As Pérolas Intocáveis de Évora - Livro I
16 Capítulo 15 - A Fuga
Notas iniciais

— Para onde pretendes ir, Pedro? — perguntou Afonso, enquanto sua irmã chorava baixinho em seu ombro, vendo o outro arrumando as malas.
— Liana e eu vamos para Lisboa. De lá partiremos para Londres, mas nosso destino final é a Escócia. Vamos para longe e para um lugar que o pai dela não tenha influência — respondeu. — Irmãos, quero que saibam que faço isso por não haver alternativa. Mas mandarei notícias assim que estivermos estabelecidos.
— Pedro, tem certeza que não quer esperar mais um pouco? Estamos perto de conseguir provas contra o Barão. Com ele preso e exilado, não terás mais poder sobre as filhas — Frederico tentou argumentar.
— Até lá Liana já terá se casado com o idiota do Álvaro. Não posso esperar mais. — Tirou uma carta do bolso — Fred, entregue esta carta aos nossos pais. Diga a eles e a Henrique que eu os amo e sentirei saudades.
— És impulsivo, mas no fundo te entendo, irmão — disse Afonso. — Lute pelo seu amor, para não se arrepender de não ter feito.
Ao ouvi-lo, Elisa soube o que ele quis dizer e chorou mais ainda. Eram muito tristes todas essas histórias. Amores impedidos por causa de regras e orgulho.
— Não chores, irmãzinha — Pedro afagou seus cabelos —, estarás sempre em meu coração. Prometo que logo darei notícias dos seus lindos sobrinhos — brincou e ela riu.
— Seu grande paspalho! — bateu no peito dele enquanto ria entre lágrimas — Mal se casou e já quer encher a moça de filhos!
— O que posso dizer? São ossos do ofício! — E riram mais ainda. Ele beijou-lhe a testa — Amo-te, minha pequena!
— Também te amo! Desejo toda a felicidade do mundo para ti e Liana.
— Obrigado. E os dois aí — apontou para os irmãos —, parem de choramingar e deem-me um abraço.
E fizeram um abraço coletivo.
Seria uma longa viagem, mas tinha gosto de liberdade. Só precisavam chegar até à Escócia são e salvos. Depois disso, não temeriam mais nada.
~~*~~
— Senhor Carvalhal! — Demétria fez reverência ao adentrar no escritório do Duque de Carvalhal.
— Senhorita Castel, que grande honra! — falou vindo ao encontro da moça e beijando-lhe a mão enluvada — Fiquei surpreso com o seu pedido de audiência tão repentino.
— Vim tratar de um assunto urgente, senhor. Um assunto terrível que envolve o futuro de seu filho e, consequentemente, o nome e os negócios do senhor — respondeu sem rodeios.
O Duque a olhou curioso e disse:
— Sente-se senhorita — e apontou-lhe a cadeira. — Muito me preocupa o tom que usas, sem contar que não se dispõe de uma dama de companhia. Deve ser mesmo um assunto grave para arriscar assim sua reputação, não é mesmo?
— Evidentemente, senhor, mas a informação que trago vale o risco. Estive visitando uma amiga na Casa Lamartine, e o que ocorre é que a sua futura nora pretende fugir com Pedro Lamartine hoje à noite.
O Duque arregalou os olhos e deu um pulo da cadeira:
— O que dizes?
— Como sabes, a senhorita Lamartine é uma amiga de longa data e contou-me os planos do irmão, de modo que não posso deixar que tal tragédia aconteça. O senhor precisa fazer algo para impedir isso!
— Sim, sim — o homem dava voltas no escritório, exasperado. — Diga-me, menina, tens certeza absoluta do que diz?
— Absolutamente. Conheço Elisa e ela não me diria se não estivesse tão aflita. Pedro e a moça combinaram de se encontrar num tal Chalé do Lago, propriedade dos D’alboquerque.
— Sim, eu conheço...
— Então, é bom que tome logo suas providências. Mas peço ao senhor, sigilo, sobre quem foi a informante.
— Nada direi, fique tranquila. E muito obrigada pela informação. Não me esquecereis disso.
— Obrigada, senhor. Passar bem.
Lá fora, antes de entrar na carruagem, trocou sorrisos cúmplices com Diogo, que estava a certa distância, e partiu triunfante.
~~*~~
— Maldição! — gritou Maurice no escritório do Duque — O que significa isto?
O Visconde estava com um exemplar de OSemanário nas mãos. O jornal noticiava falsas informações a respeito do Visconde, o que deixou os trabalhadores dos montados, revoltados.
— O que posso dizer? Não tenho controle total sobre colunas de fofocas — argumentou com humor. — Já parou para pensar que pode ter sido uma estratégia do seu rival?
— Claro que sim. Que, aliás, é seu amigo! — olhou-o furioso e jogou o jornal na mesa.
— Acalme-se, amigo! Essa rixa de vocês é histórica, naturalmente pensamos que ele está por detrás de tudo o que lhe acontece de ruim.
— E não é para achar? O homem não vive se não for para tentar me derrubar. Não consegue entender que já é um perdedor por natureza.
— Bom. Deixamos isso por enquanto — disse o Duque. — Se o Barão estiver por trás disso, suas artimanhas não se concretizarão. Henrique é muito bom com os negócios, não é mesmo?
O outro resmungou antes de tomar o último gole do conhaque.
— Acho que o poder de persuasão dele seria ótimo no Conselho Imperial.
— Oras! Henrique não gosta dessas coisas. Tem tino para os negócios, afinal, ele será meu sucessor, assim como seu filho herdará, também, o seu potencial — retrucou o Visconde com sarcasmo. Ele sabia que Luís Coutinho não gostava do jeito do filho.
— Aquilo é um imprestável! — rosnou o Carvalhal — Ao menos prestou para um bom acordo. Administrará as fábricas do Barão depois do casamento, e meu sobrinho também terá sua parte.
— Boa sorte para os dois.
— Não quero lhe apressar, amigo, mas logo receberei a visita dele para tratarmos disso. Acredito que não queira se esbarrar com ele, não é mesmo?
Maurice resmungou algo incompreensível. O Duque aproveitou para sondar.
— Vossos filhos passam bem?
O Lamartine estranhou a pergunta.
— Muito bem, obrigado, mas porque perguntas?
— Oras, não é nada! Apenas devido aos últimos acontecimentos. Sei que seu filho estava apegado à moça que será minha nora.
— Isso já está resolvido. Muito em breve eu os enviarei para Lisboa para uma longa temporada.
“Então ele não sabe!” pensou o outro.
— A propósito, senhor Duque, espero que não me apunhale pelas costas — disse, encarando-o.
— Oras, Maurice, como podes dizer uma coisa dessas? Em todos esses anos de amizade ainda não me conheces?
— Apenas quero ter certeza do terreno que estou pisando. Passar bem!
~~*~~
O jovem Carvalhal aguardava Liana. O pedido para o passeio havia sido concedido pelo Barão. Tudo estava dentro do combinado.
— Oh minha irmã! Não acredito que isso esteja acontecendo... — disse Emília fungando o nariz de tanto chorar.
Liana abraçou e beijou uma a uma.
— Didila, obrigada por tudo e não chores. Serei feliz e te darei lindos netinhos, eu prometo!
A senhora chorou mais ainda:
— Oh minha menina! Eu espero que possa voltar a vê-la antes que eu me vá.
— Nos veremos, Didila. Eu amo a todas!
— Senhorita... — chamou Álvaro — é melhor nos apressarmos para evitar transtornos.
Ela concordou e subiu na carruagem.
— E não volte aqui com menos de seis sobrinhos! — disse Joana tentando não se amargurar com a situação e todos riram.
A carruagem deu partida e, com a mão estendida, ficou olhando as irmãs até que sumiram pela distância.
No Chalé, Pedro, ansioso, cogitava mil coisas. Uma carruagem vinha ao longe. Correu para o portão, para esperá-la. Já era hora! Pensou. Quando ela desceu, viu Álvaro Carvalhal. Olhou para Liana, interrogativo.
— Calma, Pedro — falou Álvaro. — Só estou ajudando.
— Meu amor, não se preocupe, logo lhe explicarei tudo. O senhor Carvalhal e eu fizemos um acordo. Eu precisava de um álibi seguro para sair de casa — Liana explicou.
Pedro não se agradou muito. Não sabia se podia confiar totalmente em Álvaro, contudo, já estariam longe pela manhã.
Pedro agradeceu secamente com um aceno de cabeça.
— Fico imensamente grata, senhor Carvalhal — disse a moça. — Espero que consigas seus anseios também.
Ele acenou com a cabeça e partiu.
Levaram toda a bagagem para o Chalé. Agora eram apenas eles e o destino. Poderiam ser um do outro sem medo.
Se beijaram.
E naquela tarde, não pensaram mais. Deixaram o amor, a paixão, o desejo, a ânsia de estarem juntos, falarem mais alto. E se entregaram de corpo e alma até o anoitecer. Já pertencia um ao outro e não precisavam do consentimento de ninguém.
~~*~~
— Onde está Liana? Vamos, respondam! — berrou o Barão ao entrar na casa.
As moças se assustaram, levantando-se das poltronas. Adelaide arriscou:
— Meu pai, ela foi a um passeio com o seu noivo — disse, tentando disfarçar a insegurança na voz.
— É mesmo, senhorita Adelaide? — seu tom era irônico. — D. Hilda! — gritou.
A senhora veio depressa e apavorou-se ao vê-lo na sala. Voltara mais cedo do que esperava.
— Se… senhor?
— A senhora sabe que horas são?
— Senhor?! — repetiu ela, confusa, não entendendo a pergunta.
— Pois eu te digo: é a hora de entender que nada acontece nesta casa sem que eu saiba. E agora, vou fazer outra pergunta. — A calma na voz dele era assustadora. — Liana não estaria neste momento planejando fugir com aquele moleque?
As irmãs entraram em pânico, Adelaide apressou-se em falar:
— Meu pai, o senhor está enganado... Liana chegará a qualquer momento com o senhor Carva...
— Não teste a minha paciência, Adelaide! Eu irei buscar aquela inconsequente e cada uma de vocês pagará caro por isso.
— Diogo, Matias! — chamou seus aliados — Vamos logo com isso! — E foi saindo. Sua expressão era terrível.
Celeste correu e pediu o lacaio para avisar o Visconde sobre tudo o que estava acontecendo. Joana seguiu o pai e o enfrentou:
— O senhor não vai atrás dela!
— O que disse?
— Tu és cruel e perverso! Só sabe destruir a vida das pessoas! Não vou deixar que faças mal à minha irmã!
Joana sentiu o impacto do tapa no rosto, que a fez cambalear para trás. Mas, em sua petulância, continuou, numa mistura de nojo e raiva:
— Eu o odeio! O-dei-o! — enfatizou a palavra. — Tu sim, pagarás caro por todo o mal que causa.
Rui partiu pra cima da filha, com o braço estendido, para descer mais golpes sobre ela, mas Adelaide passou na frente:
— Não! — E as fortes bofetadas, agora, desciam sem clemência sobre seu rosto e cabeça.
Joana quis impedir, mas sua irmã a empurrava para trás, tentando defendê-la, enquanto todas as outras choravam e suplicavam ao pai que parasse.
Ele a segurava pelos cabelos, batendo nela sem misericórdia. Quando finalmente se cansou, o Barão a soltou, jogando-a no chão, já toda ferida e ensangüentada. Com frieza, subiu na carruagem junto com seus capangas. As outras moças correram até ela. Joana correu ao estábulo, e pegou um cavalo. Celeste fez o mesmo. O tempo era curto para salvarem Liana e Pedro.
Dona Hilda e Beatrice ampararam Adelaide. Emília buscou panos e água, pedindo a ajuda de uma criada. O sangue escorria em abundância do nariz, e o rosto começou a inchar rapidamente devido a violência dos golpes.
— Ele vai matá-los, Didila! — murmurava Adelaide — Eu preciso ir.
— Não, minha menina! Joana e Celeste foram e já temo por elas. — respondeu com a voz embargada pelo choro, alisando os cabelos da moça.
Cecília e Beatrice choravam, abraçadas e assustadas, enquanto Emília limpava o rosto da irmã em soluços.
~~*~~
— Senhor, há um lacaio da Casa D’alboquerque pedindo para lhe falar — informou o mordomo a Maurice.
Frederico e Afonso ficaram em alerta, e Henrique levantou os olhos do jornal, estranhando a visita.
— Mas que diabos um lacaio dessa gente tem a falar comigo? — reclamou o Visconde.
— Disse que é em caráter de urgência, senhor.
— Meu pai, eu falo com ele — disse Fred, já se levantando.
— Deixe! — interveio o pai. — Falarei com essa peste! Era só o que me faltava!
Fred estava com um mau pressentimento e olhou para Afonso. Henrique percebeu.
— O que há? Digam!
Frederico abriu a boca para falar, Maurice apareceu, afoito:
— Pedro está em perigo! Precisamos ir a um tal chalé... sei lá das quantas!
— O quê? — indagou Henrique.
— Eu explico no caminho. Onde fica esse maldito chalé? — perguntou, nervoso, para ninguém especificamente.
— Eu sei onde fica, senhor — pronunciou-se Amadeo.
— Henrique e Fred, venham comigo. Afonso, fique com sua mãe e irmã — ordenou. — Isso não será fácil para ninguém.
Foi até o escritório e pegou sua arma, para o desespero de Fred e Afonso, que sabiam do que se tratava. Seja lá o que aconteceu, o plano fora descoberto e a tragédia era iminente.
~~*~~
Celeste e Joana cavalgavam a toda velocidade. Tomaram um atalho e, depois de algum tempo, avistaram o Chalé. A carruagem do pai logo chegaria, precisavam ser rápidas.
O sol já havia se posto, e as trilhas eram muito perigosas, sobretudo para duas mulheres sozinhas. Porém, com as vidas da irmã e de Pedro em jogo, o medo das estradas desertas se tornou ínfimo. O Barão não perdoaria tal traição, e isso era o verdadeiro perigo.
No chalé, junto à lareira, estava o casal abraçado, olhando o crepitar do fogo.
— Parece um sonho, Liana. Vamos ficar juntos para sempre e seremos muito felizes.
— Sim, meu amor, e logo partiremos para cumprir nosso destino. Já posso ver nossa pequena casa, simples, mas bonita; teremos muitos filhos... — descrevia. O sonho, no entanto, não durou muito, pois gritos os interromperam.
— Liana! Pedro! — Identificou as vozes, vindas do lado de fora. Entreolharam-se, sobressaltados.
— Joana! Celeste! O que fazem aqui?
— Fujam... papai está vindo! — pediram, ofegantes.
Liana se desesperou.
— Como ele descobriu? — indagou Pedro.
— Não sabemos — disse Joana. — Vamos, não há mais tempo!
Apressaram-se, pegando as malas. Celeste ajudava-a, enquanto Pedro trazia a carruagem que usariam para partir pela manhã. Mas, infelizmente não tiveram tempo de partir. O outro veículo já se aproximava.
— Não, não, não! — exclamou Joana — Vamos nos esconder lá dentro.
— Lianaaa! — ouviu a voz do pai — Saia!
— Meu Deus! Vamos morrer! — sussurrou ela, com a mão no peito.
Pedro fez menção de sair do esconderijo, Liana o segurou:
— Por favor, Pedro, não vá, papai vai matá-lo.
— Liana, eu não posso ficar escondido aqui. Que tipo de homem eu seria? Vou enfrentá-lo e ele não vai me impedir de levá-la comigo. — falou, decidido, e saiu porta a fora encarando o velho.
— Onde está minha filha, seu verme!
— Você não vai levá-la!
— Não tens noção das coisas que acontecerão esta noite, meu jovem — Rui deu uma risada cruel. — Diogo, Matias, segurem-no!
Os capatazes partiram para cima do rapaz, e este se defendeu com um soco no rosto de Diogo e outro na barriga de Matias. No entanto, ele era bem maior do que Pedro, de modo que agarrou seu braço impedindo-o de desferir o golpe. Pedro tentou lutar, mas Diogo, já recomposto do soco, o golpeou no olho, desequilibrando-o. Matias aproveitou o momento e chutou-lhe nas partes baixas. A dor o incapacitou e eles imobilizaram seus braços, enquanto o Barão o fitava com um sorriso sarcástico.
— Achou que poderia contra mim? Que fugiria com minha filha e desonraria o meu nome?
— O senhor não precisa de mim para isso. Já é um homem desonrado — contrapôs e o velho irou-se:
— Hoje tu irás aprender que ninguém desafia Rui D’alboquerque — e começou a esmurrar o estômago do rapaz com golpes incessantes.
— Nãaaooo! Não, por favor, pai! — Liana gritou, saindo de dentro do chalé.
Pedro soltava sangue pela boca. Ela correu em sua direção, mas o Barão a puxou pelo braço e bateu-lhe no rosto.
— Sua atrevida! Como podes me trair assim e manchar o nome da família?
— Não... — Pedro tentava falar, ainda sendo segurado pelos dois indivíduos.
— Deixe-a, seu monstro! — gritou Joana pulando nas costas do pai, socando-lhe na cabeça.
Celeste não sabia o que fazer, então, mordeu o braço de Diogo para que ele soltasse Pedro e foi jogada ao chão. Rui se desvencilhou de Joana e agarrou novamente o braço de Liana. Ordenou a Matias:
— Prendam essas duas na carruagem — referindo-se à Celeste e Joana. — E você, senhorita Liana, ficará para ver o espetáculo. Diogo, acabe com ele!
Rui segurava a filha, obrigando-a olhar para Pedro, à medida que ela presenciava uma cena de horror. Seu amado sendo espancado com chutes e socos violentos e impiedosos. Diogo o chutava em todos os lugares do corpo, sobretudo, na cabeça.
Liana chorava e gritava, tentando soltar-se do pai. Desesperada, via Pedro se desfalecendo, e seu pai rindo prazerosamente.
Um barulho de carruagem chamou sua atenção. Eram os Lamartine chegando.
— Vamos embora, Diogo.
— Não! Não! Deixe-me vê-lo! — suplicou, enquanto o pai a arrastava para longe. — Eu não vou! Não vou! Pedrooo!
Liana ainda conseguiu gritar, antes de ser jogada para dentro da carruagem:
— Fred! Fred! Por favor, Pedro está ali, salve-o! — apontou, e ele correu para ver o irmão.
— D’ALBOQUEERQUEEEE!!! — a voz Visconde cortou o ar — Tu me pagas, cretino!
Maurice apontou a arma para ele. Nessa hora, Diogo correu na direção do Visconde, mas foi interceptado por Henrique com um soco que o fez desabar no chão.
Joana fugiu da carruagem, na mesma hora em que o pai jogava Liana lá dentro, junto com Celeste.
O Barão aproveitou a saída de Joana e a puxou para si, colocando-a como escudo entre ele e a arma do rival.
— Não atiraria em uma dama inocente, não é mesmo, Lamartine? — disse Rui com um sorrisinho de escárnio.
— Que tipo de pai é você?! — esbravejou Henrique — Não honra nem as calças que usas, seu porco nojento!
O homem foi caminhando para trás até chegar à entrada da carruagem, ainda usando a filha como escudo. Diogo subiu em um dos cavalos das moças e Matias tomou as rédeas do veículo, aguardando ordens.
Quando o Barão se impulsionou para entrar na carruagem, jogou a filha ao chão, ordenando: vai! E se foi, levando embora apenas Liana e Celeste, deixando Joana para trás.
— Ele está muito machucado… — lamentou Frederico ao pai, ajoelhado ao lado do gêmeo.
— Vamos levá-lo com cuidado para a carruagem — pediu Maurice, agoniado, olhando o filho desacordado. — Chamaremos o Dr. Fontana assim que chegarmos.
Frederico viu Joana sentada, no mesmo lugar em que o pai a jogara, olhando para o nada com um semblante vazio.
— Senhorita D’alboquerque. Passarás a noite no chalé? — quis saber.
— Não — respondeu simplesmente. — Preciso ir, senão ele as matará. Ainda me sobrou um cavalo.
O Visconde e os filhos olharam-na, curiosos.
— Não convém uma dama cavalgando por aí a essas horas. Fique e cuide-se, vejo que estás machucada — Fred insistiu, observando sua face inchada e alguns machucados nos braços.
— Estou bem. Adelaide não dará conta sozinha. Aliás, acredito que esteja acamada depois da surra que levou do velho — falou, enfurecida, levantando-se do chão e batendo as mãos no vestido para tirar o pó.
— Como? — perguntou Henrique, instintivamente.
A moça suspirou cansada e explicou:
— Tentamos impedir meu p... aquele homem — corrigiu — de chegar até aqui. Eu o enfrentei e levei um golpe no rosto, porém, Adelaide para me defender, levou vários. — Sua voz era contida para não chorar — Deve estar com o rosto deformado.
Eles ficaram pasmos com o relato.
Henrique sentiu a garganta secar e uma raiva crescente dentro de si. Como um pai poderia tratar suas filhas assim? E ela? Como estaria nesse momento? Preocupou-se.
O Visconde lembrou-se das palavras da esposa:
“... eu vi a forma como ele as trata e quanto medo elas sentem. Elas são apenas pássaros enjaulados...”
A moça subiu no cavalo e antes de partir, disse:
— Senhor Visconde, estou determinada a fazer o Barão arcar com todas as consequências do mal que já causou e ainda causa. Pode contar comigo para o que for necessário.
E saiu cavalgando pelas estradas daquela noite fria e angustiante.
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