As Pérolas Intocáveis de Évora - Livro I
26 Capítulo 25 - Cartas
Notas iniciais
Emília D'alboquerque
Após reacender as velas do seu quarto, Emília sentou em sua cama com a caixa de madeira nas mãos. Abriu a gaveta da sua mesa de cabeceira e tirou o diário de sua mãe. A chave estava fixa nele através de um cordão. Testou e abriu.
Dentro não havia nada além de um pacote de cartas e, ao fundo, uma correntinha com um crucifixo.
Desatou o cordão das cartas e passou os olhos rapidamente por elas. Tinha uma escrita pela mãe, outras endereçadas a ela. Uma da Condessa Lorínia, sua avó e, também, de uma mulher chamada Odília, a mesma que sua mãe mencionara no diário. A mulher do vilarejo que desapareceu.
A carta escrita por sua mãe era endereçada ao Visconde. Resolveu abrir.
“Caro Senhor Visconde Lamartine,
Há muito desejo-lhe escrever, mas bem sabes que as condições impedem que uma senhora casada escreva a outro senhor que não seja seu marido. Ainda assim, ignorarei tais regras para esclarecer aqui, algumas coisas.
Estou doente e sei que não escaparei do destino que me é reservado. A gente sente essas coisas... não posso, no entanto, deixar que ele se cumpra sem que antes eu faça-te dois pedidos:
O primeiro, pedir-lhe perdão pelo fato de não esclarecer a ti, o quanto antes, o motivo pelo qual veio nos separar na mocidade. Antes de meu pai falecer ele chamou-me ao seu leito para confessar que o causador do rompimento de nossos planos fora o Barão, ao ameaçar contar sobre sua falência social em pleno Baile Rosa. Meu pai não foi justo e corajoso o suficiente para protestar tal atitude, cedendo assim, o meu futuro a ele. Palavras dele.
O segundo, pedir-lhe que cuide de minhas pérolas por mim, mesmo que não diretamente. Elas sofrerão, bem sei. Pode ser egoísta de minha parte dizer isso, mas, se eu pudesse, pediria a Deus que as levassem comigo. Hilda, minha dama de companhia e amiga, é uma mulher muito boa, porém, não tem poder contra Rui. Eu tudo fiz para que ele se aproximasse das filhas, mas em vão. Por algum motivo que desconheço, ele não gosta delas.
Ampare-as quando for preciso. Não consigo pensar em ninguém mais nessa cidade que tenha um bom coração para acolher minhas filhas na hora da dor. Sei que a Viscondessa também tem um grande coração apesar das nossas divergências e não negaria o pedido de uma mãe.Elas são tudo para mim!
Mas mesmo se eu ficasse nas condições em que me encontro, não seria de grande valia a elas. Minha alma há tempos está angustiada, de modo que não posso mais fingir.
Rogo-te, senhor Visconde, pelo amor que um dia sentiste por mim. Pois, o meu amor por ti, levarei comigo onde eu for.
Com estima,
Baronesa Amélia Catarina D’alboquerque.”
Emília estava chorando com a carta nas mãos. Era doloroso ler aquelas palavras. Seu pai fora o causador de toda a sua tristeza. Por que ela não estava surpresa sobre a discórdia e os métodos escusos que ele usara? Sua mãe sabia que partiria logo e confiara suas filhas aos cuidados do homem que um dia amou. Por algum motivo a carta não foi entregue, mas, de certa forma, o pedido dela foi atendido sem que o Visconde soubesse.
Pegou a carta de sua avó, Lorínia:
“Querida filha,
Há muito não nos falamos, desde que seu pai faleceu, acredito. Não sei se mudar para Lisboa foi uma boa opção; sei que tens um marido difícil e que muitas vezes o enfrentei no calor do momento. Eu nunca quis prejudicá-la, mas também nunca quis que se casasse com ele.
Ainda me sinto culpada de não ter conseguido convencer seu pai na ocasião, e impedi-lo de dar sua mão ao Barão. Sei que tentas desesperadamente fazer seu casamento feliz, mas o que ele sentes por ti não é amor, querida, é obsessão. Você sempre foi para ele nada mais que um prêmio a ser conquistado e o conseguiu da forma que agora sabemos.
Sinto saudades de minhas netas. Como elas estão? Diga a Joana que levarei os doces que ela tanto gosta quando eu for visitá-las. Nunca vi alguém tão parecida comigo...
Irei antes do nascimento de seu próximo filho. Já escolheste o nome? Certamente Adelaide a ajudará nessa decisão.
A amo muito, filha, não demores a escrever-me.
Com carinho, mamãe.”
Abriu outra carta. Essa era da tal mulher chamada Odília.
“Minha senhora Baronesa D’alboquerque,
perdoe-me a audácia com que lhe dirijo a palavra, no entanto, julgo dentro da minha insignificância que venha ao conhecimento da senhora algumas coisas que ocorrem em nosso vilarejo e que envolvem seu marido, o Barão, e seu comparsa, o Duque de Carvalhal.
Sabemos que és uma pessoa justa, mesmo sendo esposa de um homem cruel em todas as formas.
Sou uma mulher jovem e trabalho em uma das fábricas. Por mais que não temos muitas escolhas na vida, uma delas eu prezo: a dignidade; que me foi tirada assim que os olhos do seu marido caíram sobre mim.
Eu ainda era uma criança quando tive que me sujeitar aos seus anseios carnais. A única coisa que consigo sentir é nojo de mim mesma por ser obrigada a algo tão hediondo.
Eu guardaria minha vergonha comigo até o dia de minha morte se não fosse um único motivo: meu filho, que também é filho bastardo de seu marido.
Apesar de tudo, eu o tenho amor, afinal, um filho é um filho e não quero que aconteça nada de ruim a ele.
O Barão tem ameaçado tirá-lo de mim. Levá-lo embora. Ele vem vê-lo regularmente e o menino já tem apreço por ele. Eu não queria. Nunca quis que criasse laços com ele, mas a vida nem sempre é justa. Se ele quiser levá-lo, sei que não conseguirei detê-lo.
Por isso peço sua ajuda, Baronesa. Impeça seu marido de levar meu filho! Diogo é um bom menino, porém, seu coração se tornará cruel se ele o seguir.
Odília.”
Emília deixou a carta cair aos seus pés. As lágrimas desciam ao passo que o desespero crescia. Levou as mãos à cabeça.
Não podia ser! Diogo era filho do Barão e seu meio irmão. Agora muita coisa se explicava! Como seu pai pode ser tão carrasco e assolar as mulheres do vilarejo dessa forma?
Meu Deus! E Diogo e Beatrice? Eles haviam se beijado e ele ainda nutria sentimentos por ela. Oh Céus! Era uma grande tragédia!
Um soluço de desespero lhe escapou. Pegou uma almofada e a pressionou em seu rosto. O choro precisava ser contido para não assustar suas irmãs. Gritou, gritou, gritou sobre o travesseiro.
Mil coisas se passavam em sua cabeça. Quanta dor e sofrimento por detrás do passado de sua família!
Chorou por um tempo para aliviar a angústia que fazia o peito doer. Depois foi até a janela, a abriu e deixou o ar refrescar sua pele. Precisava se acalmar para conseguir terminar de ler as cartas, ainda que o medo do que mais poderia estar nelas, lhe tomava.
Ela sentia que aquilo lhe fora confiado por um motivo, por mais que lhe doesse.
Voltou para as cartas, olhou-as demoradamente, e pegou mais uma, também de Odília. Suas mãos tremiam quando a abriu.
“Cara senhora Baronesa D’alboquerque,
Sou grata por tudo que tens feito, mesmo às escondidas de seu marido.
Amanhã mesmo estarei de partida conforme a senhora planejou. Em Algarve existem outros trabalhadores e com certeza lá me estabelecerei junto com meu filho. Não tenho nada a oferecer à senhora, deixo então essa correntinha de ouro com um crucifixo. Era de minha mãe e agora dou a ti. Sempre me trouxe alguma esperança... Diogo sempre gostou de puxá-la enquanto eu cantava pra ele em meu colo.
Bem, despeço-me, desejando-lhe toda a felicidade. A senhora tem um enorme coração e nunca poderei pagar-lhe por essa ajuda.
Uma mãe sempre entende a outra, não é mesmo?
Com eterna gratidão,
Odília.”
Mas o que dera errado? Como Diogo foi parar nas mãos do Barão? E o que aconteceu àquela mulher?
Emília cogitava tantas coisas e começou, desesperadamente, a procurar por mais cartas de Odília, porém, não as encontrou.
Percebeu que no meio de tantas, havia uma da viscondessa, o que era bem estranho, e outra sem remetente. Analisou e abriu.
“Cara senhora Baronesa D’alboquerque,
Sei que deve estar conjecturando a respeito de minha pessoa. Devo dizer que é a mesma que sempre escreveu em nome de Odília, já que esta, como bem sabes, não possuía tal habilidade. Não posso me identificar, mas asseguro que estou mais perto do que imaginas.
Sei de muitas coisas que acontecem ao nosso redor e, na maioria delas, obrigado a ignorá-las. Quanto à Odília e seu filho, eles nunca chegaram ao destino que a senhora lhes preparou.
Na madrugada do mesmo dia que ela me pediu para lhe escrever, uma carruagem chegou ao vilarejo a mando do Duque e a levou. O menino também, porém este, foi deixado em outro local. Odília não mais foi vista.
Sabemos o que acontece quando os trabalhadores desaparecem... principalmente quando estes tentam burlar a ordem natural das coisas.
Confirmarás que isso é verdade quando o Barão chegar com o menino em sua casa, pois este era seu propósito desde sempre.
Odília só queria salvar seu filho. Era uma boa mãe que pagou com a própria vida quando desejou um destino melhor para ele.
Nem sempre a vida é justa... mas o mundo precisa de pessoas com o coração igual ao seu, disposto a ajudar mesmo que os resultados não sejam favoráveis.”
Odília morrera... Não conseguiu chegar ao seu destino e salvar seu filho.
Seu filho Diogo, que acabou nas garras do próprio monstro que era seu pai.
Emília jogou a caixinha com as cartas no chão com um golpe de raiva.
Fechou os olhos com força e tapou seus ouvidos, como se aquilo a fizesse esquecer o que acabara de ser revelado. Todas estas coisas hediondas e dolorosas.
Os pensamentos se misturavam e a cabeça trabalhava a mil. Deitou-se na cama e se ajeitou em posição fetal. Deixou a alma ser lavada, mais uma vez.
As pessoas eram más, gananciosas, muito cruéis, e seu pai era um desses monstros.
— Mamãe... o que devo fazer? Eu não sei o que fazer... tudo isso é tão horrível... — murmurou em meio ao choro.
Queria tanto uma resposta e não sabia onde obtê-las. Sentiu a garganta secar como resultado da raiva que a consumia. Não era justo! O que ela deveria fazer com tantas informações? De que serviria tudo isso a não ser para causar mais sofrimento a todos?
Um sono lhe tomou, como que para atenuar sua melancolia, e quando despertou, pensou ter dormido uma noite inteira. Não se mexeu. Mas, no seu campo de visão, em cima da mesa de cabeceira, estava uma das cartas, com uma linda escrita: Às minhas Pérolas.
Sentou-se devagar na cama e a pegou. Passou a mão lentamente por cada letra escrita ali. Era uma carta de sua mãe a elas. De despedida.
“Minhas lindas pérolas,
Não é fácil escrever algo para vocês, por ser uma dolorosa despedida. Essa carta será encontrada no momento propício.
E a primeira coisa que peço: tenham esperança! Ainda que o sofrimento pareça nunca findar. Não posso dizer que minha vida foi totalmente infeliz, eu as tive. Meu tesouro mais precioso.
Sempre gostei de duas coisas: rosas e pérola, sabem por quê?
As rosas são delicadas e formosas, agradáveis aos olhos. Mas também contêm espinhos que são uma espécie de defesa para quando alguém vier tomá-las sem cuidado.
As pérolas são preciosidades que foram forjadas na dor. Também pelas tentativas de defesa. Ninguém sabe, ao vê-las, quanto sofrimento passaram. Apenas enxergam-nas, superficialmente. Mas o resultado final é surpreendente.
Isso me lembra muito a construção do caráter das pessoas.
Minha mãe sempre me comparou às rosas e eu comparo vocês às pérolas. Sei que passarão momentos difíceis, mas cada uma terá a recompensa. Eu estarei de algum lugar, velando por vós. Nunca as abandonarei.
Vosso pai é uma pessoa que não compreende as perdas de sua vida; não sabe lidar com elas e pode se perder. Mas vocês terão Didila e outras pessoas que as ajudarão com o decorrer do tempo. Encarregar-me-ei disso.
Chegará um tempo que conhecerão o amor. Quero que viva-o! Lute por ele! O amor nos dá coragem quando tudo parece que vai desmoronar.
Eu amei. E isso me fez romper a cada dia.
Adelaide, O amor que você tanto sonha chegará no momento certo. Pode até parecer improvável, mas não desista! Nasceste para ser feliz! Este amor a consolará de todas as dores que, por muito tempo, assolaram o seu coração.
Joana, és tão forte e decidida. Seu espírito livre te guiará e terás grandes conquistas mesmo num ambiente hostil. Mas escute-me: não deixe o ódio endurecer o seu coração ou a culpa roubar os seus ideais, diante de uma grande perda. Há muitas coisas que envolvem a nossa vida que não entendemos de imediato.
Beatrice, A forma como você vê e expressa a vida em cores é uma habilidade só sua. Mas cuidado com aqueles que tentam te confundir para tirar o brilho da sua alegria. E quando vier a angústia, haverá alguém para acalentar seu coração e trazer esse brilho de volta, se você assim deixar.
Liana, seu jeito meigo e carinhoso, e a coragem de viver o que quer, são apreciáveis, mas tenha cuidado, isso a fará cometer precipitações, que trarão consequências dolorosas. Contudo, serás a chave principal de uma grande reviravolta necessária.
Emília, a delicadeza e a sensatez são os seus maiores atributos. No momento certo, saberá equilibrar cada situação e trazer a resolução para os problemas, com cautela. E por ser tão sensitiva, segredos serão confiados a você.
Celeste, o altruísmo em você desperta admirações. Gosta de ajudar e seu coração disposto não mede esforços. Nasceste para um grande propósito e o saberá no momento de sua escolha. Será a decisão da sua vida e um legado.
Cecília, sua esperteza e espontaneidade farão com que crie laços com pessoas inesperadas. Mas o seu maior objetivo será: levar certa paz a um coração perturbado. Você é a única que poderá fazer isso.
Não desistam meus amores! Tudo o que está acontecendo contribuirá para a paz e um futuro legado.
Não estarei presente fisicamente, mas estarei sempre com vocês.
Mamãe as ama muito, por toda a eternidade.”
Emília estava espantada, mas também havia uma quietude em seu coração. Não sabia explicar. Era como se as palavras da mãe a confortasse naquele momento.
Leu novamente a parte que sua mãe lhe escrevera. Sim, segredos foram confiados a ela e o poder de levar a solução no momento certo.
Ela sabia. Era inexplicável, mas sua mãe sabia tudo o que ia acontecer.
Precisava conversar com a pessoa que entenderia ou saberia explicar muita coisa.
Levantou, pegou seu xale e saiu do quarto.
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