As Marcas Do Rato
2 Sequestrado
Notas iniciais
A janela de Shion estava aberta. Aquele idiota. Quando perceberia que não vivia mais na pequena e segura No.6? Acima de Nezumi, o céu se cobria em um manto negro. Já era noite. As ruas estendiam o silêncio e o vazio por todo o seu caminho. Não havia luz, não havia estrelas.
A hora e o local perfeitos para um sequestro.
Esgueirando-se por entre as árvores, ele se dirigiu à casa, escalando pelas paredes o mais rápido que pôde. Merda, e se fosse tarde? E se já tivessem pego o garoto e levado sabe-se lá onde, cobrando de sua mão que os pagasse ou... Ele engoliu em seco, como se pudesse afundar as inseguranças junto com a saliva. Não o matariam. Não o levariam. Ele ia impedir.
Era a esse pensamento que ele se agarrava, enquanto subia aquele caminho tortuoso.
Finalmente, suas mãos alcançaram o parapeito da janela, e, em um impulso, ele pulou para dentro. Os pés tocaram o chão silenciosamente e por completo. O quarto estava totalmente vazio, e nada emitia ruído algum. Ele passou pela janela, adentrando no mesmo, e procurou por Shion. Viu um pequeno monte embolado sobre a cama, e imaginou que fosse o garoto. Mas, quando puxou as cobertas, encontrou apenas um travesseiro vazio, e o monte era composto apenas do próprio lençol, enrolado em si mesmo por alguém.
Os olhos de Nezumi se arregalaram para a cama desfeita. Não podiam já ter chegado, poderiam? Ele saíra correndo. Como o levariam tão rápido? E o que poderiam estar fazendo com ele agora...
De repente, ele ouviu um barulho.
O barulho da janela sendo fechada e trancada.
Uma armadilha.
E de repente uma voz, que ele conhecia, murmurou fora do seu campo de visão:
— Chegou cedo, Nezumi.
Como aquilo era possível? Ele se virou, a faca ainda em mãos, encarando os olhos vermelhos que sorriam travessos. E os seus próprios olhos, se arregalaram em surpresa.
— Shion!
Agora não só os olhos do garoto sorriam, como ele também. Parecia realmente muito alegre, como sempre.
— Você realmente veio! – ele disse, e parecia estar a ponto de pular de alegria. Nezumi virou a cara. Não ia sacrificar seu orgulho por tão pouco.
— Não fique se achando – seus braços se cruzaram – é só que você é tão imbecil e ingênuo...
Uma risada atravessou o ar, ecoando na mente de Nezumi. Por que Shion estava rindo? Aquele cara o surpreendia cada vez mais.
— Não tanto, se consegui te enganar.
— Do que está falando? – ele perguntou, corrigindo suas feições para que elas não demonstrassem nenhuma surpresa, apenas sarcasmo.
— De Hamlet – disse Shion. Novamente, Nezumi teve que supervisionar sua expressão – eu entendo muito de robótica, você sabe. Foi fácil mexer nas engrenagens dele para que lhe passasse uma informação errada – disse mexendo em um fio elétrico, que depois deixou no chão. – ele é um robô relativamente simples, tudo o que eu fiz foi alterar...
Mas Nezumi não ouvia mais. Shion havia descoberto que ele o espionava? Mas como? Ele tomava muito cuidado, mesclando seus ratos com o cenário... Merda, o que ele faria?
— O que foi? – Shion perguntou, e Nezumi se amaldiçoou por não ter lembrado de controlar a expressão – você fez isso da primeira vez, achei que fosse fazer de novo. Não sou assim tão idiota.
Mas Nezumi virou o rosto.
— É sim... – ele murmurou. Shion era um idiota por tentar atrai-lo de volta. Por confiar nele. Por trazê-lo ali, sendo que Nezumi ia matá-lo, mesmo que não por fora. Ele só queria protegê-lo, e aquele idiota...
Dois braços quentes o envolveram pela cintura. Primeiro ele se surpreendeu, depois sorriu docemente, as expressões se tornando tão suaves quanto as do menor, e fez carinho em seus cabelos com as mãos. O abraço de Shion o esquentava, mais por dentro que por fora, já que aqueles braços pálidos não faziam tanto a diferença assim. Seus cabelos se emaranhavam nos dedos de Nezumi, prendendo-os e escorrendo por eles, suaves.
— Eu sentia sua falta, Nezumi...
— É isso que faz de você um idiota – ele murmurou sinceramente, seus lábios ainda sorrindo e seus dedos ainda passeando pelos cabelos do albino.
— É idiota querer quem eu amo por perto? – murmurou contra a blusa de Nezumi. Ele pôde ouvir claramente o coração do maior tropeçar e depois correr, acelerando para depois se normalizar após 3 batidas.
— Sua linguagem é mesmo... – Nezumi começou. Mas se surpreendeu ao olhar nos olhos de Shion e os ver levantarem-se, cruzando com os seus, e viu ali a mais pura sinceridade. Mais do que isso, pôde ver, claro como água, o quanto Shion estava decidido. E já soube o que o menor diria antes mesmo de ele o fazer.
— Eu sei muito bem o que isso quer dizer – Nezumi pôde facilmente identificar o tom de impaciência em sua voz – assim como eu sei o que “atraído” significa. Quem não foi capaz de perceber foi você.
Inconscientemente, os dedos de Nezumi, que estavam em seus cabelos, foram descendo lenta e errantemente por estes, até chegar na nuca de Shion. Nezumi queria dizer algo, mas não conseguia. Seus lábios novamente formigavam por dentro, dormentes, incapazes de falar...
Assim como os de Shion estavam, entreabrindo-se automaticamente. As respirações de ambos se mesclaram, com se absorvessem um ao outro.
E, com um pequeno movimento da mão, Nezumi puxou o menor para perto, colando os lábios nos dele. Aquele foi um beijo diferente dos outros, sincero, sem despedidas, apenas suas línguas que valsavam vagarosas, seus olhos que se escondiam sob as pálpebras para sorver aquela sensação melhor, e os ditos silenciosos e sincronizados de “eu te amo” em suas bocas molhadas e quentes.
Rapidamente, os dois se separaram, suas bocas agora procurando por outra coisa: ar. Mas suas mentes ainda se concentravam em toda a sincronia de suas línguas, do elo que as ligava, das declarações não ditas que eles se perguntavam se tinham eco...
— Isso significa que... Você me ama também? – perguntou o albino hesitante.
Os olhos cinzentos se reviraram, e Nezumi tocou a marca avermelhada em sua bochecha.
— É claro, seu idiota.
Nunca, nem antes nem depois, Nezumi viu um sorriso tão alegre no rosto de Shion.
E vice-versa.
Inconscientemente, Nezumi passava o dedo pela marca cor de vinho destacada na face alva.
Nezumi não tinha, mas Shion tinha total consciência daquilo, sentindo-se estremecer quando os dedos longos do moreno foram acompanhando-a pela volta que fazia até as costas do albino, onde por fim se instalaram.
— Nezumi... – o garoto mais suspirou que falou. Tão lendo... Tão delicado quanto não deveria ser, era o toque do rato, que parecia formar uma segunda marca sobre a original, só que esta mais quente e, ao seu ver, mais perceptível.
O moreno piscou, talvez entretido demais pelas orbes brilhantes e profundas do menor, que lhe pareciam tão claras, mas tão cobertas de fascínio que ali lhe prendiam.
Ele queria ficar preso naqueles olhos. Queria ser fascinado por elas. Queria entrar fundo naquelas íris, tão cheias de facetas e brilho que o nome mais apropriado seria arco-íris.
E lentamente, os dois cederam às suas tentações, cinzentas e vermelhas.
Puxando-o, o rato tomou aqueles lábios para si, tocando-os com os seus e então umedecendo-os com a língua, até enfim ter a permissão para entrar neles.
A boca de Shion era quente, e aquele calor o invadia...
Suas línguas dançaram. Por tempo indeterminado, dançaram. No calor e molhado de suas bocas, dançaram. E soltando em si cada palavra não dita e motivo não explicado, completaram aquela valsa lenta e tão detalhada que os percorria.
Por fim, se afastaram, sorvendo por alguns instantes o ar que havia entre ambos.
Ao mesmo tempo que precisavam daquele ar, sentiam que precisavam eliminá-lo.
O segundo beijo foi muito mais rápido, igualmente detalhado, e ainda mais quente, espalhando aquele fogo nas bochechas coradas e chegando a depositar em suas testas algumas gotas precipitadas de suor.
A mão de Nezumi nas costas, as de Shion na cintura, ambas brigando com seus corpos e puxando um ao outro com tanta força que não havia espaço nenhum entre seus peitos arfantes e sem ritmo, como não tinha entre suas bocas.
A segunda mão de Nezumi entrou no jogo, acompanhando a cicatriz de Shion por debaixo de blusa branca e percorrendo toda a extensão de suas costas repetidamente.
Ele deixava uma marca de fogo por onde passava. Dentro de si, Shion tremia de calor.
Quando os dois se separaram novamente, as duas mãos do moreno subiram por aquele caminho, removendo a camiseta incômoda, que em questão de instantes jazia no chão, e os dois não apenas se juntaram, mas se chocaram, com tanta força que caíram na cama de Shion, Nezumi exatamente sobre este, as pernas se enroscando e seus corpos começando a implorar para se unir à mesma dança que suas línguas faziam já há algum tempo.
Mas, agora acordado pela surpresa, Nezumi se lembrou que aquele era Shion. O puro, inocente e virgem Shion que ele havia prometido não macular.
Ele pensou em se afastar, mas o menor previu isto e o enlaçou com ainda mais força, não apenas pela cintura, mas pelo olhar.
Seus olhos estavam totalmente decididos. E sua voz soou ofegante e perdida como se estivesse embriagada quando ele disse:
— Prometa que não vai embora depois.
E Nezumi não pôde controlar o alívio, nem a sinceridade, em sua voz:
— Não vou embora. Eu juro.
Então Shion sorriu. E suas mãos voltaram a passear pelo corpo de Nezumi.
Notas finais
Peço desculpas pela SUPER TROLLAGEM de ter feito vocês pensarem que o Shion seria sequestrado, mas era o único jeito que eu conseguia imaginar para eles se reencontrarem, o Shion enganando o Nezumi e seus ratos legal. Sei que ele é inteligente, faria isso.
Próximo capítulo (que será o último) em dois dias ou quando esse tiver 5 reviews, o que vier por último ~trollface~
Fale com o autor