As Luzes Da Cidade
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Os cachorros da vizinhança estavam latindo, e Benji já não conseguia mais se concentrar no que estava fazendo. Espreguiçando-se longamente e deixando que o corpo se acostumasse ao fim do longo devaneio, ele passou os olhos pelo canto inferior da tela do notebook e liberou uma pequena exclamação de surpresa. Uma e meia da manhã. Parece mais. A tênue luz prateada da lua cheia penetrava pelo vidro da janela e inundava o quarto, dando-lhe um aspecto levemente fantasmagórico. Dando uma última espiada no artigo que lia – O caso das máscaras de chumbo: novas testemunhas reacendem o debate sobre a veracidade do mistério – ele baixou a tela do computador e se ergueu da cadeira. Foi até a janela, ergueu a vidraça e pôs a cabeça para fora. Se sua mãe visse aquele gesto àquela hora da manhã, teria um infarto de preocupação. Mas Benji não se importava muito. Em uma cidade pacata como Laranjeiras, nos confins do Rio Grande do Sul, não havia um perigo real com o qual se preocupar, mesmo de madrugada.
O som dos latidos estridentes ecoava pelas alamedas desertas da cidade com tal intensidade que ficava difícil para ele identificar qual a sua origem. Podiam ser os cachorros do velho Quadros, duas quadras atrás da casa dele. Podiam ser os da dona Zélia, que morava na casa amarela diretamente à frente, agora parcialmente ocultada pelas suntuosas sombras do jardim da frente. Ou podiam ser os pastores alemães que ficavam de guarda naquela velha revendedora de carros abandonada há anos, que fora recentemente comprada por um ricaço sem nada na cabeça. Fosse como fosse, Benji não podia deixar de imaginar o que estaria causando tamanho alvoroço. Em certas noites caminhavam por aquelas ruas – relativamente afastadas da avenida central da cidade – alguns garotos indo sabe-se lá pra onde. Seu pai referia-se a eles como “vagabundos maconheiros que não tinham mais o que fazer da vida além de perturbar o sossego alheio”. Ao caminharem pelas calçadas desertas das madrugadas, despertavam os cães com suas vozes altas e iniciavam a sinfonia da noite alta. Mas, naquela noite, havia algo de diferente. Os cachorros não latiam como se tivessem raiva, gana, ferocidade; como se quisessem defender seus lares de eventuais ladrões. Não. Eles latiam com um certo... Pânico? Era isso que ele identificava nos latidos? Pânico? Eu não consigo entender nem quando falam comigo nas entrelinhas, vou entender o que os cachorros latem? Rindo de si mesmo, Benji voltou com a cabeça para dentro do quarto, mas o pensamento não lhe fugia da cabeça. Os cães pareciam mesmo assustados.
Virando para passar os olhos pelo quarto bagunçado, Benji foi tomado de uma vaga inquietação crescente. Passou pela cama desarrumada; pela estante repleta de livros, revistas e embalagens vazias de batata fria; pelo armário, cujas portas jaziam escancaradas, revelando um telescópio amador enfiado entre alguns casacos; e pela escrivaninha, tomada por mais embalagens de comida e pelo notebook. Não se pode esperar que um cara de dezessete anos tenha um quarto arrumado. Sentou-se na cama e pegou o celular no criado-mudo, indo de aplicativo em aplicativo enquanto fazia nada. Era cedo demais pra dormir, mas não havia nada de bom para se fazer. Antes que percebesse, estava escrevendo uma mensagem. “Tédio absoluto. Fazendo o quê?”. Quando a enviou, ficou imaginando o que Jango faria ao lê-la. Provavelmente só vai responder amanhã. Ele acabara de fazer uma longa viagem até Tramandaí com os pais, e a última coisa que iria querer fazer numa hora como aquela era ficar de papo com o namorado carente.
Subitamente, um ruído chamou sua atenção de volta à janela. Um revoar de folhas. Sua mãe tinha um jardim largo na frente de casa, e havia uma mangueira crescendo junto à sua janela. Não seria de se espantar que a folhagem da árvore fosse causar algum ruído. O único problema, é claro, é que aquela era uma noite sem vento. Um gato. Só pode ser um gato. Levantando-se vagarosamente e deixando o celular de lado, Benji esgueirou-se junto à parede até a janela, espiando pela vidraça o gramado lá embaixo. Não havia nada, nem uma única sombra fora do lugar. Os cachorros, no entanto, latiam cada vez mais frenéticos, o suficiente para que Benji concluísse que se tratavam dos pastores alemães. Foi então que aconteceu. Um vulto, esguio, alto, rápido. Benji não pôde definir as suas formas. Ele simplesmente passou pelo gramado, sumindo atrás de alguns ciprestes ornamentais que ficavam próximos à parede da garagem. O som da folhagem despertou Benji do transe, e ele teve que se segurar para não soltar uma exclamação de pânico.
Tem alguém querendo invadir a casa. Sua primeira reação foi afastar-se rapidamente da janela. Se o bandido visse a janela aberta próxima à mangueira poderia facilmente trepar na árvore e alcançá-la. E eu que achava que o segundo andar era o lugar mais seguro. Ficou no aguardo do que aconteceria em seguida, mas houve apenas o silêncio. Sua próxima reação foi atirar-se sobre a cama, agarrar o celular e ligar para a polícia.
- Oi? Alô? Oi? – Sussurrou enquanto olhava nervosamente para a vidraça. – Eu acho que tem alguém querendo invadir a minha casa. É na rua Alvarino Amaral, 145.
— Enviaremos uma viatura para averiguar em instantes, por favor mantenha a calma. – Soou uma voz metálica do outro lado da linha, e em seguida, esta ficou muda. É assim mesmo? Prático assim?
Pôs-se em pé outra vez, com o celular tremendo em sua mão, e esgueirou-se outra vez para junto da janela. O som das folhas sendo mexidas havia retornado, como se alguém estivesse andando entre arbustos. O som era próximo, e Benji teve o cuidado de constatar que não havia ninguém na mangueira. Um cipreste não iria produzir um barulho desses. Espremendo-se contra a parede, tentou alcançar a entrada da garagem com os olhos, e logo avistou, com certa dificuldade, os quatro ciprestes da Itália que cresciam junto ao muro. Não havia nada entre eles, nem uma sombra sequer. Os cães haviam parado de latir, e Benji não sabia se devia se sentir aliviado ou mais temeroso ainda por conta daquilo. Sentiu-se tentado a enviar outra mensagem para o Jango, mas impediu-se quando chegou à conclusão que soaria bobo demais. Oi Jango, como foi a viagem? Acho que vi um bandido no gramado e ele sumiu, mas estou com medo. Beijos!
O som das folhas foi substituída pelo suave som de passos sobre a grama, e Benji sentiu um peso no estômago, abaixando-se o máximo que podia para ficar fora do campo de visão de qualquer um que estivesse no gramado. Para o seu azar, a mangueira não cobria completamente a janela e qualquer um que estivesse na rua, parado de frente para a casa, poderia ver a janela aberta. Cadê essa maldita viatura que não chega? Como se já não bastasse, Benji ouviu um estalo e a luz do corredor que surgia por baixo da porta fechada do seu quarto sumiu. Engolindo em seco, voltou-se para o notebook e constatou que a luz do carregador estava desligada. O filho da puta cortou a eletricidade, é isso? Sentiu o coração explodir no peito e as palmas de suas mãos ficaram encharcadas. O som dos passos parara, e um longo e sonoro uivo reverberou pelas ruas, indicando que os cachorros ainda não estavam completamente satisfeitos. Tentando manter a calma, Benji não conseguiu mais conter a curiosidade e espiou pelo canto inferior da janela o gramado. E, quando se deu conta do que estava vendo, quase soltou um grito. Não havia absolutamente nada lá. Nem quaisquer resquícios de que alguém estivera ali. Aonde ele foi parar?
Benji esperou por alguns minutos e quase enlouqueceu quando a cidade mergulhou outra vez em um silêncio profundo. Não havia mais o som das folhas, da grama e tampouco dos cães. Deslizou os olhos para o visor do celular e xingou baixinho ao ver que Jango ainda não havia respondido e que eram quinze para as duas da manhã. Porra, cadê essa viatura? O único pensamento que lhe ocorria era que os policiais tinham interceptado o meliante no caminho da fuga dele. Mas não fazia sentido. Eles ainda assim passariam aqui, não é? A curiosidade foi vencendo o temor, e Benji ergueu-se, ainda recostado à parede, e foi lentamente parando na frente da janela para checar o gramado. E levou outro susto, quase tão intenso quanto todos os anteriores.
Parado na calçada do outro lado do gramado, perto da rua, havia um único gato escuro como a própria noite, abanando o rabo singelamente enquanto fitava a janela com o seu par de olhos verdes como esmeraldas lapidadas. A inquietação intensa do garoto cresceu quando ele constatou que o gato não estava para olhando para a janela, mas para ele. Longe, os pastores alemães voltaram a uivar para a lua cheia, e Benji desviou os olhos do gato, não aguentando sustentar o olhar do felino. Mas, quando o fez, arrependeu-se imediatamente. Benji havia desviado o olhar para cima, e agora fitava, boquiaberto, o que parecia ser uma dezena de pontos brilhantes deslocando-se vagarosamente no céu escuro da noite, como se desfilassem sobre Laranjeiras. Os pontos de luz pareciam voar em formação, como um bando de pássaros migrantes. As luzes foram desacelerando cada vez mais, até o ponto no qual Benji pôde supor seguramente que estavam estacionadas sobre a cidade. Ele sentiu-se tremendo involuntariamente e um misto de admiração e medo misturou-se ao sangue que corria em suas veias. OVNIs. Dez deles. Mais do que ele havia avistado nos últimos quatro verões passados na chácara da sua vó. Benji aguardou, mesmerizado, mas não houve nada de novo com os objetos. Eles apenas pulsavam sua luz alaranjada, fixos, como um móbile anormalmente brilhante pendurado em lugar algum. A luz que os engolfava parecia viva, intensa, e nem mesmo a claridade do luar era capaz de ofuscá-la.
Quando fotografou a imagem mentalmente, baixou rapidamente os olhos para o celular e começou a escrever uma segunda mensagem, também destinada ao Jango. “Luzes no céu da cidade. Umas dez, em formação”. Havia se esquecido momentaneamente do andarilho no seu gramado, e decidiu que não seria uma ideia sensata mencionar o gato. Jango gostava de ufologia quase tanto quanto ele, e certamente sentir-se-ia animado quando lesse aquilo. Ao terminar, Benji ergueu novamente a cabeça para encarar os objetos, mais lentamente. E, dessa vez, soltou um grito agudo que ecoou pela rua deserta e deixou o celular cair com um baque surdo no assoalho do quarto.
Sentada no galho mais próximo da janela do seu quarto, estava uma mulher esguia, que trajava um vestido longo laranja-berrante e trazia um xale da mesma cor cobrindo os ombros. Aparentava uns quarenta anos, tinha o rosto severo e longos cabelos pretos cheios descendo pelos ombros até chegarem aos seios. Os pés pendiam do assento improvisado e balançavam de um jeito maroto, como uma criança quando senta em uma cadeira alta. Trazia, descansado sobre o colo, o que parecia ser um bastão de baseball que refletia a luz do luar. Quando ela constatou que Benji a observava, sorriu alegremente e acenou com a mão que estava livre do bastão.
- Olá, meu caro. – Ela tinha uma melodiosa voz suave como um manto de seda, mas nem isso foi capaz de aliviar a tensão e o pânico absoluto que agora compunham cada célula do organismo de Benji. – Não grite de novo, pode chamar a atenção que justamente queremos evitar. – Ela sorriu outra vez, aparentemente ignorando a expressão de genuíno pavor que o garoto tinha no rosto. – Também não é preciso ter medo.
Dando alguns passos para trás, ainda em choque, Benji passou os olhos rapidamente da mulher para o gato, e não se surpreendeu ao constatar que ele havia sumido. Respirou fundo e olhou para o céu. As luzes, no entanto, não haviam sumido. A mulher pareceu notar esse último movimento dele.
- Eles vão se demorar, acredite. Mas, venha. – Ela indicou a mangueira com a cabeça, como se quisesse que Benji saltasse da janela para o galho da árvore e sentasse-se junto a ela. – Temos muito a conversar e nosso tempo é curto. Não se esqueça do seu telefone, pode ser útil. E, se eu fosse você, eu fecharia a vidraça ao sair. Essa vizinhança anda muito movimentada ultimamente.
E, dizendo isso, ela sorriu uma última vez e deslizou do galho para o gramado, pousando de pé e segurando o bastão com a mão esquerda.
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