As Lendas de Odrite - O Portão do Infinito
4 O Corredor
Mais uma vez Simeon abriu os olhos confuso e desnorteado. Em menos de um segundo as lembranças vieram todas de uma vez e ele olhou em volta em busca de Perry. Para seu alívio o garoto estava ali ao seu lado, mas ainda estava inconsciente. Simeon não tinha ideia de que altura haviam caído, mas não devia ser muito alto já que ele estava intacto. Nem mesmo arranhões ele encontrou em seu corpo. Nem mesmo os que conseguira quando despencou com Covarde e Perry no vale. Ele olhou para cima esperando ver o buraco onde tinham caído e, para sua surpresa, Não havia buraco. Apenas um teto feito de granito escuro em toda sua extensão. Olhou em volta mais uma vez e se viu em um corredor estreito. As paredes também eram de granito e o chão recoberto por pedras bem ajustadas e organizadas. Às suas costas não havia caminho para percorrer, mas a sua frente o corredor se estendia até onde a visão alcançava. Ele então resolveu tentar despertar Perry. Ele sacudiu o corpo do garoto algumas vezes e gritava seu nome. O som ecoava pelo corredor de forma perturbadora. Depois de algumas tentativas ele obteve êxito. Perry acordou Tranquilamente.
–Onde estamos?
Ele perguntou.
–Não faço ideia.
Simeon respondeu.
–Mas com certeza estamos no subsolo. Nós caímos em um buraco. Lembra?
A expressão de Perry mudou rapidamente ao se lembrar do que havia acontecido.
–Mas não vejo o buraco por onde caímos.
Ele comentou.
–Eu também percebi. Nossos arranhões também desapareceram.
Retrucou Simeon.
–Acho que tem alguma coisa estranha acontecendo aqui.
Perry olhou para seus braços e pernas conferindo o perfeito estado em que se encontrava. Simeon percorreu o olhar procurando suas coisas. Só o que encontrou foi sua bolsa de couro. Ele a abriu e apenas o livro estava lá dentro.
–Talvez seja melhor ver se o livro nos diz mais alguma coisa.
Perry sugeriu.
Simeon concordou. Abriu o livro o folheou rapidamente, mas não encontrou nada. E era nada mesmo. Nem mesmo as informações sobre o portão do infinito estavam lá. Ele num ultimo recurso procurou pela assinatura na primeira página. Nada lá também. A frustração tomou Simeon mais uma vez.
–Mais o que está acontecendo aqui afinal? Que maldito lugar é esse?
Sua voz ecoava enquanto Perry o ficava encarando sem saber o que fazer.
–Acho que devemos seguir por este caminho.
Disse Perry.
Era lógico, mas a mente de Simeon estava com dificuldades até para pensar até no óbvio.
–Você tem razão. Afinal acho que não temos escolha.
Ele guardou o livro na mochila, deu uma ultima olhada para o teto e começou a caminhar. Perry ia logo atrás. A postura sempre despreocupada de Perry começava a irritar Simeon. Eles caminharam por vinte minutos e a caminhada já se tornava agonizante. O corredor era iluminado por tochas fixas nas paredes e se distanciavam umas das outras exatamente dois metros. A impressão que tinham era que caminhavam sem sair do lugar. O corredor era exatamente igual em toda sua extensão. O teto, as paredes, o chão. Nunca mudavam. Sempre o mesmo padrão. Simeon já estava a ponto de enlouquecer quando finalmente viu algo animador. Na parede à direita havia um porta a uns cinquenta metros de distância. Simeon correu até lá e parou em frente à porta. Perry também apressou o passo e o acompanhou em seguida. A porta era de madeira. Estava bem mofada e se encontrava entreaberta. Não possuía maçaneta nem tranca. Da fresta emanava uma fraca luz avermelhada.
–Devemos mesmo entrar?
Indagou Perry.
Simeon não queria entrar, mas não sabia mais o que fazer. Olhou para os dois lados e em ambos o corredor seguia até se perder de vista. Era a única coisa que podiam fazer aparentemente.
–Vamos fazer isso.
Disse Simeon com firmeza.
–Apenas me siga.
Simeon empurrou a porta devagar. A madeira estalava conforme se movia. Um pé após o outro Simeon adentrou a sala. A luz que viram antes vinha de várias velas acesas presas a castiçais na parede. O lugar media cerca de vinte metros quadrados. E aparentemente não possuía nada além das velas.
–O que você encontrou Simeon?
Perry perguntou e foi entrando também.
Antes que pudesse responder uma voz se fez ouvir vindo bem do fundo da sala numa área onde a luz das pequenas chamas não conseguia alcançar. Era uma voz triste. Quase um sussurro.
–Me ajudem.
Simeon tremeu. Não esperava pela voz. Ele deu alguns passos para trás em direção à porta e perguntou.
–Quem está aí?
–Me ajudem, por favor.
A voz repetia cada vez mais fraca.
Perry seguiu até uma parede e retirou um dos castiçais. Ele fez um movimento com a cabeça indicando que queria que Simeon o seguisse.
–Alguém precisa de ajuda. Vamos lá.
Disse o garoto.
Simeon não tinha tanta certeza quanto a isso, mas se alguém estava realmente precisando de ajuda ele não podia simplesmente abandoná-lo lá. Ele então acenou em concordância e começou a seguir Perry em direção ao fundo da sala. A luz das velas começava a atingir a área antes não iluminada e ia revelando o que estava à frente. O que viram foi menos assustador do que Simeon esperava. Porém não menos perturbador. Sentada no chão junto à parede estava uma velha muito magra. Seus pulsos estavam presos em algemas chumbadas na parede mais acima o que a obrigava a permanecer com os braços erguidos. Parecia estar muito apertado. A velha possuía um cabelo ralo totalmente grisalho. Seus olhos estavam fundos e parecia que não comia há semanas. Vestia apenas uns trapos rasgados ainda em pior estado que os de Perry. Sua voz chegava a provocar pena.
–Vocês precisam me tirar daqui. Eu imploro. Já nem sei há quanto tempo estou aqui.
Os dois se olharam. Simeon estava completamente comovido com a situação da velha, mas não fazia a mínima ideia de como ajudar. Já Perry aparentava desconfiança. Não parecia mais estar tão disposto a ajudar.
–Vamos voltar Simeon.
Disse Perry de forma fria.
–Temos que continuar caminhando.
Simeon reagiu como se não acreditasse no que acabara de ouvir.
–Você está realmente sugerindo que nós abandonemos essa senhora aqui? Não vê seu estado? Pensei que você se importasse mais com os outros.
Perry continuava indiferente.
–Você mesmo disse que tem alguma coisa estranha nesse lugar. Já mudou de ideia?
Simeon não sabia como contra argumentar. Então apenas continuou.
–Como podemos lhe ajudar.
Ele perguntou para a velha. Ela virou o rosto lentamente para a esquerda e fixou o olhar num ponto no chão a cinco metros de distancia.
–As chaves. Pegue-as e me livre desse tormento.
Simeon olhou para o mesmo ponto que a velha encarava e viu no chão um molho de chaves escuras. Ele mais uma vez encarou Perry que visivelmente reprovava tudo aquilo, mas não se intrometia. Simeon seguiu até lá e pegou as chaves. Eram cerca de dez e pesavam mais do que aparentavam. Simeon voltou para junto dos outros e encarou as chaves em sua mão.
–Qual a chave que lhe liberta?
Simeon perguntou.
–Você vai saber.
A velha respondeu. Sua voz agora era quase inaudível.
Simeon começou a passar as chaves entre os dedos uma a uma. Todas eram idênticas. De ferro medindo cerca de dez centímetros. Mas uma delas o chamou a atenção. Nela alguma coisa parecia estar gravada. Pareciam letras. E eram idênticas as que ele viu no templo de Raiza. Não teria como descobrir o que significava, pois nem ele nem Perry sabiam aquela linguagem. Talvez a velha soubesse, mas Simeon resolveu ignorar esse fato propositalmente. Ele segurou a chave bem firme, deu uma olhada para a velha e foi em direção à fechadura das algemas. Ele encaixou as chaves, mas antes de virar resolveu perguntar:
–Como a senhora chegou aqui?
Alguns segundos de silêncio se seguiram.
–Eu não sei.
Disse ela finalmente.
Simeon girou a chave. Um único estalo que ecoou por toda a sala e em seguida os braços da velha foram libertos e ela desfaleceu para a frente se debruçando sobre o chão. Perry deu alguns passos para trás. Enquanto Simeon continuava a se preocupar com a velha.
–Você está bem? Perry me ajude a levantá-la.
De repente a voz da velha fez-se ouvir novamente.
–Muito obrigada.
Sua voz já não soava como antes. Parecia mais grave e chiada.
Ela começou a se levantar apoiando-se em um de seus joelhos raquíticos e Simeon se afastou um pouco. Simeon começou a sentir medo da velha. Os olhos dela continuavam fundos, mas não causavam mais compaixão. Causavam pânico. Ela contorcia o corpo como se alguns de seus ossos estivessem voltando ao lugar. Ela abriu um sorriso macabro. Seus dentes eram pontiagudos. Pelo menos aqueles que ela ainda possuía em sua boca. Simeon ficou perto de Perry.
–Não sei quanto tempo mais eu passaria aqui se não fosse por você meu garoto. Fui condenada pelos deuses a passar o resto da eternidade trancafiada neste lugar.
–Quem é você?
Perguntou Simeon com a voz falha.
A velha continuava rindo consigo mesma. Ela rasgou seus trapos na altura do abdômen e perfurou sua pele com as unhas até que sua mão direita estivesse completamente dentro dela. De dentro de seu corpo ela retirou uma esfera de vidro que cabia perfeitamente na palma de sua mão ensanguentada enquanto sua carne se curava numa velocidade incrível. Ela soltou a esfera no ar que levitou até parar sobre sua cabeça. Ela respirou fundo e respondeu.
–Me chamo Lamuria. A bruxa.
A temperatura do corpo de Simeon baixou. Ele tremia e olhava para Perry que continuava imóvel. Da esfera acima da cabeça de Lamuria chamas verde escuro começaram a cair em direção ao corpo da bruxa. As chamas pareciam passear pelo seu corpo decrépito.
–Eu sinto muito.
Disse ela com a voz ainda mais angustiante.
–Você me salvou, mas preciso de almas para recuperar minhas forças. E já que vocês estão bem na minha frente acho que já sabemos como isso vai acabar.
Simeon apenas conseguiu olhar para trás em direção à porta. Mas ele sabia que não conseguiriam fugir. Então ele apenas gritou.
–Corra Perry.
Simeon tentou impedir a passagem da bruxa para que Perry fugisse. Perry correu, mas no meio do caminho ele percebeu que não poderia abandonar Simeon e parou. Ainda viu o momento em que a bruxa ergueu os braços e lançou suas chamas contra as pernas de Simeon que caiu no chão instantaneamente. Para surpresa de Simeon as chamas não o queimavam, mas não permitia que ele sentisse suas pernas. A bruxa deu alguns passos para frente. Estendeu seus braços mais uma vez e liberou suas chamas contra Perry. Ao ser atingido no peito o garoto caiu de costas. Lamuria passou por Simeon lentamente enquanto ele tentava se levantar sem sucesso. A bruxa seguia na direção de Perry. Ao parar junto ao garoto ela emitiu uma gargalhada aterrorizante e falou:
–Então você não queria me ajudar não é? Acho que posso começar por você moleque desprezível.
Perry se contorcia de dor. Mas apesar disso não demonstrava medo o que deixou Lamuria mais irritada.
–Vamos garoto.
Disse ela.
–Se você não chorar e implorar por sua vida não será tão divertido.
Ela estendeu seu braço magérrimo para o garoto e o agarrou pelo pescoço. Ela o ergueu o mais alto que pôde sufocando Perry. As chamas verdes iam do braço da bruxa para o corpo do garoto o que só aumentava sua dor. Simeon chorava enquanto assistia a cena. Se arrependia por não ter dado ouvidos a Perry. Suas pernas inertes eram inúteis e ele sabia que era fraco demais para lutar contra Lamuria. Ele não aguentou mais ver Perry se debatendo enquanto sofria e sua vida se esvaía rapidamente então Simeon virou o rosto para o lado. Foi aí que para sua surpresa ele viu algo que fez seu coração voltar a acelerar. A seis metros dele estavam no chão seu arco e sua aljava. Ele nem teve tempo de pensar em como foram parar ali. Começou a se arrastar até lá o mais rápido que sua situação lhe permitia. Ele ouvia os gemidos de Perry ficando cada vez mais fracos enquanto as risadas da bruxa enchiam o ar. Assim que tocou seu arco sentiu uma coragem anormal tomar-lhe o corpo. Todo seu medo se foi e deu lugar a determinação. Ele preparou uma flecha e mirou nas costas da bruxa. Perry já não se mexia e Lamuria ia com seus lábios na direção da boca de Perry para roubar-lhe a alma. Antes de disparar Simeon reanalisou e mudou seu alvo. Ele disparou a flecha que zuniu e atingiu a esfera que pairava sobre a cabeça de Lamuria. A esfera se despedaçou e imediatamente a bruxa largou Perry no chão e caiu ajoelhada. Em um segundo Simeon já tinha outra flecha preparada e mirada contra o corpo da bruxa. Lamuria gritava e praguejava. As chamas sumiam de seu corpo e ela voltava a apresentar uma aparência inofensiva e frágil. A magia também sumiu do corpo de Simeon e ele voltou a sentir suas pernas. Ele se pôs de pé e gritou:
–Você nunca mais vai fazer mal a ninguém.
Sua flecha rasgou o ar e atravessou o coração de Lamuria. A bruxa se contorceu e se debateu até seu corpo se esvair em cinzas. Simeon largou o arco e correu em direção a Perry. Ele olhava aflitamente o corpo imóvel do garoto. Ele aproximou seu ouvido do nariz do garoto e para seu alívio conseguiu ouvir a respiração fraca dele. Ele agradeceu aos deuses por não ter perdido seu amigo. Debruçou-se sobre o corpo de Perry e voltou a chorar.
–Me desculpe. Eu não te escutei e você quase morreu. Eu prometi que não deixaria mais ninguém te machucar e quebrei minha promessa. Eu sou um fraco.
–Eu te perdoo Simeon.
Disse Perry bem baixinho.
–Agora sai de cima de mim. Não consigo respirar direito assim.
Simeon se encheu de alegria e abraçou o garoto longamente. Ele enxugou as lágrimas e depois de algum tempo de repouso ajudou Perry a se levantar. O garoto ainda estava fragilizado e com hematomas no pescoço, mas conseguia caminhar. Simeon apanhou seu arco e sua aljava assim como sua bolsa com o livro. Ele também conseguiu recuperar as duas flechas que usou para derrotar a bruxa.
–Vamos sair daqui.
Disse Simeon.
–Ainda temos uma longa caminhada pela frente.
Perry concordou e se apoiou no ombro de Simeon que o ajudava a caminhar. Ao se aproximarem da porta perceberam que mais uma vez uma luz se projetava pelo espaço entre a porta e a parede. Dessa vez a luz era mais forte e clara. Perry abriu a porta semicerrada. Para o espanto de ambos foram ofuscados pela luz. Quando seus olhos se acostumaram com a luminosidade perceberam que a porta não dava mais para o corredor no qual seguiam e sim para uma cidade.
Fale com o autor