As Lendas de Odrite - O Portão do Infinito
3 Imprevisto
Mais da metade da madrugada já havia passado. Logo o dia chegaria. Simeon e Perry seguiam sobre as costas de Covarde que sobrevoava as planícies abaixo de forma sutil e agradável. Perry não sentia sono. Ficava apenas observando a escuridão noturna enquanto sentia o vento gelado soprar-lhe o rosto. Já Simeon não resistiu e acabou adormecendo sobre o corpo quente do wyvern. Vez ou outra Perry o ajeitava sobre o animal para que não viesse a cair. Simeon teve um sonho estranho. Em seu sonho ele se encontrava em um corredor largo feito de pedras avermelhadas. O teto ficava muitos metros acima. O corredor era mal iluminado e o chão estava desgastado pelo tempo e cheio de buracos onde o piso deveria cobrir. Logo ele sentiu alguém tocar seu ombro esquerdo. Era Perry. Estava todo sujo e com as roupas em trapos. O que não era de se estranhar, mas ele estava ofegante. Simeon notou que estava com seu arco em punho, mas não havia nenhuma flecha em sua aljava. Perry falava com dificuldade.
–Precisamos continuar Simeon. Estamos quase lá.
Sua voz soava como um sussurro, mas ecoava quase que infinitamente no corredor. Logo Simeon ouviu um estrondo vindo de um lugar logo atrás. Pareciam passos de alguma coisa enorme. Ou alguém. Ele sentiu seu braço sendo puxado por Perry que agora assumira uma expressão de desespero. Eles corriam tentando evitar os buracos e declives no chão. Os passos que os perseguiam pareciam estar cada vez mais próximos e o corredor parecia não ter fim. Quando parecia que tudo estava perdido Simeon avistou uma luz logo à frente.
–Vamos conseguir.
Garantia Perry.
Mesmo com a proximidade do que parecia ser o fim do corredor seria inevitável que fossem alcançados. Por alguma razão Perry largou seu braço e parou. Simeon queria parar também, mas ele não controlava suas pernas que continuavam correndo. Ele queria olhar para trás, mas também não conseguia. Nem mesmo conseguia gritar o nome de Perry que estava desesperadamente tentando sair de sua garganta. Finalmente ele alcançou o fim do corredor. Ele foi ofuscado por uma forte luz e, enquanto seus olhos se reacostumavam com a luminosidade seu sonho foi abruptamente interrompido.
Quando se deu conta de que acabara de acordar de um sonho, ele olhou em volta aflitamente. Por algum motivo eles estavam descendo rapidamente. Covarde emitia um som que com certeza era de dor. O wyvern tentava reduzir a velocidade da queda, mas ele não conseguia manter o equilíbrio.
–Se segure Simeon. Acho que vamos cair.
Dizia Perry com voz calma e despreocupada. Parecia que não dava muita importância com a situação em que se encontravam.
Simeon agarrou o pescoço de Covarde e tentou encontrar alguma forma de escapar daquela situação da melhor forma possível. Ele percebeu que o sol já vinha nascendo há sua esquerda e que havia mais a frente um conjunto de pequenas montanhas agrupadas em forma de meia lua. Entre as montanhas existia uma planície gramada e várias árvores que poderiam reduzir o impacto de uma inevitável queda. Simeon conseguiu dizer algumas palavras de encorajamento para Covarde mesmo sem ter certeza de que o animal iria entender.
–Tente aterrissar naqueles campos. Sei que você consegue.
Aparentemente aquilo funcionara. O wyvern inclinou o corpo e contraiu as asas fazendo uma pequena curva em direção à cordilheira. Simeon estava em desespero. Conforme as montanhas ficavam mais próximas sua certeza de que não sobreviveriam crescia. Ele não sabia como Perry podia continuar tão calmo. Quando percebeu que já haviam passado por sobre as montanhas e seguiam direto ao chão Simeon apenas fechou seus olhos e esperou o pior. Há poucos metros do chão Covarde abriu completamente suas asas causando o mesmo efeito de um paraquedas sendo aberto. Simeon apenas ouviu o grunhido emitido pela criatura e apagou. Quando finalmente recobrou a consciência sua cabeça doía. Ele estava deitado em algum lugar confortável. Olhou em volta e se viu em uma casa muito pequena. Menor até do que a casa onde Perry morava. As paredes pareciam feitas com toras de madeira untada com algum material que a dava uma coloração esverdeada. O teto era forrado com as mesmas tábuas que se encontravam no piso. O lugar tinha cheiro de café da manhã. Logo a frente via-se uma mesa de jantar quadrada junto da qual Perry estava sentado comendo e uma senhora lhe servia biscoitos e leite. A cama era baixa e, ao tentar tatear o chão Simeon encontrou seu arco e sua aljava. Ele conseguiu se sentar na cama e suspirou.
–Vejo que você também está bem.
Disse a senhora que estava de costas para ele.
Simeon a olhou enquanto ela se virava e seguia em sua direção. Devia ter cerca de oitenta anos pela sua aparência. Pele flácida e de tom escuro. Trajava uma espécie de vestido de festas que provavelmente não havia sido usado em um baile há algumas décadas. Seus cabelos grisalhos estavam presos em um coque sustentado por um graveto. Seus olhos eram baixos, mas demonstravam bondade. Ela trazia em suas mãos uma xícara que liberava vapor. Seus olhares se encontraram. A senhora se inclinou um pouco e ofereceu a xícara a Simeon que aceitou sem hesitar.
–É chá de ginseng. Vai se sentir melhor.
A voz da senhora era calma e serena.
A cabeça de Simeon ainda pesava. Ele foi com muita pressa ao chá e acabou se queimando. A queimadura o deixou mais desperto. Com cuidado tomou o resto do chá e realmente se sentiu revigorado. Após o chá ele seguiu até a mesa e sentou ao lado de Perry. Ele olhava para o garoto que não lhe dava atenção. A bandeja de biscoitos parecia mais interessante.
–Mais uma fornada está prestes a ficar pronta. Quem vai querer mais um pouco?
Perguntou a senhora.
Perry ergueu o braço instantaneamente enquanto tentava terminar com os biscoitos que ainda estavam a sua frente. Um copo de leite morno foi oferecido a Simeon pela velha. Simeon ficou observando a caneca e resolveu finalmente perguntar.
–O que aconteceu? Onde nós estamos?
A velha tirou a fornada de biscoitos e o pôs sobre a mesa. Perry logo puxou a bandeja para mais perto de si. A senhora se sentou em uma das cadeiras e começou a falar.
–Esse lugar é chamado de Vale da Lua Minguante. Por causa da forma em que as montanhas em volta se distribuem. Eu havia acabado de acorda e seguia para minha caminhada diária. Logo que saí de casa vi alguma coisa voando sobre as montanhas e depois despencando rumo ao chão. Pouco antes de atingir as árvores, aquilo conseguiu reduzir a velocidade da queda e depois desapareceu nas copas das árvores. Eu fui apressadamente até lá e me deparei com o inesperado. Você e seu amigo estavam caídos e inconscientes com apenas alguns arranhões pelo corpo. Um pouco mais a frente um dragão...
–Wyvern.
Interrompeu Perry fazendo finalmente sua voz ser ouvida.
–Wyvern.
Corrigiu a senhora.
–Continuando. Vi o wyvern mais a frente. Ele estava exausto. Mal se movia e sangrava bastante por um ferimento em sua barriga. Eu voltei para casa para pegar minhas ervas e fazer uma pasta curativa que minha mãe me ensinou há muito tempo. Tive que fazer em grande quantidade para poder preencher a ferida do animal. Parecia um corte profundo mal curada que havia sido reaberto. Enquanto eu tratava dele o rapazinho despertou. Parecia um tanto quanto confuso, mas estava bem. Ele me ajudou com o tratamento do wyvern e quando o escamado estava se sentindo melhor o rapazinho me ajudou a colocar você sobre o animal e trazê-lo até minha casa para que você repousasse até agora a pouco. Depois de deixá-lo acomodado comecei a fazer uns biscoitos para vocês.
Simeon terminava de tomar seu leite ao fim da história.
–Não temos como agradecer o que a senhora fez por nós.
–Não há necessidade de agradecer. Na verdade já fazia muitos anos que eu não me sentia útil a alguém. Eu que agradeço.
–E eu agradeço pelos biscoitos.
Disse Perry com a boca ainda meio cheia.
Todos acabaram rindo da situação. Simeon analisou os arranhões pelo corpo e depois perguntou.
–Posso perguntar seu nome?
A velha pareceu satisfeita com o questionamento.
–Meu nome é Zirla Manghun. E agradeço a curiosidade.
Ela sorria mostrando seus dentes ainda bem conservados apesar da idade.
–Eu me chamo Simeon Brendan. E este é meu amigo Perry. Estávamos viajando para o sul.
Respondeu Simeon.
–Imagino que não vão me contar como conseguiram um ...
Zirla olhou para Perry que a encarava esperando seu erro.
–Wyvern.
Ela completou enfim.
–É uma história realmente longa e complicada.
–Não precisa contar se não quiser.
–A senhora vive aqui sozinha?
Simeon continuou com o interrogatório.
Dessa vez a pergunta pareceu desagradável. Zirla respirou fundo como se fosse difícil para ela responder aquela pergunta em especial. Mas enfim ela disse:
–Sim. Vivo sozinha nesse vale há cinquenta e seis anos. Antes disso eu tinha uma família. Eu era feliz vivendo em Bartsu com meu marido e meus três filhos. Nós tínhamos uma pequena fazenda onde cuidávamos de animais diversos. A vida era o que chamamos de perfeita. Mas um dia eles vieram. Nessa época já planejavam incitar a guerra entre as nações para que pudessem assumir o controle de Odrite, mas eram impedidos pelo Juízo Supremo. Mas isso não os impedia de promover o caos e gerar conflitos e ódio. Quando chegaram as portas de nossa casa não tiveram piedade. Mataram meus filhos e meu marido se sacrificou para que eu pudesse sobreviver. Depois disso eu decidi que não poderia mais continuar na cidade e parti sem destino até encontrar este lugar. Quando cheguei a casa já existia, mas estava vazia. Então eu apenas me ajeitei por aqui e estou aqui desde então.
Simeon analisava a resposta mais uma vez percebendo que devia controlar sua curiosidade. Mas não conseguiu resistir e continuou:
–Você disse que “eles” vieram. Quem são “eles”?
–Os dragorados meu garoto. Uma raça maldita que não conhece o amor e a compaixão. Apenas a ambição e a violência. Mas não vale a pena falar disso. Conte-me mais sobre vocês. Posso ao menos saber o que vocês procuram encontrar em sua viagem?
Simeon voltou seu olhar para Perry que terminava de engolir o ultimo biscoito na bandeja. Ele o olhava como se perguntasse se deveria contar a verdade. Não houve necessidade. Perry começou a falar.
–Estamos em busca de um lugar mágico.
Ele falava com empolgação.
A velha não ficou surpresa.
–Que tipo de lugar mágico meu querido?
–É um lugar onde esperamos encontrar uma forma de levar Simeon de volta para casa e reencontrar minha mãe.
–Parece um lugar incrível.
Completou Zirla.
–Estão muito longe de lá?
–Na verdade não sabemos.
Interveio Simeon.
–Temos poucas pistas, mas sabemos que a busca leva cinco dias exatos. Nós partimos noite passada. A única coisa que nos guia é uma frase que diz: Sempre para o sul seguindo. No lugar onde a deusa adormece. A pena da coruja deve ser encontrada.
Zirla ficou pensativa. Parecia associar as informações com algo que sabia.
–Eu acho que posso ajudá-los um pouco mais.
Simeon se endireitou na cadeira e esperava o que a velha ia dizer.
–No fim do vale existe um templo dedicado à Lanara, a deusa dos sonhos. Acima da entrada do templo existe a estátua de uma coruja. Acho que pode ter algo a ver com sua busca.
Parecia fazer sentido para Simeon e Perry. De qualquer forma não custaria dar uma olhada.
–Muito obrigado Zirla. Vamos ter que dar uma olhada nesse templo. Mais uma vez agradeço por sua ajuda.
Disse Simeon levantando-se da cadeira apressadamente.
–Eu que agradeço pela visita meu filho.
–Vamos indo Perry. Já temos nosso próximo objetivo.
Perry pareceu um pouco triste ao ver que ainda havia uma bandeja de biscoitos no forno a lenha, mas estava empolgado em continuar sua aventura. Zirla percebeu seu olhar e disse:
–Se você quiser posso embrulhar os biscoitos para que levem com vocês.
–Muitíssimo obrigado gentil senhora.
Agradeceu Perry com várias reverências.
–E quanto à Covarde?
Lembrou-se Simeon.
–Já está em condições de nos acompanhar novamente?
–Creio que não garoto.
Respondeu Zirla.
–Ele vai precisar de pelo menos mais um dia.
–Tudo bem então.
Aceitou Simeon.
–Acho que somos só nós dois nessa Perry.
Perry colocava os biscoitos que a velha havia enrolado num pano na bolsa de Simeon que já estava em sua capacidade total comportando o livro, os biscoitos, o lampião e algumas maçãs que já começavam a apodrecer. Ele olhou feliz para Simeon e o acompanhou porta afora. Quando saíram se depararam com uma manhã belíssima. Já era por volta de nove horas. A grama alta do vale balançava ao vento. O céu azul sem nenhuma nuvem era ofuscante. Um vento agradável soprava constantemente. Em volta várias árvores dos mais variados tipos e Covarde a uns dez metros abrindo as asas com um pouco de dificuldade para se refrescar na brisa. Ao avistar os garotos foi em sua direção com enorme felicidade. Foi muito acariciado e bajulado.
–Você ainda não vai poder vir conosco, mas vamos voltar pra te buscar. Eu prometo.
Garantia Simeon.
O wyvern definitivamente compreendia tudo e pareceu acreditar nas palavras dele. Perry ainda abraçava o animal enquanto Simeon o convencia que teriam mais tempo para isso depois. Zirla saiu pela porta em seguida. Trazia entre as mãos dois pequenos frascos de um líquido grosso e esverdeado.
–Levem isso também. É muito útil para as mais diversas ocasiões. Vão saber quando for hora de usar.
Simeon aceitou e guardou os frascos no bolso mais fundo de sua calça.
–Seremos eternamente gratos. Voltamos logo para buscar nosso wyvern.
Simeon e Perry acenaram enquanto Zirla os desejava boa sorte e apontava a direção que deviam seguir. Covarde rolava na grama e rugia como se também se despedisse. Os dois caminharam por cerca de meia hora até chegar ao pequeno bosque onde Zirla disse que o templo se encontrava. As árvores aqui eram em sua maioria pequenos pinheiros e sequoias bem distantes umas das outras. Estava tudo muito claro e o chão coberto de folhas ressecadas. As sombras das árvores e o vento garantiam que a caminhada fosse relaxante. Não demorou para encontrar o que buscavam. No meio de uma área circular coberta por grama estava o templo de Lanura. O lugar já deveria ter sido muito belo, mas agora estava em ruínas. Todo construído em pedras brancas que agora se deterioravam exibindo rachaduras e imperfeições. Nas paredes duas janelas cujos vitrais estavam quebrados e eram apenas cacos presos na pedra. Duas colunas da mesma pedra branca sustentavam um arco de metal enferrujado e sobre ele a estátua da coruja que Zirla tinha mencionado. A estátua também estava bem estragada. Várias rachaduras e musgo espalhados pela estrutura já frágil que parecia que ia despencar a qualquer momento.
–Acho que é aqui.
Comentou Perry desnecessariamente.
–E acredito que aquela coruja ali em cima não vai nos dar nenhuma pena.
Simeon concluiu os comentários inúteis.
–Vamos entrar de uma vez e ver o que encontramos lá dentro. Não parece ser tão grande.
Simeon foi na frente sempre cauteloso. Parou em baixo do arco e olhou para trás para se certificar de que Perry ainda estava com ele. Dali ele podia ver o interior do templo por completo. Os buracos no teto permitiam que a luz do sol entrasse e iluminasse o lugar. Tudo que havia ali além das paredes em ruínas e das baratas que perambulavam era um pequeno altar de metal que lembrava chumbo já totalmente enferrujado. Sobre o altar uma pequena peça de metal vermelho forjado com a forma de uma pena que refletia a luz do sol liberando um brilho intenso em volta de si. Simeon encarou Perry que acenou em concordância. Os dois então começaram a caminhar em direção do altar. Porém quando estavam na metade do caminho o piso cedeu. Os dois despencaram até atingir o fundo e desmaiarem.
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