As Pérolas Intocáveis de Évora - Livro I
15 Capítulo 14- Planos e Acordos
Notas iniciais

— Boas tardes! — cumprimentou Raul com um gesto elegante ao ver Beatrice entrar no salão. Esperava-a com um buquê de tulipas nas mãos, soube que eram as suas preferidas e queria agradá-la a qualquer custo.
Dona Hilda a acompanhava, já que Adelaide fazia companhia à Liana e seu noivo em outra sala.
— Obrigada — respondeu friamente recebendo as flores.
Os acontecimentos da manhã ainda mexiam com os nervos de todos. E a visita de Diogo em seu quarto deixara a moça totalmente desconcertada. Seu pai estava trancafiado no gabinete e, por Deus, era melhor assim.
— Como estás, senhorita? — tentou ser gentil e iniciar uma conversa.
— Apenas um pouco indisposta. Por favor, sente-se — dizendo mais para desviar a conversa do que por educação.
Um silêncio constrangedor tomou a sala.
— O senhor deseja algo? Um chá ou refresco? — perguntou D. Hilda para amenizar o constrangimento.
— Um refresco seria ótimo — disse sorridente.
Era um jovem atraente, de olhos penetrantes e sorriso amplo. Tinha uma barba bem aparada e cabelos e olhos castanhos escuros, fazendo jus aos traços da família. Muito educado e gentil, do tipo que agrada e encanta uma jovem pretendente. Mas não a Beatrice. Não conseguia sentir nada além de irritação por ele.
Dona Hilda pediu licença dizendo que mandaria trazer a bandeja com refrescos e biscoitos e colocar as flores em um vaso. Beatrice continuou calada olhando para as mãos. Raul limpou a garganta e insistiu no diálogo:
— Soube que a senhorita pinta? Gostaria muito de ver suas telas algum dia.
— Algum dia.
Ele suspirou. Por mais que tentasse não ligar para a birra dela, estava sentindo o desconforto da situação. Sendo assim, preferiu ser sincero.
— Ouça-me, senhorita D’alboquerque, sei que está com raiva por sentir-se forçada a um compromisso. Mas, gostaria que soubesse que vou fazer tudo para que se sinta confortável ao meu lado. Não estou pedindo para me amar, nunca obrigaria a fazer tal coisa, no entanto, já que vamos nos casar, que seja da forma mais amigável possível — terminou com suavidade.
Beatrice se surpreendeu com tal atitude e o olhou. Primeiro, desconfiada, depois, surpresa ao ver a afetividade em seu semblante.
— Não posso prometer-te nada, senhor Casagrande — disse, desviando o olhar.
— Eu sei. Vamos ao menos tentar fazer com que isso seja o menos doloroso para a senhorita.
— Obrigada — respondeu ela com menos acidez.
Conversaram mais um pouco sobre amenidades e logo Dona Hilda voltou com a bandeja e a conversa se seguiu mais cordial entre os três.
~~*~~
— Senhorita D’alboquerque — cumprimentou Álvaro, desanimado.
— Senhor Carvalhal — respondeu Liana no mesmo tom.
Silêncio.
A porta se abriu e Adelaide se uniu a eles.
— Desculpe-me! Estava conversando com Joana e não me dei conta do tempo — justificou. — Boas tardes, senhor Carvalhal!
— Boas tardes, senhorita! — levantou-se e beijou-lhe a mão.
— Hã... Adelaide?! Poderia pedir chá e bolachas para o senhor Carvalhal, por favor? — pediu Liana.
— Claro que s...
— Não será necessário! — interrompeu Álvaro, secamente — Minha visita será breve.
— Eu insisto, senhor — falou e, tanto a irmã quanto o rapaz, souberam que ela queria falar a sós com ele.
— Com licença, não me demoro — avisou Adelaide.
Mais um breve silêncio, porém, Álvaro o deteve:
— Tens algo a me dizer, senhorita?
— Sim, e serei bastante franca com o senhor.
Fez uma pausa e recomeçou:
— Sei que essa situação não é prazerosa para nenhum de nós e o senhor deve saber que sou apaixonada por outro. Além do mais, sei que não tens nenhum interesse em desposar-me.
Levantou-se devagar e continuou sob o olhar atento do rapaz.
— Pois bem, senhor Carvalhal, eu tenho uma proposta a lhe fazer.
— Uma proposta? — olhou-a desconfiado.
— Sim, e quero que me escute bem. Tenho planos para um futuro breve que não inclui o senhor, obviamente, então gostaria que fizéssemos um acordo. Primeiramente, quero que peça ao meu pai para levar-me a um passeio amanhã à tarde, porém, o senhor me acompanhará só até um determinado percurso.
— Sei. Então, sairemos daqui juntos, mas a senhorita seguirá outro caminho?
— Isso. Será tempo suficiente para eu colocar meu plano em prática. Preciso apenas que o senhor me valha e terás a liberdade assim como eu — disse por fim.
O jovem continuou a olhá-la atentamente e supôs:
— O que pensas? Em fugir com o Lamartine? — riu com escárnio.
A moça apenas, o fitou calma e decidida. Álvaro arregalou os olhos entendendo a situação.
— Estás louca? — alterou a voz, levantando-se — Isso comprometerá para sempre sua reputação. Sem dizer que meu nome também será jogado na lama por causa de uma noiva que fugiu com outro.
— Ora, senhor Carvalhal! O senhor acha mesmo que sairás prejudicado? Homens sempre saem ilesos nessas histórias. Eu sim, estarei condenada para sempre! Não quer esse compromisso tanto quanto eu e não vejo outra saída.
Álvaro avaliou a situação enquanto depositava suas mãos nos bolsos. Ela parecia muito determinada.
— Senhorita D’alboquerque, essas coisas nunca dão certo no final. E... — ia falar algo sobre Demétria, mas ponderou — e existem pessoas que contam com esse casamento. Além do mais, mesmo que não nos conheçamos bem, não desejo que fique com sua reputação manchada.
— Não se preocupe com minha reputação. É o preço que pagarei se eu quiser viver ao lado de Pedro. O senhor ama alguém, senhor Carvalhal?
Ele olhou para um ponto qualquer da sala como se lembrasse de alguém, mas nada falou.
— Ama, não é? E não gostaria de ser livre para se casar com ela?
— Na verdade, não sou correspondido.
Liana se surpreendeu com a declaração dele. Homens não costumavam se abrir em assuntos como esse. Tentou demonstrar complacência.
— Eu sinto muito.
Ele fez sinal com a cabeça, agradecendo.
— Ouça senhorita, não quero que me tomes por pessimista ou algo assim, mas conheces bem o seu pai. Achas mesmo que ele os deixaria em paz? Ele os procuraria até os confins e só Deus sabe o que faria — tentou convencê-la a desistir.
— Eu sei bem o quanto isso pode ser perigoso, mas sabe de uma coisa, senhor Carvalhal? Eu prefiro lutar até o fim para viver esse amor, do que passar o resto da minha vida frustrada, por não ter tentado ser feliz.
Álvaro não pôde deixar de admirá-la e, por que não dizer, invejá-la. Se tivesse coragem para enfrentar certas coisas, talvez seu pai o considerasse um homem de valor. Quem sabe não seria a hora de fazer algo diferente, mesmo que isso resultasse em tragédia. Entretanto, nunca saberia se não tentasse.
— Tudo bem, senhorita D’alboquerque, me convenceu.
Ela sorriu, e disse:
— Obrigada. És um bom homem. Gostaria de fazer algo para ajudá-lo, se achares que posso lher servir.
— Se conseguires ficar com Pedro, já estarás me ajudando — disse sem pensar.
— Por que diz isso?
Hesitou, mas respondeu:
— Porque a senhorita que amo e pretende ser esposa de Pedro é Demétria Diaz Castel — confessou.
Liana sentiu um aperto no peito. Algo dizia que a tal moça não era alguém fácil de lidar. Lembrou-se de como ela agiu com Pedro na sacada no dia do baile. Seu olhar sobre eles enquanto dançavam ou passeavam pelo salão. Sempre espreitando. Sempre vigiando.
— Ela armou tudo, não foi? Para ficar com Pedro? — mais afirmou do que perguntou.
— Não sei do que falas — desconversou. —, apenas sei que ela não aceita o fato de Pedro vê-la apenas como uma amiga. O resto foi apenas circunstâncias do acaso.
— Ora senhor Carvalhal! Posso viver isolada no meio do mato, mas não sou ignorante! Eu vi como ela olha para ele!
Ele nada disse.
— Pois bem, não adianta ficarmos discutindo isso agora. Vamos aos planos.
Álvaro ouviu tudo em silêncio. Não tinha nada a perder. Afinal, se ela fugisse com Pedro, mais cedo ou mais tarde, Demétria se renderia ao pedido dele. Era um bom acordo.
Despediram-se. Liana percebeu que Álvaro era um bom rapaz e, no fundo, desejou alguém melhor para ele. Mas o que mais desejava neste momento era ter êxito em seus planos.
~~*~~
Demétria retornara à Évora com o pai, que estava na cidade a negócios. Pediu para acompanhá-lo, já que estava ansiosa por rever Pedro e saber o andamento das coisas depois do escândalo do Baile de Outono. Não podia perder quaisquer oportunidades para investir suas tramas. O intuito de sua visita à Elisa era arrancar-lhe informações. Ela era uma moça doce e ingênua. Com o jeito certo, saberia se Pedro ainda encontrava às escondidas com a caipira ou como ele estava se comportando diante do tal noivado inesperado.
— Elisa, não achas que cultivar uma amizade com essa moça D’alboquerque é um tanto desnecessário e perigoso? — questionou Demétria ao ver a carta que escrevera a Celeste, na escrivaninha.
— Oras, Demétria! Celeste és uma pessoa muito agradável, você mesma viu.
— Tens razão, me desculpe. Confesso que senti ciúmes, pois não quero perder sua estima — dissimulou. — Temos anos de amizade e, de repente, aparece alguém e rouba meu lugar.
— Ah, Demétria, o que estás a dizer? Sabes que nunca deixaria alguém tomar teu lugar! Em meu coração há espaço para muitas pessoas valiosas — disse abraçando-a.
Revirou os olhos. Não tinha paciência para isso, mas sabia que Pedro não ia desistir fácil assim, e como Álvaro a ignorava desde o baile e nada lhe falava, precisava arrancar informações.
— Diga-me, e Pedro? Muito me estranha estar tão passivo em relação à D’alboquerque... significa que não era amor, já que desistiu tão rápido aceitando nosso noivado — deu o bote.
O semblante de Elisa mudou. Um ar preocupado e triste.
— Amiga, confie em mim! — falou Demétria com um jeito doce, pegando em sua mão. — Eu amo Pedro, mas não posso forçá-lo a me amar. Se tua felicidade for com essa moça, eu nada posso fazer — fingiu condescendência. .
— Eu sinto muito, Demétria. Queria muito que meu irmão sentisse amor por ti, mas quem tem controle do coração?
— Ele não desistiu dela, não é? — se esforçou para não demonstrar ódio.
A jovem pareceu se convencer das boas intenções da outra e confessou:
— Oh Demétria, não sei o que fazer para impedir que Pedro cometa uma besteira! Acreditas que ele pretende fugir com Liana?
Demétria arregalou os olhos.
— Como?
— Vou contar-lhe tudo. Pedro e Fred foram à fazenda para enfrentar o Barão. Ele os enxotou de lá com uma arma na mão. Papai soube e, encolerizado, decidiu que eles ficarão em Lisboa, permanentemente, após o jantar em vossa casa.
Os olhos dela brilharam de felicidade diante da notícia.
— Bem, acredito então que estás resolvido. O jantar é daqui a dois dias, não haveria tempo de tramar uma fuga.
— A questão é que... Pedro pretende fugir amanhã à noite. Ele enviou um bilhete à Liana, para que se encontrem num tal de Chalé do Lago, não sei ao certo, mas é uma propriedade dos D’alboquerque. Acontecerá amanhã, ao entardecer, e depois partirão — completou aflita.
— Mas isso é loucura! — Demétria gritou de raiva, levantando-se. — Para onde irão? E sua família. O escândalo? Pedro não pensou nisso?
— Ele está decidido. Contou-me tudo esta manhã. Tentei fazê-lo desistir, supliquei, mas ele está irredutível.
Demétria pensou. Estava com ódio, muito ódio, mas não podia demonstrar, senão seus planos iriam por água abaixo. Já sabia o que fazer. Pedro jamais fugiria com aquela idiota.
Recompôs-se e disse suavemente:
— Oh, minha querida! Eu sei que estás aflita, mas creio que posso ajudar. Falarei com papai hoje e direi que pretendo me casar com Álvaro. Ele me fizera a proposta, certa vez, e sei que o Duque não se oporá diante do pedido de papai. Assim, Pedro estará livre outra vez, e quem sabe ele desista de fugir e o destino dê uma ajudinha a eles, hã?
Elisa admirou o altruísmo da amiga, mesmo amando Álvaro. Ele nunca seria dela de qualquer forma. Abraçou-a e com lágrimas nos olhos disse:
— Obrigada, Demétria! És maravilhosa.
Um sorriso maldoso tomava os lábios da falsa amiga enquanto afagava seus cabelos.
~~*~~
— Estás bem? — perguntou Adelaide à Liana, depois que Álvaro partiu.
— Sim, estou. Mas preciso falar contigo, minha irmã.
— Claro! Vem, sente-se aqui — disse deixando seu bordado e seus pensamentos, batendo a mão no sofá para ela se sentar.
Liana percebeu que sua irmã estava com os olhos avermelhados. Tinha chorado. Adelaide tinha essa característica, a de sofrer sozinha, porém, nunca demonstrava para não desanimar as outras irmãs. Sempre pronta a ajudar, acalentar e orientar.
— Perdoe-me, Liana, por não ser tão presente neste momento. Foram tantos acontecimentos que eu não soube ajudá-la.
— Não há o que perdoar Adelaide! Eu a amo e sei que também tem passado por momentos difíceis.
— Como foi a conversa com o senhor Carvalhal?
— Proveitosa.
A outra franziu a testa:
— Fizemos um acordo — falou baixo — e é sobre isso que quero lhe falar.
A irmã ficou atenta.
— Eu recebi uma carta de Pedro dizendo que precisamos tomar providências tão logo. Terás que viajar em breve e, pelo que entendi, não voltará por decisão do pai... — hesitou antes de completar: — Minha irmã, decidimos que chegou a hora de tentarmos ser felizes longe daqui.
Adelaide se agitou.
— Mas Liana, como vivereis longe de vossas famílias? Tu serás deserdada por papai, ficarás mal falada para sempre. Por favor, pense melhor, pois, estarão sozinhos nesse mundo!
— Não posso viver sem Pedro, Adelaide. Tente me entender. Se isso significar ser desprezada por todos, assim será. Só não suportarei ser desprezada por minhas irmãs.
Adelaide a abraçou forte e as duas choraram juntas.
— Nunca te desprezaria. Eu a amo incondicionalmente e por isso não quero que sofra — Olhou para ela. — Eu sei que quer viver seu grande amor, mas o preço não será alto demais?
A outra se aconchegou nos braços da irmã novamente, sem nada dizer.
— Mas diga-me, o senhor Carvalhal aceitou o acordo sem relutar? Afinal, ele também sofrerá as consequências.
— Na verdade, a história é bem mais complicada do que parece. Ele também ama outra moça, que é a senhorita Diaz Castel, e que o rejeita, pois... — suspirou — és apaixonada por Pedro. Ao que tudo indica, as cogitações de Joana estavam certas. Ela se aproveitou da minha inconsequência, no jardim do baile, para me tirar do caminho e ficar com Pedro.
— Agora tudo se encaixa. Ao que parece, ela não é tão inocente assim.
— Não, não é. Por isso Pedro e eu precisamos partir. Tudo conspira contra nós. Não teremos forças para enfrentar tudo isso.
— Quero que siga o teu coração, mas não será tão fácil assim, Liana. Temo muito por vocês.
E Adelaide já pensava em algo para impedir a irmã de cometer esta loucura.
~~*~~
— Obrigado Jaime — Pedro agradeceu ao mordomo quando este lhe entregou uma mensagem trazida por Amadeo, o lacaio da família rival.
As mãos apressadas quase rasgaram o bilhete ao abri-lo e o sorriso se iluminou no rosto quando leu:
“Meu amor,
Estarei ao Chalé do Lago no entardecer de amanhã. Consegui alguém para ajudar-me.
Estou pronta para cumprirmos, juntos, nosso destino e passar cada momento ao seu lado para sempre!
Com amor infinito, Liana.”
~~*~~
Cecília resolveu bater na porta do gabinete do pai. Estava preocupada. Ele não respondia, não comia e estava há horas trancado lá. Bateu e esperou; nada de resposta. Abriu a porta devagar e entrou no ambiente escuro e com odor de álcool.
— Papai, sou eu, Cecília. Vim trazer um chá para o senhor — anunciou cautelosamente.
A cena à sua frente deixou-a com o coração dilacerado. O pai estava numa situação penosa, sentado ao chão com o olhar fixo em um ponto qualquer da sala. Tudo estava fora do lugar. Chamou-o pela segunda vez, com sua voz embargada, ele então, mirou-a com um olhar vazio e disse com voz cansada:
— És tão parecida com sua mãe...
Ela nada falou. Apenas continuou observando-o.
— Adelaide também é, fisicamente, mas tu me lembras muito o jeito dela. Esperta e meiga, e gostava de cultivar plantas... não deve se lembrar, mas ela era... era... — balbuciou um pouco — a mulher mais linda e generosa de todo o Alentejo.
Cecília deixou a bandeja de chá na mesa e aproximou-se devagar para incentivar a conversa.
— O senhor a amava muito, não é? — perguntou, agachando-se perto dele.
O homem com olheiras enormes e olhos vermelhos a contemplou e disse:
— Amei-a! Ainda amo e amarei por toda a vida. Contudo, meu coração se secou e não consigo cumprir minha promessa que fiz às portas de sua morte. Talvez... porque eu sinta raiva por ela ter partido tão cedo, antes de mim... — suspirou — ou porque tenho raiva de mim mesmo por não ter sido merecedor de sua confiança — completou com pesar.
Cecília continuou calada. Lágrimas saíam de seus olhos, silenciosamente. Ela não entendia o porquê de o pai estar falando tudo isso a ela. Sabia que ele era um homem rude e agressivo, que nunca dera uma palavra de carinho a ela ou às suas irmãs, mas de alguma forma, ela o amava, mesmo que não concordasse com suas atitudes. Não conseguia sentir raiva do pai, como Joana, ou mesmo mágoa. Ainda acreditava que seu pai poderia mudar. Acreditava na redenção das pessoas.
Depois de algum tempo, ela se manifestou:
— Papai, o senhor já viveu esse amor algum dia, e pelo que percebo de suas lembranças, era um amor bonito, que apesar dos problemas e circunstâncias, superou muitas coisas. Por que não deixar minhas irmãs experimentarem também, esse amor verdadeiro? Deixá-las livres para fazerem suas próprias escolhas? Tenho certeza de que mamãe se orgulharia se permitisses isso. Não a conheci, mas sei que ela era justa — terminou com certo receio por ter falado tão abertamente ao pai. Não sabia ao certo qual seria sua reação.
Ele se espantou com a fala da filha. Era audaciosa e muito sábia para sua pouca idade. De todas as filhas, era a que ele tinha maior apreço, por sua personalidade lembrar Amélia. Mas ele era o Barão, e isso tinha um preço. Ele gostava do poder que tinha nas mãos e, aceitar essas uniões com a família rival significaria submeter-se ao Visconde e admitir que perdera. Não! Nunca permitiria tal coisa!
Lembrou-se dos sonhos que ultimamente estavam o atormentando. Era Amélia, com tristeza nos olhos, sem o sorriso que antes iluminava seu rosto. Isso significava apenas uma coisa: ela estava decepcionada com ele. Quem sabe, por ele não ser tão poderoso como deveria; não ter conquistado tudo o que ainda precisava para ser melhor do que o Visconde e conquistar o orgulho dela.
— Jamais! — gritou ele assustando a filha que se levantou num pulo — Jamais permitirei que aquele homem vença! Eu sou melhor do que ele. Ela escolheu a mim, a mim! — continuava gritando, levantando-se do chão com dificuldades.
— Do que falas, papai? Que homem? Quem escolheu quem?
Estava amedrontada. Ele murmurava palavras soltas e andava pela sala desvairado. O melhor a fazer era sair dali, mas quando ela se virou para deixar o recinto, ele suplicou:
— Não vá! Não me abandone você também! — estava chorando.
Então, ela não pensou mais. Correu para o pai e o abraçou apertado, chorando junto com ele. Seu pai era apenas um homem atormentado com a vida e não podia desistir dele. Precisava amá-lo. Quem sabe o amor poderia libertá-lo de seus fantasmas.
~~*~~
O dia amanheceu na fazenda junto com a saída repentina do Barão. Informara aos empregados que passaria o dia todo fora resolvendo negócios das fábricas. Agiu como se nada tivesse acontecido, mas a fúria ainda permanecia em seus olhos.
Após o desjejum, Dona Hilda e Cecília conversavam no jardim enquanto podavam e cultivavam rosas.
— Sua mãe adorava fazer isso — relembrou a senhora.
— Ontem eu vi como papai ficou transtornado ao falar dela. Meu coração ficou dilacerado. Sei que apesar de tudo, ele a amava muito, Didila
— Sim. Pelo o que me constaste, ele estava fora de si. Será que estás ficando louco?
— Oh Deus! Não quero nem pensar nisso! Mas ele não falava coisa com coisa e murmurava algo do tipo “eu quebrei a confiança dela” ou “ele não vai vencer”. Coisas medonhas!
Hilda se calou por uns instantes enquanto as duas trabalhavam nas rosas, depois perguntou:
— Ceci, conte-me uma coisa...
— Sim?
— O que sabes sobre as intenções de Diogo em Beatrice?
— Ele gosta dela já há um tempo — respondeu sem tirar os olhos das flores. — Acredito que desde que voltou da Universidade de Coimbra. Nunca percebestes?
— Na verdade, sempre percebi a afinidade que tinham na infância, eles brincavam bastante quando pequenos, então...
— Mas ficaram sem contato por bastante tempo.
A senhora apenas afirmou com a cabeça.
— O que te consomes, Didila? — Cecília riu. — Beatrice não gosta dele e também não seria tola de trocar o senhor Casagrande por ele. Se bem que...
— O quê? Diga menina!
— Aconteceu algo estranho dias atrás. Acho que no mesmo dia que papai anunciou os noivados. Sim, estou certa, foi neste dia — confirmou. — Vim chamá-la, pois estavas pintando aqui no roseiral, próximo à casa de artes, então ela saiu de dentro da casa toda esquisita e logo atrás saiu Diogo. Ela estava corada. Será que eles se beijaram? — perguntou animada.
— Não diga bobagens, menina! — repreendeu, saindo de perto dela com um vaso pronto nas mãos — Isso seria... bem, de toda forma, você mesma disse que ela nunca deu esperanças a ele, não é?
— Foi o que disse certa vez, porém, não é de agora que a observo olhando para ele de esguelha e trocando sorrisinhos tímidos. Não sou boba, eu vejo tudo! Isso significa que ela pode estar mudando de opinião, o que seria mais um caos já que estás prometida ao senhor Casagrande e papai não vai permitir....
Enquanto a menina disparava em palavras, Dona Hilda apenas sentia agonia. Estava na hora de fazer algo. Precisava falar com Beatrice e, também, com Diogo. Não podia quebrar uma promessa, mas também não podia deixar que uma tragédia acontecesse. Pelo menos, não mais uma.
~~*~~
— Adelaide, amanhã eu irei acompanhar Celeste ao vilarejo — comunicou Joana sentando-se na varanda onde a irmã estava.
A irmã estava vagante, olhando para as campinas da fazenda.
— Jô, por que temos que sofrer tanto? — perguntou a irmã sem desviar os olhos.
— Oh, minha irmã! Eu não sei... — abraçou os ombros da irmã, por trás. — Mas temos umas às outras, e isto, ninguém pode nos tomar — disse, convicta.
Adelaide pegou uma de suas mãos. Ela sempre tentava fazer-se de forte na frente de suas irmãs mais novas, mas Joana a conhecia bem.
— Estou aqui, pode chorar! Eu a amo!
— Eu pensava que não tinha mais lágrimas — sorriu —, mas estou vendo que sempre haverá.
— Eu não quero que penses assim, Adelaide. Ainda seremos felizes, eu sei!
A primogênita suspirou cansada e secando as lágrimas.
— Liana quer partir com o Lamartine — revelou.
— O quê? Queres dizer, fugir.
— Ela veio conversar comigo. Quer nosso apoio. Fez um acordo com o senhor Carvalhal para ajudá-la. Ele pedirá permissão a papai para levá-la a um passeio, porém, ele a levará até o Chalé do Lago — explicou o plano.
Joana bufou.
— Isso é insensato. Mas como podemos condená-la por querer ser feliz... e o que disseste a ela?
— O que eu poderia dizer, eu orientei e... de certa forma, apoiei. Acho que me arrependo por isso agora. Ela será para sempre marcada pelas línguas maldosas.
— Vamos ter fé. Quem sabe não mudes de ideia. Isso não é tão simples quanto parece.
— Foi o que eu disse a ela. Vamos nos reunir no quarto dela, hoje à tarde, estou tentando pensar em algo para fazê-la desistir dessa ideia... Onde disse que irás? — indagou.
— Ao vilarejo. Celeste passará algumas horas lá amanhã e irei para conhecer. Quero saber mais sobre os trabalhadores e como vivem, sabe. Breve quero conhecer as fábricas também.
— Tomes cuidado, Jô, mas quero que saiba que tenho muito orgulho de ti e da forma como pensa. Um dia, quem sabe, adquiro um pouco dessa força — e sorriram uma para a outra.
— Obrigada. Mas és mais forte e corajosa do que pensas.
A criada entrou na varanda com um buquê de narcisos e um cartão.
— São para ti, senhorita Adelaide.
A moça recebeu as flores na esperança de ser de alguém que não saía de seus pensamentos. Joana também teve uma reação ansiosa quando a irmã abriu o cartão. Mas as feições de Adelaide mudaram ao ler:
“Para a senhorita mais bela que já conheci, procurei flores que pudessem equiparar a essa beleza esplêndida, porém, é uma tarefa impossível.
Na oportunidade, informo que estarei em sua casa amanhã pela tarde para conversarmos.
Aguardo ansioso!
Marquês Rubén Tomás de Canto e Melo.”
~~*~~
O dia passou sem maiores acontecimentos. Devido à notícia da decisão de Liana, Dona Hilda achou melhor esperar para falar com Beatrice. As irmãs passaram toda a tarde, juntas. Umas tentando convencê-la a não se arriscar tanto, outras apenas torcendo para que ela fosse feliz com o seu amado.
Embora amasse muito as meninas, Dona Hilda não concordava com a decisão do casal. Fugir assim, era algo muito perigoso, envolvia muitas coisas. As consequências poderiam ser terríveis, caso os planos fossem frustrados. Mas nada do que ela dissera fez com que Liana pensasse melhor. Estava apaixonada e desesperada demais para agir com sensatez.
Adelaide resolvera ir à Praça do Giraldo para fazer algumas compras para Liana, junto com D. Hilda. As duas conversavam, nervosas, sobre tal situação e até cogitaram a possiblidade de trancar Liana em seu quarto.
— Eu sei que ela me odiaria para sempre, Didila, mas estou pensando seriamente em fazer isto — confessou, enquanto caminhavam de volta à carruagem.
— Eu não te julgo, pois, estou de acordo. Pense como ficará seu pai quando descobrir? Vocês? A cidade inteira? Meu Deus... não quero nem pensar nisso...
— Por outro lado, eu a entendo... quero que seja feliz... mas dessa forma, tudo pode virar uma grande tragédia. Além do mais, por quanto tempo conseguiríamos imped...
Antes de terminar, ela o viu. Henrique estava a passos rápidos, vindo em sua direção. Dona Hilda seguiu o olhar dela.
— Esse é o...
— Preciso falar com ele... quem sabe não seja uma saída — disse e foi saindo para interceptá-lo.
— Saída para quê? — perguntou a senhora sem entender.
— Senhor Lamartine, desculpe incomodá-lo, mas preciso falar-lhe...
Ele, que estava distraído, olhou-a. Isso não era possível, quanto mais tentava se livrar dela, mais ela o atormentava. Não disse nada. Ela continuou:
— Há uma situação que, pode ser que, o senhor possa ajudar... — falou sem jeito. Ele, mais uma vez, a encarava como se quisesse encontrar algo dentro de seus olhos.
— Já estás me cobrando, senhorita?
— Como? indignou-se — Desculpe, mas eu não tenho a intenção de cobrar nada. Até porque não vejo isto como uma dívida, senhor Lamartine. O que fiz por ti...
— Já sei. Faria por qualquer um — interferiu, secamente.
— Faria sim, mas... por ti foi... diferente. Achei que iria morrer e rezei para que isso não acontecesse. Fortemente eu desejei que vivesse. Como se eu sentisse a sua dor...
Já não sabia o que falava, nem se estava de acordo com o decoro. Só pronunciava o que estava em seu coração. Ele, que sempre tinha algo a retrucar, não soube o que fazer, mas questionou:
— Por quê? Faria o mesmo se soubesse, na ocasião, quem eu era?
— Sim — respondeu sem hesitar. — Mas eu não sei te responder o porquê. Nem sempre precisamos. Meu coração dizia naquele momento que eu precisava cuidar de ti, desejar o melhor para ti. Então eu fiz, e faria quantas vezes fosse preciso, mesmo sabendo que foi criado para me odiar. Eu não odeio o senhor...
Ao ouvir aquilo, com ela olhando dentro dos seus olhos, Henrique se calou. Estava pasmo, confuso, se questionando, e percebeu que não estava com a raiva que sempre o acompanhava quando ouvia falar ou via um D’alboquerque. Seria ela diferente do pai? Seus irmãos estariam certos? Não queria acreditar nisso, de forma alguma.
— Obrigado, senhorita... — saiu de sua boca.
— Adelaide. — Ela completou.
Dona Hilda interveio:
— Adelaide, precisamos ir. Diogo acaba de passar por nós. Isso não é bom sinal — temeu.
— Sim, verdade. Vamos Didila. Foi bom revê-lo, senhor Lamartine. Passar bem.
Se apressaram e entraram na carruagem, partindo.
Henrique ainda estava pensativo quando a carruagem passou por ele. Foi quando despertou:
— Com o que ela queria ajuda?
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