Notas iniciais
“A vida é uma tempestade, meu amigo. Um dia você está tomando sol e no dia seguinte o mar te lança contra as rochas. O que faz de você um homem é o que você faz quando a tempestade vem.” (O Conde de Monte Cristo) ♥

Liana D'alboquerque


— Beatrice... não sei o que dizer-te neste momento, mas queria poder acalentar seu coração depois do que aconteceu — dizia Raul segurando as mãos de sua noiva que se encontrava em estado de choque. Os olhos sem brilho, fixos em algum ponto qualquer e transparecendo a mais profunda melancolia.

Após o resgate de Beatrice, o Visconde a levou para a Casa Lamartine juntamente com suas irmãs Joana e Emília. Ele agora era o seu tutor e não arriscaria mais nenhuma eventualidade, mesmo com Rui e Diogo presos.

Já se fazia tarde e elas se encontravam instaladas em seus aposentos, entretanto, Álvaro e seu primo Raul não deixaram a Casa desde os últimos acontecimentos.

D. Hilda também partiu com as moças sob o convite de Frederico e Maurice, levando consigo a notícia de Adelaide e o fim do seu estado de coma. Todos suspiraram aliviados e agradecidos por essa dádiva em meio a tantas desventuras.

Joana quis ir imediatamente ter com a irmã. Precisava estar perto dela nesse momento.

No salão maior, o Visconde, Fred e Álvaro conversavam sobre o funeral de Celeste e das vítimas do vilarejo. Afonso permanecia trancafiado em seus aposentos desde o seu retorno. Sua mãe tentara por vezes falar com ele, porém, sem nenhum sucesso. Seu coração dizia que o filho não seria o mesmo desse dia em diante e isso a angustiava.

Eleonor juntou-se às moças Emília, Elisa e Cecília em preces. Nenhuma delas ousava quebrar o silêncio da dor, apenas permaneciam juntas, envolvidas cada qual, em suas lágrimas e pensamentos. Henrique ficara no hospital com Adelaide.

E Raul encontrava-se na saleta do aposento de Beatrice, acompanhados por D. Hilda. O rapaz praticamente implorava ao Visconde para ficar um pouco mais com a moça e não houve como negar o pedido diante do desespero do rapaz.

Durante todo o trajeto para casa, a moça nada disse, apenas derramava lágrimas silenciosas enquanto mantinha sua cabeça apoiada no peito dele. O noivo afagava seus cabelos tentando acalentá-la, demonstrando um pouco de apoio, ela, no entanto, não esboçava qualquer reação.

— Eu quero tanto fazer algo por ti, minha amada... diga-me qualquer coisa e eu farei — dizia ele numa súplica de cortar o coração.

Beatrice olhou para ele pela primeira vez. Seu noivo estava ajoelhado à sua frente, segurando suas mãos. Então pronunciou com voz baixa:

—Já estás fazendo, Raul... estás aqui comigo! — e sorriu levemente passando a mão pelo rosto dele. — Sou grata por tê-lo nesse momento tão desolador.

Ele a abraçou.

— Estarei sempre aqui, querida.

A criada apareceu na porta entregando-lhe um recado de Carvalhal. Era hora de partir.

— Devo ir, mas estarei de volta amanhã — disse o noivo e Beatrice concordou. O rapaz beijou a mão da moça, pegou seu chapéu e se foi.

Em seu interior, ela estava revolvida com tantos sentimentos que ao menos sabia qual o atormentava mais. A morte da irmã. A revelação avassaladora sobre Diogo. A culpa por ter se envolvido com o próprio irmão e culpa por se sentir ainda dividida em relação a Raul. Ele não merecia, era um bom homem.

Se não tivesse encorajado a paixão de Diogo por ela... e ainda pensou em fugir com ele. Oh céus!

— Beatrice, não se martirize assim, menina! — disse D. Hilda interrompendo o silêncio como se lesse seus pensamentos — Vocês não sabiam...

— Sou culpada sim, Didila. Eu alimentei o afeto de Diogo por mim. Dei esperanças a ele, e ainda... — resfolegou — cogitei em fugir com ele antes mesmo do resgate.

Hilda se admirou com aquela confissão.

— Trice... você o ama? — indagou, temendo a resposta.

A moça hesitou ao responder.

— Não... eu... estou certa de que serei feliz ao seu lado — fez uma pequena pausa. — O que sinto por Diogo é uma espécie de compaixão, apenas isso.

A senhora preferiu não questionar, mesmo não sentindo confiança naquela justificativa. Já havia questões demais a serem colocadas em ordem e as D’alboquerque’s já tinham uma carga muito pesada naquele momento. Guardou suas ponderações para si e aconchegou a moça em seu colo para afagá-la.

— Didila, você já amou alguma vez? — Beatrice perguntou depois de algum tempo.

—Sim, eu já amei — respondeu saudosa. — Mas as circunstâncias nos impediram de vivermos o amor. Éramos jovens e tínhamos muitos sonhos — suspirou —, enfim, somente o tempo é capaz de aplacar certos sentimentos e deixar apenas boas lembranças ou experiências que nos fizeram aprender algo. Mas agora, minha menina, deves se concentrar em seu casamento. O senhor Carvalhal é um bom cavalheiro e creio que a pessoa certa para ti. A sua dedicação e amor preencherá o lugar da dúvida e da culpa que sentes.

Diante disso, a moça se calou e perdeu-se novamente em pensamentos.

Não queria e não podia mais pensar em Diogo. Mas como ele estaria? Provavelmente sofrendo sozinho e também arruinado com todas as revelações e lembranças de seu passado. Desejou estar com ele mesmo sabendo que ele também merecia pagar por tantas maldades, assim como seu pai.

Pensou em Joana e Afonso, e em como eles estariam depois de tudo. Pensou em Celeste e sua morte horrível e, mais uma vez, se sentiu péssima por ser tão egoísta com seus próprios sentimentos. Suas irmãs estavam sofrendo, e Liana...

— Didila, como estarás Liana?

— Em repouso absoluto, pobrezinha! Doutor Fontana disse que não poderá levantar-se tão cedo da cama. O mínimo esforço poderá... Oh, Cristo, não quero pensar! Vem, vamos vê-la.

~~*~~


Os primos Carvalhal mantinham silêncio na carruagem. Raul refletia sobre os eventos das últimas horas. Tivera a impressão de que sua noiva não fora tão prisioneira de Avelar. E se ela... Não! Isso era Impossível!

— Álvaro, eu preciso partilhar algo contigo — começou Raul.

— Pois fale primo.

— Tive uma breve desconfiança hoje no decorrer do resgate de Beatrice — proferiu enquanto o outro o fitava de modo indagador.

— De que suspeitas?

— Não sei ao certo, mas... pensei ter visto Beatrice disposta a fugir com seu raptor.

— O que dizes? Estás louco? Isso jamais poderia ser verdade. Avelar não tem escrúpulos! A senhorita D’alboquerque nunca se envolveria com alguém tão terrível.

— Ela consternou-se em demasia com a revelação da irmã — insistiu Raul —, transparecendo algo como culpa ou arrependimento...

— Raul, escute-me, não envenene seu coração com suspeitas infundadas. Beatrice ama-te. Não deixes que a obsessão de Diogo estrague a vossa felicidade.

Com o argumento sincero do primo, se calou. Álvaro tinha razão, ele a amava e a desposaria, todavia, em seu coração permanecia a dúvida de que a donzela amara seu rival e isso estava o atormentando. Não suportava pensar que ela poderia nutrir qualquer tipo de sentimento por ele.

O odiou. Desejou matá-lo e isso seria o melhor para todos, principalmente para a felicidade de seu casamento.

~~*~~


— Isso não pode ser! É o fim! Eu não mereço isso! — murmurava o senhor Diaz Castel, exaltado, para a filha aos prantos no colo da mãe.

— Acalme-se, senhor meu marido. Tenho certeza de que acharemos uma solução para isso — a esposa tentava argumentar.

— Como? Diga-me? Como esconderemos tal tragédia? Estamos arruinados. Sua filha nos arruinou! — esbravejou.

— Papai... por favor, eu não tive culpa... — soluçava — Foi Diogo... ele me atacou. O que será de mim agora?

— Pois, eu te digo, estarás de partida para um convento distante onde ficarás por toda a vida. Não suportarei essa vergonha e meu nome jogado na lama!

— Não, meu pai! Imploro-te! Não quero partir!

— Não, Edgar! Ela é nossa única filha, não me separarei dela! — protestou Pilar.

— E como esconderás isso, hã? Diga-me, minha senhora! Logo a desonra reinará sob nosso teto com a infâmia dessa... dessa... — e olhou para a filha com desaprovação — Como pôde, Demétria? Pactuar com aquele energúmeno e ainda... És a minha vergonha!

— Ele forçou-me — gritou. — Eu não tive culpa! O que queres que eu diga para que acredites em mim, meu pai?!

— Não me venha com lamúrias! Nada disso teria ocorrido se não tivesse de tramas com aquele idiota. Nem tampouco agora, poderá ser desposada por ele, já que estás preso e sabe lá por quanto tempo. Ele não tem título, mas pelo menos tem posses, e nem isso poderemos exigir diante das circunstâncias que o envolve. O escândalo seria inevitável. Por Cristo! É uma desgraça!

Demétria estava desolada. Após o ataque de Diogo foi encontrada pela camareira, ainda na casa dele, toda ferida e descomposta. Ela a levou até à família e prometeu total sigilo. Desde então, não saíra mais de casa, ficando totalmente amuada, sem querer comer ou falar com alguém. Dias depois, sentiu-se mal e percebeu que sua regra não veio como costume. O médico da família os deixou de sobreaviso: era precipitado, mas Demétria poderia estar grávida. A moça desesperou-se e Pilar viu todas as possibilidades quanto ao futuro da filha, caírem por terra. Sabia que isso era a declaração da miséria e exclusão de sua família da sociedade aristocrata.

Ademais, fora terrível o que ocorrera com ela. Ver a filha em estado deplorável, sem esperanças e sem vontade de viver, e ainda, sem poder reivindicar nada ao seu malfeitor.

Criara Demétria para um casamento ideal, cheio de pompas e riquezas, principalmente depois que a situação financeira da família Diaz Castel entrou em decadência. Agraciada com uma beleza incrível que atraía inúmeros candidatos a cortejá-la, não seria difícil alcançarem tal propósito. Porém, a cobiça pelos bens dos Lamartine’s sempre os levava a esperar o pedido de um dos filhos ou um acordo por parte do patriarca.

Eram bem próximos e, a certeza de que seria apenas uma questão de tempo até que ele e o visconde acordassem uma aliança, não permitia que nenhum outro possuidor de riqueza cortejasse a moça. O tempo passou e a proposta não veio. Arquitetavam um plano. Entretanto, agora...

— Prepare suas malas, Demétria, breve estarás de partida — impôs o pai sem se importar com as súplicas da filha.

— Espere! — pediu a esposa — Acabei de pensar em algo. Ainda temos um trunfo. Logo visitaremos o Duque Carvalhal.

~~*~~


Joana entrou no quarto da irmã recém-acordada. Ela estava adormecida e levemente erguida em seus travesseiros, e Henrique a olhava ternamente. Enfim, algo bom nisso tudo.

Olhando para eles, pensou em como o destino é surpreendente. Conseguiu unir sua doce irmã já desacreditada no amor e um cavalheiro carrancudo com ódio mortal do sangue D’alboquerque.

— Senhor Lamartine... — chamou-o entrando no recinto.

— Senhorita! — respondeu levantando-se e cumprimentando-a cordialmente.

— Soube a pouco dessa ótima notícia. Como ela está?

— Ainda fraca, no entanto, doutor Fontana informou que poderá ir para casa em breve. Precisa antes observar sua evolução. Seria bom evitar fortes emoções, mas diante do quadro em que estamos vivendo, acho difícil.

— Sim, infelizmente não há como esconder tantas lástimas. Temo seu estado quando souber de Celeste.

— Ela já sabe — respondeu e ela o olhou com reprovação.

— Não devia ter contado a ela. Acabou de voltar a si! — repreendeu tentando falar baixo.

— Não o disse, ela já sabia... — informou e Joana franziu o cenho.

— Como?

— Falou sobre um sonho que tivera com Celeste. Estava indo embora com vossa mãe.

— Ah Deus! — colocou a mão na boca e as lágrimas voltaram a verter. Abaixou a cabeça chorando em silêncio. Henrique não a interrompeu, sabia o quanto estava sofrendo.

— Senhorita Joana, eu sei que nunca demonstrei ser um homem condescendente, contudo, digo que sinto muito por julgá-las baseado em meu ódio. Vocês merecem o respeito de todos e sinto muito pela sua dor e pelas perdas que tiveram. Quero que saibas que estou tranquilizado por estarem sob a guarda de meu pai. Faremos o possível para que a paz possa reinar em vossas vidas a partir de agora — declarou o Lamartine.

Joana respondeu:

— Sou grata pelas palavras e pelo apoio, mas principalmente por amar Adelaide. Ela merece, já sofreu demais nessa vida. Se a fizer feliz, já estarás contribuindo imensamente para a nossa paz — olhou para a irmã adormecida e continuou — Adelaide, apesar de jovem, sempre foi como uma mãe para nós. Sempre colocou nossa felicidade acima da dela, chegou sua vez de ser feliz, de conhecer o amor que achou não ser mais possível — relatou com a voz ainda chorosa. — Prometa-me, senhor Lamartine. Dê-me sua palavra de que a fará feliz!

— Tens a minha palavra, Joana — respondeu convicto.

E ela acenou a cabeça em agradecimento.

Ficaram conversando por mais algum tempo até Adelaide despertar. Ao abrir os olhos, viu sua irmã sorrindo para ela, mas com olhos desoladores.

— Joana — sussurrou.

— Ah... que bom que estás de volta para nós. Fizeste tanta falta! — disse tentando não chorar — Como se sente?

— Estou um pouco cansada. Eu não quero ficar mais aqui, Jô — respondeu com dificuldades — Diga-me tudo o que ocorre e não me esconda nada...

Joana sentou na cadeira próxima ao leito da irmã e pegou em suas mãos. Henrique percebeu que era um momento particular das duas e interveio:

— Estarei na sala de espera. Fique bem — e beijou a testa de Adelaide.

— Senhor Lamartine — interrompeu Joana —, pretendo pernoitar com minha irmã. Sei que há muito vela por ela, fique à vontade a ir para casa descansar... creio que precisem do senhor lá também.

Ele olhou para Adelaide como se quisesse perguntar se não haveria problema e ela sorriu para ele.

— Então irei. Voltarei pela manhã — beijou a mão das damas e partiu.

— Esse aí já não tem mais jeito, viraste um bobo apaixonado, quem diria — disse Joana e as duas riram, mas logo a seriedade do momento prevaleceu.

— Oh, Joana... Celeste se foi... — iniciou e as duas se abraçaram numa cumplicidade dolorosa — Não consigo crer nisso!

— Ah, minha irmã... foi terrível! Não consigo deixar de pensar nos olhos dela antes de... ela era tão jovem e cheia de convicções. Por quê? Por que tinha que ser ela e não eu? — disse num surto desesperado.

— Não fales assim, Jô. Ninguém deveria morrer — respirou fundo. — Celeste tinha o espírito altruísta. Henrique contou-me o momento em que ela decidiu ficar junto ao rapaz... Matias, não é?

Joana balançou a cabeça em concordância.

— Ela o amava... e às vezes me pergunto se o amor vale a pena a esse ponto. Não consigo entender, Adelaide — considerou — E além do mais, a culpa foi minha. Eu a instiguei, eu incitei o povo, reuni pessoas para rebelar contra o barão e seus comparsas; eu merecia pagar o preço e não ela!

Adelaide olhou para a irmã em desespero e entendia sua dor, seu sentimento de culpa. Aproximou e pôs uma mecha de cabelos atrás da orelha dela, enquanto derramavam mais lágrimas. A jovem de personalidade forte e humor ácido, mas coração puro, estava ali, prestes a desistir dos seus objetivos, da luta que queria travar contra as injustiças. Não podia permitir.

— Você e Celeste sempre foram muito parecidas. Celeste era mais suave em suas atitudes, mas nunca abdicava daquilo que acreditava. Você, Joana, a completava, pois pensavam em um bem maior. A força, a coragem e o espírito inquieto, a sede por justiça... são qualidades nobres que nasceram com vocês. — fez uma pausa para respirar — Celeste fez sua escolha. Acredito que não conseguiria continuar se deixasse Matias morrer lá. Isso a consumiria, entende? Ainda que doloroso demais, sabemos que a missão dela era começar um trabalho e mostrá-lo a você, para que continuasse. Lembra quando me falou certa vez, que sentia inveja dela pelo trabalho que fazias no vilarejo? Então, ela te guiou até aqui e cumpriu sua missão. Agora é a sua vez de cumprir a sua. Não deixe que o propósito que construíram juntas morra com ela.

As palavras na doce voz de sua irmã trouxeram certo alívio, era como se algo reacendesse novamente em seu interior.

— Eu a amo... — disse Joana — Obrigada por isso!

E beijou a testa da irmã.

Assim, começou a relatar os principais acontecimentos enquanto estava desacordada, tentando esquecer que no dia seguinte, deveria enterrar sua amiga e irmã. Aquela que lhe mostrou o caminho do seu verdadeiro propósito e partiu em seguida.

~~*~~


— Apenas cinco minutos. — Impôs um agente da Guarda ao advogado de Diogo quando este se sentou na saleta para uma entrevista.

— Vim o mais depressa possível, senhor Avelar — disse o advogado.

— Trouxe minha encomenda?

— Sim, apesar de me preocupar com tal pedido...

— Não pedi sua opinião — respondeu secamente. — Onde estás?

— Está aqui, senhor — e entregou-lhe um pacote que Diogo escondeu sob o casaco.

— Agora, quero tratar outro negócio contigo — disse. — Preciso transferir todos os meus bens a uma pessoa e quero que cuide de toda a transação.

O advogado olhou-o espantado.

— Todos os bens, senhor? Mas isso é muita coisa?! Não ficarás com absolutamente nada!

— Não precisarei. Dê-me o papel para que eu os transfira e assine. Agora quero que faças exatamente o que eu lhe ordenar. Somente dentro do prazo determinado que eu lhe informar, abrirás esta carta, procurarás a pessoa indicada e lhe farás saber este acordo. Entendeu?

— Sim, senhor — respondeu o advogado sem questionar mais.

Diogo escreveu com semblante impassível e assinou.

— Aqui está — entregou-lhe o papel e a carta que escrevera — Ao término de três dias, abra-a e tome as providências. Dê-me sua palavra de que farás como está escrito.

— Dou minha palavra, senhor.

— Adeus senhor Alencastro.

— Adeus, senhor...

Após o advogado se retirar, Diogo solicitou uma audiência rápida com o barão, porém, só foi concedida para o dia seguinte. Breve estaria frente a frente com ele para o acerto de contas.

~~*~~


No alvorecer, Joana deixou Adelaide aos cuidados de Henrique novamente, para se preparar para o cortejo fúnebre.

Grande parte de Évora e região, acompanhavam o cortejo. Pessoas do vilarejo, aristocratas, familiares, amigos...

Tudo fora preparado conforme a recomendação de Henrique, que ficara encarregado dos preparativos e sepultamentos.

A primeira carruagem levava os caixões de Celeste e Matias. Algumas pessoas criticaram essa decisão. Era absurdo e contra as regras um simplório estar na mesma carruagem que uma aristocrata. Mas as famílias D’alboquerque e Lamartine não se importaram com tais questionamentos.

Seguindo, em outras carruagens iam o visconde, a viscondessa e Elisa; Cecília com D. Hilda; Beatrice, Raul e Álvaro; Frederico acompanhava Emília, Joana e o marquês De Canto e Melo.

Outras pessoas, mais atrás, também acompanhavam as famílias.

Havia também, outras carruagens cedidas pela família Lamartine, que seguiam com os caixões das outras vítimas da tragédia. Pessoas do vilarejo acompanhavam-nas.

Os jornais matutinos foram exauridos rapidamente. Todos querendo saber da tragédia em Évora envolvendo motins com grupos de jovens aristocratas e trabalhadores, o incêndio da fábrica, o sequestro e resgate da noiva do sobrinho do Duque, como o possível cancelamento do casamento, além da prisão do barão e seu protegido, Diogo. Nunca se vendeu tantos jornais em toda a região do Alentejo.

No cemitério, as palavras do padre Osvaldo emocionaram de fato as pessoas e no momento do sepultamento, Celeste foi colocada no jazigo ao lado de sua mãe, a baronesa; entretanto, quando Joana disse: “Matias será enterrado no jazigo ao lado de Celeste”, burburinhos e interjeições se espalharam por todo o campo. A indignação foi geral. O visconde perguntou se tinha certeza da decisão, mas o olhar firme da moça, os fizeram calar.

Frederico percebeu um homem ao longe, debaixo de uma árvore observando tudo. Era seu irmão Afonso. Estava preocupado com ele, precisava conversar e dizer que estava com ele nesse momento tão difícil, mas se fechara completamente. Quando fez menção de ir ter com ele, Afonso subiu em seu cavalo e foi embora.

~~*~~


— Acalme-se, Liana, você não pode sofrer fortes emoções. Pense no nosso filho — dizia Pedro à esposa, tentando acalmá-la, porém sem sucesso, do colapso nervoso por causa da irmã.

— Eu sou uma imprestável, Pedro. Só causei problemas até hoje. Não estava em lugar algum junto com minhas irmãs. Tudo aconteceu e eu não estava presente para dar apoio. Nem na fábrica, nem ao resgate de Beatrice, ou com Cecília que é a mais nova e precisa tanto de nós, ou no sepultamento de Celeste. Agora ao menos posso dar paz ao nosso filho e nem sei se posso trazê-lo ao mundo — completou chorando.

— Não digas isso... ele virá e será muito amado. Não entende que você não tem culpa? Somos todos vitimas das circunstâncias. Sofreste assim como suas irmãs, mas cuidou de mim quando precisei, fez o possível para estarmos juntos. Se não tivéssemos insistido, meus pais nunca teria visto a união das nossas famílias com bons olhos; meu irmão não teria se rendido ao amor de sua irmã. Pense Lia... se hoje somos uma grande família, isso se deve a você por não ter desistido de nós e decidido a enfrentar a tudo e todos.

— Mas o preço foi alto demais...

— Não há conquistas sem luta e, às vezes, há perdas. Ainda seremos felizes e viveremos em paz.

Uma batida na porta e Cecília entrou após a permissão, junto com Emília e Beatrice.

— Liana... — exclamou Emília correndo para a irmã e abraçando-a — Não fiques assim, não é bom para o seu estado.

— Mila... perdemos Celeste. Nunca mais a veremos — soluçava — e eu não... pude me despedir...

As irmãs tentaram consolá-la mesmo estando, também, inconsoláveis. Doutor Fontana fora inflexível em suas recomendações: ela não poderia fazer esforço algum e evitar emoções.

Ao cair da noite, cada um se perdeu em seus próprios pensamentos e tristezas. Liana conseguiu adormecer e Eleonor quis ficar um pouco com ela.

Frederico conversava com o pai sobre voltar aos negócios, não podiam mais deixá-los apenas na responsabilidade dos empregados. Henrique deveria retornar aos sobreiros de Portalegre enquanto Fred cuidaria dos assuntos das terras de Setúbal que voltara para as mãos dos Lamartine. Pedro não faria viagens até que o filho nascesse.

Cecília perdera o sono e encontrou a viscondessa sentada junto a mesa do salão de chá, reflexiva.

— Senhora — chamou—, posso lhe fazer companhia?

— Sim, claro. Venha, vamos tomar um chá.

A menina achegou e sentou-se perto dela. Seu semblante era preocupado.

— Perdeste o sono, não é? Não sei quando poderemos dormir em tranquilidade novamente... — suspirou cansada.

— A senhora já falaste com Afonso?

A mulher abaixou o olhar e respondeu:

— Ainda não e estou extremamente preocupada, Cecília. Afonso nunca foi assim, sabe, sempre foi um rapaz pacato, carinhoso. Sei que estás assolado pela morte de Matias, pois eram amigos de longa data, mas nunca imaginei que agiria dessa forma.

— Acredito que não sofre por Matias, mas também por Celeste porque a amava — constatou e a viscondessa a olhou interrogativa.

— Ele... estás certa disso?

— Sim. O jeito que a olhava e a luta para não transparecer o que sentia. Ele não queria amá-la, mas foi inevitável. Era sempre muito prestativo como amigo; uma forma de tê-la sempre por perto porque não podia revelar seu amor.

— Mas por que isso? Por que não podia revelar?

— Por que Matias também a amava. Não queria trair o amigo, apesar de que imagino que a culpa lhe acompanhava todos os dias.

— Céus! Fiquei presa em tantos acontecimentos e não percebi os conflitos de meu próprio filho. Ele estava sofrendo e eu não compreendi, não o apoiei— lamentou.

— Não teria como predizer, senhora, ao que me parece, Afonso é como a Liana; ambos são carinhosos, no entanto, totalmente fechados. Estou enganada?

A viscondessa balançou a cabeça e confirmou:

— Não, não está. Agora eu receio mais ainda por ele. Sofrendo por um amor impossível e com a culpa por se achar um traidor, e mais agora, com a morte dos amigos. O que será de meu filho? Ele não recebe ninguém, nem a mim. Eu vou perdê-lo, Cecília!

— Não te aflijas senhora. Se me permitir, tentarei falar com ele — propôs a menina.

— Sim, pode ser uma alternativa eficaz. É boa com as palavras e esperta também. Tens minha permissão e rogo a Deus que consiga resultado.

— Está bem. Irei logo pela manhã.

— Obrigada Cecília. Mesmo diante de tantas intempéries, eu agradeço a Deus por estarmos juntos. As duas famílias.

— Se me dissessem há um tempo que estaríamos juntos, eu zombaria, mas eu também agradeço por isso. Por esse novo tempo em nossa vida.

O dia amanheceu frio e silencioso. Cecília teve ajuda da criada para se vestir e não esperou mais, se direcionou à terceira porta à direita do corredor, na ala masculina.

Chegou à sua frente e bateu. Nenhuma resposta. Insistiu:

— Afonso, sou eu, Cecília. Abra para que eu possa lhe falar.

Nada.

“Tudo bem...”, pensou ela.

— Vossa mãe não passa bem. Acredito que Doutor Fontana...

A porta se abriu.

— Onde ela está? — perguntou preocupado.

A menina entrou sob os olhos atentos dele e disse tranquilamente:

— Ela está bem. Foi apenas um artifício que usei para que me atendesse.

Ele levantou uma das sobrancelhas e disse:

— Não é educado mentir, senhorita D’alboquerque. Não te ensinaram isso? — disse o rapaz de maneira rude.

— Sim, ensinaram, porém, certas convenções podem ser quebradas quando necessário — disse simplesmente.

Afonso ainda estava com a mão na fechadura mantendo a porta aberta, esperando-a sair.

— Por falar em convenções — ele retomou —, não é apropriado uma moça estar nos aposentos de um homem, ao menos que este seja seu marido. Por favor, retire-se, não vejo o que temos a falar.

— Estou aqui com a permissão de vossa mãe, não o faria se não tivesse — pensou um pouco —; a propósito, faria sim. Mas vamos ao que interessa. Todos estão preocupados com você, Afonso. Sua mãe está em nervos por não conseguir te ver. Não a atormente mais, fale com ela. Não guarde seu dilema só para si, todos estão sofrendo.

Afonso fechou a porta e se dirigiu para a janela da saleta de seu quarto.

— Eu vou partir. Não posso ficar aqui, não conseguirei continuar...

— Entendo... e para onde irás?

— Não sei ao certo, mas não pretendo fixar residência. Viajarei pelo mundo e tentarei reconstruir os cacos. Cada um tem sua forma de lidar com a dor — disse ainda olhando pela janela.

Cecília se aproximou e se colocou ao lado dele, também olhando para fora.

— Sei que amava Celeste e por esse amor eu lhe peço que não desista de viver, ela não aprovaria. Ela era cheia de vida e de aspirações, nunca desistia de nada. Mesmo que acredite que nunca amará mais ninguém, viva para fazer o bem, ajude as pessoas aonde for. Ela faria isso se tivesse a oportunidade.

Ele não disse nada. Os dois ficaram olhando por mais um tempo para os jardins que rodeavam a mansão, até que ela interrompeu o silêncio:

— Vamos fazer um acordo! Para que não se sinta só durante as suas viagens, escreva-me contando sobre cada lugar que passares e eu lhe darei noticias daqui. Mesmo que estejas longe, não significa que não possa ter uma informante, e eu por minha vez, adoraria saber como é o mundo lá fora, além de ser uma forma de vossa mãe não sofrer tanto. É um bom trato, não achas?

Afonso esboçou um leve sorriso e respondeu:

— É sim, sua tagarela. Tenho certeza de que me fará saber de cada detalhe dos acontecimentos. Mas quanto a mim, dê-me tempo, isso não será fácil de todas as formas.

Cecília tirou sua gargantilha de ouro com o pingente de pérola e disse:

— Leve contigo, como um lembrete de que nem tudo está perdido e que sempre há esperança. Além do mais, eu a quero de volta, então saberás que deves retornar um dia para me devolvê-la. Será o símbolo de uma boa amizade.

O jovem pegou o objeto e analisou. Era como a gargantilha de Celeste e isso faria lembrar-se dela o tempo todo. Guardou-a no bolso de seu casaco.

— Sou grato por sua amizade. Não prometo que a entregarei tão logo, mas um dia...

— Leve o tempo que precisar. E não se esqueça: sempre há esperança.

~~*~~


Beatrice subiu na carruagem cobrindo a cabeça com um manto e um chapéu. Pediu ao cocheiro que a levasse até a Guarda. Precisava falar com Diogo. Não queria que ele envelhecesse na prisão sem que soubesse que ela não o odiava e que eles não tinham culpa dos erros do passado. Precisava despedir-se dele.

Doía em seu coração ao pensar no homem frio e sem escrúpulos que ele se tornara. Lembrava-se dele quando ainda era um menino doce e gentil. “Ah, Diogo! Porque ficaste assim? Por que és meu irmão? Tudo poderia ser tão diferente...”, pensava enquanto se dirigia para o local.

Na Guarda, Diogo entrou na sala de visitas e olhou para o barão. Seus olhos se cruzaram. Os olhos do velho, mortos e cansados; do jovem, frios e cheios de fúria.

Diogo analisou-o e deu um sorriso afetado.

— Ora veja! Se não é o temível barão derrotado por suas próprias mazelas. Como se sente provando do próprio veneno?

Ele nada respondeu.

— RESPONDA-ME! — gritou irado. — Como pode enganar-me uma vida inteira fazendo-se de meu tutor, quando na verdade eu era meu pai?

— Diogo... — o barão tentou dizer algo.

— O QUE FIZESTE COM ELA? DIGA-ME!

Rui sabia a quem ele se referia.

— Você a matou não foi? Por que o fez? — sua voz era atormentada — A minha vida inteira tive pesadelos daquele dia. Do dia em que me separou dela. ELA TINHA O DIREITO DE VIVER, SEU CRÁPULA! Eu quero ouvir de você, seu imundo, por que a matou?

— Ela sabia coisas demais! — respondeu de uma vez sabendo que não podia esconder mais — Além do mais, eu queria ficar contigo. Ela não cederia fácil, me renderia problemas.

Diogo começou um ataque de risos e logo depois gritou novamente:

— Para quê? Para acabar com a minha vida? Antes eu tivesse vivido naquela vila nojenta do que ser seu protegido!

— Não conseguiria. És meu filho. És ambicioso e dominador; não suportaria ser subjugado.

— Não criaste um filho, barão, criaste um capacho e um monstro. Por sua culpa eu cresci sem minha mãe, por sua culpa, me tornei igual a você e por sua culpa eu me apaixonei pela minha própria irmã!!! Não sabes o ódio que me corrói, pela mentira da minha vida, pelas lembranças de minha mãe sendo levada e pela dor de não poder ficar com a mulher amada! Mas isso não importa mais, não é mesmo? Somos monstros e não merecemos viver. — praticamente cuspia as palavras — Não há mais conserto para homens como nós.

E dito isso tirou a arma do casaco e apontou para o velho que arregalou os olhos ao mesmo tempo em que gritou:

— NÃO, DIOGO!!

— Vamos para o inferno juntos, barão!

E atirou no peito do pai duas vezes e em seguida, na própria cabeça.

~~*~~


Ao chegar à Guarda de Évora, Beatrice percebeu um grande alvoroço. Havia homens correndo de um lado para o outro. Avistou um senhor fardado e resolveu perguntar:

— Senhor, o que se passa aqui? Eu vim para ver o senhor Avelar, não me demorarei.

O homem olhou para a moça e inquiriu:

— A senhorita é...?

— Sou... uma conhecida.

— Entendo... olha, senhorita, o senhor Avelar... Bem, o que vou dizer não será fácil, mas não há como esconder certas coisas...

— Diga-me logo, senhor — pediu e o homem suspirou antes de responder:

— O senhor Avelar está morto. Matou o barão em uma audiência e se suicidou.

Beatrice estarreceu-se. Sentiu suas pernas falharem e a palidez tomou conta de seu rosto.

— Senhorita, sente-se bem? Venha, lhe darei um pouco d’água.

— Não... obrigada, estou bem, não se preocupe — disse sentindo os olhos arderem —, minha carruagem me aguarda.

E saiu desnorteada porta a fora. Parecia que o mundo girava e não conseguia pensar em mais nada do que “Diogo está morto! Está morto! Não houvera tempo para se despedir”.

— Oh, Deus! — exclamou chorosa ainda na porta da Guarda.

— Beatrice?! O que fazes aqui? — uma voz espantada e conhecida a despertou.

— Raul?!

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Passado o prazo estipulado por Diogo, o seu advogado, Ivo Alencastro, abriu a carta e o documento de transferência dos bens, a fim de saber do que se tratava.

Leu a carta e exclamou:

— Como?!


Notas finais
Até mais!