Notas iniciais
Um capítulo um pouco mais longo. Agora que a história começa de verdade.

Eu estou maluco.

Era a única explicação plausível a ser usada naquele momento. Ele só podia ter enlouquecido. Minutos antes ele estivera virando outra madrugada de sábado lendo conspirações na internet, e agora ali estava ele, observando paralisado enquanto uma completa estranha armada andava em círculos pelo seu gramado e ocasionalmente erguia os olhos para contar as dez luzes que cintilavam entre as estrelas. Benji ficou esperando que ela gritasse, chamando a atenção dele para a conversinha que queria ter, mas ela nada fez. Ela definitivamente falava sério quando disse que eles não podiam chamar atenção. Mas que atenção?

Benji correu para seu celular e o ajuntou do chão, verificando outra vez que Jango ainda não havia respondido suas mensagens. Eu poderia mandar outra, pensou ele, olhando nervosamente de soslaio para a janela. Contar sobre a mulher. Ele ponderou por alguns instantes e constatou a insanidade que seria enviar uma mensagem como aquela. Não que alguma coisa em toda aquela história soasse menos insana, mas a presença da mulher de laranja no seu gramado com certeza era o fator mais insólito da história inteira. Benji sabia que devia fechar a janela, ligar outra vez para a polícia e apenas esperar. A coisa mais imbecil a se fazer naquele momento era sair de casa para falar com uma completa estranha. Uma completa estranha armada.

Mas e... E se ela não fosse uma ameaça? Ela dissera algo sobre “eles demorarem”. Estaria ela se referindo às luzes estatizadas sobre o céu de Laranjeiras? A curiosidade de Benji em esclarecer aquela história toda era grande demais para que ele simplesmente ignorasse aquela possibilidade. Fosse quem fosse, aquela mulher definitivamente tinha algo a ver com aquelas luzes. Ele podia ouvi-la caminhando impaciente pela grama. Algo lhe dizia – e Benji era um seguidor fervoroso de sua intuição – que aquela mulher não estava ali para lhe fazer mal. Ela estivera a poucos metros da janela do seu quarto, que, por sinal, estava aberta. Ela poderia ter invadido a residência. Mas e se ela estivesse planejando isso? Afinal, ela estivera caminhando pelo gramado há pelo menos dez minutos antes de entrar em contato com Benji. Ele poderia ter simplesmente surpreendido-a no meio de uma tentativa de invasão. O intuito dela em convocá-lo para uma “conversa” poderia ser justamente se livrar logo dele para dar continuidade à invasão da casa. No entanto...

— Olhe, não quero soar muito apressada ou alguma coisa assim. – A melodiosa voz dela surpreendeu-o em seu devaneio, e ele teve de conter outro grito de espanto e segurar o celular forte para que ele não deslizasse até o chão. Voltou-se à janela e encontrou-a dependurada na mangueira, sem o bastão, que jazia largado no gramado. – Mas nós realmente precisamos nos apressar. A última coisa que queremos é dar a eles tempo de intervir ou de tomar uma atitude.

Benji pensava em um milhão de coisas que poderia dizer àquela maluca, mas a única pergunta que conseguiu vencer o turbilhão na sua cabeça e escapar pelos seus lábios foi a mais óbvia de todas.

- Quem são eles?

Ela sorriu. O sorriso, no entanto, pareceu cansado, ainda que paciente.

- Eu não desperdiçaria o nosso precioso tempo com perguntas para as quais você já sabe a resposta. – Ela içou-se para cima do galho que segurava, sentando uma segunda vez. – Se você realmente faz questão de levantar perguntas, faça as que são realmente relevantes. Por exemplo: quem eu sou? O que eu quero? Como eu encontrei você? E, na minha humilde opinião, a mais importante de todas: O que eles querem?

Benji esperou. Ela estava muito mais próxima da janela do que estivera momentos antes, e, desta vez, completamente desarmada. Era de se esperar que, se ela realmente quisesse liquidá-lo ou invadir a casa, ela fizesse isso de uma vez. A resposta óbvia para aquele enigma era uma só: bater a janela e se esconder. Mas Benji não conseguiu se controlar.

- E... Então? – Ele fez uma pausa, enquanto as palavras formavam-se em sua mente confusa. – Quem é você?

- Meu nome é Rebeca, prazer. – Ela sorriu e passou os dedos pelos longos cabelos escuros, colocando-os atrás das orelhas. – E você é...?

Outra pausa. Benji não sabia exatamente o que estava esperando, mas aquilo decididamente o pegou de surpresa. Só pelo fato dela ter escalado a árvore que ficava junto à sua janela e ter falado com ele com uma naturalidade estranhíssima, como se fossem íntimos, Benji supôs automaticamente que, por alguma razão, ela tinha completa ciência da identidade dele.

- Benjamim. – Ele não tirou os olhos dela um instante sequer, e ela fez um sinal com a cabeça, como se quisesse que ele continuasse falando. Ele, no entanto, parou por aí.

- Ok... Então, agora que nos conhecemos, podemos ir? Não acredito que este seja o melhor local para conversarmos. Não queremos acordar os seus pais.

Meus pais. Benji havia se esquecido completamente deles. O que ele devia fazer? Correr para o quarto deles e alertá-los que havia uma maluca querendo tirá-lo de casa? Ou concordar e ir com ela? Enquanto ele tentava tomar mais aquela decisão, Rebeca simplesmente virou-se de costas para ele e saltou do galho diretamente para o chão, como se tivesse a certeza de que ele, em instantes, desceria atrás dela. Benji deu uma última olhada no celular. Uma hora e cinquenta minutos. Tomando sua decisão, ele enfiou o telefone no bolso da calça e pegou um estilete que deixara sobre a escrivaninha, socando-o no outro bolso livre. Se a mulher decidisse atacá-lo com aquele bastão, ele dificilmente teria chance de se defender, mas a presença do artefato em seu bolso lhe conferia alguma segurança. Respirando fundo e desejando não ter tomado a pior decisão de sua vida, Benji adiantou-se para a janela e saltou dela para o galho da mangueira, agarrando-se habilmente a um nó conhecido e sentando sobre a árvore. Anos de fugas do quarto naquela árvore o haviam preparado para um momento como aquele. Após constatar que os artefatos ainda estavam seguros nos bolsos, ele saltou do galho e aterrissou o chão, pousando ao lado de Rebeca, que o aguardava com os braços cruzados e os olhos cravados nas luzes. Quando Benji ergueu-se, no entanto, ela abriu uma discreta bolsinha de contas verde que trazia atada à cintura, tirando algo de lá e estendendo na direção do garoto.

— Tome. Vai te fazer bem.

Ele hesitou. Deu uma olhada no que ela lhe oferecia e quase riu ao notar que era um bombom. Mesmo assim, ele hesitou.

- Eu não envenenei, sabe. – Disse ela, descontraída. Rebeca simplesmente jogou o chocolate na direção de Benji, que debilmente pegou-o no ar e socou-o no bolso do estilete. Ela, enquanto isso, dirigiu-se ao bastão e pegou-o, deixando-o pender ao lado do corpo. Benji ficou tenso. – Sabe, se eu quisesse te matar, eu poderia simplesmente afundar o seu crânio com o meu bastão, não poderia?

O comentário pegou-o novamente de surpresa, como tudo naquela mulher. É melhor começar a me habituar com isso. Rebeca pareceu notar a expressão no rosto dele, pois sorriu mais radiante ainda.

- Não se preocupe, eu não quero matar você.

- Então o que você quer?

A pergunta saiu antes que ele tivesse tempo de formulá-la de uma forma menos agressiva. Não que isso importasse muito naquele instante, uma vez que Rebeca era uma completa desconhecida.

- Muitas coisas. A princípio, uma casinha na serra, ou talvez um aconchegante chalé no sertão. Quiçá uma casa flutuante no rio Amazonas. Eu adoro essas coisas. – Ela virou-se e começou a andar pelo gramado, com os olhos a examinar as luzes, outra vez. Seu cenho franziu-se em dado momento, como se tivesse visto algo irregular. Irregular talvez como dez pontos de luz no céu? – A questão aqui, Benjamim, não é necessariamente o que eu quero, pois a resposta é óbvia. Eu quero o mesmo que você. E isto seria, antes que você pergunte, assegurar que os eventos desta noite transcorram da melhor forma possível. Embora eu tema que tenhamos um problemão em nossas mãos.

Rebeca repentinamente voltou sua atenção para a sua bolsinha, de onde tirou um artefato redondo semelhante a um relógio de bolso. Após encará-lo por alguns segundos e murmurar coisas que Benji não conseguiu ouvir, ela virou-se para ele, indicando a rua com a cabeça.

- Vamos. Posso responder suas questões no caminho.

E, dizendo isso, Rebeca pôs-se a andar a passos largos pela avenida, sem de fato esperar que Benji a seguisse. Mais uma vez ela demonstrava ter a simples certeza de que ele o faria. E ele faria? Faria. Ela conseguira capturar a curiosidade dele. E, de qualquer forma, ele já saíra de casa. Lançando uma última olhada para as luzes, que estavam ainda na mesma posição que tinha quando ele primeiro as notou, Benji respirou fundo e correu atrás de Rebeca, cujo ritmo de caminhada era intenso. Com alguma sorte, tudo aquilo era um sonho bizarro. Logo eu vou acordar na cadeira do meu quarto. Sim, devo ter caído no sono enquanto lia aquele artigo. Ele de fato lembrava-se de estar um pouco sonolento enquanto lia o website.

- Você... Você disse que temos um... Um problema? – Ele falou atrapalhado enquanto tentava acompanhá-la.

- Ah sim, acho que temos. Não tenho certeza da proporção que os eventos podem tomar, entenda; Pode ser que seja mais uma visita de rotina, mas pode ser também, e eu particularmente desconfio desta hipótese, que eles estejam muito interessados em nos causar alguns... Empecilhos.

— Hã... E com "eles" você se refere aos, hã...

Ela parou abruptamente e virou o rosto na direção dele, abrindo um sorriso irônico. Então ela simplesmente ergueu o indicador para o céu e continuou a caminhar. Lunática, ótimo.

- Os... Hã... Extraterrestres? – Ele sabia que era uma pergunta lógica, mas mesmo assim a fez. Talvez, ao ouvir a resposta, ele fosse acordar daquele sonho maluco.

— Evidentemente. Quem mais seriam? – Rebeca fez uma curva acentuada à direita e seguiu por uma ruela estreita e mal iluminada, deixando Benji ainda mais apreensivo. Que se dane, essa mulher tem um maldito taco de baseball de prata pura.

- E o que eles querem?

Apesar da escuridão, Benji pôde notar um sorrisinho formando-se no rosto dela.

- Esta, meu caro, é a pergunta de um milhão de reais. O que você acha que eles querem?

Ele ainda não havia parado para pensar nisso. Os relatos de visitas de alienígenas eram diversos, mas, geralmente, coincidiam em alguns pontos referentes ao motivo que conduziria um bando de seres de outro planeta ao planeta Terra, provavelmente localizado em outra galáxia. Geralmente as histórias narravam abduções com o intuito de pesquisa ou bizarros experimentos de hibridização, mas ocasionalmente também ocorriam relatos de ataques a civis ou bases militares.

- Eles querem... Hm... Alguma informação? Vão abduzir alguém ou alguma coisa...?

Depois de ter perguntado, Benji sentiu-se um completo idiota por proferir aquelas palavras.

- O buraco é mais embaixo, Benjamim. Não estou aqui para discutirmos o mérito dos avistamentos do passado, muitos dos quais realmente têm estes propósitos que você disse. Esta noite, no entanto, eles vieram até nós com um motivo muito mais simples e resoluto, ainda que suficientemente sério pra preocupar a todos nós. – Ela fez uma pausa, como que para gerar um suspense. Benji não pôde deixar de imaginar que ela estava se divertindo com aquilo. – Eles querem pegar uma coisa.

Não é muito diferente do que o que eu falei, não é?

- E isso seria...? Alguma arma? Uma tecnologia que eles desconheçam?

- Eles entraram em dez naves espaciais de última geração e cruzaram sabe-se lá quantos parsecs até chegar à Terra. Você realmente acha que eles querem a nossa tecnologia, Benjamim? – Ele corou levemente, mas, para a sua felicidade, ela não esperou uma resposta. – Eles querem algo que pertence a eles. Como você deve saber, muitas naves já caíram na Terra e alguns espécimes de certas raças já foram capturados. Você consegue imaginar, Benjamim, a quantidade de material oriundo de outros planetas que temos aqui? E não me refiro apenas aos Estados Unidos. Estou falando em proporções globais.

Ela fez uma outra curva, e Benji notou que eles estavam agora em uma descida acentuada. Já haviam largado o asfalto alguns metros atrás, e embrenhavam-se agora pelas ruas irregulares dos bairros mais afastados do centro de Laranjeiras. Ela sabe para onde ela está indo?

- E isso que eles querem... Está aqui? Em Laranjeiras?

- Acho que isso é relativamente óbvio, não?

Se Benji achava que aquela noite não podia ficar mais anormal e errada, ele estava completamente enganado.

- Os ETs querem invadir Laranjeiras para pegar de volta algo que é deles? E que caiu aqui?

- Se fosse simples assim nós não teríamos os problemas que certamente teremos. – Quanto mais aquela mulher se explicava, menos Benji compreendia o que ela queria dizer. – Benjamim, olhe, as coisas são complicadas, e uma explicação completa do que está acontecendo aqui nos tomaria tempo demais. Um tempo que nós não dispomos. Eu realmente devia ter chegado mais cedo, mas tive um imprevisto desagradável com o meu carro no caminho... – Benji sentiu-se tentado a perguntar, mas Rebeca continuou falando. – Em primeiro lugar, ninguém falou sobre uma invasão. Não seria muito bom para eles, chamaria uma atenção desfavorável.

E estacionar dez naves espaciais alguns quilômetros acima da cidade é uma atenção favorável?

- Entenda, eles têm outros objetivos. É complicado para nós compreender realmente o que eles querem ou pretendem fazer. Temos muitas teorias, é claro, mas a estrada para a incerteza eterna é pavimentada com teorias. – Ela ocasionalmente parava de falar para recuperar o fôlego ou desviar de algum raminho de uma das árvores que cresciam espontaneamente pelas calçadas. – O fato é que existe sim, aqui em Laranjeiras, algo que eles querem de volta, e isso nós sabemos há muito tempo.

- “Nós?”

- Mas nós só descobrimos recentemente o local exato do esconderijo disso que eles buscam. – Ela ignorou completamente a questão. Rebeca fez outra curva e logo eles estavam trilhando um caminho acidentando em uma estrada de Terra que conduzia para fora da cidade. – Veja, eu sei que existem milhões de questões que você gostaria de fazer, e eu sei que é seu direito, já que eu te arrastei para isso, mas é preciso também que você compreenda que nosso tempo é curto demais. Logo eles enviarão as sondas, se é que já não mandaram alguma, e, se tivermos muito azar, antes que esta noite termine eles terão enviado unidades para o campo. Eles realmente querem fazer isso discretamente, mas não vão medir esforços para pôr as mãos no que eles estão procurando, ok? Quanto antes recuperarmos a posse desse material, melhor para nós.

Sondas? Unidades? E depois não é uma invasão!

- Mas e os outros objetivos deles? E se... E se eles quiserem, sei lá, abduzir alguém?

- Você está pensando em homenzinhos verdes de Marte, Benjamim, e o problema aqui é outro!

— Espera um pouco. – Ele parou, e deu-se por conta que eles estavam margeando um pequeno bosque escuro. Alguns metros adiante, Rebeca parou e voltou-se para ele, com uma expressão levemente preocupada no rosto. Ela ergueu os olhos e conferiu as luzes por alguns segundos antes de voltar a atenção para ele. – Eu não sei como você me encontrou e nem por que você está me trazendo pro meio disso, mas eu acho que eu mereço que você abra o jogo comigo. Se eles não querem chamar a maldita atenção, então por que, raios, eles estacionaram dez naves espaciais em cima de uma cidade de trinta mil habitantes?

O silêncio pousou. Rebeca parecia incomodada com a questão, ainda que parecesse dividida entre continuar arrastando Benji para o meio do nada e respondê-la. Ele, porém, limitou-se a fixar os olhos nela e aparentar mais confiança do que realmente sentia.

- O tempo é curto, eu já disse. – Ela falou após alguns segundos tensos. Seu tom de voz era mais brando agora, menos urgente, como fora durante suas explicações anteriores. – Eu não sei o que eles pretendem com essa manobra no ar. Também não sei por que eles mandariam tantas naves. O que sei é que pelo menos um dos objetivos dele nessa visita é reconquistar o que eles deixaram para trás em uma visita anterior. E, acredite, é com isso que você deve se preocupar agora. O papel que você tem a desempenhar é justamente esse. – Ela fez uma pausa e aproximou-se vagarosamente dele, olhando-o diretamente nos olhos dessa vez. – Benjamim... Você precisa encontrar o que eles procuram. E você precisa evitar que caia nas mãos erradas.

Ótimo. Maravilha. Benji levou alguns segundos para processar o que aquela mulher estava lhe dizendo. Como assim ele teria de recuperar o objeto? Não era esse o trabalho dela? Ele supôs que ela o estaria levando consigo para pedir alguma orientação sobre que direção tomar na cidade, mas ele percebia agora que essa hipótese sequer fazia sentido, uma vez que fora ela que os levara até aquele lugar inóspito.

- Por que eu? – Ele perguntou, deixando que a dúvida que o estava martelando finalmente escoasse para fora da sua mente. Desde que tudo aquilo começara, aquela era a maior questão que estava cavando buracos no seu intelecto. – Por que eu? E como você me encontrou? O que... O que eu tenho a ver com tudo isso?

Desta vez, Benji não se surpreendeu quando Rebeca sorriu.

- Seria no mínimo irracional que eu procurasse a ajuda de algum cético, não é mesmo? Sabe, Benjamim, não há muitas pessoas em Laranjeiras que buscam, na Internet, material a respeito de ufologia ou astronomia. – Ela fez uma pausa e voltou sua atenção para o bosque, analisando-o cuidadosamente. – Nós temos como descobrir o que as pessoas acessam na Internet, entenda. Quando eu pus os meus pés nesta cidade esta noite, eu não sabia exatamente o rumo que as coias tomariam, e eu ainda não tenho certeza de como tudo isso terminará. Mas eu sabia que eu poderia contar com um aliado no endereço aonde eu te encontrei. Eu só não tinha certeza se seria você. – Rebeca novamente virou-se para ele, sorrindo. – Mas acho que dei um bom palpite.

- Mas... Por que eu? Por que não... Vocês? Por que não, sei lá, o Exército? A Avin? A FAB? Por que não você?! – Benji sentiu o desespero escapar vagamente pela sua voz, e evitou ao máximo pensar em todos os absurdos daquela situação enquanto aguardava a resposta da mulher.

- Ah, mas a FAB certamente vai acabar se envolvendo cedo ou tarde. Acredito até que os caças deles estejam para chegar, considerando a imprudência deles – Ela apontou novamente para o céu – Em parar essas naves aí em cima. Mas a FAB tem as atribuições dela, e se envolver com os assuntos ufológicos da nação aqui no chão não é uma delas.

- E quanto a você?

- Ora, eu não posso perder mais tempo, Benjamim. Como eu lhe falei, eles tem outros objetivos com esta visita, e tais objetivos requerem a minha presença para que as coisas aconteçam da forma mais normal possível. Se eu fosse me focar apenas em recuperar esse item que eles almejam, bem, eles teriam margem para tomar algumas medidas desagradáveis para todos nós.

- Você falou em “nós” – Benji continuou falando, tentando de todas as formas possíveis se livrar daquele fardo absurdo que Rebeca tentava jogar sobre os seus ombros. – Por que os seus amigos ou, sei lá, aliados, seja lá quem eles forem... Por que eles não podem te ajudar?

- Essa é uma resposta que eu não vou te dar, Benjamim. – Ela limitou-se a responder. Decorridos alguns segundos, no entanto, ela pareceu lembrar de alguma coisa. – Ah, mas não pense que nós somos parte deles, oh não, não seja tão tolo. Nós somos gente, acredite. Mas existem muitas coisas a serem feitas esta noite, e nós não...

- Eu sei. “Não podemos perder tempo”. – Completou Benji, cada vez mais impaciente e desesperado com aquela situação. Repentinamente, algo veio à sua cabeça, e ele voltou-se pra Rebeca mais determinado do que nunca a encostar a misteriosa mulher de laranja na parede. – Escuta aqui, se você insiste com essa história de “não perder tempo” e afirma que, inclusive, chegou “atrasada” na cidade esta noite, por que você ficou rondando a minha casa por uns dez minutos antes de falar comigo? Não teria sido mais prático subir aquela mangueira de uma vez?

Benji esperava que ela fosse sorrir ou fazer algum comentário obtuso, mas, para seu espanto, Rebeca franziu o cenho e encarou-o longamente. Primeiro ele pensou que ela estava tentando inventar uma desculpa para voltar a jogar aquela responsabilidade sobre ele, mas, no entanto, o que Rebeca disse a seguir foi completamente imprevisto e caiu como uma bomba no seu estômago já sacudido.

- Mas... Benjamim... Eu não estive rondando a sua casa. – Ela encarou-o com um quê de preocupação no olhar. – A primeira coisa que eu vi quando cheguei ao seu endereço foi a janela aberta, e eu subi imediatamente na árvore para ver se havia alguém naquele cômodo. Benjamim... Eu não devo ter me demorado nem trinta segundos no gramado.

Notas finais
Apesar para frisar: as frases em itálico ao longo do texto são os pensamentos do Benjamim, exceto, é claro, algumas palavras soltas pelo texto, que estão em itálico pra destacar.