Notas iniciais
"A inconsequência gera infinitos males, que podem agredir principalmente a quem não tem culpa." (Luan Rodrigues Santos de Almeida) ♥ *Caros colegas, espero que estejam gostando da história. Não precisam ficar acanhados caso queiram fazer suas considerações, ok? As receberei de bom grado. Se tiverem amigos e conhecidos que gostem de romances de época, gostaria muito que indicassem APIDE. ♥ Obrigada! **Jenny, não esqueci de responder seus (♥ maravilhosos ♥) comentários, viu? Farei em breve ;) *Créditos da imagem: Lee Avison/Arcangel. ***Boa leitura a todos!***

Joana e Henrique chegaram à fazenda já bem tarde da noite. Ele não era de se comover em situações, principalmente àquelas que tinham a ver com o inimigo, mas, seu pai pedira a ele para ir atrás da moça.

Por mais que elas fossem filhas de quem era, Maurice não permitiria uma moça cavalgando sozinha por estradas perigosas. Frederico voltou conduzindo a carruagem que Pedro levara para a fuga, e o Visconde foi com o filho desfalecido, na outra.

Henrique não objetou a ordem do pai, até porque, no fundo, ele estava preocupado com Adelaide. Por mais que negasse a si mesmo, não deixou de pensar nela e no que dissera a ele. Desatou um dos cavalos da carruagem de Fred e a seguiu.

Joana percebera a presença de um dos Lamartine a acompanhando na retaguarda e agradeceu mentalmente por não estar sozinha. Sua vontade era não voltar mais àquela casa, mas não tinha opção. Suas irmãs estavam à mercê daquele homem cruel que ela tinha nojo de chamar de pai.

Ao chegarem ao imenso portão da propriedade, apearam-se e ela conheceu que era o primogênito dos irmãos.

— Obrigada, senhor Lamartine.

— Não achas melhor que eu a acompanhe até lá dentro? — perguntou.

— E gerar mais uma guerra? Melhor não. Se bem que... — pensou um pouco — Por mais que somos sete, não temos força contra o velho. Eu temo o que se passa lá dentro e o senhor pode intimidá-lo.

O rapaz concordou com a cabeça e a seguiu.

Entraram e amarraram os animais por ali. Joana analisou o local e se espreitou pelos jardins, acenando para o Lamartine. O rapaz seguia todos os seus movimentos. A entrada dos serviçais era mais segura no caso de o Barão ter reforçado a vigilância.

Abriu a porta e estranhou o silêncio descomunal da casa. Apesar do horário, sempre havia algumas movimentações dos criados. Mas nenhum deles se encontrava por ali.

Fez um sinal para o rapaz e esgueiraram-se pelos aposentos, avançando pela sala de jantar e corredores que dariam acesso ao salão principal da casa. Com passos leves, aproximaram-se da sala. Ouviram a voz dele e se esconderam atrás da parede.

—... e diante dos fatos que ocorreram esta noite, tenho que retomar o controle desta casa que eu não sabia ter saído de minhas mãos quando as ingratas de minhas filhas resolveram se rebelar contra mim! — falava com ira — Sendo assim, tomei algumas decisões para que novamente a paz dessa casa reine como antes.

Que paz? Pensou Joana.

Pôde ouvir o choro baixo das irmãs e se inclinou um pouco para poder ver alguma coisa.

Suas irmãs e todos os empregados estavam presentes na reunião. Ele continuou:

— Senhorita Liana ficará trancada em seu aposento, sem companhia, até o dia do seu casamento, que, para sua informação, foi antecipado para semana que vem. Ela não terá qualquer tipo de regalias, ouviram? — disse aos empregados — Essa ingrata ficará a pão e água sem direito a visitas, até mesmo do noivo.

Ouviu-se um “sim senhor”, quase inaudível, das criadas.

— Quanto às outras — seu tom era alto —, que compactuaram com esse plano ridículo, estão proibidas de saírem dos limites dessa fazenda. Os passeios que faziam ao centro de Évora serão definitivamente cortados. Todas as tarefas domésticas desta casa serão transferidas às senhoritas D’alboquerque. Elas precisam de uma ocupação. As criadas concentrarão suas atividades na cozinha, enquanto elas farão todo o restante do trabalho.

Suspiros surpresos ecoaram pela sala e foram interrompidos pela voz dele novamente:

— Se chegar ao meu conhecimento, qualquer infringência às minhas ordens, os responsáveis serão punidos. Quanto a ti, Dona Hilda, arrume outro lugar para trabalhar. Junte suas coisas, ainda hoje, e saia desta casa pela manhã — foi incisivo.

A governanta se pôs a chorar diante dos olhares penosos de todos e ele a ignorou.

— Adelaide! — gritou o nome da filha e, nessa hora, Henrique movimentou-se nervoso — Se você não estivesse prometida ao Marquês, não estaria mais aqui. Como não posso desfazer um negócio tão promissor, terei que aturá-la.

Prometida? Pensou o Lamartine.

— Mas quanto àquela sua irmã, não colocará mais os pés nesta casa. Não me interessa para onde irás, e se alguém tentar ajudá-la sofrerá as consequências.

Joana estava chocada. Henrique olhou-a e, agora sim, conseguiu se compadecer das moças. Elas realmente sofriam nas mãos daquele carrasco. Ouviu os protestos de Adelaide em favor da irmã, mas não conseguia vê-la pelo ângulo em que estava.

— Joana ficará perdida. Ela não tem para onde ir! — implorava, chorando

— Isso não lhe diz respeito, senhorita Adelaide! Não pensaram nisso quando me traíram!

— Pois digo ao senhor que, se ela for eu também irei! — disse convicta enfrentando o pai, e todos ficaram tensos.

— O que disse? A surra que recebestes não foi o bastante? Quer apanhar mais? — se aproximou da filha, irado.

Dona Hilda e as filhas começaram um protesto pedindo clemência ao pai. Joana não podia mais suportar e Henrique não conseguia acreditar no que ouvia. Seu pai era um homem rude, mas nunca fizera algo desse tipo com sua família.

— Eu nunca deixarei minha irmã sozinha nesse mundo, não importa o que o senhor faça! — gritou Adelaide, mais uma vez, deixando seu pai transtornado.

Ao fazer menção de bater nela, Joana saiu de seu lugar e entrou na sala.

— Não toque nela!

O Barão espantou-se ao ver a filha toda suja e os olhos acesos, porém, riu:

— Olha quem resolveu nos dar a honra. Aproveite, pegue suas coisas e dê o fora daqui!

— Eu irei com você, Joana! — disse Adelaide chorando.

Joana arregalou os olhos ao vislumbrar o rosto da irmã. Ela estava usando um lenço na cabeça para tampar o rosto, mas o tecido escorregou, de modo que ela pode vê-lo. Estava totalmente deformado. Os olhos e a boca estavam muito inchados, e as faces tinham manchas avermelhadas que em breve estariam roxas, também bastante inchadas. Nem parecia a sua bela irmã.

— O que você fez com ela, seu monstro!

Correu para ela e a abraçou. As duas choravam e Henrique pode vê-las, mas não conseguia ver o rosto da loira de olhos azuis. Entretanto, viu quando o homem pegou no braço da morena e falou:

— Saia dessa casa imediatamente!

— Eu vou com você! — repetiu Adelaide à irmã e o pai berrou:

— Você não vai! E não passe por cima das minhas ordens! — levantou a mão com a intenção de acertar as costas da mesma no rosto dela.

Nesse momento, Henrique saiu do seu lugar e entrou na sala, apontando a arma para o velho que se pasmou com a presença do rapaz.

— Se encostar um dedo nela, eu mato você aqui mesmo! — falou sério e em bom tom.

Todos arregalaram os olhos para ele. Isso era totalmente inesperado.

— O que este homem está fazendo aqui? — perguntou à Joana, mas quem respondeu foi o Lamartine.

— Vim fazer meu acerto de contas. Esteja certo de que não saio daqui hoje sem levar sua cabeça comigo.

O velho foi se afastando aos poucos das moças em direção à porta de saída. Estava totalmente encolerizado. Suas mãos tremiam.

Henrique, ainda com a arma em punho, desviou o olhar para Adelaide e horrorizou-se:

— Jesus!

Adelaide tapou seu rosto com o lenço, abaixando a cabeça. O jovem sentiu-se tomado por um ódio terrível, assim como no dia em que seu pai sofrera um ataque do coração por causa do mesmo homem.

Voltou-se para o velho que saía pela porta e atirou.

O barulho do tiro ecoou pelo ambiente seguido por gritos. Os empregados se esparramaram pela casa, enquanto as filhas gritavam e choravam. D. Hilda tentava amparar algumas delas e, Joana e Adelaide, outras.

O tiro não fora certeiro atingindo apenas o braço de Rui, ao tentar fugir porta afora. Henrique o seguiu e atirou em sua perna. Seria bom fazê-lo sofrer antes de matá-lo.

Ele caiu na frente da casa e começou a rastejar, olhando para o rapaz que o acompanhava com a arma apontada para ele.

— Você é um verme desgraçado! — xingou — Não merece nem mesmo uma morte rápida. Vou atirar em cada parte do seu corpo nojento para que sinta dor e morra aos poucos. Ainda assim, será muito pouco.

Mirou um dos seus joelhos e atirou. O grito do homem cortou o ar. E logo depois, outro tiro no ombro. E outro na barriga.

— Pensando bem, você não merece minha bondade — disse o rapaz e apontou para a cabeça do homem caído, mas foi interrompido por um grito.

— Não! — Era Adelaide vindo em sua direção — Por favor, não vale a pena!

— Vale muito a pena, moça! — disse seco — Esse homem quase matou meu pai, roubou nossa herança, estou com um irmão quase morto em casa e, você, já se olhou no espelho? Pelo amor de Deus! Como pode me pedir para não matá-lo?

— Tens toda razão! Não é por ele que peço, mas por você. Será que vale a pena ter o sangue sujo dele nas mãos? Se fizer isso, ele morrerá, mas você perderá sua liberdade, sua vida. Você não é como ele... tens caráter e sei que tens um bom coração. Ele — olhou para o pai no chão — não sabe o que é isso.

Henrique a fitou. Ela estava na penumbra e com o rosto coberto, no entanto, podia ver o azul de seus olhos. Aqueles mesmos olhos da primeira vez. Tristes e profundos.

Ela abaixou o olhar e ele perguntou:

— O que vai fazer com ele?

— Vou pedir ao cocheiro para levá-lo ao hospital e deixá-lo lá. É o suficiente. A justiça cuidará dele depois disso.

— Não será tão simples assim; ele voltará e as castigará.

— Até lá, acredito que já teremos provas suficientes para levá-lo ao exílio — respondeu sem fitá-lo. Seu rosto estava muito feio. Não queria que ele a visse mais — Obrigada por estar aqui hoje, para nos defender.

Henrique sentiu uma pontada no coração. Vê-la naquele estado o incomodou, todavia, não queria ter sentimentos por ela. Não podia. Seu irmão estava morrendo e ela era filha do homem responsável por isso. Mesmo sabendo, agora, que elas não eram como o pai, como olharia para ela sem se lembrar das atrocidades que ele cometera contra a sua família?

Infelizmente não conseguiria deixar o ódio da sua linhagem de lado.

— Não fiz por vocês. Fiz pelo meu irmão — respondeu duramente. — Quanto ao seu pai, faça o que quiser. Mas ainda o verei apodrecendo.

Ao ouvir isso, Adelaide sentiu o choque da realidade e engoliu em seco. Ele nunca a amaria por ser uma D’alboquerque. O ódio dele era grande demais. Somente balançou a cabeça como se entendesse isso e falou:

— Mesmo assim agradeço. E retribuirei sua ajuda assim que encontrar os documentos das terras de Setúbal e devolvê-las a vocês. Não quero deixar essa casa antes de fazer isso. Estarei em breve, indo embora com meu futuro marido.

E começou a caminhar de volta a casa.

Henrique emudeceu. Lembrou-se do que o velho tinha dito. Ela estava prometida. Não quis demonstrar interesse, no entanto, não se conteve ao perguntar:

— Quando se casará?

— Assim que meu rosto voltar ao normal — respondeu sem interromper seu percurso.

Uma movimentação estranha atrás dela, fez com que girasse o corpo, novamente, na direção dele. Era Diogo, que surgiu de algum lugar e atacou Henrique. O Barão, mesmo com dificuldade pra falar, ordenava:

— Mate-o! Mate-o!

Eles lutavam e rolavam no gramado. Em determinado momento, Henrique conseguiu vantagem sobre Diogo, jogando-o no chão e desferindo vários socos em seu rosto e abdômen. Levantou-se para procurar a arma que caíra com o ataque surpresa.

— Vem seu maldito! Quero ver se é homem de verdade agora — disse Diogo apontando a arma para Henrique.

Adelaide viu que não daria tempo de ele se defender, então, correu se jogando na frente dele gritando:

— Não, Diogo!!!

E mais um tiro ecoou no ar acertando Adelaide nas costas, caindo nos braços de Henrique.

~~*~~

— A senhora Viscondessa já está melhor — informou o Dr. Fontana — tive que convencê-la a tomar um calmante. Vossa filha está com ela.

O Visconde acenou a cabeça para o médico. Estava visivelmente cansado e angustiado. A Casa Lamartine estava vivendo um drama trágico.

Eleonor, ao ver o filho, surtou. Ninguém conseguia controlá-la. Elisa entrou em desespero e Afonso tivera que carregar a irmã para o quarto.

Como não tinha palavras para acalentá-la, ficou apenas alisando seus cabelos enquanto ela soluçava em meio ao choro dolorido. Sentia-se culpada por não conseguir impedir Pedro e pelos resultados.

Frederico ficara com Pedro em seu quarto, ainda em choque pelo que acontecera.

— Senhor, terei que levar Pedro para o hospital. O quadro dele é bastante grave e mesmo o conforto de sua casa não será suficiente para o tratamento necessário.

— Deus! Como as coisas tomaram proporções tão desastrosas? A que ponto chegamos!

— Não sei o que dizer senhor...

— Pois bem, doutor, a minha intenção é levar Pedro para uma temporada em Lisboa o mais breve possível. Quando terás condições para suportar uma viagem?

— Bem, pela gravidade da situação, terá que esperar ele voltar a si. Contudo...

— O que há?

— Pode ser que ele fique desacordado por muito tempo. Não há como prever isso.

— Meu Deus! — exclamou o Visconde passando a mão pelos cabelos, desolado — Isso é um pesadelo! Eu mato aquele... Céus! Henrique ainda não voltou! — lembrou o pai — Já devia ter voltado!

Doutor Fontana disse:

— Estou indo para o centro, mas o acompanho até a fazenda.

— Então vamos sem demora! Chega de tragédias!

~~*~~

— Não, por favor, não! — desesperou Henrique segurando Adelaide nos braços.

Diogo fugiu, cambaleando, pelos jardins do casarão.

Joana veio correndo já chorando:

— Não! Não! Não! — E ajoelhou-se perto da irmã.

— Ela... ela passou na minha frente... eu... — O rapaz não conseguia explicar. Estava desnorteado.

— Minha irmã, por favor, fale comigo! — chorava — Meu Deus! Ela está...

— Não! Vamos levá-la ao hospital — Henrique propôs.

— Vou pedir para preparar a carruagem.

— Amadeo! Amadeo! — Joana saiu correndo e gritando.

O Barão continuava no chão, gemendo, mas ninguém se importava.

Henrique olhava para Adelaide, ensanguentada, e pedia mentalmente: Não morra, por favor...

Algum tempo depois, Amadeo chegou correndo com Joana anunciando que o Visconde e o médico estavam na fazenda.

— Henrique!

— Meu pai! Doutor! Foi Deus quem os mandou aqui!

— O que aconteceu aqui? — perguntou o Visconde vendo a moça ensanguentada nos braços do filho.

— Ela levou um tiro, por favor, doutor, levem-na logo! — implorou Joana.

E, mais que depressa, colocaram a moça na carruagem. O médico perguntou apontando para Rui no chão:

— E ele?

— Deixo-o morrer esgotado — disse Joana, friamente.

— Mas ele é seu pai.

— Nunca foi.

Henrique foi acompanhando a carruagem com o mesmo cavalo que chegara à fazenda. Joana e o doutor Fontana foram junto com o Visconde, levando Adelaide.

No hospital, o médico orientou seus ajudantes a levarem a moça enquanto ele se preparava para operá-la. Examinara-a e concluiu que a bala se alojara em um de seus pulmões. Fizeram uma espécie de drenagem para que ela não morresse sufocada pelo sangue. Mas a operação era necessária ou poderia ser tarde demais.

De todo modo, o procedimento não era garantia para salvá-la. A situação era gravíssima.

Enquanto doutor Fontana se preparava, pensava nas tragédias que já aconteceram, ao longo dos anos, por causa do ódio entre Rui D’alboquerque e Maurice Lamartine. Quantas mais precisariam acontecer antes de entenderem que somente a renúncia de um deles cessaria todo esse mal?

Chegou ao leito da paciente para iniciar o procedimento:

— Seja o que Deus quiser.

~~*~~

Na sala de espera, o Visconde notava a inquietude do filho, todo manchado pelo sangue da moça. Joana estava sentada numa poltrona com os braços cruzados sobre as pernas e olhar fixo em algum ponto da parede. Lágrimas silenciosas corriam dos seus olhos, mas ela nem mesmo piscava. Apesar da dor, a raiva era latente.

Os homens da família Lamartine não estavam alheios quanto ao estado emocional da menina, além de seu estado físico, suja e cansada.

A madrugada já apontava e muitas coisas já haviam acontecido desde aquela tarde em Évora.

O Visconde sussurrou algo com o filho e saiu. Henrique caminhava de um lado para o outro passando as mãos pelos cabelos, preocupado com o irmão e com Adelaide.

Sua consciência não deixava de acusá-lo por ter sido tão duro com ela quando salvara sua vida por duas vezes. Ela não podia morrer. Ele precisava ver seus olhos mais uma vez. Falar com ela. Ao menos agradecer. Na verdade, queria algo mais, mas tentava afastar esses tormentos.

Angustiado, soltou um longo suspiro despertando Joana de algum lugar.

— Vá para casa, senhor Lamartine, o senhor já fez muito por nós. Tem o seu irmão para se preocupar — disse.

— Ele virá para cá. Seu estado também é grave.

Joana não se manifestou. Voltou ao seu estado de torpor e, somente, alguns minutos mais tarde, começou a falar:

— Ela sempre nos defendeu... — Henrique olhou para ela — mesmo com seu jeito sereno e doce, ela sempre se mostrou forte e responsável por nós. Eu sei que até hoje ela chora sozinha em seu quarto, toda noite, por causa da mamãe. Era muito apegada a ela. Quando éramos crianças e faziamos alguma travessura, ela tomava a culpa para não sermos castigadas pelo Barão.

Fez uma pausa e continuou:

— Certa vez, eu peguei a caixa de charutos dele e escondi. Ele ficou furioso e Adelaide sabia que havia sido eu, já que eu sempre fazia alguma coisa para irritá-lo. Mas ao sermos questionadas, tomou a culpa com o pretexto de se preocupar com a saúde dele.

Joana respirou fundo e as lágrimas voltaram a rolar pela face.

— Nesse dia, ele bateu muito nela. Tinha acabado de voltar de uma viagem de negócios e estava nervoso. Ela ficou presa no quarto por três dias aos cuidados de Didila e quando saiu, tinha dificuldades para andar. Desde esse dia não consigo sentir nada por ele a não ser ódio. Ódio profundo — completou duramente.

Henrique estava estupefato com a história. Não conseguia assimilar como um homem podia maltratar tanto as próprias filhas. Ah, Adelaide! Por que você tinha que ser filha dele?

Encolerizado com o que acabara de ouvir, saiu daquela sala com a intenção de tomar ar, quando uma carruagem parou na porta do hospital e um homem desceu, todo ensanguentado, sendo carregado por outro. Era ele. Arrependeu-se na mesma hora de não tê-lo matado.

Avançou sobre ele, jogando-o no chão e o socou. Uma, duas, três, quatro vezes. Sentiu braços lhe puxarem. Eram alguns assistentes e outras pessoas que se encontravam por ali.

— Eu mato você! Eu mato você, seu velho nojento! — gritava, tentando sair do aperto dos braços que o impediam de socar aquele homem até a morte.

O outro estava caído ao chão, desmaiado.

— Calma rapaz! — falou um dos homens — Senão vamos ter que chamar a guarda. Você está batendo em um senhor ferido.

— Chamem! E chamem um padre, para encomendar essa alma até o inferno!

Soltou-se deles com um arranco e saiu caminhando pelas ruas do centro eborense.

— Chegou mais um ferido — Joana escutou alguém falar e pensou ser Pedro. Foi até lá.

— Meu Deus! Mas esse é o Barão D’alboquerque? — disse uma pessoa. — Talvez devêssemos comunicar à família.

— Não precisa! — disse Joana assustando-os — Sou uma das filhas e minha irmã está lá dentro, quase morta por culpa dele. Ele não tem mais família.

Voltou para seu lugar deixando os homens estupefatos com suas palavras.

~~*~~

— Didila, onde estarás Adelaide e Joana? — indagou Cecília, preocupada.

— Não sei, menina. Só sei que não suporto mais vê-las sofrendo desse jeito e não fazer nada. Sinto-me inútil. — declarou D. Hilda.

Beatrice, Celeste, Emília e Cecília estavam reunidas no quarto de Liana. Ela se encontrava em estado de choque desde que o pai a trouxera de volta. Só chorava em silêncio, numa condição de profunda amargura. Mal se mexia.

As irmãs tentaram animá-la, fazê-la falar, mas não houve progresso.

Emília fez um chá para todas, pois nem mesmo D. Hilda ou qualquer das criadas, estavam em condições de fazer alguma coisa.

Celeste andava de um lugar para o outro. Beatrice se odiava sabendo o que Diogo fizera no Chalé. Sempre soube que ele era estranho, mas fazer maldades assim? Era imperdoável! Sentia raiva dele, porém, dela ainda mais, por se deixar levar por ele.

Nenhuma delas viram o que acontecera no jardim. Ouviram tiros, e depois, movimentações de carruagem, entretanto, na cabeça delas, era algo relacionado ao pai.

Uma batida na porta alertou-as.

— Dona Hilda, preciso falar-lhe — era a criada aos soluços com um lenço nas mãos.

Ela se levantou rapidamente dirigindo-se para fora do quarto.

— Sim, Matilda, o que há?

— A-a s-senhorita Adela... — seus lábios tremiam e não conseguia pronunciar as palavras.

Hilda previu o pior e segurou a criada pelos ombros, balançando-a:

— Pelo amor de Deus, Matilda, me fala o que aconteceu... — já em desespero.

— Ela está no hospital sendo operada. Levou um tiro! — e recomeçou a chorar compulsivamente.

Dona Hilda sentiu tonturas e foi segurada pela criada. Ela a levou para o andar de baixo e a sentou. A criada foi preparar um chá para ela e Emília desceu as escadas correndo.

— Didila, fale comigo... o que aconteceu?

A senhora estava pálida e Emília ajoelhou em sua frente segurando suas mãos. Estavam geladas.

— Meus Deus...

O mordomo da casa aproximou-se e pediu permissão para falar. Ele quem levara o patrão para o hospital e lá ficou sabendo o que acontecera a Adelaide.

Emília caiu ajoelhada. Sua irmã não!

— Por favor, Deus, não a deixe morrer! — suplicou, sentindo suas forças se esvaírem. Precisava ser forte pelas suas irmãs, mas não estava conseguindo.

~~*~~

Henrique caminhava a passos lentos pelas ruas escuras do centro de Évora. Não tinha noção das horas, mas logo amanheceria. Sabia que precisava voltar ao hospital, mas quantas coisas estavam tirando-lhe a paz; tentando mudar os seus conceitos.

Subiu os degraus do casarão hospitalar e entrou, viu Joana e outra moça junto a ela. Provavelmente uma de suas irmãs.

— Joana, vá para casa. Eu fico aqui enquanto você toma um banho e descansa. Estás muito abatida. — Ele ouviu a outra moça falar.

— Não posso, Emília. Ela ainda está lá dentro. Não tivemos noticia alguma.

Ele se aproximou e cumprimentou cansado:

— Senhoritas.

— Senhor Lamartine, seu irmão Pedro chegou agora a pouco. Já foi internado. Seu pai está com ele — informou.

Fez um sinal de compreensão com a cabeça e perguntou:

— E sua irmã?

Joana meneou a cabeça significando que não sabiam de nada ainda. Ele observou as irmãs com as mãos entrelaçadas. Pelo que percebera nesse pouco tempo, elas eram bem unidas, assim como ele e seus irmãos.

— Vou ver meu irmão, com licença.

O dia já havia amanhecido e as irmãs se encontravam dormindo, sentadas e com as cabeças se apoiando. O Visconde e o filho estavam em outra poltrona.

Frederico entrou e cumprimentou o pai e o irmão. Emília despertou e correu para ele.

— Fred!

— Emília — disse ele encostando sua testa na dela.

Maurice e Henrique olharam a cena, sérios.

— Fred, aqui não é lugar para namoricos! — ralhou o pai — Vocês não têm noção dos atos de vocês.

Os dois se soltaram envergonhados.

— Hmpf! — resmungou o Visconde — Veja só o que deu essa inconsequência de vocês. Não veem que certas coisas nunca darão certo?

Doutor Fontana apareceu na sala, finalmente. Tinha o semblante cansado também. Os que estavam sentados levantaram-se, ansiosos.

— Senhores, senhoritas! O jovem Lamartine, como eu informei anteriormente, encontra-se em estado de coma e ficará em observação com os devidos cuidados médicos. Não podemos prever seu restabelecimento, então, só nos resta esperar. Não podemos ignorar a gravidade de seu estado.

Deu uma pequena pausa

— Quanto à senhorita D’alboquerque... fizemos a cirurgia da retirada da bala, no entanto, ela perdeu muito sangue e isso dificulta mais ainda a situação. Devido à hemorragia e o comprometimento em um dos pulmões... — suspirou angustiado — lamento dizer que podem esperar pelo pior.

— Não! — gritou Joana e agachou chorando copiosamente. Emília foi até ela.

— Henrique! Henrique! — Frederico chamou e foi atrás do irmão que saiu em disparada depois de praguejar e esmurrar a parede.

— Doutor Fontana, há alguma salvação para os dois? Diga-me e eu farei. Qualquer coisa! — falou o Visconde.

— Podemos tentar trazer outros especialistas, senhor, da Inglaterra ou da França. Conheço alguns médicos renomados. É claro que isso terá um custo altíssimo...

— Eu pago o que for preciso. Mande chamá-los.


Notas finais
Até o próximo capítulo ♥ Beijos!