As Pérolas Intocáveis de Évora - Livro I

22 Capítulo 21 - Eleonor Lamartine - (Bônus P.O.V.)


Notas iniciais
"Algumas coisas você nunca entenderá o porquê, então menos autopiedade e mais resiliência!" (Queila Haine) ♥ Oi gente! Vamos entender um pouco o lado da viscondessa nesta história? Este será um cap-bônus com o P.O.V. dela, ok? Boa leitura ♥


Quando pensamos que a vida nos arruinou,

ela nos dá outra chance.


Sempre fui considerada por todos uma pessoa alegre e espontânea. A segunda filha da importante família Lima Abranches, sendo uma irmã mais velha e um irmão mais novo, fui muito reprimida pelo meu pai, Dom José Américo, por ele acreditar que mulheres não deveriam ser tão extrovertidas e sorridentes demais. Eu não conseguia entender a implicância dele comigo.

Meu jeito o incomodava, e por mais que minha mãe e irmãos percebiam isso, não podiam ir contra as regras que ele impunha.

Em certa feita, fui exposta publicamente em uma reunião com pessoas importantes, simplesmente por que eu me excedi em risadas e conversas com minhas jovens amigas. Não acreditei quando papai me chamou diante de todos e disse:

— Minha filha pede desculpas a todos os presentes pelo mau comportamento que demonstraste esta noite e por isso retirar-se-á para seus aposentos neste momento.

Mas nem mesmo todas essas humilhações as quais ele me submetia conseguia tirar minha alegria de viver. Eu ficava entristecida sim, por vê-lo me tratar de maneira diferente da dos meus irmãos. A eles, toda dedicação e carinho, enquanto que comigo, ele se limitava em podar-me, chamando minha atenção de como eu comia, andava, sentava ou lia. Era terrível.

Quando Maurice foi convidado para um jantar em nossa casa, para tratar de negócios com meu pai, foi o único que me defendeu quando este me repreendia pela forma descontraída de conversar, sempre rindo e perguntando a respeito de suas viagens e de sua terra natal.

— Eu não vejo nenhuma indelicadeza de sua parte, senhorita Abranches. Fique à vontade para fazer quantas perguntas quiser — falou Maurice com gentileza.

Eu sabia que papai tinha intenção de casar minha irmã, Alzira, com o futuro visconde, já que os rumores sobre suas intenções em desposar Amélia Ferraz tinham ido por água abaixo quando esta se casou com Rui Vasquez D’alboquerque.

Sendo assim, eu tentava me afastar um pouco para que ele pudesse interagir com Alzira. Contudo, as conversas com ela pareciam não fluir por mais que papai tentasse instigar, e também, Maurice insistia em incluir-me nos diálogos. Ele dizia que minha alegria era contagiante.

Em algumas tardes ele convidava-me para passeios rápidos e com a permissão — e contragosto de papai —, eu aceitava. Afinal, ele não podia perder a oportunidade de casar uma de suas filhas com um nobre e promissor, mesmo que fosse comigo, a filha indesejada.

Nossas conversas eram sinceras e divertidas. Estávamos cada vez mais próximos e confiávamos um no outro.

Depois de um tempo, fizemos um acordo: firmaríamos compromisso pela nossa amizade e constituiríamos uma família. Daria certo, pois tínhamos consciência dos nossos atos e uma relação agradável. Eu sabia que ele ainda sofria, pela forma como ele se perdia em algum ponto enquanto conversávamos ou compartilhávamos certas poesias; mas eu não tinha tanta liberdade para perguntar sobre isso, por mais que eu fosse espalhafatosa.

Porém, no dia do nosso casamento, eu tive a certeza. Vi a tristeza estampada em seus olhos quando cruzaram com os de Amélia. Percebi naquele momento que eu precisava ajudá-lo a cicatrizar essa ferida. Ele agora era meu marido e seria por toda a vida. Eu tinha uma missão.

Eles se amavam e, em até certo ponto, tive pena, mas ao mesmo tempo senti um incômodo que foi aumentando, era inveja dela e raiva. Eram ciúmes. Eu o amava também e ela tomava o meu lugar na vida dele.

Com o passar do tempo, Maurice foi ficando mais amável. Ele sempre fora agradável, gentil, cavalheiro, no entanto, ele ainda sentia amor por ela, e eu, por ele.

Eu optei por não falar dos meus sentimentos, pois, tínhamos um acordo e eu não podia cobrar-lhe nada, nem trair sua confiança. Era claro que não me amava, mas me queria como companheira.

Certa vez, eu encontrei em seus guardados, uma carta endereçada à Baronesa. Já tínhamos nosso primeiro filho e esperávamos o segundo. Eu chorei por dias. Ele me perguntava e eu sempre dizia que era algo relacionado às lembranças de meu pai e a sensibilidade devido ao meu estado.

A carta era datada de pouco tempo e declarava à Amélia o seu amor eterno por ela. Então eu tomei uma decisão: eu iria escrever para a mulher que tomava os pensamentos de meu marido.

Mais alguns anos se passaram e tudo parecia que estava em seus devidos lugares. Maurice era um dos homens mais importantes da região do Alentejo. Era também um pai amoroso e um marido atencioso. Estava mais romântico e surpreendia-me a todo o momento com flores e presentes, além de nossos momentos mais íntimos.

Sobre a tal carta que ele escrevera à Baronesa, eu sempre que podia, verificava se ela estava no lugar que deveria estar. Ela nunca foi entregue e isso aliviava meu coração.

Entretanto, tudo se desmoronou em 1802. Amélia D’alboquerque viera a falecer de uma forte gripe pneumônica. Évora inteira chorou. Ela era uma pessoa adorada por todos por sua gentileza e carisma. Deixara sete filhas, sendo a mais nova com apenas dois anos de idade.

Meu coração entrou em conflito. Eu jamais desejara o mal dela. Sentia-me culpada pelo o que eu fizera a ela, anos antes. A carta que eu escrevera desabafando toda a minha dor e indignação.

Soube também que o Barão havia surtado. E Maurice... Ah, Maurice se tornara outro homem. Fora-se toda a sua alegria, seu brilho e seu sorriso. Por mais que ele quisesse disfarçar dizendo serem problemas em seus negócios, eu sabia o verdadeiro motivo. Ele ficava trancafiado em seu gabinete por horas, sem falar com ninguém e sem se alimentar.

E eu, mais uma vez, me senti sozinha. Não sabia administrar meus sentimentos. Eu não queria, mas naquele momento eu senti tanto ódio dela por levar meu marido consigo, de certa forma.

Passaram-se vários meses, até que ele pudesse se reerguer novamente. Eu esperei e fiz meu papel de esposa. Ajudei-o com palavras de ânimo e esperança.

Às vezes, ele olhava-me como se eu soubesse o seu segredo. Mas eu permanecia firme, sem demonstrar nada mais do que meu amor por ele. E assim, um dia, eu disse as palavras que há muito estavam presas:

— Eu amo-te, meu marido, e estarei sempre aqui para você, para te acalentar, te ajudar e te amar com todas as minhas forças.

Tais palavras foram como bálsamo para a dor dele. Ele beijou-me e ficamos juntos por um bom tempo sem dizer nada. Apenas abraçados e sentindo o que precisava ser sentido naquela hora.

O Visconde mudara desde a morte de Amélia. Ele passou a ser um homem mais duro, de ânimo conflituoso e explosivo. Ainda era um bom pai e marido, porém, impaciente muitas vezes. Quando ele percebia que tinha ultrapassado os limites, pedia desculpas a mim em reservado, para depois voltar a explodir em outras oportunidades.

Eu sabia, também, que ele visitava o túmulo da Baronesa regularmente. E isso me consumia lentamente.

Após o golpe do Barão, a situação piorara e meus filhos cresceram com ódio daquela família, mesmo sem conhecer as moças, pois estas quase nunca eram vistas desde a morte da mãe.

A vida me ensinou. Fazemos nossas escolhas com ou sem imposições e temos que conviver com elas. Aprendi a conviver com o novo Maurice porque o conheço e o amo. Ele é incapaz de nos fazer mal. Somos uma família unida e amada apesar de tudo.

A minha escolha foi amá-lo e a nossa família, cuidar dela e não deixar que nada mais lhe fosse tirado.

Quando conheci as moças no Baile de Outono, descobri que eram apenas vítimas das mazelas da vida. Não tinham culpa de nada. Não sabiam do passado, dos amores e das intrigas; das consequências e das escolhas que foram feitas mesmo antes de elas nascerem. Meu coração se angustiou ao ver naqueles tristes olhos, a privação do amor que mereciam. Eram órfãs de mãe e de pai, pois este não amava nem a si próprio.

O destino havia nos preparado algo mais. Meus filhos se apaixonaram por elas. Talvez ele quisesse algo de mim. Que eu me redimisse da raiva e da culpa que eu sentia.

Não precisava ser assim.

Todos os acontecimentos que se desenrolaram envolvendo os herdeiros D’alboquerque e Lamartine, não foram e não são meras coincidências; é a vida dando-nos mais uma oportunidade de reviver o amor que antes nos foi tolhido, através deles. E eu não impediria isso.

Quando somos poupados da plena felicidade, o destino sempre nos apresenta um jeito de viver isso de maneira diferente. Uma forma de suprir algo incompleto. E isso aconteceu conosco.

Maurice e eu sabemos que o melhor é deixar o ódio, o rancor, as mágoas, tudo para trás. Permitir que as duas famílias se unam é permitir que o amor renasça das mesmas cinzas que o passado o queimou.

~~*~~

“Cara Baronesa D’alboquerque,

Há muito desejo falar-lhe claramente a respeito de coisas passadas, mas que ainda resistem no seio de minha família e de meu casamento.

Não penses que não sei das suas intenções em permanecer no coração de meu marido, porém, não terá êxito, seu objetivo, pois estou certa de que ele me ama e a nossos filhos.Seus gestos e suas declarações confirmam isso a todo o momento.

Não tenho culpa se não se sinta amada ou na obrigação de amar um homem que não desejas. Mas estou certa de que o seu destino é pertencer a seu marido, da mesma forma que eu pertenço ao meu, e ele a mim.

Meu propósito é deixar as coisas claras, e saiba que Maurice sempre me foi sincero quando disse que tinha afeto por ti no início, contudo, algo que foi passageiro.Estamos constituindo uma família e ele não pensa mais em ti. Sendo assim, exijo que não lhe dirija o olhar quando nos encontrarmos socialmente. Não fica bem para uma senhora casada.

Despeço-me na esperança de que tenhas entendido a minha mensagem. Sou a Viscondessa Lamartine, e você, a Baronesa D’alboquerque, e é assim que as coisas permanecerão até o fim das nossas vidas.

Entenda, ele nunca a amou. Era apenas uma paixão efêmera que se foi quando eu passei a fazer parte da vida dele.”



Carta da Viscondessa Eleonor Lamartine à BaronesaAmélia D’alboquerque.

Évora, 1791.


Notas finais
Esta foi a carta que a viscondessa escreveu para a baronesa. O que acharam? Obrigada por acompanharem. Beijos ♥