As Fendas da Máscara
5 Corações em Silêncio
Os primeiros raios de sol começaram lentamente a atravessar as árvores densas da floresta, espalhando uma luz dourada e suave pelo pequeno acampamento improvisado junto ao lago. O som distante da água a mover-se calmamente misturava-se com o canto dos pássaros que despertavam para mais um amanhecer.
Naak abriu os olhos devagar.
Durante alguns segundos ficou imóvel, observando as últimas brasas da fogueira da noite anterior. O calor já quase desaparecera por completo, restando apenas um brilho avermelhado entre a madeira consumida.
Virou ligeiramente o rosto. Akael não estava ali.
Naak sentou-se lentamente, afastando a manta do corpo antes de passar a mão pelo rosto num gesto silencioso. O colar que Akael lhe dera na noite anterior descansava agora sobre o peito dela, frio contra a pele.
Ainda lhe parecia estranho usar algo oferecido por outra pessoa. Especialmente por alguém em quem começava perigosamente a confiar.
Levantou-se e voltou a vestir cuidadosamente a armadura. Cada peça encaixava-se no corpo dela com precisão automática, fruto de anos de hábito. Quando terminou, lançou um olhar breve ao redor do acampamento vazio antes de seguir os rastos discretos deixados pelo Akael.
Encontrou-o junto ao lago.
Akael estava sentado perto da margem, imóvel, de pernas cruzadas enquanto o nevoeiro matinal se espalhava lentamente pela água. Os olhos dele encontravam-se fechados e a respiração permanecia perfeitamente controlada.
Naak observou-o em silêncio. Ela sabia perfeitamente o que aquilo significava. Dominar um demónio não era algo simples. Requeria disciplina absoluta. Controlo mental constante. Um pequeno deslize podia destruir completamente um Warlock.
E a meditação era uma das poucas formas de manter o equilíbrio.
Por breves instantes ficou apenas a observá-lo. Depois decidiu regressar ao acampamento sem o incomodar.
Acendeu novamente a fogueira e começou a preparar algo simples para ambos comerem. O cheiro da comida espalhou-se lentamente pelo ar fresco da manhã enquanto Naak organizava os utensílios com movimentos calmos.
Quando terminou, ouviu passos aproximarem-se. Akael regressará ao acampamento, onde sentou-se tranquilamente do outro lado da fogueira enquanto Naak lhe servia o pequeno-almoço.
Nenhum dos dois falou inicialmente. Mas Naak não deixou de reparar numa coisa. Akael estava claramente a gostar da comida. O facto de ele tentar esconder isso tornava tudo ainda mais evidente.
— Estás a olhar demasiado. — comentou Akael calmamente sem erguer o olhar da tigela.
Naak desviou ligeiramente os olhos.
— Apenas estava a confirmar se ias sobreviver ao meu pequeno-almoço.
Akael soltou uma pequena gargalhada discreta.
— Estou impressionado. Não parece comida de acampamento.
— Cresci numa família nobre — respondeu ela. — Ensinaram-me muitas coisas inúteis.
— Isto não parece inútil. Até pelo contrário é muito bom.
Naak ficou em silêncio por breves segundos. Depois desviou o olhar para o fogo. Aquilo… era estranhamente confortável.
Quando terminaram, apagaram cuidadosamente a fogueira antes de montarem novamente os cavalos e retomarem a viagem.
Os dias seguintes passaram de forma inesperadamente tranquila.
À medida que avançavam pelas estradas esquecidas do Sanctuary, algo entre ambos começou lentamente a mudar.
Não eram necessárias muitas palavras., tudo estava nos pequenos gestos.
Na forma como Akael preparava silenciosamente o local do acampamento antes de Naak desmontar do cavalo.
Na maneira como ela observava discretamente os arredores enquanto ele meditava.
Na confiança silenciosa que começava a crescer entre ambos. E aquilo assustava Naak mais do que qualquer demónio.
Porque, pela primeira vez em muitos anos, sentia-se… próxima de alguém. O pior era que o próprio corpo dela parecia começar a traí-la.
Cada vez que Akael se aproximava para lhe explicar algo. Cada vez que lhe tocava no braço casualmente. Cada vez que os olhares deles se cruzavam durante demasiado tempo.
O coração dela acelerava. E Naak não conseguia perceber porquê. Ou talvez… não quisesse perceber.
Numa das paragens ao final da tarde, Naak avistou um arbusto carregado de bagas selvagens perto da floresta.
— Vou buscar algumas. — avisou enquanto desmontava do cavalo.
Akael apenas assentiu. O arbusto encontrava-se a pouca distância do acampamento. Naak aproximou-se lentamente, analisando cuidadosamente as bagas antes de as colher para um pequeno cesto improvisado.
Avançou para o outro lado do arbusto. Foi então que ouviu a voz dele atrás de si.
— Precisas de ajuda, Naak?
Naak virou ligeiramente o rosto para responder. Mas nesse exacto instante um dos pés escorregou na terra húmida.
O corpo dela perdeu imediatamente o equilíbrio. A ravina era curta, mas inclinada o suficiente para a fazer deslizar rapidamente em direcção ao lago lá em baixo.
Antes que pudesse reagir, a mão de Akael agarrou-lhe o braço com firmeza, onde ele puxou-a instintivamente para si. Mas o impulso acabou por arrastar ambos pela ravina abaixo.
Rolaram pela encosta entre folhas, terra e pequenas pedras até finalmente pararem junto à margem do lago.
Naak abriu lentamente os olhos. Akael encontrava-se por cima dela. Os braços dele impediam o corpo dela de embater directamente no chão. Os rostos estavam demasiado próximos.
Por breves segundos nenhum dos dois se moveu. Naak observou atentamente o olhar semicerrado de Akael. Estava diferente, mais intenso, mais profundo.
O coração dela acelerou imediatamente, fortemente, com demasiada força.
Ela desviou rapidamente o olhar para o lado. Akael afastou-se ligeiramente dela antes de se levantar e estender-lhe a mão.
— Estás bem, Naak?
Naak aceitou a ajuda sem responder imediatamente. Quando finalmente ficou de pé, evitou olhar demasiado tempo para ele.
— Estou.
Akael observou-a durante alguns segundos. Depois falou calmamente:
— Devíamos regressar ao acampamento antes que anoiteça.
Ela apenas assentiu. Mais tarde, já junto à fogueira, ambos comiam as bagas em silêncio. Foi Naak quem acabou por quebrar o silêncio.
— Porque estás realmente a ajudar-me?
Akael ergueu ligeiramente o olhar.
— O que queres dizer?
— Podias simplesmente afastar-te e deixar-me lidar sozinha com nome do demônio.
Akael permaneceu alguns segundos em silêncio antes de responder.
— Fiz uma promessa alguém no passado.
Os olhos dele perderam-se momentaneamente no fogo.
— Prometi ajudar qualquer pessoa marcada por demónios.
Naak observou-o atentamente. Ela conseguia perceber pela expressão dele que existia uma história ali. Mas não insistiu.
— Entendo. — respondeu apenas.
E o assunto morreu ali.
Pouco depois, ambos ouviram barulhos vindos da floresta. Passos. Movimentos rápidos.
Naak viu imediatamente a expressão de Akael mudar. O olhar dele endureceu instantaneamente.
— O que se passa? — perguntou ela.
Akael levantou-se lentamente.
— Consigo sentir outro Warlock.
Poucos segundos depois, um homem saiu das sombras da floresta. Sorria.
E atrás dele surgia uma presença demoníaca grotesca que Naak conseguiu imediatamente identificar.
A atmosfera mudou completamente. Akael deu um passo em frente.
— Afastar-te. — disse calmamente a Naak. — E aconteça o que acontecer… não interfiras.
Ela franziu ligeiramente o sobrolho.
— Akael—
— O poder dele não é algo que possas enfrentar directamente.
Naak percebeu imediatamente pelo tom dele que não era um aviso qualquer e acabou por assentir lentamente antes de recuar.
No centro da clareira ficaram apenas os dois Warlocks. O silêncio entre ambos era pesado. Como predadores a medir forças.
Foi o homem quem atacou primeiro, com um movimento rápido e violento.
Akael bloqueou sem dificuldade antes de libertar imediatamente o próprio poder demoníaco. As sombras à volta dele distorceram-se. O chão tremeu. O demónio que controlava surgiu parcialmente atrás dele como uma extensão viva da própria alma.
O outro Warlock fez exactamente o mesmo. E a batalha começou. Naak observava tudo à distância.
Cada golpe carregava uma violência absurda. Energia demoníaca rasgava árvores, destruía o chão e fazia o ar vibrar perigosamente. Aquilo era completamente diferente de qualquer batalha normal.
Era um confronto entre homens que controlavam monstros. E ao mínimo erro… A morte seria imediata. A luta prolongou-se durante bastante tempo. Até que Akael finalmente conseguiu atravessar a defesa do adversário.
O golpe final foi rápido e preciso. O outro Warlock caiu morto no chão da floresta. O silêncio regressou lentamente.
Naak aproximou-se imediatamente. Foi então que reparou no corte profundo no peito de Akael.
— Estás ferido.
Akael sentou-se junto à fogueira.
— Já tive pior.
Naak ignorou completamente o comentário e começou imediatamente a tratar do ferimento. Enquanto limpava cuidadosamente o sangue, perguntou:
— Ele pertencia ao culto?
— Sim.
Ela terminou o curativo em silêncio.
Quando Akael tentou levantar-se, as pernas dele cederam subitamente. Naak reagiu por instinto e agarrou-o imediatamente antes que caísse. Os braços dela envolveram o corpo dele automaticamente.
Akael soltou um pequeno suspiro.
— Acho que exagerei um pouco no uso do poder.
— Um pouco?
Naak manteve Akael firmemente nos braços enquanto ele recuperava lentamente o fôlego. Sentia o peso do seu corpo contra o dela, o calor da sua pele e a fragilidade momentânea de alguém que raramente permitia que os outros o vissem vulnerável.
Foi então que uma memória antiga atravessou a sua mente sem aviso. Uma lembrança do passado.
Do homem que outrora chamara marido. Dos abraços que partilhavam ao final de cada dia, antes de o mundo se ter desmoronado à sua volta. Recordou a sensação de segurança que encontrava nos seus braços, o conforto silencioso de saber que não estava sozinha, o simples calor humano que tantas vezes tomara como garantido.
A recordação atingiu-a com uma força inesperada. O peito apertou-se-lhe e, durante um breve instante, sentiu-se perdida entre o passado e o presente.
Quando Akael recuperou parte das forças, permaneceu ainda assim próximo dela. Naak julgou que ele se iria afastar, mas, para sua surpresa, sentiu os braços dele envolverem-na suavemente.
O gesto apanhou-a completamente desprevenida. Ficou imóvel. Sem saber o que fazer. Sem saber sequer se queria afastar-se.
A voz de Akael surgiu baixa e tranquila junto ao seu ouvido.
— Desde o incidente do lago… tenho notado que tens tido dificuldade em esconder aquilo que sentes.
Naak fechou ligeiramente os olhos. Akael sabia. O demónio avisara-a. As muralhas que construíra durante anos começavam a ruir. A máscara que usava para esconder emoções, medos e fragilidades já não era tão eficaz como antes. Talvez nunca tivesse sido.
Com um movimento lento, afastou-se dele. Quando os seus olhos se encontraram, permaneceu em silêncio durante alguns instantes antes de responder.
— Estás a imaginar coisas. — a sua voz saiu firme, mas não tão firme quanto desejava. — Estamos numa missão, não existe tempo para esse tipo de coisas.
Virou-lhe as costas imediatamente, como se isso bastasse para encerrar a conversa. Mas, no fundo, sabia que Akael não acreditava numa única palavra. E isso incomodava-a mais do que queria admitir.
— Devíamos descansar. — acrescentou, tentando terminar o assunto de vez.
Porém, antes que pudesse dar outro passo, sentiu os dedos de Akael segurou-lhe a mão. Não havia agressividade naquele gesto. Apenas determinação. Firmeza suficiente para impedir que ela fugisse. Com cuidado, ele puxou-a ligeiramente para si e colocou a palma da sua mão sobre o próprio peito. Naak sentiu imediatamente o coração acelerar. Mas não era apenas o dele. Era também o seu.
— Então explica-me isto. — disse Akael, calmamente, onde o olhar dele permaneceu preso ao dela. — Porque é que o teu coração acelera sempre quando estamos próximos?
As palavras atingiram-na como uma flecha certeira. Pela primeira vez em muito tempo, Naak não encontrou resposta. Tentou libertar a mão discretamente, mas a tentativa revelou-se inútil. O silêncio prolongou-se por vários segundos. Até que, por fim, baixou o olhar.
— Não era suposto acontecer.
A voz dela saiu mais baixa do que esperava. Mais frágil. Mais sincera.
— O treino do meu pai devia ter funcionado… — Os dedos dela fecharam-se ligeiramente contra o peito dele. — Devia ter de funcionado. — Engoliu em seco.
Toda a vida fora treinada para controlar emoções. Para não depender de ninguém. Para não permitir que sentimentos influenciassem as suas decisões. Era essa a mulher que aprendera a ser e acreditava ter-se tornado.
Akael permaneceu em silêncio durante alguns instantes, antes de soltar lentamente a mão dela. Naak ergueu o olhar, e encontrou algo que não esperava ver. Desapontamento, não era raiva ou frustração, apenas desapontamento.
Aquilo atingiu-a de forma estranha, provocando uma dor inesperada no peito. Akael afastou-se alguns passos antes de responder calmamente.
— Não devias ter medo da pessoa que eras antes.
As palavras ficaram suspensas no ar entre ambos. Sem acrescentar mais nada, Akael dirigiu-se para junto da fogueira e sentou-se para iniciar a vigia nocturna. Naak permaneceu onde estava. Imóvel, pensativa, mas principalmente confusa. As chamas dançavam à sua frente, mas ela mal as via.
Acabou por se deitar pouco depois, envolvendo-se nas mantas enquanto observava a luz alaranjada da fogueira iluminar a escuridão da floresta. Contudo, o descanso não chegou.
Os pensamentos começaram lentamente a invadir-lhe a mente. Porque ficara ele com aquela expressão? Porque parecia magoado? E então surgiu a pergunta que tornou tudo ainda mais complicado. Será que Akael sentia algo por ela?
Naak fechou os olhos com força. Aquilo era absurdo. Impossível. Porque haveria alguém como Akael de perder tempo com alguém como ela? Alguém carregado de cicatrizes. De erros. De fantasmas que nunca a abandonavam. Mas, por mais que tentasse afastar aquela ideia, ela continuava a regressar.
Enquanto a noite avançava silenciosamente sobre a floresta adormecida, Akael levou uma mão ao curativo que Naak lhe tinha feito no peito. Os seus dedos tocaram cuidadosamente no tecido. Sentiu o aperto firme das ligaduras. O cuidado presente em cada dobra.
Permaneceu alguns instantes a observá-las em silêncio. E, pela primeira vez em muitos anos, deu por si a pensar nela durante mais tempo do que deveria.
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