Era início de noite e estava quente no subúrbio.

Algumas pessoas sentavam-se na varanda de seus quintais e apreciavam o movimento da rua, repleta de jovens que se divertiam no período de férias escolares.

Sentada no jardim de sua avó, sempre perto das flores, estava uma garota de beleza peculiar. Diziam ser descendente de índio com europeu, o que justificaria sua pele morena avermelhada, os cabelos castanhos e olhos arredondados de uma cor violeta. É difícil saber ao certo sua etnia, pois sua avó na verdade não era sua avó biológica, era uma senhora que a tinha adotado por não terem localizados seus pais biológicos quando a encontraram perdida na praça da cidade, ainda um bebê de 2 anos, conforme lhe explicaram.

De lá para cá, há cerca de 12 anos, ela tentou se enquadrar naquela cidadezinha pacata, indo para a escola, para as festas de aniversários, cumprindo o roteiro dos jovens de sua idade... Mas vivia escondendo um segredo à seu respeito.

Seu nome era Violeta e ela podia falar com as plantas.

Ela não sabia como aquilo funcionava e por vezes se julgou como louca. Mas com o tempo foi conhecendo melhor a si mesma e como era capaz de compreender sensações das plantas a seu redor. Não era sempre e nem com toda e qualquer planta. Havia testado com exemplares aquáticos mas se deu conta de que a própria água atrapalhava um pouco a compreensão, assim como a agitação marinha de outros animais. As plantas são seres sensíveis e emotivos, e assim como os humanos diferem-se entre si quanto a personalidade, temperamento e estado de espírito. Então ao fazer contato com uma planta era o mesmo que fazer um novo amigo humano.

Foi por isso que achou muito estranho quando sentiu seu pé de pimenta, Malagueta, sempre tão nervosinha, ficar angustiada. Violeta correu para dentro de casa para ver o que estava acontecendo com sua amiga e quando deu por si estava no meio da cozinha atrapalhando a conversa de sua avó com uma visita. Quem era aquele desconhecido?

Um homem no final da meia idade e de aparência severa segurava uma xícara de café que lhe foi servida, deu um gole demorado e olhou para Violeta com seriedade. Ela sentiu certa reprovação quanto a sua entrada dramática e logo endireitou-se para não aborrecê-los nem atrair olhares carrancudos. Se pôs a caminho de seu quarto mas sua avó pediu que se juntasse a eles na sala e começou a explicar para a jovem que ela não ela não havia sido encontrada na praça da cidade, que aquele homem havia lhe entregado, ainda bebê, para que ela cuidasse e a protegesse de algumas pessoas más.

“Pessoas más?”- questionou Violeta surpresa.

“Sim, pessoas que sabem como você é especial e gostariam de se aproveitar disso” – explicou o homem intrometendo-se no diálogo familiar.

Violeta olhou para ele desconfiada, ela sabia que ele falava de seu segredo e estava perplexa de que não fosse de fato um segredo naquela sala.

“Você sabia?”- voltando para sua avó, que acenou com a cabeça. Um peso saiu de seus ombros, pois não gostava de esconder isso de sua vó.

Os três tiveram uma tarde longa de muita conversa e questionamentos para chegarem finalmente ao real motivo da visita: Era hora de Violeta se juntar as demais Flores no treinamento que mudaria suas vidas para sempre.

Partiram na manhã seguinte e, embora Violeta estivesse entusiasmada pelo que havia descoberto no dia anterior, não podia deixar de sentir aquele frio na barriga por se aventurar em um mundo totalmente desconhecido e longe de sua vó.

Antes de sua casa sumir no horizonte, ela olhou mais uma vez e acomodou sua pimentinha no banco do carro ao seu lado. “Calma Malagueta, vai ficar tudo bem... Eu acho...”.