As Fendas da Máscara
7 A Floresta das Memórias Perdidas
Na manhã seguinte, Naak e Akael partiram em direcção aos vários locais assinalados no mapa que a princesa lhes tinha fornecido. As localizações encontravam-se dispersas pela extensa e densa floresta da região, um lugar onde a vegetação parecia esconder segredos antigos e perigos desconhecidos.
Os três primeiros pontos situavam-se nas proximidades de uma lagoa. Apesar de terem sido explorados com atenção, pouco ou nada encontraram que pudesse confirmar qualquer actividade relacionada com o culto. O quarto e o quinto locais revelaram-se igualmente decepcionantes. Situados no interior de uma vasta caverna cujas galerias comunicavam entre si, pareciam ter servido apenas como postos de vigilância ou abrigo temporário, sem qualquer indício das experiências ou rituais que procuravam.
Ao observarem novamente o mapa, verificaram que já não existiam mais marcações. Naak soltou um suspiro de frustração. Tinha a certeza de que o culto estava algures naquela floresta. Não fazia sentido que se tivessem deslocado para um local tão remoto sem um motivo concreto.
Enquanto Naak analisava a situação, Akael observava atentamente o horizonte, procurando algo que destoasse da paisagem. Durante alguns minutos, apenas o silêncio da floresta os acompanhou. Foi então que uma memória surgiu na mente de Naak.
— Tenho uma ideia de um local onde o culto poderá estar.
Akael voltou imediatamente a sua atenção para ela.
— Quando eu era criança, costumava vir para esta floresta com as minhas irmãs. Havia um lugar especial onde passávamos grande parte do tempo enquanto o meu pai vinha em trabalho. Naquela altura não existiam muitos perigos e o nosso pai deixava-nos explorar livremente.
— Ainda te lembras do caminho?
— Sim.
Sem perderem mais tempo, iniciaram a marcha. Naak seguia à frente com cautela, enquanto Akael a acompanhava alguns passos atrás. À medida que avançavam, as recordações da infância surgiam-lhe na memória com uma nitidez surpreendente. Havia momentos daquela época que desejava poder reviver.
Akael percebeu a expressão distante e nostálgica dela. Aproximou-se discretamente e caminhou ao seu lado. Não disse uma única palavra. Limitou-se a oferecer-lhe a sua presença.
À medida que penetravam mais profundamente na floresta, começaram a surgir objectos estranhos espalhados pelo caminho. Eram estruturas grotescas, feitas de materiais difíceis de identificar, que pareciam ter sido utilizadas em rituais de invocação ou sacrifício.
— Naak, espera.
— O que foi?
— Consegues ver aqueles objectos?
Ela observou na direcção indicada.
— São bastante estranhos. Isto significa que estamos no caminho certo?
Quando se aproximaram, Akael fixou o olhar nos artefactos e executou um pequeno gesto. Uma energia luminosa desprendeu-se dos objectos e desenhou um trajecto no ar.
— Vamos fazer um pequeno desvio. Talvez consigamos obter algumas informações.
Seguindo a direcção indicada pela energia, caminharam durante cerca de uma hora até chegarem a uma pequena casa situada junto a um lago. O local parecia tranquilo à primeira vista, mas Naak assumiu imediatamente uma postura defensiva.
Depois de desmontarem os cavalos, aproximaram-se da entrada. No interior encontraram um homem e uma mulher de aspecto magro, ambos cobertos de tatuagens. Naak reconheceu-os imediatamente como Necromancers.
Embora mantivesse uma expressão neutra, preparou-se mentalmente para um eventual confronto.
— Há quanto tempo, Akael — cumprimentou o homem.
— Olá, Izan.
— O que te traz por estas bandas? Vejo que estás acompanhado pela famosa War Lord.
Akael explicou a situação e o motivo da visita. Izan ouviu atentamente, enquanto a mulher, chamada Leaf, observava tudo em silêncio.
— Conseguimos algumas informações — respondeu finalmente Leaf. — Vendemos determinados artigos a um membro desse culto.
As atenções de Naak e Akael concentraram-se imediatamente nela.
Segundo os dois Necromancers, o cliente tinha encomendado artefactos extremamente raros, alguns dos quais exigiram meses de preparação e aquisição. No entanto, como comerciantes, nunca faziam perguntas sobre a utilização final dos produtos.
— Depois de recebermos os itens, ele pagou-nos uma quantia generosa e desapareceu. — explicou Leaf.
Quando Akael perguntou se existia algum local de encontro onde a entrega tivesse ocorrido, receberam finalmente uma indicação concreta.
Leaf descreveu um caminho escondido na floresta e uma entrada dissimulada pela vegetação. Segundo ela, encontrariam um dos seus artefactos à entrada.
Contudo, ambos os Necromancers deixaram um aviso inquietante.
— Desde que o culto assumiu controlo desta zona da floresta, o lugar mudou. — explicou Leaf. — Quanto mais fundo entrarem, mais coisas começarão a ver.
Izan entregou-lhes então dois anéis.
— Estes irão proteger-vos e permitir-nos sentir se estiverem em perigo.
Naak aceitou o objecto, embora continuasse desconfiada. Pouco depois despediram-se e seguiram as indicações recebidas.
Encontraram a árvore partida mencionada por Leaf e seguiram o trilho oculto. No entanto, quando chegaram à entrada indicada, Akael franziu o sobrolho.
— Algo não está bem.
— O que queres dizer?
— O artefacto não está aqui.
Naak observou melhor e percebeu que ele tinha razão. Além disso, o nevoeiro começava a adensar-se de forma anormal. Ambos desmontaram os cavalos e assumiram posições defensivas. O silêncio foi interrompido por passos rápidos que ecoavam entre as árvores.
Então surgiu uma figura. Akael empalideceu.
— Saya?
Diante dele encontrava-se uma mulher de longos cabelos escuros e olhos verdes.
— Impossível...
— Se fosse impossível, não estaria aqui. — Responde ela.
Ela aproximou-se lentamente e tocou-lhe no rosto. Antes que Akael pudesse reagir, Naak colocou-se entre ambos.
— Afasta-te dele.
A criatura sorriu.
— Eu gosto de brincar.
Num instante, a sua forma mudou para a de uma criança. Sem hesitar, Naak lançou um ataque elemental. A criatura foi atingida, mas recuperou quase imediatamente.
— Achas mesmo que tens poder aqui, Sorcerer?
Num movimento brutal, transformou um dos braços numa monstruosa garra e atingiu Naak, abrindo-lhe um profundo golpe. A batalha intensificou-se rapidamente.
Sempre que Akael tentava atacar, a criatura assumia a aparência de Saya, obrigando-o a hesitar. A dor das memórias regressava com força. Aproveitando essa fraqueza, o demónio ligado a Naak manifestou-se. Com facilidade, agarrou-a e manteve-a presa.
— Ela faz-te lembrar dela, não faz? — provocou o demónio.
As recordações que Akael julgava enterradas começaram a emergir. Quando o demónio avançou para ele, Naak conseguiu libertar-se por um instante e lançou um poderoso ataque para o afastar.
— Akael! Não deixes que ele use o teu passado contra ti!
Mas nesse momento sentiu algo atravessar-lhe o corpo. Baixou os olhos e viu uma lâmina metálica perfurar-lhe o abdómen. O sangue escorreu-lhe pela boca. Os joelhos cederam.
Akael sentiu uma raiva fria apoderar-se dele. Apesar de todos os seus ataques serem praticamente inúteis naquele ambiente dominado pela energia do demónio, recusava-se a desistir. Quando o confronto parecia perdido, duas figuras surgiram repentinamente.
Izan e Leaf.
— O teu domínio termina aqui. — declarou Izan calmamente.
Leaf retirou um estranho artefacto e, com um movimento preciso, anulou a energia que fortalecia o demónio. Percebendo que a situação tinha mudado, a criatura recuou.
— Isto ainda não acabou.
E desapareceu. Sem perder tempo, Akael correu para junto de Naak. Pegou nela ao colo com cuidado e beijou-lhe a testa.
Leaf tratou imediatamente dos ferimentos assim que regressaram à casa junto ao lago. Horas mais tarde, Naak encontrava-se finalmente estável. Enquanto ela descansava, Akael permaneceu sentado ao seu lado, observando a sua respiração tranquila.
Quando Izan e Leaf abandonaram a divisão para lhes dar privacidade, o silêncio instalou-se. Akael passou suavemente os dedos pelo cabelo de Naak. Ao ver um leve sorriso surgir no rosto dela, sentiu algum alívio.
Naquele momento compreendeu uma coisa. Quando Naak recuperasse, contar-lhe-ia toda a verdade sobre o seu passado. Não voltaria a esconder nada dela.
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