, mas para minha perdição, o Barão dera sua mão a outro e novamente eu me vi enraivecido.

Eu não podia transparecer meu ódio pela atitude do Barão; ele sempre me tratara como filho e nunca deixou de acrescentar bens materiais e lucros às minhas finanças. No entanto, faltava-me Beatrice.

Tivemos alguns encontros e ela, apesar de seus conflitos, ainda me recebia. Ela era pura e era noiva, mas enquanto ela se mostrasse receptiva, significava que eu teria chance.

Certa feita, D. Hilda veio ter comigo:

“Você precisa esquecer Beatrice, Diogo.”

Não me digas o que tenho que fazer, Dona Hilda. Beatrice será minha esposa e nada me impedirá”

Ela está noiva, filho! Não prossiga com esse terrível desejo.”

"Por que terrível? Não sou digno dela por ser um mero empregado do Barão? Ele ainda verá o meu valor e me dará Beatrice, e se caso não o fizer, a levarei daqui comigo para sempre.”

Não o faças, Diogo, imploro-te!”

Não me assoles mais com tais pedidos. Eu sempre a estimei, mas não me peças o impossível.”

O pavor tomou-me quando percebi certa afeição dela por seu noivo. Antes ela o rejeitava, agora, parecia não fazer. Meu ódio aumentava cada dia mais. Eu precisava tirá-lo do meu caminho. Num surto desesperado, tentei tomá-la à força, mas fui golpeado, acordando logo depois, em minha casa.

Já estavam acontecendo tantas coisas que envolviam as irmãs com os Lamartine’s que o Barão não me deixava tempo para cumprir meus propósitos. Ainda assim eu acatava suas ordens para agradá-lo para alcançar o meu objetivo. Ele não poderia me negar.

E mais uma vez me enganei, pois ele recusou-me quando eu pedi. O medo e a agitação aumentavam com o passar dos dias, enquanto o casamento se aproximava.

Não conseguia mais dormir. Bebia cada vez mais e descontava minhas frustrações nos trabalhadores do vilarejo. Meus pesadelos com a mulher desconhecida retornaram e sempre aguçavam ainda mais a minha raiva. Em alguns momentos eu me via deitado no colo dela, ainda pequeno, brincando com um crucifixo que pendia de uma corrente em seu pescoço.

Seria minha mãe? Por que ninguém me falava dela? Por que ninguém a conheceu? Algo soava estranho. Eu acordava suado e angustiado.

Precisava de uma oportunidade, e eu soube através de Demétria que um motim estava sendo arquitetado por Joana, Celeste e os filhos do Visconde. Seria a minha chance. Eu roubaria Beatrice para mim, assim que eu colocasse em prática o plano do Barão. Atear fogo naquela gente era um prazer.

Ao chegar ao vilarejo, a primeira coisa que fiz foi trancar Matias na fábrica junto com algumas crianças. Como ele já estava bastante machucado devido ao castigo que eu lhe dera dias antes, não oferecera tanta resistência. Os outros homens já colocavam fogo em tudo conforme as minhas ordens. Era magnífico ver como o poder sobre outras pessoas me fortalecia. Eu poderia fazer o que quisesse e ninguém poderia me impedir.

Enquanto eu ia cavalgando para a fazenda, as cenas do vilarejo misturavam-se com as dos meus sonhos. Por um momento, eu senti um amargo na boca ao me lembrar de mulheres chorando, tentando salvar seus filhos de suas casas em chamas, mas eu não podia negar: era prazeroso.

Beatrice tentou resistir e chorava em demasia enquanto a carruagem seguia para o nosso destino. Eu nada dizia. Apenas segurava-a, até que cansou de lutar e apenas permaneceu chorando.

Eu a olhava e não havia espaço para culpa. Só de pensar que em poucas horas eu a teria por completo, isso era imensamente aprazível.

Já estava tudo planejado. Casaríamos na pequena cidade francesa de Èze, e viveríamos muito bem com as finanças advindas de generosos depósitos do Barão e das posses concedidas a mim.

Seríamos felizes, eu tinha certeza, e se confirmou quando ela me beijou com ternura. Ela me amava, apenas estava confusa ainda. A prova disso era o seu olhar que brilhava quando eu dizia que a amava e que não conseguiria sem ela.

Ela era o único motivo que fazia meu coração inquieto e perturbado, se acalmar.

Mas o destino é cruel, e suas artimanhas, quase sempre, destrói a vida das pessoas. Esse era meu caso. Descobrir meu passado foi tão doloroso quanto descobrir sobre Beatrice. Ela era minha irmã! E minha mãe era a mulher desconhecida que povoava minha mente em noites perturbadoras.

O Barão era meu pai e, minha mãe, uma trabalhadora das fábricas que foi afligida e morta por ele. Tal qual eu fiz com Irina.

A dor é dilacerante enquanto eu estou aqui sentado nesta cela fria, pensando para um futuro que não haverá. Como teria sido bom...

Tudo o que eu almejei me foi tirado. Toda minha vida era um engano.

Eu sou o filho bastardo de um Barão e de uma pobre coitada pertencente ao mesmo povo que eu afligi por anos. Um assassino. Irmão da mulher que amo. E não consigo sentir arrependimento ou remorso. A única coisa que consigo sentir é ódio.

Ódio de mim mesmo. Ódio do homem que me pôs no mundo. Ódio do meu passado. Ódio do meu destino.

— Minha mãe... perdoe-me...

Murmurou enquanto uma única lágrima escorria de um de seus olhos frios. A cena da mãe sendo levada estava cada vez mais nítida em sua mente. Ele se lembrara de tudo. Dos momentos de carinho; da voz que cantarolava baixinho para ele dormir. Do seu sorriso e do crucifixo pendurado em seu pescoço.

Tirou-o de dentro de seu casaco e o contemplou. Mais uma lágrima insistente caiu em cima do objeto. Limpou e um sorriso perverso surgiu em seu rosto.

O acerto de contas estava próximo e sabia que seria decisivo, mas não antes de saber toda a verdade da boca do crápula que lhe destruiu a vida.


Notas finais
Obrigada por lerem. Até o próximo capítulo ♥