As Garotas De Hogwarts
55 Porcos dançantes
Notas iniciais
Já se fazia algumas horas que a escuridão intensa da noite cobria a estranha estrutura daquela inconfundível casa. Seus vários andares, suspensos um sobre o outro de uma forma quase displicente, aparentavam ter frágeis alicerces. Porém, quem morava ali sabia que, por mais frágeis que eles parecessem, não os oferecia nenhum risco. Era, sem sombra de dúvidas, uma casa mágica. Isso era visto na madeira, na telha e até mesmo na grama que envolvia toda a base da casa.
Era uma casa muito simples. Não tinha muitos detalhes, nem acabamentos bonitos, nem era grande de uma forma harmoniosa. Comparando-a com mansões como a dos Greengrass, cenário da grande festa que ocorria simultaneamente com aquela cena de calmaria rural, ela poderia ser considerada de péssimo gosto, mal feita e pobre. Mas havia algo nela, talvez apenas a vida e alegria de seus proprietários, que a fazia ter uma personalidade que nenhuma mansão conseguiria alcançar. Ali era um lar.
Enfeitando a noite, estavam as estrelas que, mergulhadas no mar negro, brilhavam felizes, sabendo que ali, naquele local simples, nada poderia ofuscá-las. A lua também brilhava, exibindo-se inteira para quem quisesse ver, iluminando levemente os muitos contornos daquela esquisita casa.
Havia, porém, luz saindo de dentro de alguns cômodos da casa. Esta atravessava as janelas e morria aos poucos na escuridão, perdendo a batalha para a natureza. A luz era amarela, alegre, mostrando que ali dentro ainda haviam pessoas acordadas, apesar da hora.
Os sons que preenchiam o ambiente eram em sua grande maioria aqueles que vinham da área verde que envolvia A Toca, porém, ao se prestar atenção, era possível ouvir barulhos de panelas e copos, assim como risos bobos e gargalhadas.
Aproximando-se da casa e olhando por uma das janelas iluminadas do andar de baixo, via-se um amontoado de fios ruivos, característica marcante dos donos da casa. Via-se também ombros e costas claramente femininos, apesar de serem largos, descobertos quase completamente por uma blusinha branca. Quem olhasse por aquela janela aberta poderia notar alguns utensílios e objetos característicos de uma cozinha, mas isso, é claro, se esse alguém conseguisse desviar os olhos da estonteante ruiva.
Ginevra Weasley estava com o quadril apoiado na bancada de sua cozinha que ficava na frente da janela, como costumava a fazer quando era criança, algo que agora parecia estar muito longe tanto no tempo quanto nas suas memórias.
O vento frio da noite batia nas suas costas quase nuas, causando pequenos arrepios que ela recebia de bom grado. Estava com os braços cruzados sob o peito e mantinha um sorriso no rosto, sentindo alguns de seus fios ruivos fazerem cosquinha em seu pescoço. Seus cabelos estavam presos em um coque displicente, com algumas mechas caindo sobre sua regata branca e sobre seus seios. Suas famosas pernas estavam expostas no pequeno short do pijama, e sua posição as acentuava ainda mais.
–Mione, já tá pronto? -Perguntou, sorrindo ainda mais ao receber um olhar irritado da morena.
–Não está mais pronto do que estava há meio minuto, Gina. Pare de perguntar. -Respondeu cansada, ajeitando a blusa apertada sobre o colo.
Hermione revirou os olhos ao ouvir a gargalhada da ruiva, e, suspirando, voltou a mexer o conteúdo da panela. Seus cabelos ainda mantinham o mesmo corte das férias anteriores, porém mais compridos, e se encontravam molhados e presos por um arco preto, os mantendo longe do que estava preparando.
–Não precisa ser grossa. -A ruiva retrucou divertidamente, esticando uma de suas longas pernas e empurrando o quadril de Hermione com ela, a fazendo perder ligeiramente o equilíbrio.
A morena riu, largando a colher de madeira dentro da panela, que já aparentava ter muitos anos de uso, e se virou para a amiga. Revidou o golpe, atingindo o quadril da ruiva que abriu os lábios em uma falsa indignação, soltando um pequeno grito afetado. Hermione gargalhou, olhando para a amiga, desafiando-a.
Gina estreitou os olhos e seu sorriso aumentou ainda mais, se tornando um tanto quanto maléfico. Projetou seu corpo para frente, já começando a rir, e agarrou o tronco de Hermione com os braços na tentativa de erguê-la, porém sua risada a deixou sem força.
Quando voltou a ter seus pés no chão, Hermione já estava gargalhando tanto quanto a amiga. Acertou alguns golpes sem força nas costas dela, tentando se soltar.
–Me solta, sua vadia. -Falou entre os risos, lutando para conseguir respirar.
–Hermione Granger, sinto-lhe dizer, mas você é tão vadia quanto eu. -A morena, ao ouvir aquelas palavras, perdeu o resto de equilíbrio que sobrava, já que o mesmo estava um tanto comprometido por conta do abraço de urso de Gina e da risada de ambas. Caiu no chão, levando Gina consigo. As palavras que a atingiram de forma dolorosa no dia fatídico no qual achou que sua amigas haviam lhe traído, hoje eram apenas uma lembrança quase cômica e saudosa de uma época em que nada parecia tão ruim.
Tudo havia mudado. Informações que foram chegando e aos poucos estragaram a jovialidade das quatro garotas, as forçando não só a crescer, mas como a envelhecer cedo demais. Hermione soube ali que preferiria reviver a briga e as palavras maldosas ditas naquele dia tão distante do que enfrentar o que viria pela frente. Não tinha medo de morrer, não tinha medo de matar, não tinha medo da guerra e não tinha medo dos segredos. Mas tinha medo do que aconteceria com Gina ao saber das coisas que Luna e ela haviam guardado dela. Ao saber que o amor da garota ruiva estava destinado a morrer. Tinha medo de ver Gina envelhecer por dentro diante de seus olhos e não poder fazer nada.
Ainda assim, ela não se arrependera durante nenhum segundo em ter ido parar na cabana de Hagrid com aquelas outras três garotas. E ela esperava que, no fim, aquilo que todos estavam vivendo agora se tornasse apenas mais uma conversa no chá da tarde, onde elas relembrariam toda sua gloriosa juventude corrompida.
Mas, infelizmente, Hermione talvez não tivesse um futuro.
Hermione e Gina continuaram abraçadas no chão, entre o que restava das boas gargalhadas e algumas lágrimas soltas por conta do momento emocionante e particular de amizade em que ambas estavam. Enquanto se acalmavam, puderam ouvir barulhos de passos na escada.
O ritmo inconstante dos passos entregou a elas a identidade da pessoa que se direcionava para o andar onde ficava a cozinha. Eram passos alegres, sonoros, seguindo ritmos diferentes a cada instante. Às vezes descia normalmente, às vezes ou acelerava ou diminuía a velocidade, podia-se ouvir também sons de pulos, e às vezes as passadas eram até mesmo no ritmo de batidas de música. A morena e a ruiva se entreolharam, rindo baixinho, e se levantaram. Não poderia ser outro alguém senão Luna.
A garota loira não apareceu logo em seguida na cozinha como as outras duas esperavam. E, quando ouviram o som vindo da sala de coisas atingindo o chão, souberam que a loira estava bisbilhotando algo. Gina revirou os olhos, esperando que nada tivesse quebrado, enquanto Hermione voltava sua atenção novamente para a panela.
E, então, Luna entrou na cozinha exalando animação. Estava com os cabelos longos molhados soltos sobre uma camiseta azul celeste que pendia em apenas um ombro. O início de suas coxas estava dentro de um short de algodão branco e usava um par de meias listradas, muito coloridas, que iam até os joelhos. Ela carregava um sorriso no rosto e um objeto retangular debaixo do braço direto.
–Olhem o que eu encontrei! -Falou animada, colocando o objeto sobre a mesa que ficava no centro da cozinha. Com um dos pés puxou a cadeira que ficava mais próxima das amigas, sentando nela em seguida.
–Um rádio? -A morena indagou, virando-se para olhar o que fazia a amiga tão animada.
–Um rádio velho e trouxa. -Respondeu, esticando a mão para começar a apertar vários dos botões da máquina. Hermione, vendo a cena, largou mais uma vez a colher dentro da panela, se afastando da mesma.
–Assim você vai quebrar. -Resmungou, chegando perto do rádio. -Posso sentar?
Vendo o que Hermione queria, Luna saiu da cadeira, logo assumindo o posto de cozinheira. Instintivamente, abriu uma das gavetas, pegando uma pequena colher de metal de lá. Usou-a para provar a comida, e então pegou vários frascos de temperos, ajustando o gosto para o que desejava.
–Será que isso funciona? -A ruiva perguntou, se inclinando sobre a mesa e descasando o rosto sobre uma das mãos enquanto via Hermione mexendo no aparelho.
–Eu não sei, parece muito antigo. -Murmurou, virando o retângulo de cabeça para baixo. -E, se funcionar, não sei se vai pegar sinais de rádios trouxas atuais. -Completou, balançando levemente o rádio.
–Meu pai deve ter conseguido isso no trabalho. — Gina comentou, cutucando o aparelho com o indicador. -Seria muito legal se funcionasse.
Uma concentrada Hermione mexeu no aparelho por vários minutos, procurando uma forma de fazê-lo funcionar. Ela tinha nascido trouxa, então sabia mexer em rádios, porém aquele era muito antigo e ela já estava afastada do mundo trouxa há tempo demais. A ruiva continuava observando com o tronco inclinado sobre a mesa, mexendo os quadris de uma forma quase automática, rindo às vezes da frustrada morena. Luna terminou o preparo do lanche da madrugada e jogou o doce dentro de uma vasilha, levando-a para mesa, onde também passou a observar.
–Acho melhor desistir. -Observou Gina, já cansada, olhando para Luna em busca de apoio. Porém, a loira já não estava mais com sua atenção ali. Observava o teto com um leve sorriso na boca.
–Acho que não vou conseguir. — A morena mordeu os lábios com força, buscando pela última vez uma forma de ligar. -Espera, acho que... -Antes que ela pudesse terminar de falar, uma mão pálida e feminina alcançou o rádio, apertando um dos botões.
Um primeiro som estridente saiu da caixa de som, e, depois de alguns segundos, esse som se transformou numa música conhecida pelos três pares de ouvido presentes. Estava um tanto picotada, o que a mesma mão pálida resolveu ao girar um outro botão.
–Funcionou. -Hermione e Gina falaram juntas, olhando impressionadas para Luna, que agora já afastava a mão do rádio e para alcançar uma das colheres dispostas na mesa.
–Como? -A moreno perguntou indignada.
–Às vezes a resposta é só apertar os botões. -Luna falou já com a boca cheia do doce que preparara e estendeu a mão para desligar o rádio.
A música que tocava baixo parou, e Luna empurrou duas colheres para as amigas. Gina tocou o ombro da amiga morena, sorrindo de lado. Hermione revirou os olhos, já sabendo o que viria pela frente.
–Nem ouse falar isso. -Ameaçou, mas não conseguiu evitar um sorrisinho.
–Eu não ia falar nada. -Disse, mas fez menção de abrir a boca para falar mais algo, o que Hermione não deixou.
–Não. -Ordenou, lançando um olhar de ameaça para a amiga.
Gina e Hermione se entreolharam por alguns segundos, e quando a morena teve certeza que a amiga não ia falar nada, desviou o olhar e pegou uma das colheres.
–Se tivesse um manual, eu tenho certeza que você conseguiria ligá-lo. -Gina falou rapidamente assim que teve chance, piscando para a morena que se virou para ela, sorrindo falsamente amigável.
–Vou fingir que isso foi um elogio. -Disse com a voz doce, levando a colher cheia à boca.
–Enquanto você faz isso, bota os peitos para dentro da blusa. -A ruiva sorriu maldosa e a mão de Hermione voou para seu decote, tampando-o. Depois de examiná-lo, subiu um pouco a blusa branca.
–Ótimo Gina, estragou a minha vista.
A voz, é claro, não veio delas. Era claramente masculina, e a mesma tinha um tom de divertimento nela. Ao ouvi-la, os olhos das três garotas voaram para a direção de onde veio a voz, encontrando não apenas um possível dono, mas dois, idênticos.
–Eu estava quase com saudade de vocês dois. -A ruiva falou para os irmãos, recebendo um par de sorrisos brincalhões. Ela não precisava olhar as roupas para saber quem era quem, por mais que fosse fácil, tendo em vista que vira ambos naquela manhã antes de saírem para o trabalho e depois, novamente, quando apareceram para o almoço. Ela conseguia ver as pequenas diferenças. George era um pouco mais alto e mais forte, porém Fred tinha os traços do rosto mais harmoniosos.
–Eu não. Talvez do George. -Hermione completou piscando para o gêmeo que ela sabia ser Fred, e o mesmo olhou para ela com umas das sobrancelhas levantadas.
–E eu realmente não ligo para nenhum de vocês. -Luna comentou dando de ombros, fazendo todos rirem.
–Você está sempre com saudade de nós, irmãzinha. -Fred contrapôs, se aproximando da mesa, contornando-a, e puxou uma cadeira ao lado de Hermione.
George continuou afastado e nada comentou. Estava encostado charmosamente no batente da porta, com os braços cruzados. Seus olhos estavam intensamente colados no chão. Seu humor estava completamente estranho.
–Porque chegaram tão tarde? -Gina perguntou. Fred encarou George antes de responder.
–O almoço em casa nos atrasou. Tivemos que ficar resolvendo alguns problemas na loja. -Explicou, provando a comida. -Isso aqui está maravilhoso! -Exclamou com a boca cheia, piscando para Hermione.
–É por isso que você está tão mal-humorado? -Gina perguntou a George, que lançou um olhar quase seco a ela.
–Meu humor está completamente normal. -Retrucou sério.
–Eu te conheço desde que nasci, acho que sei quando seu humor está normal, e agora com certeza não está. -A ruiva insistiu, olhando-o preocupada.
–George não quer admitir, mas ele está preocupado com Astoria. -Fred explicou, fazendo o irmão o fuzilar com os olhos.
–Isso não é verdade. -O gêmeo resmungou, desviando os olhos das pessoas na cozinha.
–Não tem problema. Nós também passamos o dia preocupadas com ela. Ela está bem, tenho certeza. -Hermione tentou reconforta-lo, mas não pareceu surtir efeito. George apenas olhou para a morena, decidindo se falaria algo ou não. E, depois de alguns segundos, suspirou.
–Se ela estivesse bem ela já estaria aqui. -Falou finalmente. Luna, que por algum milagre realmente prestara atenção na conversa, sorriu docemente para o ruivo.
–Se ela não estivesse bem nós saberíamos.
George não sabia o porquê, mas ficou mais tranquilo depois de ouvir aquilo. Parecia que depois de passar tanto tempo juntas elas haviam realmente estabelecido uma conexão. Talvez não tão forte quanto a que ele tinha com seu gêmeo, mas era provável que chegasse perto.
Não demorou muito para ele também se juntar a mesa, sentando-se ao lado do irmão. Conversas leves se fizeram presentes, nas quais os gêmeos contavam o que aconteceu no trabalho e as garotas narravam seu dia. O clima já estava bem mais leve quando eles iniciaram um novo assunto, conversando sobre como as garotas passavam as noites quando estavam de férias. Muitos detalhes foram omitidos, mas os gêmeos ainda assim se divertiram com o assunto.
–Então, aproveitando o assunto, o que vocês querem fazer durante a madrugada? -George perguntou, terminado de lamber a colher.
–Dormir? -A morena falou como se fosse obvio, levando um leve empurrão do corpo próximo de Fred.
–Não seja tão chata. -George falou, recebendo apenas um revirar de olhos como resposta.
–Eu estava pensando em nadarmos pelados. -O outro gêmeo lançou a ideia. Hermione apertou a ponte do nariz com os dedos, impressionada com a facilidade de Fred de brincar com tudo. Gina balançou a cabeça negativamente, fazendo cara de nojo.
–Ah, não. Obrigada. Não quero ver meus irmãos pelados. -Estremeceu.
–Por mim tudo bem. -A voz, é claro, veio da única pessoa que poderia dar essa resposta. Luna sorriu, alheia a gargalhada que encheu a mesa.
–Luna... -Hermione começou, sendo interrompida.
–Eu!
A morena resolveu deixar para lá. Sabia que a loira não entenderia que o que disse não era certo, pois para ela realmente não era. E essa era uma das coisas mágicas em ser Luna Lovegood. Era fácil e ao mesmo tempo difícil ser ela. Todos a julgavam pelo seu estranho modo de viver, mas ela realmente não ligava. Bem, ela quase nunca ligava.
–Acho que vamos esperar Astoria e Pansy, aí nós podemos colocar música e comemorar. -Gina sugeriu, apontando para o rádio e sorrindo maldosa para Hermione, que a ignorou.
–Pansy está vindo também? -George perguntou, mais incrédulo do que curioso. Seria estranho ter duas sonserinas na sua casa, principalmente quando elas estavam acostumadas com belas mansões.
–Se não a mataram, sim.
Isso, mais uma vez, veio de luna. Ela não falara com um tom maldoso, nem ao menos parecera triste ou temerosa. Apenas falara aquilo como alguém diz um "Bom dia". George trocou um olhar com Hermione, que apenas indicou para que ele ignorasse, ele o fez.
–Desculpa estragar a animação, mas nossos pais dormem. Não podemos colocar música. -Foi apenas o que ele disse, fazendo Gina e Fred revirarem os olhos.
–Você com esse humor fica um saco. -Fred comentou. -Levamos a música lá para fora, creio que os porcos não vão se incomodar.
–Os porcos precisam dormir. -Luna foi mais uma vez prontamente ignorada.
–Na verdade, é até que uma boa ideia. -A morena recebeu um sorriso de lado do gêmeo, e ela soube que ele faria questão de brincar com ela.
–Eu mereço um beijo por ela? -Provocou. Hermione riu debochada, e, imitando o que fez naquela manhã, se aproximou do rosto de Fred até notar uma reação similar a que recebeu.
–Nos seus sonhos. -Disse. Fred sorriu de lado e esperou a reação do irmão, que não perderia a oportunidade de implicar com o ele. Mas, como essa não veio, ele soltou o ar, olhando quase desesperado para George.
–Eu quero meu irmão de volta.
O outro ruivo apenas revirou os olhos, e, ao fazer isso, deu de cara com uma cena da qual não gostou muito. Ou melhor, deu de cara com alguém fazendo algo que ele não gostaria de ter visto.
–Potter. -Falou, chamando atenção tanto do garoto que estava parado na porta, quanto das pessoas da mesa, que se viraram para encarar o moreno. — Você pretendia ficar quanto tempo aí parado olhando as pernas da nossa irmã?
Um sorriso maldoso apareceu no rosto de Gina. Ela sabia que a posição que estava valorizava e muito suas já maravilhosas pernas, e não poderia dizer que não estava fazendo aquilo de propósito. Sabia que uma hora ou outra Harry terminaria entrando na cozinha, só não esperava que aquilo seria tão satisfatório como estava sendo. Nossa, como ela amava os gêmeos.
–E-eu... -Harry tentou falar, mas já começou gaguejando, entregando-se.
–Apreciando a vista? -Gina indagou, venenosa. Harry subiu os olhos para os dela, envergonhado por ter sido pego.
Harry sabia que não podia simplesmente não olhar para Gina. Desde que seu corpo descobrira que o corpo de Gina não era mais o de uma criança, ele não conseguia esquecê-la. Ela assombrava ele em todos os momentos do dia, e a situação piorara desde que ela chegara n'A Toca, principalmente porque ela sempre estava usando aqueles malditos shorts curtos e sempre malditamente perto dele.
–Abaixa os olhos de novo e vai ficar sem eles. -Fred avisou em um tom ameaçador. Harry voltou os olhos para os belos olhos da ruiva pois, sem perceber, já havia descido eles novamente.
–Babaca. -Desta vez, os gêmeos falaram juntos.
–Falando em babacas, onde está meu outro irmão? -Gina perguntou, sorrindo para a cara de satisfação de Hermione ao ouvir isso.
Não houve tempo para respostas, pois antes que alguém pudesse pensar em uma algo os interrompeu. Sons de coisas caindo no chão chegaram a cozinha, assim como aconteceu mais cedo durante a procura de Luna pelo rádio. Gina revirou os olhos cansada.
–Que merda Luna está fazen... -Sua voz foi morrendo ao se lembrar que a loira nunca havia saído da cozinha, e continuava lá, sentada, sorrindo para o ar como só ela sabia fazer.
Hermione e Gina se entreolharam, e, meio segundo depois, já estavam em pé e correndo para sala, atropelando Harry no caminho. Elas foram seguidas quase que prontamente por George e Fred. Apenas depois de alguns minutos Luna se juntou a eles.
Foi uma decepção chegar na sala e não encontrar ninguém lá, apenas uma horrível bagunça no chão, que consistia em alguns itens de decoração, provavelmente tudo culpa da loira lunática.
Porém , antes que eles pudessem dar meia volta, ouviram duas vozes femininas vindas de trás do sofá. E, ao se aproximarem, encontraram dois pares de pernas e dois pares de saltos caríssimos, assim como um amontoado de tecido.
–Você vai rasgar meu vestido. -A voz enjoada e afetada era amplamente conhecida pelas garotas, que puderam então abrir um sorriso de alívio.
–Acredite, Pansy querida, não será uma grande perda. -Ao ouvirem a voz de Astoria, lágrimas de alívio quase saltaram dos olhos das garotas. A ruiva e a morena se jogaram sobre as duas garotas, não se importando realmente se uma delas iria apreciar isso. Luna veio logo depois, se tacando com força sobre todas.
–Eca. Acho que sou alérgica a gente boa. -Pansy reclamou, mas aceitou o abraço.
–Eu senti tanta falta de vocês. -Astoria falou em meio a confusão de abraços, beijos e lágrimas. -Pansy é horrível. -Brincou, fazendo todas rirem, o que causou um efeito engraçado já que estavam todas amontoadas no chão.
–Deveria ter ouvido minha intuição e feito outra maquiagem de palhaço em você. -Disse, soltando um grito ao ser atingida por um dos salto de Astoria. A loira havia feito de propósito, mas negaria para sempre, juntificando que fora por conta da confusão.
–Meu amor, com um rosto desses eu fico linda de qualquer forma. -Ironizou, conseguindo se levantar com ajuda das amigas. Deixou Pansy no chão, que a olhava indignada.
–Vocês não vão me ajudar a levantar? -Perguntou, mas foi ignorada. -Sério mesmo? -Disse indignada. -Tudo bem. Ingratas. -Resmungou, apoiando-se no sofá para tentar se entender no próprio vestido.
Astoria nem ao menos ouviu o que a garota falava. Seus olhos estavam presos nos de George, e ela não via nem ouvia mais nada a não ser ele, e era mútuo. Ela estava ansiosa para utilizar sua recentemente adquirida liberdade, e não via melhor jeito do que comemora-la da melhor forma possível.
Assim, segundos depois, ela já estava jogada nos braços dele, sendo devorada e devorando-o por um beijo que demonstrava que ela finalmente estava inteira naquilo. Era a terceira pessoa que ela beijava naquela noite, mas quem se importava? Ela com certeza não.
Hermione olhava a cena de fora, encantada. Ela podia sentir que alguma coisa em Astoria havia mudado, na verdade, todas as três amigas puderam sentir. Souberam de cara que aquele beijo não era apenas uma vontade de Astoria, mas sim uma necessidade.
Fred se aproximou da morena, a abraçando pelos ombros, também observando a cena. Estava feliz pelo o irmão, mesmo sabendo com quase certeza que ele sairia dessa machucado. Não era possível não sair. Ele nunca iria esquecer de Astoria, assim como ele nunca esqueceria de Hermione. Ele sabia que sairia machucado, mas não se importava. Valeria a pena.
–Eles são tão fofos juntos. -Hermione comentou, deitando a cabeça no ombro do ruivo, que sorriu.
–Acho que poderíamos aproveitar o clima e...
Antes que ele pudesse terminar a boca de Hermione estava colada na dele em um beijo que ambos esperaram bastante. Ela correu os dedos pelo cabelo ruivo macio dele, e ele envolveu a cintura dela com os braços, a levantando. Era um beijo doce, porém sedento. Carinhoso, porém rápido. Era um beijo muito bom.
Quando eles pararam, Fred não a abaixou. A deixou presa a ele, olhando-a nos olhos, sorrindo de lado. Hermione também sorriu, sabendo que Fred estava se sentindo muito bem consigo mesmo naquele momento.
Porém, o ruivo logo teve que largar Hermione com a chegada de seu outro irmão na sala. Ele não parecia nada, nem um pouco mesmo, feliz com a cena. Seu rosto estava contorcido numa careta de ódio e seus passos era largos e pesados.
Ele ficava atraente quando estava com ciúmes.
–O que está acontecendo aqui? -Perguntou com o maxilar retesado de raiva. Suas mãos estavam fechados em punhos, mostrando toda sua irritação.
–Meu irmão está sonhando acordado. -George brincou, separando -se do beijo levemente, mas foi logo puxado de volta, mesmo assim levando três olhares raivosos.
–Essa foi uma ótima hora para o seu senso de humor voltar, George. -Fred disse entredentes. O outro ruivo simplesmente deu de ombros durante o beijo.
–Eu não estou falando sobre o que eu acabei de ver, já estou acostumado. Hermione fica com quem ela quiser, Merlin sabe como eu sei disso. Você é só mais um. -Disse, claramente com raiva da situação, mas riu debochado do irmão. Fred soltou um risinho.
–E Merlin sabe como você também queria ser mais um. -Hermione rebateu, piscando para Rony, que engoliu em seco.
–Não é hora de discutir isso. -Escapou. -Quero saber o porquê de termos duas cobras em casa. -Disse apontando para Pansy, que agora estava perto de Gina e Luna, e para Astoria.
–Vocês estão malucas. -Harry finalmente se pronunciou, parecendo perturbado. -Vocês querem me matar?! -Aumentou o tom de voz.
–Somos os únicos lúcidos aqui? -Rony perguntou, passando a mão pelos cabelos, claramente transtornado. -Ela não é bem-vinda aqui. -Disse a Pansy.
–Tem outros milhares de lugares que eu preferiria e estar, mas eu estou aqui porque estou ajudando. E o que você está fazendo? -A garota retrucou irritada, ajeitando o vestido verde sobre os seios. Ronald simplesmente a ignorou.
–Continuar aqui é um erro se você preza por sua vida -O moreno falou, já em busca de sua varinha. Gina levou a mão a testa, envergonhada.
–Isso foi uma ameaça? Estou tremendo de medo. -Zombou, irritada, alcançando sua varinha no bolso do vestido.
–Ronald Weasley e Harry Potter! Que falta de educação é esta na minha casa?
As palavras gritadas vinham das escadas, e quando todos se viraram para olhar, ficou claro que era a matriarca da família quem estava se aproximando. Molly estava vestida com seu pijama e, em passos rápidos, chegou perto das duas garotas, examinando-as. -Pansy e Astoria, seja bem-vindas. Pansy, você ficou adorável de verde. -Disse carinhosa, tocando o ombro de Pansy.
A garota sonserina sorriu vitoriosa para os garotos com quem discutira, que olhavam boquiabertos para a cena. Os outros presentes tetavam segurar o riso, sem muito sucesso. Eles sabiam que Molly Weasley adorara Pansy Parkinson desde a primeira vez que elas trocaram uma palavra, e também sabiam que Rony e Harry não faziam ideia disso e não esperavam por essa.
Não mesmo.
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