As Faces da Lua

2 Primeiro dia de aula, último dia de vida.


O sol nascera. Finalmente. Fora a noite mais loga que Pedro presenciou. Algo dentro dele se remexia, não o deixando dormir. Quando o sol, que passava pelas cortinas de seu quarto, atingiu o seu rosto, ele se levantou. Caminhou lentamente até a janela e a abriu, deixando que a luz fria da manhã tocasse o seu corpo, seminu. Respirou profundamente e ouviu a maçaneta girar atrás de si, era sua mãe.

— Já está acordado? — Falou, um pouco surpresa.

— Tive um sonho ruim, só isso. — Pedro falou, sem jeito.

A mulher sempre o tratara bem, ele sabia, e preocupá-la com um fato simples, como não dormir direito, estava fora de questão.

— Tem certeza? Você sabe que eu sei quando está mentindo.

— Tenho, moça. Relaxe. — Falou se aproximando da mãe e dando-lhe um abraço, tirando a senhora cocota do chão. — Agora deixe-me tomar um banho, ok?

— Estarei na cozinha, preparando seu café. — Ficou na ponta dos pés até conseguir encostar seus lábios na testa fria do filho. — Não demore.

Ele assentiu e esperou ela sair para voltar para sua cama e dobrar seu lençol, logo em seguida, forrar a cama. Caminhou lentamente até o banheiro, que deixou com a porta aberta e retirou sua cueca, a única peça de roupa que estava vestindo. Nesse instante sentiu sua nuca queimar, como se um par de olhos o estivesse observando. Virou-se rapidamente cobrindo suas intimidades e deparou-se com uma porta vazia, porém, aberta.

Suspirou e decidiu fechá-la, só por segurança. Voltou ao box e ligou o chuveiro. A água fria bateu contra seu rosto o dando uma sensação de calmaria e relaxamento. Gostava de sentir que as coisas ruins estavam saindo de seu corpo, algo como sentimentos e pensamentos ruins, o que estava se tornando cada vez mais frequente e fazia com que Pedro se sentisse culpado por tê-los. Pegou o sabonete e se ensaboou, tentando parar de pensar nas coisas que faziam sua cabeça doer cada dia mais.

Após se enxaguar e escovar os dentes o garoto caminhou até seu quarto, abriu o guarda-roupa e retirou dali uma camiseta cinza e uma calça jeans escura, quase preta. Calçou um tênis preto e pegou seu casaco azul-marinho, em seguida, a mochila. Era seu primeiro dia na faculdade e ele não queria passar a impressão de que tinha a mente perturbada, ao menos era a realidade dos últimos dias.

Desceu as escadas e dali já pôde sentir o cheiro do que sua mãe preparara: panquecas. Ele adorava panquecas! Sorriu e chegou na cozinha encontrando, em cima da mesa, uma pilha de quatro panquecas ao lado de um vidrinho de melado. Sentou-se e começou a se satisfazer com a comida da mãe. Todos os filhos gostam da comida da mãe, é como um instinto natural de sobrevivência e sinal de que você vai comer daquele tempero por mais tempo que se possa imaginar.

Ao terminar de tomar café, Pedro deu um último beijo na mãe e foi em direção a porta da frente, para não perder o ônibus, que, segundo um aplicativo que baixara na véspera, passaria em dez minutos.

— Pedro! — Sua mãe o chamou, atrás.

Ele virou-se e deparou-se com uma senhorinha chorosa, enxugando as mãos em um pano de pratos.

— O que foi, mãe? — Perguntou.

— Eu o amo. Só isso. — Sorriu, ainda chorosa.

— Por que está me dizendo isso agora? — Falou indo em direção a ela, para abraçá-la.

— E preciso de motivos? — Sorriu e o abraçou. — Boa sorte no seu primeiro dia, futuro engenheiro!

Pedro deu um último beijo na testa de sua mãe e saiu da casa, fechando a porta da frente ao passar. O dia estava estranhamente agradável, ou, ele que estava com um estranho bom humor. A distância da casa dele para o ponto do ônibus não era tão longa, aproximadamente uns 600 metros, e, ao colocar os fones de ouvido e iniciar sua playlist predileta – rock – o caminho pareceu encurtar.

Mal chegou no ponto e o ônibus já apontou no fim da avenida, se aproximando de onde o garoto o estava esperando. Pedro tirou o seu passe do bolso do casaco azul e esperou que o veículo parasse para, então, subir. Sentou-se do lado esquerdo, na janela, no meio do ônibus, que, não estava lá tão cheio. Observou as pessoas distraídas e os carros que andavam de um lado para outro lá fora, enquanto o ônibus também andava pela cidade.

Era engraçado ou talvez pudesse parecer uma mania de gente doida, mas, Pedro sempre gostou de ficar olhando o mundo pela janela, observando cada um em seu universo particular, preocupados com suas próprias coisas fúteis e inúteis. Ele suspirou, não queria se estressar com o problema dos outros, principalmente se nem os conhecia.

O ônibus finalmente chegou no ponto da universidade, e, Pedro levantou-se para descer, acompanhado de outros jovens, mais velhos e mais novos, aparentemente. Ao entrar nos portões do lugar ele abriu o caderno e retirou um pequeno pedaço de papel, onde anotara as informações sobre as aulas e os locais onde elas aconteceriam. Percebeu que seria muito mais difícil do que imaginara, o lugar era bem extenso.

Deu de ombros e começou a caminhar por uma espécie de estacionamento ao ar livre, com árvores por todos os lugares. Se não fossem os carros ele poderia jurar que estava em um bosque, digno de filmes. Ignorou o pensamento e continuou sua caminhada em direção a uma escadaria, que parecia ligar dois prédios de aulas. A escada era longa e íngreme, só de pensar em subir ele perdeu o fôlego.

— Fala sério... — Falou baixinho, só para si.

— Eu sei, da primeira vez que a vi também me assustei um pouco. — Uma voz masculina falara ao seu lado.

Era um garoto alto e com um cavanhaque de chamar atenção, não passava dos vinte e dois anos, aparentemente.

— Espero me acostumar. Não sou muito amigo dos exercícios. — Pedro sorriu, começando a subir a escadaria, ao lado do veterano. — Me chamo Pedro, a propósito. Qual o seu nome?

— Me chamo Tiago, prazer, Pedro. — Ele estirou sua mão grande e ossuda e Pedro logo a apertou, em um gesto amigável. — Onde será sua aula?

Pedro pegou o papel novamente para olhar o nome do local. Plataforma alfa...

— Plataforma Alfa. Acho que escrevi alguma coisa errada. — Sorriu, sem jeito.

— Não, está certo. Aqui os lugares são nomeados com letras gregas, de acordo com o curso. Cursos de cálculo geralmente pegam as primeiras letras, assim como cursos na área médica. Qual o seu curso?

— Engenharia Mecânica. — Falou Pedro, sem jeito.

— Legal! É naquela direção. — Falou Tiago, apontando a direita. — Minha plataforma é mais à frente, a Gama. Minha sala é a 42. Se precisar de ajuda pode ir lá, sempre estou por perto. — Falou, começando a se afastar.

— Obrigado, Tiago.

Pedro sentiu-se culpado por não perguntar o curso do outro, mas estava tão empolgado com o seu primeiro dia que nem se lembrou das boas maneiras em uma conversa. Deu de ombros por já está envolvido em um pensamento tão fútil quanto aquele e entrou na tão esperada Plataforma Alfa.

***

Já se passavam das dezenove horas quando Pedro desceu as escadarias, atravessou o estacionamento e foi para o ponto do ônibus. Não esperava que fosse tão cansativo, principalmente por ter de estudar pela manhã e pela tarde. Era algo totalmente desgastante, doze aulas por dia. Sem falar dos cálculos e desenhos que teve de passar o dia fazendo. Sua cabeça doía e ele estava demasiadamente irritado, sem saber ao certo o motivo.

Na sua sala até tinham pessoas legais, conseguia apontar uma garota e dois garotos, na sua curta memória. Mas o que o decepcionava era o fato da maioria se achar superior. Parte, por ter mais dinheiro que os outros e parte por simplesmente achar que estar num curso de engenharia o faria superior aos outros, meros mortais. Coisas como essa só faziam a cabeça de Pedro doer ainda mais.

— Ei, não sabia que o seu curso também era integral. Podemos pegar o ônibus juntos, que legal! — Uma voz ligeiramente familiar o fez acordar de seus pensamentos e observar na mesma direção, era Tiago.

— Pois é, estou morto. — Sorriu um pouco sem jeito, por mostrar suas fraquezas de forma tão clara.

— Relaxe, todos ficamos no primeiro dia. Na verdade, nas primeiras semanas. Mas depois você se acostuma. — O garoto estava, a todo instante tentando ser gentil e Pedro se culpava por ser frio.

— Nem perguntei. Qual seu curso? — Resolveu não deixar o assunto morrer.

— Achei que não fosse perguntar nunca. — Riu, alegremente. — Faço literatura.

Literatura. Sim, parecia ser o perfil do garoto, ele parecia gostar muito de escrever e coisas do tipo, tinha uma forma de falar engraçada, quase como se estivesse recitando poemas o tempo todo: calma e suave, sabendo ouvir e se expressar nas horas certas e da maneira correta.

— Desculpe, as vezes fico distraído. — Sorriu.

— Tudo bem, acontece. Qual o ônibus que você pega?

— Aquele ali. — Falou Pedro, apontando para um ônibus amarelo e branco, que se aproximava aos poucos do ponto onde estavam. — Até outra hora.

Subiu no ônibus, que estava lotado, e pôs seus fones de ouvido, observando o caminho passar de forma rápida pela janela do veículo.

***

Ao descer do ônibus e retirar os fones do ouvido, Pedro percebeu que a rua estava estranhamente quieta e escura, iluminada apenas por luzes azuis e vermelhas, que piscavam de forma ritmada. Caminhou com um pouco mais de pressa, poderia ser um assalto ou coisa do gênero. Seu coração gelou quando percebeu que aquele brilho estava vindo de sua rua, mais precisamente de sua casa. Pedro segurou a bolsa com mais firmeza do lado esquerdo e correu naquela mesma direção, que no momento estava cercada por uma fita amarela, impossibilitando tanto o garoto quanto os outros moradores da rua, que estavam agrupados ao redor, de entrar na casa.

Com uma descarga da já conhecida fúria, ele saiu empurrando os outros da sua frente, pessoas que o viram crescer e amadurecer, que o viram ter sua primeira paquera, sua primeira namorada e sua primeira decepção amorosa. Pessoas que o olhavam com carinho e que lhe davam doces quando ele brincava em seus quintais. Estas agora o olhavam com um misto de pena e medo, devido à agressividade perante a situação.

Ao alcançou a fita amarela e tentou ultrapassar, foi barrado por um policial.

— Calma aí garoto, área restrita. — Falou o homem, com o corpo duas vezes o tamanho do de Pedro.

— Calma nada! É a minha casa! Minha mãe está...

Foi então que viu um grupo constituído por três homens vestidos de branco e azul-escuro carregando um corpo em uma maca. O mesmo estava envolto em uma capa preta, do lado de fora restava apenas um braço, ensanguentado, de sua mãe.

— NÃO! O que vocês fizeram?! Vocês a mataram! — Pedro largou a mochila no chão e se jogou em cima do policial, o esbofeteando de todas as formas possíveis, com toda a sua força.

Vendo a cena, outros policiais se aproximaram e retiraram o jovem de cima do outro, que caíra no chão e tinha, do canto da boca, um filete de sangue.

— Calma, garoto. Tente manter a calma. — Falou um dos homens que o ajudara a sair de cima do outro.

— Como posso manter a calma?! COMO?! Ela está morta! Era a minha única família!

— Vai dar tudo certo, não se preocupe. Venha comigo. — A voz era suave e vinha de um outro policial, ainda não visto. Ele aparentava ter seus quarenta anos, quem sabe cinquenta. Os outros homens soltaram Pedro e permitiram que fosse com o recém-chegado.

Após pegar sua mochila, ambos caminharam para o outro lado da rua, estranhamente sem chamar a atenção de ninguém. Pararam em frente a um Corolla preto.

— Entre no carro. — Falou o homem, já abrindo a porta do motorista.

— Não vou a lugar algum com você. Nem o conheço! Quero saber o que aconteceu aqui, quem matou a minha mãe!

— Prometo lhe dar todas as respostas que você precisar. Mas primeiro você deve vir comigo.

Sem ter muita escolha, Pedro entrou no carro.

Notas finais
Espero que tenham gostado e não se esqueçam de dar feedback :D