As Pérolas Intocáveis de Évora - Livro I
25 Capítulo 24 - Correndo contra o tempo
Notas iniciais

“Eu a procurei. Ela é jovem e bonita. Segurava a mão do pequeno menino, seu filho. Vi nos olhos dele, a esperança, e nos dela, o desespero”.
Diário da Baronesa D’alboquerque, 1797.
~~*~~
— Senhor, os capangas não falam nada. Preciso de um pouco mais de tempo — pediu o Magistrado em uma reunião com o Visconde.
— Maldição! Eu preciso que eles falem o quanto antes. Aquele canalha não pode sair impune!
— Estou certo de que não demorarão a falar. Tenho minhas técnicas, senhor Lamartine.
— Espero que não esteja ganhando tempo, senhor Moraes. Não me inspiras confiança. Esteve de conluio com aquele ladrão por muito tempo.
— Oras, meu senhor, por quem me tomas? Sou um homem da lei e muito justo — indignou-se.
— Não vi justiça quando fez acordo para se casar com uma das filhas daquele calhorda.
— Bem... elas são formosas e o senhor sabe... sou um homem solitário. Qualquer um nessa cidade daria tudo para se casar com uma delas... — tentou se explicar.
— São uns idiotas! Enfim, esse assunto não levará a nada. E quanto às outras provas?
— Já as reuni para levá-las ao Conselho de Estado, entretanto, faz-se necessário que alguém de título superior ao do senhor compareça à audiência, em sua defesa, para que o Conselho dê a devida importância — explicou Fernam.
— Sim, já pensei nisso. Falarei com meu amigo, o Duque. Certamente não me negará. Apesar de seus negócios com aquele crápula, tem-me em grande estima — falou e o magistrado soube que era o momento para mais revelações.
— Senhor Visconde... creio que não poderás contar com tal ajuda — disse com cautela.
— E porque dizes?
— Sei que ele é um Duque, porém, tais documentos revelaram certas sociedades que chocarão a muitos. Inclusive ao senhor.
— Seja mais claro, senhor Moraes! Não entendo onde queres chegar.
— Pois bem. Grande parte dos crimes do Barão envolvem outras pessoas e precisei reunir documentos e depoimentos, inclusive do advogado dele, que concordou testemunhar em troca de absolvição... ele tem informações comprometedoras que podem colocar à prova a honra do Barão, porém...
— Porém...? — instigou o Visconde já o olhando desconfiado. — Não enrole, homem!
— E que seu maior comparsa é o Duque Carvalhal — respondeu de uma vez.
Maurice arregalou os olhos. Não podia ser!
— O senhor deve estar enganado. Eu conheço o Duque, sei que ele sempre teve negócios com o calhorda, mas... não a ponto de compactuar de suas atrocidades!?
Incrédulo, andava de um lado a outro.
— É a verdade, senhor Visconde. Existem documentos selados, assinados. Aliás — olhou para o homem nervoso à sua frente. Isso não seria nada fácil —, ele está envolvido no golpe das terras de Setúbal.
O Visconde parou de andar e o encarou mais uma vez, os olhos vidrados como os de um cão prestes a morder. Tinha certeza que seus globos oculares saltariam na cara dele.
— Como... tem certeza disso? — questionou apontando o dedo apontado trêmulo para ele.
— Evidentemente. Não relataria algo de tamanha gravidade sem saber os fatos.
Voltou a andar, sussurrando:
— Esse tempo todo... fazendo-se de amigo... aquele traste, enganador... MALDITO! — berrou.
— Acalme-se, senhor! Peço sigilo até que tudo esteja preparado para levar o caso ao Conselho. Ainda precisamos constatar a veracidade de alguns documentos, colher informações e registrar confissões. Acusar um homem como o Duque, sem provas fundamentadas, poderá reverter contra nós — explicou. — Perderemos posições, títulos e até a cabeça!
— Isso é um pesadelo!Estou cercado de cobras por todos esses anos!
— Posso contar com sua discrição, senhor? Caso contrário, nós dois, e seus filhos, seremos todos enforcados por calúnia.
— Não será fácil! Ou o senhor haja rápido ou não terás cabeça para que seja enforcada.
~~*~~
— Senhor Carvalhal, sente-se, por favor. — Elisa o recebeu, impassível.
Álvaro, ainda preocupado com a conversa que teria com a moça, acomodou-se no sofá após deixar o chapéu no suporte.
— Senhor Carvalhal — Eleonor interferiu sorridente —, deixarei que conversem a sós, pois sei que devem acertar certas coisas, mas somente por um breve momento, tudo bem?
— Será conforme suas ordens, senhora. Agradeço imensamente.
A Viscondessa saiu da sala, deixando a porta entreaberta e Álvaro respirou fundo sem olhar para Elisa. Aliás, ele sentia os olhos dela queimando-o, mas arriscou:
— Senhorita Lamartine, primeiramente quero lhe agradecer por me receber. Venho implorar o seu perdão e, se possível, tentar me redimir se me deres a oportunidade para explicar...
— Já estás tendo a oportunidade, senhor Carvalhal — falou a moça decidida, assustando-o.
— Pois bem — recomeçou cauteloso. — Como sabes, eu tive afeição por Demétria por um bom tempo apesar de nunca ser retribuído, e isso me deixava esperançoso e totalmente cego. Eu não pensava para agir, era um fantoche em suas mãos.
Olhou para ela e depois fixou o olhar num ponto específico da sala.
— Quando ela pedia algo, eu fazia prontamente, mesmo sabendo que seu intuito era conquistar seu irmão. Eu pensava que um dia ela se cansaria quando percebesse que não teria chance com ele e, por fim, olharia para mim. Mas depois da tragédia com Pedro e a senhorita D’alboquerque, vi que estávamos indo longe demais. Fiz um acordo com Liana para ajudá-la na fuga, mas minha intenção sempre foi ter Demétria. Só percebi o quanto era má e mesquinha quando a usou para obter informações e levá-las ao meu pai. O restante a senhorita sabe.
— E a armação no jardim de sua casa no dia do baile? Também ajudou?
— Sim. Eu vi seu irmão levando a moça para o jardim e a avisei. Fui até lá a mando dela e acabei caindo na armadilha também, quando ela usou da oportunidade e contou aquela mentira.
Diante da aparente apatia da jovem, ele temeroso, retomou, quase suplicante:
— Só quero que entendas, Elisa, que estou tentando mudar e que não existe mais nenhum tipo de apreço por Demétria. Só me restou um grande arrependimento.
— E por que achas que acreditarei em suas palavras, senhor Carvalhal?
— Porque tens um bom coração. Porque és pura e meiga. Esse é o motivo pelo qual estou aqui, porque sua pureza de coração tocou o meu desde que nos aproximamos — Chegou mais perto dela. — És a dama que todo homem deseja desposar, mas quero muito que eu seja o escolhido. — E pegou em suas mãos — Por favor, eu peço-te, deixe-me provar que estou me esforçando e que posso merecer você.
Elisa estava emocionada com aquelas palavras.
— Senhor Carvalhal, eu...
— Álvaro. Chame-me de Álvaro — ele a interrompeu com delicadeza. — E não tenhas pressa em responder-me, esperarei o tempo que for preciso para também poder tocar o teu coração — beijou-lhe as suas mãos.
“Já tocaste há muito, Álvaro”, pensou ela.
Uma falação tirou a beleza do momento. Era o Visconde praguejando enquanto adentrava à sala principal. A Viscondessa veio depressa para despedir o rapaz:
— Senhor Carvalhal, perdoe-me, mas creio que seja a hora de partir. O Visconde acaba de chegar com os ânimos alterados e não seria bom que os visse aqui.
— De fato, senhora — concordou.
Beijou a mão das damas, pesaroso. Desejava mais tempo com a moça. Pegou seu chapéu e preparou-se para sair, prometendo voltar em breve. No entanto, não houve tempo hábil, pois, ao abrir a porta topou com Maurice, que o fuzilou com olhos.
— O que esse traste faz aqui na minha casa? — perguntou olhando para a esposa e a filha.
— Senhor, meu marido, acalme-se! Ele veio apenas conversar com nossa filha e...
O Visconde não esperou por mais explicações e atracou sobre o rapaz, segurando seu colarinho e trazendo-o para si:
— Ponha-te daqui pra fora, seu merda! Minha filha não é pro teu bico! És da mesma laia de seu pai, aquele traidor, traidor! — bradou querendo socar o rapaz.
— Senhor Visconde, eu não... — Álvaro tentou argumentar.
— Senhor meu marido, acalme-se! — interveio Eleonor novamente — Largue-o! Largue-o! — Disse tentando retirar as mãos do marido do pescoço do jovem apavorado.
— Estás defendendo-o? Pois saiba que o pai deste moleque traiu-me durante todos esses anos fazendo-se de amigo, enquanto mancomunava às minhas costas com o diabo, inclusive no golpe das terras de Setúbal.
A Viscondessa levou a mão à boca num gesto de surpresa e indignação. A filha a acompanhou.
— Sim, senhora! É o que ouviste! Agora me diga, como posso permitir que o filho daquele vil corteje minha filha? — gritou e jogou Álvaro em cima de uma das poltronas.
Elisa correu para ele e disse ao pai:
— Papai, por favor, tenho certeza de que Álvaro não tem nada a ver com isso. É um bom cavalheiro, honesto e gentil — defendeu.
— Como é, senhorita? Que intimidades são essas? Ouviu isso, Eleonor? — e virou-se para a esposa. — Estás chamando o filhote de cobra pelo primeiro nome!
— Senhor, meu marido... — a Viscondessa tentou, mais uma vez, mas ele continuava praguejando e falando algo como “isso é um absurdo” “é muita audácia desse sujeito” e, ia partir novamente para cima do rapaz quando ouviu o grito da esposa:
— MAURICE DE ALCÂNTARA LAMARTINE!
Ele parou e olhou a esposa, incrédulo, e ela mais calma disse:
— Peço que me escute. Elisa tem razão. Agora que o jovem Carvalhal se aproximou mais da família nos últimos dias, podemos perceber que possui um bom caráter. — O Visconde resmungou. — Além do mais, já tivemos provas suficientes que nem sempre os filhos saem aos pais. Não haja no calor das emoções! — disse essa última frase, mais firme.
O Visconde calou-se, porém, mantinha os olhos presos em Álvaro, que não ousava dizer palavra.
— Está bem — disse com desgosto. — Mas ainda temos muito que conversar. Você não me escapa! — falou apontando o dedo para o jovem.
— S-sim, senhor — gaguejou ainda desajeitado na poltrona.
— Tens certeza de que quer fazer parte da família? — sussurrou Elisa com um sorrisinho brincalhão à Álvaro.
— Eu ouvi isso mocinha — repreendeu o pai e ia dizer mais alguma coisa quando foi interrompido.
— Meu pai! — disse Henrique entrando apressado na sala — Pedro está de volta!
~~*~~
Na fazenda D’alboquerque, Emília, Beatrice e Cecília, juntamente com D. Hilda, estavam aflitas esperando o que aconteceria a elas, assim que seu pai saísse do gabinete. Diogo que também estava com eles.
Álvaro e seu primo Raul também foram solicitados, porém, ainda não haviam chegado.
— Estou com medo, Didila! — disse Cecília agarrada à governanta.
— Eu também, menina... vamos rezar e pedir a Deus que nos proteja.
No gabinete, os ânimos não estavam dos melhores.
— Como você me falha com uma coisa dessas, Diogo? A uma hora dessas já estaríamos comemorando a morte daqueles cretinos! — o Barão alterado questionava seu pupilo.
— Perdoe-me, senhor. Não pensei que fosse dar errado... estava tudo planejado nos mínimos detalhes, não entendo como souberam... — tentou explicar.
— Eles devem ter um informante — cogitou o Duque —, alguém que está sempre à espreita. O mais preocupante nesse momento são os capangas que estão presos. Podem dar com a língua nos dentes.
— Deixem isso comigo. Vou exigir que o Magistrado acabe logo com isso e aproveito para acertar o casamento dele com Emília de uma vez por todas. Por falar nisso, onde está seu filho e seu sobrinho, senhor Duque? Precisamos acertar logo esse negócio, antes que aconteça mais alguma coisa e estrague meus planos.
— Devem estar a caminho. Já enviei um de seus lacaios para apressá-los.
Diogo não estava gostando daquela história. Eles estavam tratando dos casamentos das irmãs com os Carvalhal e isso incluía Beatrice. A união aconteceria em três dias. Ele precisava fazer alguma coisa.
— Diogo, tenho algo para você — disse o Barão tirando-o de seus pensamentos. — Após o casamento de Liana, Beatrice e Emília, tu irás levar as outras para o convento de Santa Clara. Enviarei junto uma carta selada. Ficarão trancafiadas o resto de suas vidas lá para aprender a não me desafiar mais. Depois, trataremos dos Lamartine novamente e, dessa vez, não poderá haver erros — disse nervoso e Diogo apenas concordou com a cabeça.
— Vou pedir ao seu mordomo para verificar se aqueles imprestáveis estão a caminho, com licença — informou o Duque e saiu do gabinete.
Diogo viu a oportunidade perfeita para falar ao Barão:
— Senhor... eu gostaria de lhe pedir algo...
— Fale — disse sem olhar para ele, mexendo em alguns papéis.
— Bem sabes que nunca fiz nada para desapontar o senhor, e que nunca pedi nada em troca, pois sempre o tive como um pai e agradeço por tudo que tens feito por mim — o velho olhou para ele, achando estranha aquela conversa —, mas tem algo que eu gostaria de pedir ao senhor e há muito não tive coragem de fazer...
— Sim.
— Há tempos cultivo sentimentos pela senhorita Beatrice, por isso, peço-te, na verdade, rogo-te que não dê a sua mão ao sobrinho do Duque, mas antes, dê a mim e prometo que farei o possível para ser um orgulho para o senhor e...
— O que dizes? — berrou o homem assustando o rapaz — Não tens noção do que me pedes!
— Senhor, eu sei que não tenho títulos, mas tenho certa importância social, justamente porque me possibilitou...
— Não tens noção do que me pedes! — repetiu irado — Nunca, ouviu bem? Nunca mais digas ou penses uma coisa dessas! — gritou.
Diogo estava estupefato com a reação de seu tutor. Ele nunca havia gritado com ele, nem mesmo na situação de minutos atrás quando conversavam sobre o plano falido de matar os Lamartine’s.
— Escute, filho — o Barão passou a mão pelo rosto, tentando conter a agonia que lhe tomava —, Beatrice já está prometida ao senhor Raul e eu preciso dessa aliança, entende?
— Mas o senhor pode casar outra filha...
— NÃO!!! — De novo se alterou. — E cessa desse assunto! Agora vá e se prepare para o meu chamado.
Diogo se encheu de fúria e fechou seus punhos num movimento automático. Sua vontade era cometer uma loucura ali mesmo. Mas isso não ficaria assim, pensou ele. Sempre fez tudo o que o Barão lhe ordenara. Sempre foi seu discípulo e agora não poderia lhe ceder a mão da filha a ele? Ingratidão!
Saiu sem dizer nada e quando chegou à sala viu Raul entrar com seu tio e Beatrice correr para cumprimentá-lo. Seus olhos cruzaram com os do rival e ali mesmo prometeu que o mataria.
~~*~~
— Que bom que resolveu vir comigo, Jô, para conhecer o vilarejo — disse Celeste à irmã enquanto cavalgavam lentamente.
Celeste se preparou para passar mais uma manhã no vilarejo ensinando as crianças e mulheres a lerem e a escreverem. Levaria também alguns alimentos e livros que Amadeo conseguira na cidade e outros que ela tirara da biblioteca de sua casa. Ele sempre deixava os pacotes escondidos na mata junto à saída dos domínios da fazenda. Era um combinado entre os dois. Então ela amarrava tudo ao seu cavalo e partia.
Havia outro motivo para ir ao vilarejo: Matias. Desde que o conhecera, sabia que se dariam bem. Era forte e decidido e não se conformava com os martírios que seu povo vivia. Nesse vilarejo, onde viviam operários das fábricas de seu pai, era um lugar muito precário; as pessoas mal tinham camas para dormir ou o que se alimentar. Apesar de tantos problemas, eles viviam unidos. Celeste também se apegou muito a Dália, uma menina doce e alegre. Gostou dela assim que a viu. Era sua assistente em todas as atividades. No início, quando começou a observar o vilarejo de longe, Dália a encontrou escondida e Celeste achou por bem não dizer quem ela era de fato. Dias depois, revelou-se à menina, que contou ao seu irmão. Matias e Celeste discutiram. Ele era uma espécie de líder do seu povo, por isso temia que sofressem mais ainda, principalmente porque era difícil acreditar nas boas intenções de uma aristocrata. Não o condenava.
O jeito dele lembrava muito o de sua irmã Joana e seus ideais. “Um homem admirável!” pensava ela. Aos poucos, o povo tomou confiança e aceitaram sua ajuda, que era muito bem vinda em tempos tão difíceis.
Pensava em Matias e em seu sorriso quando a irmã apareceu dizendo que a acompanharia, horas antes:
— Eu vou com você!
Celeste sorriu e perguntou:
— Tem certeza? Vou ensinar as crianças hoje e você não seria uma preceptora muito paciente — brincou.
— Ora veja! — indignou-se a irmã — Tenho cinco irmãs mais novas que eram umas pestes quando pequenas, isso não conta? — falou colocando as mãos na cintura.
Celeste riu mais ainda. Ela sabia que Joana era ótima para o serviço. Ajudar as pessoas e instigar mudanças era com ela mesma.
— Então vamos, porque há muito trabalho a fazer — disse subindo no cavalo e Joana fez o mesmo.
O caminho era tranquilo. Prenderam os pacotes e foram conversando sobre as pessoas do vilarejo e como poderiam facilitar a vida daquele povo. Queriam fazer mais, mas não era tão simples como parecia.
— Gostas muito desse tal de Matias, não é? — perguntou Joana com um sorrisinho nos lábios. — Quando você fala nele, seus olhos brilham.
Celeste corou.
— Deixe de bobagens, Jô. Não é nada disso. Apenas o admiro por ser tão forte e corajoso mesmo com uma vida desgraçada. Temos tanto e eles, nada. Vivem dos restos — falou pesarosa.
— Bem sei. Por isso quero ser uma agitadora. Mas para isso preciso estar casada com alguém com o mesmo pensamento que eu, ou pelo menos que me deixe pensar por mim mesma. Como mulher, sei dos limites que me impedem de fazer o que tenho vontade — fez uma careta. — Meu único objetivo para o casamento é o acesso aos círculos sociais para difundir minhas ideias entre as mulheres. E já até sei quem seria o pretendente ideal — confessou com um sorriso sarcástico.
— Eu imagino quem seja o cavalheiro em questão.
— O Marquês é um homem interessante — falou sem rodeios —, e eu aceitaria se me pedisse em casamento.
— Você não existe, Jô — Celeste riu. — Mas acho que tem certo apreço por ele...
— Ele é um bom partido, não tenho dúvidas. É cheio de concepções e isso me atrai. Mas chega de conversa! Quem chegar por último vai lavar as latrinas — e saiu galopando rápido à frente da irmã.
— Ei, espere-me! — Celeste gritou, partindo atrás da irmã. Era bem rápida. Desde pequena sua atividade favorita era cavalgar. Tornou-se uma verdadeira amazona.
Elas ficaram brincando de corrida por um tempo, até que chegaram próximas ao vilarejo.
Celeste explicou que sempre deixava os cavalos amarrados nas árvores e se embrenhavam numa pequena mata que dava acesso às casas. Era um caminho seguro que ficava contrário à entrada da vila.
Ao adentrarem no vilarejo, ouviram alguns gritos e choros. Elas se entreolharam e Celeste foi correndo à casa de Dália e Matias. Chamou por eles, mas não houve resposta. Avistou então, uma aglomeração de pessoas mais à frente e se aproximou.
— Isso é... som de açoites? — perguntou Joana à irmã. Celeste assentiu assustada. Podia ouvir gemidos de alguém a cada açoite dado. Avistou uma menina saindo da multidão, correndo em direção a casa. Era Dália.
— Dália! Dália! — A chamou.
— Celeste! — A menina veio desesperada ao seu encontro, em prantos e a abraçou.
— Diz-me. O que está acontecendo?
— No...Matias... — tentou falar — está sendo a-açoi-ta-do — pronunciou palavras entrecortadas pelo choro.
— Meu Deus! — deixou Dália e saiu correndo em meio à multidão. Quando conseguiu ver Matias, ele estava amarrado a uma coluna de madeira, todo ensanguentado, quase desacordado e, o carrasco com o chicote na mão e sorriso perverso no rosto, era Diogo.
~~*~~
— Meu amor... oh meu amor, você voltou para mim! — dizia Liana beijando todo o rosto de Pedro e chorando.
— Ham! — pigarreou o Dr. Fontana ao ver a cena do casal — Sei que a felicidade é grande, mas, eu preciso realmente examinar o rapaz, senhorita D’alboquerque — completou sorrindo.
— Os seus reflexos estão bons, senhor Lamartine. Apenas sua voz que demorará um pouco a normalizar, portanto, não deve forçá-la, sei que tem muito a dizer um ao outro, mas vamos com calma. Precisará também fazer exercícios nas pernas e braços quando estiver sentindo-se melhor — relatou o médico. — Ah, e muito banho de sol.
— Eu o ajudarei — Liana falou sorridente.
— A senhorita não pode fazer esforço, deverá daqui para frente estar em repouso e poupar desgostos. Bem... se isso for possível. Que Deus lhe ajude! — disse o médico ciente de todos os acontecimentos que envolviam as famílias.
— O que tens, Liana? Estás doente? — perguntou Pedro preocupado.
Ela corou, pois o médico ainda estava presente e isso ainda era um assunto delicado na condição em que se encontravam. Sabendo disso, doutor Fontana disse:
— Bem, vou deixá-los a sós, no entanto, poupe o máximo de esforço, senhor — recomendou e saiu.
Liana sentou novamente na cadeira que estava à beira do leito e olhou para Pedro. Ele, já ansioso, fez menção de falar, porém, ela fez sinal com a mão para que não o fizesse.
— Pedro... preciso lhe contar algo... — suspirou olhando para o lenço entre as mãos. — Lembra-se daquele dia na Cabana, antes das tragédias ocorrerem? — Ele afirmou — Nós tivemos nossos momentos...momentos...íntimos... — disse e corou violentamente.
— Como eu poderia esquecer? — Pedro sorriu levemente — Ainda viveremos mais momentos como aquele — disse um pouco cansado.
— Sim, meu amor, nós teremos, mas... algo aconteceu depois.
Pedro franziu a testa tentando entender.
— Pedro... vamos ter um bebê.
Ele ficou paralisado, assimilando aquelas palavras. Os dois se olhando. Liana esperando a reação dele, com medo, agoniada.
— Como assim? Quero dizer… vou ser pai?
— Sim. Estás triste ou bravo?
— Como poderia? Estou feliz, um pouco surpreso, claro, mas feliz deveras!
— Oh céus! Como eu tive medo — disse suspirando aliviada com a mão no peito. — Medo de você não acordar, medo de não querer nosso filho...
— O que dizes? És a mulher da minha vida. A única que desejo me casar e ter uma família. É uma situação complicada, de fato, mas vamos resolver isso.
Ela apenas sorriu enquanto se davam as mãos em cumplicidade.
— Meu filho! — Eleonor entrou gritando no quarto, e logo atrás entraram Maurice, Henrique, Elisa e Álvaro. — Ah meu filho! — E se jogou sobre ele beijando-o em todo o rosto — Graças a Deus! Graças a Deus!
— Mulher, não amasse o garoto! Ele acabou de acordar — disse o pai e todos riram.
— Oras! Deixe uma mãe celebrar o retorno de seu filho — retrucou. — Coitado de meu filho... — e o marido revirou os olhos — Estou muito feliz filho! Eu pedi tanto a Deus... — disse Eleonor, chorando e alisando o rosto do filho.
— Sei disso, minha mãe. A senhora é a melhor das mães do mundo — disse Pedro beijando a face de sua mãe. — E você querida irmã? Não vai me dar um abraço? — perguntou à Elisa que também se banhava em lágrimas.
— Ah, Pedro... — E jogou-se nele — senti tanto a sua falta...
— Não chore, não chore. Estou de volta. — falou, alisando os cabelos da irmã — E além do mais vou precisar de sua ajuda mais do que nunca — e sussurrou no ouvido dela —; da titia mais encantadora de toda Évora.
Elisa o olhou, assustada, e ele deu uma piscadinha para ela. Maurice e Henrique também se aproximaram dando um abraço desajeitado.
— Que bom que estás de volta, irmão — disse o mais velho dando umas tapinhas aprazíveis no ombro do irmão.
— Obrigado Henrique! Onde estão Fred e Afonso? — perguntou olhando ao redor e se deparou com Álvaro.
— Carvalhal — cumprimentou, secamente. Pedro ainda tinha certa resistência com a presença dele, já que Liana fora sua prometida.
— Que bom que está de volta, Pedro. Faço votos de que se recupere logo.
— Obrigado.
— Fred foi à Casa de Contas e depois irá ao Magistrado buscar documentos importantes — respondeu o pai. — Já pedi um lacaio para avisar que estamos aqui. Afonso foi para os sobreiros resolver alguns negócios, mas não tardará.
Elisa e Liana estavam cochichando em um canto e todos se alarmaram quando ouviu um gritinho dela:
— Oh meu Deus! — E tapou a boca imediatamente.
— Elisa, o que se passa? Isso não é o comportamento de uma donzela educada — repreendeu Eleonor.
Elisa olhava para Pedro e Liana como se perguntasse se podia soltar a língua. Os homens presentes já a olhavam com espanto, assim como sua mãe.
— O que há com essa menina? — questionou o Visconde já irritado, olhando para Eleonor que, por sua vez, fez um gesto que dizia “não sei”.
Pedro sorriu e disse:
— Pai, mãe, e todos os presentes, Liana e eu temos um comunicado a fazer.
Liana abaixou a cabeça. Todos os outros olharam para Pedro.
— Bem… Liana e eu vamos… ter um filho.
Todos arregalaram os olhos e olharam para Liana que desejou ter um buraco para pular dentro.
— Mas como? — o Visconde questionou.
— Oras, o senhor não quer que eles digam como ocorreu, não é? — indignou-se Eleonor.
— Por Deus! Não foi isso o que eu quis dizer, minha senhora!
— Parem! — pediu Henrique, sério, sabendo que aqueles dois poderiam ir longe — Deixem que eles falem... sobre isso.
— Obrigado irmão — disse Pedro. — Pouparei Liana de dar maiores explicações. Também acabei de saber e o doutor Fontana está a par de tudo.
— Oras, vamos ser sinceros aqui, eles já se encontravam às escondidas há tempos — soltou Elisa, divertida.
— Está vendo isso, senhora? — Maurice apontou para a filha, olhando para a esposa — Não sei onde essa menina aprende essas coisas! Elisa, ficarás de castigo um ano inteiro sem ver esse calhorda! — E apontou para Álvaro.
— Mas papai... — a filha tentou argumentar.
— Maurice, esse seu comportamento não é adequado para um futuro avô — disse Eleonor e o Visconde começou uma encenação sentindo falta de ar.
— Acalme-se, pai — disse Henrique já conhecendo os dramas e fingindo se importar.
— E-eu-vou ser a-avô... — disse ele sentando-se em uma cadeira ajeitada pelo filho.
— E já não era sem tempo! — bradou a esposa sem se preocupar com o teatro do marido. — Isso é maravilhoso, Liana! Vamos encomendar já todo o enxoval na melhor bordadeira de todo Alentejo. E depois, Elisa e eu vamos te levar à modista para fazer lindos vestidos para esse período.
— Estão esquecendo apenas de um detalhe — anunciou o Carvalhal que até agora não tinha se pronunciado. — A senhorita D’alboquerque ainda não é casada e vosso pai pode tentar algo contra ela se souber de... tal notícia.
— Eu acabo com aquele maldito! — gritou o Visconde já se levantando.
— Meu pai, só há uma alternativa: casar-me-ei com Liana o quanto antes, sem que ninguém saiba. Uma cerimônia secreta — sugeriu Pedro.
— Mas a senhorita D’alboquerque não pode casar-se sem a autorização do velho — lembrou Henrique.
— Com licença — pediu o doutor Fontana, entrando no quarto. — Eu posso contribuir com algo para apressar as coisas. Se eu diagnosticá-lo como louco e incapaz de cuidar das filhas, vocês podem conseguir uma autorização, se assim o magistrado conceder.
— Isso pode ser? — perguntou Liana.
— Sim, mas a minha palavra não tem validade sozinha. A lei deve analisar e dar o veredicto diante de meu laudo.
— E o senhor estaria disposto a fazer esse documento alegando a insanidade dele? — o Visconde quis saber.
— Evidentemente. Não posso concordar com as atrocidades daquele homem. Até porque não precisarei mentir. Ele é realmente insano, sabe lá o que pode estar fazendo as filhas neste momento...
— Ele não está mais aqui? — sobressaltou, Maurice.
— Não, senhor. Ele surtou e quis partir. Não pude impedir quando o Duque veio buscá-lo.
— Aquele... Deixe comigo! Faça a sua parte, doutor, eu falarei com o Magistrado. Tenho contas a acertar com ele. Pedro estará liberado ainda hoje?
— Sim, poderá se recuperar em casa, se seguir todas as minhas instruções. Farei visitas regulares.
— Ótimo! Henrique, mande chamar o padre Osvaldo e leve-o para a Casa Lamartine. Vamos preparar já esse casório! Depois iremos à fazenda resgatar as moças — concluiu.
~~*~~
— Onde estão Liana, Joana e Celeste? — perguntou o Barão às filhas.
— Liana está no hospital, meu pai — respondeu Cecília — Joana e Celeste...
— Foram à modista — completou Emília quando viu que a irmã não saberia responder.
— Modista, sei... — era clara a sua fúria. — Falarei apenas uma vez e repassem o recado às outras. Liana e Beatrice se casarão em três dias, o seu noivo, senhorita Emília, breve estará aqui também — fitou-a. — D. Hilda, eu a quero fora dessa casa, assim como aquela rebelde da Joana, até o fim do dia. Não voltei atrás quanto à minha decisão. Celeste e Cecília, em breve estarão de partida de Évora, logo após os matrimônios de suas irmãs.
— Mas... — Emília tentou questionar.
— Não me questione! — gritou. — Cada uma de vocês pagará por terem se aliado ao inimigo.
Quando ele se retirou com a ajuda do mordomo para seus aposentos, dona Hilda caiu em prantos junto com as moças.
— O que vai acontecer comigo e com a Celeste? Para onde Joana irá? E você Didila? Oh meu Deus! Isso é um pesadelo, não uma vida! — lamentou Cecília.
— Eu não choro por mim, mas por vocês que estarão sem rumo — lamentou D. Hilda. — Separadas, sem alguém para cuidar de vocês. Tudo por causa de um coração gelado. Como ele pode não amar o próprio sangue?
— Vou pedir a Amadeo que envie uma mensagem a Frederico — disse Emília, baixinho. — Com certeza os Lamartine nos ajudarão de alguma forma. O Visconde não nos negará isso.
— Como pode ter tanta certeza? — quis saber Beatrice também chorando.
— Porque ele tem um bom motivo.
~~*~~
— Senhor Lamartine! — chamou o lacaio ao ver Frederico sair do contador.
— Amadeo! Traz novidades?
— Sim, senhor! O Barão está de volta à fazenda. A senhorita Emília pediu-me para avisar que ele tem a intenção de casar as irmãs Liana e Beatrice em três dias. Expulsou D. Hilda e Joana de casa e tem planos para levar Celeste e Cecília para um convento distante. Porém, Joana e Celeste não estão sabendo de nada, pois foram para o vilarejo e ainda não voltaram. — relatou os fatos sem respirar.
— Cristo! Volte e diga que vou ajudá-las, Amadeo, e obrigado por tudo. — Espere! — Deteve o lacaio quando este já ia.
Foi até uma florista próxima e comprou uma rosa.
— Leve para a senhorita Emília e diga que a amo e que vamos resgatá-las.
— Sim, senhor. Passar bem!
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— Senhorita Castel, boa noite! Trago notícias de Évora — o informante fez o gesto cortês. — O Barão retornou para a fazenda e o Senhor Pedro Lamartine também voltou para casa. A senhorita D’alboquerque o acompanha.
— Certo... apenas isso? — perguntou a moça.
— Por enquanto sim, senhorita.
— Tome — e entregou-lhe um punhado de moedas. — Fique atento a cada passo de Liana. E diga a Diogo que preciso lhe falar com urgência. Que me espere em breve.
~~*~~
— Não! — Celeste gritou e deu um impulso para correr até Matias, mas Joana impediu a tempo — Deixe-me, Joana, eu preciso ir até lá! — falava aos prantos.
— Escute-me Celeste! Ninguém mais do que eu gostaria de agredir aqueles carrascos. Mas você viu quem está lá? Diogo! Ele é o braço direito do Barão, não pode nos ver aqui!
Celeste ponderou um pouco, ainda resistente nos braços da irmã.
— Ele vai matá-lo, Joana — lançou-lhe um olhar desesperado.
— Ele já se foi e alguns homens estão tirando Matias — Dália veio avisar ainda chorando.
As três saíram apressadas e avistaram quando traziam Matias, todo machucado, para dentro de seu casebre.
— Matias, fale comigo, por favor — Celeste pediu entre lágrimas — Matias...
— Deixe-o menina, ele ficará bem — disse uma senhora a afastando para que os homens pudessem acomodá-lo.
— A culpa é de seu pai, aquele algoz! — gritou alguém do meio do grupo apontando para Celeste. Algumas vozes se elevaram concordando com ele e começaram a acusá-la.
— Não queremos você na nossa vila! Já basta a humilhação que vivemos por conta das maldades do carrasco — outra pessoa se manifestou. — Saia daqui e leve seus presentinhos. Não queremos suas esmolas!
Celeste estava assustada, mas não podia sair dali sem antes saber como Matias ficaria. Precisava cuidar dele.
— Venha criança — disse a senhora —, não dê ouvidos a eles. Estão assim pelo calor do momento, mas sabem que você é diferente do pai.
A senhora guiou-a para o interior do casebre, porém antes de entrar, deteve-se pela voz de Joana falando ao povo.
— Sei que não vão querer ouvir o que tenho para falar, mas já que estou aqui, não deixarei passar a oportunidade — falava alto para que todos ouvissem. — Sou Joana D’alboquerque, irmã de Celeste. Não tenho orgulho em dizer que sou filha do Barão, contudo, não podemos escolher nossas raízes. A prova disso é, vocês representam a classe martirizada da sociedade e, minha irmã e eu, a aristocracia. Mas — levantou um dedo —, nem sempre ter belos vestidos e morar numa mansão não significa que somos felizes. Conhecemos bem a mão de ferro do meu pai, assim como vocês. A diferença é que temos o mesmo sangue e nem isso o impede de ser cruel e tirânico, de modo que, a única vontade que tenho é de matá-lo.
Olhou para eles, focando em alguns rostos atentos e outros espantados, e continuou:
“Quando eu descobri o que Celeste fazia aqui no vilarejo, eu tive inveja dela. Da sua força e coragem. Ela faz por amor e por isso estou aqui hoje, porque quero ajudá-la nessa missão. Somos conhecidas como As Sete Pérolas Intocáveis do Barão, mas me pergunto, porque temos que ser propriedade de alguém? Se a liberdade é o nosso maior desejo, então não vamos nos entregar ao comodismo — respirou fundo. — E quanto às pérolas... ótima alusão... são consideradas bonitas e valiosas, não é? Mas poucos sabem que são formadas pelo sofrimento, pela dor e pelas tentativas de defesa — Seus olhos brilhavam. — Somos todos lutadores aqui, e acredito que algo de bom tem que acontecer, ainda que demore, se fizermos algo por essa liberdade tão almejada. Ainda que não vejamos os frutos da nossa luta agora, mas os nossos descendentes, daqui alguns anos ou séculos, terão a consciência de que mostramos um caminho e darão continuidade. Não podemos desistir de algo que parece intocável agora, mas que produzirão pérolas amanhã.”
Joana tinha os olhos marejados quando finalizou:
— Não deixem que eles vençam assim. Façam o que tem que ser feito! Eu já me decidi: eu dito a minha vida e não vou deixar mais que me dominem!
E caminhou para juntar-se à irmã que a olhava, boquiaberta, como a maioria das pessoas ali. O silêncio se fez presente até que falou à Celeste, enquanto entrava na casa:
— Vem, vamos cuidar de Matias.
~~*~~
Emília andava de um lado a outro em seu quarto, aflita. O sol já se pusera e Celeste e Joana ainda não haviam retornado do vilarejo. Dona Hilda já estava com as malas prontas e a resposta de Frederico não chegara.
Enquanto pensava, um vento adentrou a janela e apagou todas as velas do quarto. Correu para fechá-la, mas, algo lá fora lhe chamou a atenção. Uma luz brilhava dentro da estufa. A estufa era sempre frequentada por Cecília e Didila, porém, nunca à noite. Aquilo a intrigou. Pegou um xale, envolveu-o em seus ombros e desceu.
Não havia ninguém nas salas. Todos já haviam se recolhido em seus aposentos. Silenciosamente passou pelas varandas, atravessou os jardins e entrou na estufa. Lá no fundo havia uma iluminação branda. “Talvez seja algum empregado” pensou.
— Tem alguém aí?
Nenhuma resposta.
Com um pouco de medo caminhou até a tal luz e, ao se aproximar, viu um castiçal aceso atrás de dois grandes vasos.
Que estranho... quem colocaria um castiçal aceso ali?
Tentou alcançá-lo, mas não conseguiu; arrastou um dos vasos com dificuldade e aos poucos foi removendo-o. Quando o deslocou, viu uma argola grande e pesada, e ao tentar pegá-la, descobriu-se presa ao chão.
Afastou, um pouco mais, um dos vasos e a portinhola do alçapão se revelou. Estranhou novamente o fato de ninguém saber que havia um ali. A puxou com toda força e a abriu. Com o auxílio do castiçal, avistou que dentro havia uma caixa de madeira. Pegou-a, retirou a poeira com as mãos e observou atentamente o desenho esculpido em sua tampa: uma concha aberta com pérolas dentro. Tentou abrir, mas estava trancada e havia uma fechadura. Investigou o interior do pequeno alçapão para o caso de encontrar uma chave, mas não havia mais nada além da caixa misteriosa.
— Onde será que está a chave...? — falou consigo e decidiu ir compartilhar o achado com Didila, sempre tivera a impressão de que ela sabia mais do que demonstrava. Principalmente nesses últimos meses.
Aproveitou o castiçal para guiá-la de volta à casa e enquanto caminhava, cogitando várias coisas, algo veio à sua mente: a chave no diário de sua mãe.
~~*~~
“Ninguém sabe o seu paradeiro. Dizem apenas que ela foi levada por um pajem a mando do Duque Gomes de Carvalhal, mas não sabem onde...”
Diário da Baronesa Amélia C. D’alboquerque – 1798.
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