As Fendas da Máscara
6 Ecos Entre as Cinzas
Os dias seguintes decorreram com uma estranha normalidade. A viagem prosseguiu sem grandes incidentes, e ainda assim havia algo diferente entre Naak e Akael. Não era hostilidade, nem desconforto verdadeiro. Era apenas uma distância subtil, quase invisível, criada depois da conversa junto à fogueira.
Ambos continuavam a funcionar em perfeita sintonia sempre que era necessário: recolhiam lenha juntos, preparavam o acampamento sem sequer precisarem de trocar palavras, alternavam vigias nocturnas e mantinham-se atentos a qualquer sinal do culto.
Porém, existia agora um silêncio diferente entre eles, um silêncio carregado de pensamentos que nenhum dos dois parecia disposto a verbalizar primeiro.
Ao fim de vários dias de viagem, finalmente avistaram o destino.
A pequena aldeia erguia-se entre montanhas cinzentas, cercada por paliçadas de madeira envelhecida e tochas acesas mesmo durante o dia, como se o medo tivesse substituído completamente qualquer sensação de segurança. Assim que atravessaram os portões, foram recebidos pelo responsável da aldeia, um homem já de idade avançada, de barba grisalha e rosto cansado.
— War Lord… — murmurou ele com respeito, inclinando ligeiramente a cabeça ao reconhecer Naak. — E suponho que o senhor seja o Warlock de quem recebemos aviso.
Akael limitou-se a acenar.
O responsável rapidamente ordenou aos guardas que levassem os cavalos para o estábulo antes de conduzir ambos até aos seus aposentos. O local era simples, mas funcional. Os mapas cobriam a mesa central e pequenas marcas vermelhas espalhavam-se pelo território do Santuário.
Naak aproximou-se imediatamente. Os olhos dela analisaram cada ponto marcado.
— Todos estes locais… — disse friamente.
— Ataques relacionados com o novo culto — respondeu o responsável. — Nos últimos meses aumentaram drasticamente. Pessoas a desaparecerem. Vilas que ficaram destruídas. Sobreviventes que enlouqueceram. Entre outros casos.
Akael observava o mapa em silêncio. O responsável suspirou pesadamente antes de continuar.
— Contudo, conseguimos capturar um deles há poucos dias. Um membro do culto.
Os olhos semicerrados de Naak ergueram-se de imediato.
— Levem-nos até ele.
A prisão subterrânea da aldeia era húmida e mal iluminada. Correntes pendiam das paredes e o cheiro a ferrugem misturava-se com sangue seco. Na maior cela encontrava-se o homem do culto, sentado no chão, acorrentado.
Quando levantou a cabeça e viu Naak, sorriu.
— Que honra… a grande War Lord em pessoa.
Naak aproximou-se sem qualquer emoção no rosto.
— Sabes porque estamos aqui.
O homem riu-se baixo.
— Imagino.
— Dá-nos a localização principal do culto nesta região.
O homem inclinou a cabeça para trás, soltando uma gargalhada rouca.
— Vieram tarde demais. Mudaram-se há dias.
Naak manteve o olhar frio.
— Isso não importa. Quero a localização.
O membro do culto acabou por ceder, revelando o local de uma antiga caverna usada pelo grupo antes da mudança.
— Boa sorte — murmurou ele no final. — Vão precisar.
Naak virou-lhe costas sem responder. Quando regressaram à superfície, informou simplesmente o responsável da aldeia:
— Já temos o que precisamos. Façam o que entenderem com ele.
Pouco depois, ela e Akael montavam novamente os cavalos em direcção à localização indicada.
A entrada da caverna encontrava-se escondida entre formações rochosas e árvores mortas. Havia marcas evidentes de utilização recente: pegadas, restos de fogueiras e caixas abandonadas.
Naak entrou primeiro e Akael seguiu-a atentamente.
Exploraram cada corredor com cautela até ouvirem um som metálico vindo atrás de uma velha estante de madeira.
Naak tentou afastá-la, mas o peso era demasiado, onde Akael aproxima-se e sem esforço, move a estrutura para o lado, revelando umas escadas escondidas.
Ao descerem, encontraram algo pior do que esperavam. Várias celas alinhavam-se no subterrâneo e lá dentro delas… pessoas. Ou aquilo que restava delas.
Algumas batiam violentamente nas grades. Outras murmuravam coisas incompreensíveis. Havia olhos vazios, corpos mutilados e marcas negras espalhadas pela pele.
Quando uma das figuras tentou atacar Naak através das grades, ela afastou-se imediatamente.
— Já não há recuperação possível, para estas pessoas. — disse friamente. — As mentes delas foram destruídas.
Akael não respondeu. Naak continuou a inspeccionar cela após cela, confirmando o inevitável.
Até chegar à última. A mulher dentro daquela cela permanecia estranhamente calma. Naak aproximou-se lentamente.
— Ei…
A figura ergueu lentamente o rosto. E naquele instante, o mundo pareceu parar. Os olhos de Naak abriram-se ligeiramente pela primeira vez em muito tempo.
— …Masayu?
A mulher aproximou-se rapidamente das grades, estendendo o braço trémulo.
— Naak…
A voz era fraca, mas real. Naak agarrou imediatamente a mão dela, tentando confirmar se aquilo não era mais uma ilusão de Ukho.
Mas, não era mesmo ela. A sua irmã mais nova. A irmã que todos julgavam morta. Após Naak e o seu pai terem recebido a notícia que Masayu tinha sido raptada numa tarde quando, passava junto ao lago, fora de sua casa.
Sem hesitar, Naak destruiu a fechadura da cela com magia. Assim que saiu, Masayu abraçou-a com força, começando a soluçar baixinho. Durante alguns segundos, Naak ficou imóvel, onde depois lentamente retribuiu o abraço.
— Vou tirar-te daqui. — murmurou.
A viagem de regresso ao castelo foi completamente diferente da ida.
Masayu permanecia montada atrás de Naak, agarrando-se a ela como se tivesse medo de desaparecer novamente. Durante as pausas, ambas colocaram anos de ausência em conversa.
Masayu falava sobre pequenos detalhes do passado, sobre memórias de infância, onde Akael observava aquilo em silêncio. E, de certa forma… achava reconfortante
Mas, quando Masayu falou sobre a forma como tinha sobrevivido, despertou a curiosidade de Naak. Havia algo naquela história que continuava por esclarecer, e ela queria compreender o que realmente tinha acontecido naquele dia, junto ao lago.
— Masayu, o que aconteceu realmente naquele dia em que foste raptada? Como é que conseguiram levar-te? — perguntou Naak.
Masayu permaneceu em silêncio durante alguns instantes, tentando organizar as memórias dispersas.
— Lembro-me apenas de fragmentos. Tudo aconteceu tão depressa... — respondeu, fazendo um esforço para recordar. — Do que consigo lembrar, dois homens com o rosto tapado aproximaram-se de mim. Perguntaram-me se eu era filha do nobre da região e eu respondi que sim.
Fez uma breve pausa, franzindo ligeiramente o sobrolho.
— A última coisa de que me recordo é de um deles me ter dado um golpe no estômago. Não foi muito forte, mas deixou-me sem reacção. Depois disso... acordei naquelas celas, onde me encontraste.
Naak assentiu lentamente.
— Estou a perceber.
— Não tenho muitas recordações do que me faziam quando me tiravam da cela. Davam-me sempre alguma bebida antes de me levarem. Bastavam alguns goles e perdia completamente os sentidos. Era como se entrasse numa espécie de transe. Tinha consciência de que estava algures, mas não conseguia perceber o que estava a acontecer à minha volta.
As palavras de Masayu deixaram Naak pensativa. Durante alguns momentos, o silêncio instalou-se entre ambas, interrompido apenas pelo crepitar da fogueira.
Por fim, Naak levantou-se.
— Amanhã ainda temos mais caminho para percorrer. É melhor ires descansar, Masayu.
— Sim, tens razão.
Masayu ergueu-se e dirigiu-se à cama, preparando-se para passar a noite.
Naak permaneceu junto à fogueira durante mais algum tempo, acompanhada por Akael. O brilho das chamas dançava nos seus olhos, mas o seu pensamento parecia distante. Akael reparou na expressão carregada dela e percebeu que os acontecimentos dos últimos dias continuavam a ocupar-lhe a mente.
Não disse nada a Naak. Limitou-se a permanecer ao seu lado, oferecendo-lhe a sua silenciosa companhia até que, mais tarde, Naak recolheu-se para descansar.
Quando finalmente regressaram ao castelo, Azenha recebeu-os pessoalmente no pátio. Assim que desmontaram dos cavalos, Naak apresentou a irmã à princesa.
— Preciso que seja examinada imediatamente.
Azenha percebeu pelo olhar de Naak que não era um pedido qualquer. Sem hesitar, chamou o médico real. Enquanto Masayu era levada, a princesa conduziu Naak e Akael até aos seus aposentos. No centro da sala encontrava-se um enorme mapa do Santuário.
— Recebi novas informações enquanto estiveram fora. — começou Azenha. — O culto mudou-se recentemente para esta região. Ela apontou vários locais marcados.
— Quero que investiguem todos estes locais.
Nesse momento bateram à porta, onde Azenha pediu para entrar. O médico entrou segurando vários documentos. O rosto dele estava tenso. Naak percebeu imediatamente.
— Fale.
O médico respirou fundo.
— O estado físico da sua irmã é… um pouco preocupante.
A divisão mergulhou em silêncio.
— O corpo apresenta inúmeras cicatrizes. Algumas antigas. Outras recentes. Existem sinais prolongados de desnutrição e marcas evidentes de correntes nos pulsos e tornozelos.
Ele hesitou. Naak cerrou lentamente o punho.
— Continue.
O médico engoliu em seco.
— Eu não sei como ela sobreviveu assim tanto tempo. Ela foi vítima de agressões físicas contínuas… e abusos repetidos.
O silêncio tornou-se pesado, muito pesado. A magia à volta de Naak oscilou ligeiramente. O ar aqueceu. Os olhos dela tornaram-se perigosamente frios.
— O culto… — murmurou ela numa voz baixa e controlada — … irá pagar por isto.
Azenha dispensou o médico pouco depois e finalizou a reunião.
— Amanhã começam as investigações.
Tanto Naak como Akael concordaram. Depois disso, a princesa dispensou Akael, pedindo apenas a Naak que permanecesse. Assim que ficaram sozinhas, Azenha aproximou-se dela lentamente.
— Sinto uma ligeira mudança em ti.
Naak desviou ligeiramente o olhar, mas acabou por contar tudo. Sobre a viagem. Sobre o lago. Sobre o medo. Azenha ouviu tudo sem interromper e quando Naak terminou, a princesa sorriu suavemente.
— Tens medo de voltar a sofrer. É compreensível.
Naak não respondeu.
— Mas sabes que nem toda a gente te vai trair, certo?
Naak baixou o olhar.
— Talvez, não, mas foi o meu pai que me ensinou a ser assim.
— Não o devias culpar. — respondeu Azenha calmamente. — Ele apenas tentou proteger-te da única forma que sabia.
— Eu sei, mas…
— Na minha opinião, devias falar com o Akael. — Naak voltou o olhar para Azenha, que a observava com serenidade.
— Falar com ele? — perguntou Naak, hesitante.
Azenha assentiu e esboçou um pequeno sorriso.
— Sim. Não há nada melhor do que uma conversa sincera para resolver assuntos que ficaram por esclarecer. Quando deixamos certas palavras por dizer, elas acabam por ganhar mais peso dentro da nossa cabeça do que realmente têm.
Naak permaneceu em silêncio, escutando atentamente.
— O meu pai costumava dizer-me isso muitas vezes. — continuou Azenha. — Dizia que, quando existe um problema entre duas pessoas, o melhor remédio é puxar uma cadeira, sentarem-se frente a frente e falarem. Sem rodeios, sem suposições, sem deixar que o orgulho fale mais alto.
O sorriso de Azenha tornou-se ligeiramente nostálgico ao recordar aquelas palavras.
— Muitas vezes passamos dias, semanas ou até meses a imaginar o que a outra pessoa pensa ou sente, quando bastava uma conversa para esclarecer tudo. Nem sempre resolve os problemas, é verdade, mas pelo menos permite que cada um compreenda o outro.
Naak desviou o olhar por um instante, reflectindo sobre aquelas palavras.
— Talvez tenhas razão...
— Não digo que seja fácil. Mas, pelo que tenho visto, tanto tu como o Akael carregam coisas que nunca chegaram a dizer um ao outro. E esses silêncios acabam por criar distâncias maiores do que qualquer discussão.
Azenha apoiou uma mão no ombro de Naak.
— Por isso, se me permites um conselho, fala com ele. Seja qual for o resultado, pelo menos deixarás de carregar esse peso sozinha.
Após algum silêncio, Naak acabou por concordar em falar com Akael.
Mas quando saiu para o pátio…Parou imediatamente. Masayu encontrava-se a conversar com Akael. Os dois pareciam descontraídos. E então Naak viu algo estranho.
Masayu tropeçou propositadamente ou não… Naak não sabia… mas acabou nos braços de Akael. E o olhar da irmã… havia ali algo, algo que deixou Naak desconfortável.
Desejo.
Naak afastou imediatamente o pensamento. Talvez estivesse apenas cansada ou talvez estivesse a imaginar coisas. Ainda assim… aquela sensação permaneceu. Mais tarde, já no quarto, Naak observava o reflexo no espelho enquanto tocava ligeiramente no colar que Akael lhe dera.
Então viu-o. Ukho, atrás dela. Desta vez, porém, ele não conseguiu aproximar-se, o colar impedia-o. O olhar dele carregava irritação. Onde poucos instantes depois, passos rápidos aproximaram-se da porta. Akael entrou, onde os olhos dele passaram imediatamente pelo demónio.
— Já chega, Ukho!!!
A presença de Akael fez o demónio recuar lentamente até desaparecer. Akael aproximou-se de Naak.
— Estás bem?
Ela respondeu apenas com um aceno, onde Akael se preparava para sair, Naak chamou-o. Ele voltou-se.
— Podes… ficar um pouco?
Akael fechou a porta e sentou-se no sofá. Naak permaneceu alguns segundos em silêncio antes de finalmente falar, ficando em pé.
— Tenho medo.
A voz dela saiu mais baixa do que esperava.
— Medo de voltar a confiar em alguém… e acabar outra vez, na mesma.
Ela aproximou-se lentamente dele.
— Isto tudo…. está a tornar-me instável. — Naak fechou os olhos por breves segundos. — Desculpa.
Akael levantou-se. A mão dele tocou suavemente o rosto dela, onde Naak sentiu imediatamente o coração acelerar.
— Eu não te vou magoar — disse ele calmamente.
Os olhos de Naak arregalaram-se ligeiramente perante as palavras de Akael. Durante um breve instante, ficou sem saber o que dizer. Havia algo na sinceridade da sua voz que atravessava todas as barreiras que ela tinha erguido ao longo do tempo.
Então, sem hesitar mais, Akael envolveu-a nos seus braços. Naak fechou os olhos.
Aquela sensação de tranquilidade que julgava perdida regressou de imediato, envolvendo-a como uma brisa suave depois de uma longa tempestade. O calor daquele abraço dissipava medos, dúvidas e inseguranças que carregara durante demasiado tempo. Lentamente, ergueu os braços e retribuiu o gesto, apertando-o contra si.
Por alguns momentos, permaneceram assim, em silêncio, deixando que a simples presença um do outro dissesse aquilo que as palavras nunca tinham conseguido expressar.
Quando se afastaram ligeiramente, os seus rostos permaneceram próximos.
Os olhos de Akael encontraram os dela, como se procurassem uma última confirmação. Depois, desceram suavemente até aos seus lábios.
Naak não recuou. Pelo contrário, manteve-se imóvel, sentindo o coração acelerar dentro do peito. Não havia receio nem incerteza naquele instante. Apenas a certeza tranquila de que aquele momento lhes pertencia.
O beijo aconteceu naturalmente. Lento. Suave. Como se tivesse sido escrito muito antes de qualquer um deles se aperceber. Não havia pressa, apenas uma ternura silenciosa que crescia a cada segundo. Um sentimento guardado durante demasiado tempo encontrava finalmente o seu caminho.
Durante aqueles breves instantes, o mundo exterior deixou de existir para Naak. As preocupações, as batalhas, as memórias dolorosas e as responsabilidades desapareceram, reduzidas a um distante murmúrio sem importância.
Quando os seus lábios se separaram, ela deixou escapar um suspiro suave e encostou a cabeça ao peito de Akael, ouvindo o bater calmo do seu coração.
Akael passou delicadamente uma mão pelos seus cabelos e depositou um beijo suave no topo da sua cabeça.
Nenhum dos dois sentiu necessidade de falar. O silêncio era suficiente. E, pela primeira vez em muito tempo, o peso do passado pareceu desaparecer, deixando espaço apenas para aquele momento de paz que ambos julgavam impossível encontrar.
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