As Pérolas Intocáveis de Évora - Livro I
14 Capítulo 13 - Desventuras - Parte II
Notas iniciais

“Querida Elisa,
Estou muitíssimo feliz por nossa amizade, ainda que por correspondência. Outrossim, será bom compartilhar ideias com alguém fora dos limites da fazenda.
O clima por aqui está nebuloso. Papai está com um humor dos cães. Liana irá se casar dentro de um mês e, Adelaide e Beatrice também já estão comprometidas. Estão desoladas, mas, infelizmente, ninguém pode ir contra a palavra do Barão.
Em uma próxima carta lhe contarei algumas novidades.
Aguardo sua réplica.
Com estima, Celeste”
Celeste selou a carta para enviá-la através de Amadeo, Ele sempre as ajudava quando precisavam. Esperava que Elisa não tivesse desistido da amizade, e assim, quem sabe um dia, poderiam se falar frente a frente sem divergências.
Escutou um barulho na sala, pareciam pessoas discutindo. Saiu rumo à algazarra que se tornava cada vez mais intensa.
Ao entrar no recinto viu seu pai esbravejando com os irmãos Lamartine.
— Eu chamarei a guarda se não se puserem daqui pra fora nesse instante, seus merdas! — trovejou o Barão.
— Não sairei daqui enquanto não falar com Liana! — Pedro o enfrentou.
— Como se atreve impor alguma coisa dentro da minha própria casa? Nunca mais poderão trocar palavras com minhas filhas, nunca! Ouviram?
Emília, Beatrice e D. Hilda entraram na sala às pressas, e logo atrás surgiu Liana.
— Pedro?! — indagou surpresa.
— Liana, eu preciso falar contigo — disse Pedro indo na direção dela, mas o Barão o interceptou:
— Não se atreva a dar mais um passo, seu moleque insolente!
O rapaz ignorou-o, embora parasse de caminhar em direção a Liana. O olhar dela era desesperador. Seu pai poderia matá-los por tal atitude. Frederico e Emília se olharam e ele fez um sinal que ela tentou entender.
— Liana, eu a amo — disse Pedro —, e sei que me amas também. Por favor, venho pedir-te que não desista de nós. Eu vou dar um jeito nessa situação ainda que eu tenha que matar vosso pai.
Liana chorava descontroladamente. Tomada pelo impulso, andou em sua direção, mas ao fazer, sentiu um puxão tão forte pelo braço que a fez cair ao chão.
— Não se atreva, sua indecorosa! — gritou o Barão à filha.
Ao ver o que o velho fizera a fúria de Pedro o cegou. Partiu para cima do homem.
— Eu mato você, seu monstro! — vociferou socando o Barão no rosto fazendo-o desequilibrar. Partiu outra vez para cima dele, mas seu irmão o segurou enquanto ele gritava, tentando desvencilhar:
— Eu acabo com você seu maldito! Inescrupuloso! Ladrão! — berrou deixando todos na sala mais agitados ainda. — Tu não mereces as filhas que têm. Mereces morrer apodrecendo no exílio!
O Barão os olhou com tanta frieza que Emília previu a tragédia. O velho caminhou para fora da sala e entrou em seu gabinete.
Emília aproveitou a oportunidade.
— Fred, imploro-te, vão embora, papai vai matá-los! — suplicou chorando.
— Não queremos prejudicá-las. Viemos apenas dar um recado ao Barão: que se prepare para o pior. Sabemos de seus crimes e vamos levá-lo ao Conselho de Regência. — Frederico explicou.
— Quais crimes? — perguntou Emília ainda chorando.
— Agora não há tempo para falar. Há muitas coisas que talvez vocês não saibam.
— Mas...
Não completou a frase porque seu pai voltou à sala apontando um revólver para os dois.
— Eu disse para saírem de minha casa, seus canalhas!
— Não papai, por favor! — clamou Liana — Não os matem, eles se vão! Eles se vão!
— Cale a boca! Nada disso estaria acontecendo se vocês tivessem decência e eles vão pagar caro pela insolência. — Sua voz era fria. — Acharam que poderiam vir aqui e me ameaçar? Ninguém me ameaça e sai impune.
— É o que veremos! — Pedro rebateu.
Dona Hilda tentou argumentar:
— Meu senhor, eu imploro que os deixe ir. Suas filhas logo estarão casadas e tudo estará resolvido. — Era uma saída para salvá-los.
— Não se meta em assuntos que não lhe dizem respeito!
A senhora deu um passo atrás, mas continuou:
— Dona Amélia não gostaria que o senhor tomasse tal atitude — disse em voz baixa.
A arma que estava apontada para os jovens começou a tremer na mão do Barão. Não sabiam que tipo de cólera se passava com ele. Parecia querer entrar em convulsão a qualquer momento. Seus olhos esbugalharam-se como se visse uma assombração à sua frente.
— Saiam daqui! Saiam! Saiam seus malditos! — começou sussurrando e depois berrando — Não! Não! — gritava com as mãos na cabeça com a arma pendurada em uma delas. O mordomo veio ajudá-lo enquanto ele se debatia.
— Liana, venha comigo. Fugiremos para longe e nos casaremos. — Pedro estendeu a mão para ela.
— Não posso Pedro, não dessa forma. Como ficarão minhas irmãs? Elas pagarão o preço por nós. Ele não deixará impune — esclareceu os fatos com pesar na voz.
— Ainda queres ficar comigo?
— Claro que sim. — Liana olhou para o chão e suas lágrimas pingaram no vestido — É tudo o que mais quero!
— Então esteja preparada, pois, em breve estaremos de partida — anunciou.
— Vamos, saiam daqui! — apressou-os D. Hilda — Logo ele voltará e temo que não escapem dessa vez.
— Emília, eu lhe enviarei uma mensagem explicando tudo. Amo-te. Não se esqueça. — Frederico beijou-lhe a mão.
— Vão! Vão! — repetiu D. Hilda.
~~*~~
Na carruagem, voltando para casa, Adelaide estava absorta em pensamentos, enquanto suas irmãs conversavam algo sobre política e mulheres na sociedade. Ideias de Joana.
— Você ainda tem muito que aprender, Cecília — falava Joana. — O fato é que a sociedade se cala diante das injustiças já que é mais fácil olhar para o próprio umbigo e fingir que nada acontece. Veja, por exemplo, há quantas crianças trabalhando nas fábricas por mais de quinze horas por dia? E não ganham nada mais que meras gorjetas que mal dão para se alimentar, enquanto seus pais recebem salários mesquinhos.
— Mas Joana... papai não é um desses donos de fábricas?
— É o que eu digo.
— Você quer dizer que ele maltrata essas pessoas e coloca crianças para trabalhar? — questionou indignada.
Joana ponderou um pouco, suspirando cansada. Cecília, apesar de tudo, era a mais apegada ao pai, mas não podia ser iludida quanto ao caráter dele.
— Ceci, me escute! — disse com firmeza. — Os poderosos fecham os olhos para a miséria. Eles podem até não fazer isso com as próprias mãos, mas sabem o que acontece e mais — levantou um dedo impositivo —, muitas vezes, a mando deles.
A menina levou a mão à boca, horrorizada.
— Não pode ser Joana! Como você sabe de tudo isso? — indagou Cecília com lágrimas nos olhos. Ela ainda acreditava em seu pai. Que ele era rude, todos sabiam, mas um monstro que maltratava crianças? Não podia ser!
— Porque tenho ouvidos e várias vezes escutei conversas entre Diogo e o Barão.
Adelaide olhou para ela, saindo de seu estado de torpor, e perguntou:
— O que mais ouviu Joana?
— Apenas coisas relacionadas às fábricas. Mas sei que tem muita sujeira por debaixo desse tapete e vou descobrir.
— Como assim? O que estás dizendo? Você acha que as terras de Setúbal...
— Adelaide, você acredita mesmo que um homem que obriga crianças a trabalhar mais que suas próprias forças, que manda bater nos trabalhadores até quase a morte e aflige todo um vilarejo à base do medo e ameaças, pode ser alguém confiável?
— Que vilarejo? Como sabe tantas coisas Joana? — A mais velha quis saber.
Joana desconversou e olhou para fora.
— Joana, diga!
— Celeste — respondeu de uma vez. — Ela conhece os trabalhadores das fábricas de papai. Tem algumas amizades no vilarejo. Uma vez eu a esperei que saísse para cavalgar e fui atrás. Achei que ela estava vivendo algum romance escondido — riu com desgosto —, mas a verdade é que ela ajuda as pessoas daquele lugar. Vendeu até alguns vestidos com ajuda de Amadeo para comprar mantimentos e outras coisas para eles... — suspirou mais uma vez olhando novamente para fora da carruagem. — Senti inveja dela, sabe. Ela sim, tem feito alguma coisa de útil nessa vida estagnada que temos. Algo em favor dos desfavorecidos.
Adelaide e Cecília estavam incrédulas. Como coisas assim podiam acontecer debaixo do próprio nariz e ninguém ver?
— Oh meu Deus, isso é muito perigoso — exclamou Adelaide. — Se papai descobrir, pode...
— Adelaide! — Joana se alterou — Não podemos parar de viver porque ele nos oprime. Apenas temos que achar uma razão na vida e fazer o que é possível para dar sentido a ela. Celeste achou esse sentido e, agora, eu também sei pelo que devo lutar e me recuso a acreditar que homens como o Barão vençam sempre! Um dia aparecerá alguém corajoso o bastante para lutar pelos mais necessitados, revolucionar essa nação, e pode ter certeza, eu estarei lá junto. — Seus olhos eram raivosos, decididos e lacrimejantes.
Suas irmãs estavam assustadas com a reação dela. Ela se acalmou um pouco, e depois de algum tempo, continuou:
— Mamãe era assim. Era responsável como você, Adelaide, esperta como Cecília e sensitiva como Emília; tinha o espírito justiceiro de Celeste, era alegre como Beatrice e meiga como Liana. E eu gosto de pensar que herdei a força dela. Não entenderam ainda? — olhou para as duas. — Somos o conjunto das características dela e é por isso que ele nos odeia tanto. Porque não consegue olhar para nós e enxergá-la sem sentir culpa. Eu sei que ele é meu pai, mas eu o odeio por isso! — Se calou então, voltando a olhar pela janela da carruagem.
As irmãs não pronunciaram mais nenhuma palavra. Estavam espantadas e fascinadas ao mesmo tempo. Joana era forte e decidida, tinha ideais de vida, por mais que o fato de ser mulher não lhe favorecia, seu senso de justiça era aguçado e sabia que ela, da sua forma, lutaria até o fim por isto. Era admirável por isso. Porém, Adelaide tinha medo que a raiva que ela sentia do pai pudesse endurecer seu coração.
~~*~~
Fazia três horas que Rui D’alboquerque estava trancafiado em seu escritório. Fechara as janelas e as cortinas e se deixou cair na cadeira pensando em Amélia. Olhando para o copo de vinho na mão, sua mente vagava. Pensava nos momentos que compartilhavam, no seu doce sorriso. Ela era meiga e decidida ao mesmo tempo. Sabia como equilibrar qualquer situação. Era seu porto seguro, mas se fora.
— Por quê? Por quê? — lamuriava — Tu não podias ter partido Amélia... me abandonaste...
Pegou a taça que estava em sua mão e jogou com toda a força contra a parede. Levantou-se num pulo e jogou tudo o que tinha na mesa ao chão. Estava atormentado. Doía-lhe o peito e a alma. Sentia-se impotente quando se tratava de Amélia e de suas lembranças, nada mais importava. Todos os domingos, bem cedo, deixava uma rosa branca no túmulo da falecida. Era a rosa que ela mais gostava. Amélia dedicava-se um bom tempo cuidando delas enquanto viveu e, aos domingos, praticamente o obrigava a caminhar com ela pelas campinas da fazenda.
“Um homem ocupado também precisa de diversão e sei que não negará um passeio à sua esposa. Gosto de conversar contigo enquanto caminhamos.”
Ela dizia com os olhos brilhantes e sorriso perfeito.
Tirou um livro da prateleira e pegou uma chave que se encontrava dentro dele. Abriu a última gaveta da mesa de carvalho e junto com os documentos mais importantes estava uma caixa. Pegou-a e depositou em cima da mesa. Uma caixa vermelha, encerada, com o desenho de uma rosa talhada na tampa.
Era o seu tesouro particular. Um caderno de couro, algumas pérolas soltas e uma foto de Amélia sentada na varanda. Em seu pescoço estava o colar que ele lhe dera de presente. No fundo, o roseiral. Tudo era perfeito nessa época. Eles eram felizes. Mas tudo foi se desmoronando depois daquele dia...
Ele traíra a confiança dela e não havia mais como esconder. Ela tentou compreendê-lo e, pelos anos seguintes, nunca mais tocara no assunto. Sempre amável e dedicada com ele, com as crianças. Mas no fundo ele sabia que ela não era mais a mesma. Odiava a si mesmo por magoá-la. Seus olhos foram perdendo o brilho até que se apagou e ele não pôde fazer nada para salvá-la.
Os sonhos com ela estavam cada vez mais constantes. Mas eram como pesadelos. Estava sempre triste e olhava para ele chorando como se sofresse muito.
Em um desses pesadelos, Amélia usava seu colar de pérolas. Ela olhava para ele e de repente o colar arrebentava-se esparramando as pérolas pelo chão. Ela agachava, tomava sete pérolas e virava-se para ele, chorando. Levando as pérolas embora. Ele tentava chamá-la para entregar as outras, mas não o atendia. Caminhou até desaparecer.
Estava cada vez mais atormentado com os constantes pesadelos.
— O que queres de mim? — gritou olhando para a foto da falecida. — Eu estou fazendo o melhor que posso! Eu sou mais poderoso do que ele agora!
E assim, em profunda angústia, deixou-se cair ao chão, chorando pela única pessoa que conseguiu amar na vida e lhe foi tirada.
~~*~~
— Céus! Não temos mais paz? — disse Adelaide sentando-se após saber por Emília tudo o que acontecera na ausência delas e como seu pai ficara encolerizado.
— Eu achei que papai ia matá-los — falou Celeste ainda assustada com a situação.
— Onde estão Beatrice e Liana? — perguntou Cecília.
— Beatrice está em seu quarto. Depois de tudo isso, ainda terá que receber o senhor Casagrande — informou Celeste. — E Liana se fechou em copas. Chora o tempo todo. O filho do Duque mandou uma mensagem dizendo que também virá visitá-la.
— Como podemos viver assim? Sabem que eu nunca fui dada às coisas sentimentais, mas vendo minhas irmãs sofrendo desse jeito, dá vontade de ajudá-las a fugir com os tais Lamartine! — indignou-se Joana. — Adelaide, quero lhe falar, poderia ser agora?
A irmã balançou a cabeça afirmativamente e a seguiu.
Amadeo apareceu na porta:
— Boas tardes, senhoritas!
— Boas tardes, Amadeo. Alguma novidade? — Cecília indagou.
— Venho trazer esse bilhete para a senhorita Liana. É do cavalheiro... disse que era muito urgente.
As irmãs se entreolharam e Emília pegou o bilhete. Ela sabia do que se tratava. Pedro era diferente de Frederico. Agia impulsivamente.
— Obrigada Amadeo. Entregarei a ela.
— Amadeo! — chamou Celeste antes de ele sair. — Também gostaria que entregasse uma carta para a senhorita Lamartine. Aqui está.
— Entregarei o mais rápido possível! Passar bem, senhoritas!
~~*~~
— Fizeram o quê? — berrou o Visconde — Só podem estar loucos! Perderam de vez todo o juízo que tinham quando se meteram nessa história sem pé e sem cabeça!
— Que balbúrdia é essa? — Eleonor veio ver o que se passava — O que houve?
— Minha mãe, apenas... — começou Frederico
— Apenas! Apenas! Não me venha com essas desculpas esfarrapadas! — disse Maurice nervoso — Seus filhos, minha senhora, foram até a casa daquele calhorda para ameaçá-lo e pedir a mão das filhas em casamento. O que a senhora me diz? — cuspias as palavras.
— Mas, estão fora de si? Como puderam fazer uma coisa assim, meninos? — disse Eleonor indignada.
— Ora, minha mãe, pare com isso, não somos nenhum “menino” — reclamou Pedro. — Fred descobriu certas tramas do Barão que envolvem subornos e mortes nas fábricas, e quisemos usá-las como artifício — explicou.
— Como se fosse assim! — o Visconde gritou novamente — O que vocês descobriram é algo muito grave. Não é pra ser usado em acordos sentimentais. Vocês nem parecem meus filhos, mas uns desmiolados! Não conseguem ver que ele tentará se safar mais uma vez se descobrir que não estão blefando?
— Meu pai, nunca quisemos desapontar o senhor, apenas agimos por impulso! Emília e Liana estão prometidas. Ficamos loucos com isso!
— Estão mesmo loucos! Quem disse que permitirei uma sandice dessas? Jamais se casarão com aquelas moças! Vocês dois me matam de vergonha! Por que não seguem o exemplo de Henrique? Sempre centrado no trabalho e não perde tempo com paixões desvairadas. Pelos Céus! Parecem dois adolescentes e não homens. Nem Afonso tem esse tipo de postura! — falava sem parar.
— Acalme-se, Maurice — pediu a esposa.
— Como?! Com esses dois fazendo asneiras por aí? Mas eu aviso pela última vez — apontou o dedo para os dois. — Vocês são meus filhos, mas não passem por cima da minha palavra. Tenho aturado essas besteiras dos dois esperando que virem homens e honrem suas calças e sobrenome, mas pelo visto, vou ter que usar meios mais radicais.
Os irmãos ficaram em alerta. Maurice já estava farto disso e precisava afastar os filhos, o mais rápido possível, da cidade.
— Após o jantar na casa dos Diaz Castel, os dois não voltarão para Évora. Ficarão em Lisboa tratando de um novo investimento meu e darão continuidade por lá. Falarei com Edgar, e ele lhes providenciará uma casa de aluguel. Assim aprenderão a pensar em coisas mais úteis. Estou farto de tudo isso!
— Pai...
— E tem mais, Pedro! Casar-se-á com a senhorita Castel. Assim já mato dois coelhos com uma cajadada só. Uma vida longe de Évora será o melhor para vós.
~~*~~
— Diogo, o que fazes aqui? — perguntou Beatrice sobressaltada — Não podes entrar assim no meu quarto.
— Eu sei, mas eu preciso muito lhe falar — disse ele trancando a porta.
Era muita ousadia da parte dele.
— Não é adequado entrares aqui. Se formos vistos, estaremos perdidos.
— Para falar a verdade, eu não me importaria que nos encontrassem aqui. Assim, não terias que se casar com aquele imbecil — declarou com raiva.
— Estás louco.
— Estou sim. Louco por ti, Beatrice! E não consigo tirar-te da minha cabeça. Não entendes? Sou apaixonado por você e enfrentaria o Barão se fosse preciso.
— Diogo, me escute... aquilo que aconteceu na casa de artes foi loucura. Eu me deixei levar pelo momento, não significa que...
Diogo não a deixou terminar. Beijou-a com paixão segurando-a pela cintura. Apertando-a de todas as formas.
— Fiquei fora de mim quando eu soube que estava comprometida... — E a beijou novamente. Ela correspondia. Diogo a fazia sentir sensações curiosas e não conseguia dizer não.
Ele a pôs na cama e se deitou sobre ela. Os beijos estavam cada vez mais quentes. As mãos dele passeavam por todo o seu corpo, explorando-a.
Beatrice, mais uma vez, deixou-se levar. Pensava que, já que teria que se casar com alguém que não amava, então talvez pudesse entender certas coisas com alguém que já conhecia. Não conseguiu parar de pensar no que ocorreu na casa de artes e, sinceramente, desejou que Cecília não tivesse aparecido naquele dia. Havia gostado do que Diogo fizera.
Ele levantou a saia do vestido dela e levou sua mão por baixo. Beatrice estava ofegante e gemeu quando sentiu a mão dele em seu ponto pulsante. Isso era extremamente íntimo... mas era bom. Enquanto ele a massageava, desceu a parte da frente do corpete do vestido descobrindo seus seios.
Ela estava indo à loucura. Gemia baixo e constante. A boca dele continuava faminta em seus seios enquanto seus dedos exploravam sua intimidade, e às vezes, ele dizia coisas das quais ela se envergonharia até de pensar, mas que, naquele momento só serviam para deixá-la mais sedenta pelos toques e beijos dele.
Até que sentiu algo parecido com uma explosão e soltou um grito abafado. Parecia que tinha ido ao céu e voltado. Seu corpo relaxou totalmente, em seguida.
Ela não sabia o que tinha acabado de acontecer, só sabia que tinha sido muito bom. Então era isso o que acontecia entre um homem e uma mulher?
— Diogo... — chamou-o baixinho enquanto ele ainda pressionava seu corpo sobre o dela e beijava seu pescoço.
— Você é minha, Beatrice... só minha.
— Diogo, eu preciso me recompor. Você precisa ir — falava entre os beijos. — O senhor Casagrande está chegando.
A menção do nome do rival o alterou. Levantou-se rapidamente da cama dela e disse:
— Você nunca será dele, Beatrice! Você é minha, entendeu? Minha! Se for necessário tomar atitudes mais drásticas para não se casar com ele, eu tomarei.
Destrancou a porta e saiu a passos rápidos sem se importar de ser visto.
~~*~~
“Minha amada Liana,
Preciso encontrá-la urgentemente. Por favor, sei que não é um momento muito propício, mas chegou a hora da decisão. Vamos nos encontrar no Chalé do lago amanhã à noite. Tenho uma viagem marcada para breve, na qual, meu pai já decidiu meu futuro. Precisamos partir o quanto antes. Aguardo ansiosamente sua resposta
Amo-te mais do que tudo na vida!
Do todo seu, Pedro”
No mesmo momento, Liana se dirigiu à escrivaninha para compor a resposta. Precisava, contudo, da ajuda de Adelaide e Joana para se encontrar com ele.
— Então? O que diz a carta? — perguntou Emília ansiosa.
— Ele quer encontrar-me no Chalé do Lago... para fugirmos — respondeu com nervosismo.
— Liana, é muito arriscado!
— Eu sei, mas não posso me casar com o senhor Carvalhal, Mila. Pedirei ajuda à Joana. Tenho certeza que não me negará.
— Ele mencionou algo sobre Frederico?
— Não... — respondeu com pena da irmã – Ah, Mila... eu sei que ele também está tentando algo.
— Eu sei — suspirou —, confio nele. Só não queria que as coisas fossem tão difíceis.
Liana abraçou a irmã. As duas eram cúmplices nessa história de amor. Entendiam-se, sofriam, sonhavam ou riam juntas.
— Eu lhe desejo toda a felicidade do mundo, minha irmã. Eu a amo muito. Por favor, não te esqueças de mim — Emília disse chorando.
— Jamais a esquecerei. Como poderia? — segurou com carinho o rosto da irmã — Tu não és apenas minha irmã, é minha melhor amiga! Também torço muito por você e Frederico e tenho certeza de que serão felizes.
— Uma batida na porta interrompeu o momento delas. Era uma das criadas da casa.
— Senhorita Liana, o senhor Gomes Carvalhal a espera — informou.
— Obrigada Matilda, diga que já desço.
Então era isso. Chegara o momento de enfrentar o que fosse preciso. Pedro e ela só teriam essa chance e não podiam falhar.
~~*~~
— O que há Joana? — Adelaide quis saber.
— Quero que me conte tudo sobre o tal Lamartine que encontramos na Praça do Giraldo.
Adelaide desconversou:
— Não há o que contar. Apenas o que já sabe: cuidei dele quando se acidentou. Foi para isso que me chamaste?
— Não me venhas com essa, Adelaide! Você anda muito estranha e vejo nos teus olhos que há algo mais nessa história. Nunca tivemos segredos. Sabes que pode se abrir comigo.
Deu uma pequena pausa e perguntou:
— Sentes algo por ele?
Adelaide levantou-se da poltrona devagar esfregando as mãos em sinal de nervosismo.
— Sinceramente não sei. Quer dizer, eu cuidei dele sem saber quem ele era e quando eu o vi naquele estado tive tanta pena... desejei que não morresse. Ele estava lá tão frágil e machucado, mas...
— Mas...? — a outra instigou.
— Mas depois desse dia não consegui mais esquecê-lo. Mesmo me esforçando. A verdade é que eu não tinha mais esperanças de viver um romance em minha vida, mas depois que eu o vi, algo me despertou. Eu não queria, juro! — quis justificar — E sei que isso não significa nada, eu mal o conheço, além do mais, estou prometida a outro, e ele, o Lamartine, me odeia. Você viu como ele agiu hoje.
— E você se explicou demais para uma simples pergunta.
— Joana!
— Agora vou dizer o que acho. Não acredito em amor à primeira vista, mas tenho fortes razões para não acreditar no acaso também. Há algo que atrai essas duas famílias. Não é todo dia que D’alboquerque’s e Lamartine’s se apaixonam por aí! Sei que o tal rapaz nos tratou com certa grosseria, o que era de se esperar, mas eu bem vi como ele te olhou. Você também deixou alguma coisa naquele coração de pedra. Não há dúvidas disso!
— Joana, tu tens ideias muito utópicas, minha irmã! — brincou — Não vamos nos iludir. Agora sou comprometida e em breve serei uma Marquesa, não é mesmo? — deu um pequeno sorriso para disfarçar o desgosto.
— Não se eu fizer alguma coisa — disse como se estivesse planejando algo.
— O que estás pensando, Joana?
— Não é nada ainda. Apenas uma ideia se formando. Mas agora quero conversar sobre outra coisa contigo.
A irmã mais velha franziu a testa.
— Eu fiquei intrigada com o que o tal Lamartine falou na Casa de Contas, sobre as terras de Setúbal. Então eu decidi que vou investigar sobre isso e precisarei de sua ajuda.
— Como vamos fazer isso?
— Eu vou procurar pelos documentos que comprovam o roubo e depois iremos falar com o Visconde. Se esses documentos realmente existirem, muitas coisas podem ser resolvidas entre as famílias. Não vamos falar isso com as outras meninas ainda, para não dar esperanças.
— Podemos conversar com Didila. Ela é de confiança — sugeriu Adelaide.
— Ótima ideia. Esperaremos o Barão viajar e começamos nossa investigação.
— Jô...e se papai souber que...
— Ele não saberá. Seremos cuidadosas. Agora vamos, pois, Liana irá receber o noivo. Com certeza precisará de nosso apoio. E lembre-se, minha irmã — disse Joana pegando na mão de Adelaide —, se de fato essa história tiver fundamento, teremos que estar preparadas para o pior. Precisaremos ser fortes.
— Se é que podem ficar piores...
— Ah, podem sim!
~~*~~
Emília estava saindo do seu quarto rumo ao corredor que dava acesso à sacada principal do casarão. Precisava sentir o vento no rosto, pensar com sensatez sobre tudo, apesar de que não conseguia se concentrar nas tantas coisas que haviam acontecido. Seu pai havia surtado, sua irmã iria embora e não conseguiria falar com Frederico tão cedo. Em breve receberia seu futuro noivo e isso a deixava nervosa. Só de imaginar que seria desposada por aquele homem, embrulhava-lhe o estômago.
Desde o baile, a vida dela e das irmãs tinha virado de ponta cabeça. Ou seria desde que conheceram os Lamartine’s?
Perdida em pensamentos, não percebeu que alguém se aproximava. E quando ergueu os olhos, viu Diogo vindo em sua direção, mas ele não parou. Passou a passos tão rápidos em direção à saída que nem deu tempo de raciocinar direito.
— Senhor Avelar?! — Ele sequer a olhou e saiu de sua visão.
Estarreceu-se. Diogo na ala dos quartos femininos? Isso só podia significar uma coisa: Beatrice. Não era possível. Ela não o receberia em seus aposentos!
Rapidamente foi ao quarto da irmã que ficava no corredor transversal ao seu, mas ao chegar, já não estava.
Se ela... oh céus! Não queria nem pensar numa tragédia dessas. Precisava falar com Didila. Adelaide e Joana já tinham problemas demais para ter que lidar com isso agora. Didila saberia conduzir essa situação.
— Didila... — chamou quando a encontrou na cozinha dando algumas ordens aos empregados — posso lhe falar?
— Claro, minha menina! Espere só um instante — terminou de delegar as tarefas e voltou-se para ela. — Venha comigo!
E foram para uma saleta.
— Didila, papai ainda está trancado no escritório? — perguntou, preocupada.
— Sim... não aceitou nenhuma das bandejas que ofereci.
A moça olhou de um lado a outro e sussurrou:
— Didila, eu acabei de ver o senhor Avelar no corredor da ala feminina. Ele nunca entrou lá. Mas pensei, e se ele... saiu do quarto de Trice.
Dona Hilda horrorizou-se:
— Não fale isso menina! Valha-me Deus! Isso não pode ser! E quanto à Beatrice? O que ela disse?
— Não a vi ainda. Fui até o seu quarto para tirar a dúvida, mas não a encontrei.
A senhora andou de um lado a outro, pensando, depois disse:
— O senhor Casagrande está para chegar. Tente encontrar Beatrice, eu vou falar com Diogo. Isso já está passando dos limites! — esfregou a mão no peito como se estivesse angustiada.
— Didila... há algo errado nessa história, não há? Sei que Diogo pode ser uma ameaça à Trice, mas, sinto que não é só isso.
Dona Hilda pensou um pouco e disse:
— Não é só isso. Porém, é algo que não cabe a mim, contar. Vem, preciso lhe entregar algo.
Então a senhora rumou-se para o seu aposento e Emília a seguiu em silêncio.
As duas entraram no quarto, D. Hilda fechou a porta e foi até o seu armário. Tirou uma caixa e pôs sobre a cama, e dela retirou um livro.
Ele tinha uma capa de couro avermelhado antigo com uma fita transpassando-o. Na ponta dessa fita, tinha uma chave. Tinha também algumas fitas de cores diferentes no meio das folhas, como se marcasse as partes principais.
— Emília, este é o diário de sua mãe. Vou entregá-lo a ti, pois, sei que será muito sensata ao lê-lo e tomar as decisões necessárias.
— Decisões?
A senhora apenas balançou a cabeça.
— Por anos eu o guardei na intenção de lembrar-me de sua mãe tendo algo dela junto a mim, mas não posso mais mantê-lo aqui quando sei que nestas folhas estão as respostas para muitas coisas. Eu nunca o abri, contudo, eu sei que sua mãe anotava cada momento de sua vida aí. Era o seu refúgio, como tu tens feito também.
Ela tinha lágrimas nos olhos quando passou o diário para Emília.
A menina o pegou e alisou a capa. Era como se tivesse ganhado o maior tesouro do mundo. Ali estava um pedaço vivo de sua mãe. Ali continha seus sentimentos, seus momentos, sua letra...
Dona Hilda reforçou:
— Leia, Emília, e saberás o que fazer!
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