As Faces da Lua
3 O instituto no fim do mundo.
Notas iniciais
Pedro não sabia ao certo quanto tempo tinha se passado desde que entrara naquele carro, com aquele homem estranho. Começava a se arrepender de não tê-lo empurrado e sair correndo. Será que ele o prenderia por bater naquele outro policial? Bom, isso ele não sabia ao certo, mas, esperava que não. Havia começado a frequentar a faculdade naquele mesmo dia e, mesmo sendo um pensamento egoísta de sua parte, não queria que sua formação parasse por ali.
Seus pensamentos foram rompidos quando o carro parou em frente a uma enorme casa, digna de um milionário. Tinha um muro consideravelmente alto e branco, o portão era de um preto metálico com uma espécie de renda vazada, o que possibilitava a visão da casa lá dentro. O portão foi se abrindo aos poucos, até o carro poder entrar por completo. Era mais grandioso por dentro que vista por fora. O jardim era de um verde exuberante, claramente bem tratado. Várias espécies de plantas e flores estavam por ali, e, no centro do jardim, bem em frente a casa, podia-se ver um chafariz com um lobo no centro, como se estivesse uivando. De sua boca, a água gotejava. Pedro sentiu-se estranho ao observar aquela fonte, como se quisesse dizer muito mais do que mostrava.
— Chegamos. — Falou o homem, já abrindo a porta do carro e saindo do veículo.
Pedro abriu a porta e logo saiu do veículo, como o outro. Caminharam lado a lado até a entrada da mansão, subindo um pequeno lance de cinco degraus. A casa era de um misto de tons de cinza que não dava para distinguir ao certo, e, com muitas vidraças, podendo ver pedaços do recinto, onde alguns jovens circulavam sem prestar muita atenção nos recém-chegados.
— Onde estamos? — O jovem quis saber.
— Você terá todas as respostas que precisa em breve, tenha paciência. — Falou o mais velho, abrindo a porta e entrando.
O garoto o seguiu, num silêncio constrangedor, ajeitando sua mochila no ombro. Alguns dos jovens que antes circulavam dentro da casa, pararam para observá-los chegando, como se só agora tivessem dado fé de sua presença.
— Boa noite, doutor. Como foi lá? — Um jovem, aparentando ser um pouco mais velho que Pedro, quis saber.
— Tudo conforme pensamos, John. — O chamado doutor assentiu, continuando a caminhar.
Conforme o que pensaram?! Então eles realmente teriam matado a mãe de Pedro? O garoto imediatamente cerrou o maxilar com a possibilidade desse pensamento ser real. O mais velho começou a subir um lance de escadas, que levava para o andar superior, seguido de perto por Pedro, que, estava mais atento, não só aos movimentos do suposto doutor como também ao movimento dos outros a sua volta, que o olhavam com um irritante senso de compaixão.
O homem parou em frente a uma porta de mogno, bem lustrada e a abriu, revelando um escritório bem rústico, com estantes e mais estantes de livros.
— Vamos, entre. — Falou indo em direção a mesa, que ficava próxima a única, porém grande, janela que estava no fim da sala. Pedro o seguiu, sentando-se na cadeira que estava frente a sua mesa. — Então, o que deseja saber?
O jovem não esperava que o outro fosse ser direto daquela forma, mas, não reclamou, realmente queria chegar logo ao ponto, sem enrolações.
— O que aconteceu com a minha mãe? — Preferiu não fazer acusações sem causa, se fossem eles os culpados, Pedro esperava que aquele homem dissesse naquele momento.
— Primeiramente devo revelar algo que talvez você não goste e tampouco acredite. Mas é minha obrigação. — Ele fez uma pausa, como se escolhesse delicadamente cada palavra e continuou. — Ela não era sua mãe, Pedro, era sua protetora.
O jovem semicerrou os olhos e ficou encarando o outro, como se de uma hora para outra ele fosse dizer que não era verdade, apenas uma brincadeira de mau gosto, muito mau gosto.
— Do que está falando? Ela é minha mãe sim! — Riu, com desdém.
— Não. Sua família é muito mais do que sua protetora, Pedro. Quando eles morreram, a encarregaram de criá-lo sem dizer nada que mudasse quem você é. No entanto, sua natureza já começou a despertar seus instintos.
— Do que você está falando?! Ela era minha única família! E… E que natureza? Que baboseira é essa? — O garoto não estava gostando nem um pouco do rumo que as coisas estavam tomando.
— Sua família tem um sangue especial, é só isso que posso dizer. Seu nome não fora escolhido ao acaso, Pedro significa pedra, se interpretamos como um guerreiro, podemos dizer “forte como pedra” ou duro como pedra, não vem ao caso. Sua protetora foi escolhida por seus pais, antes de morrerem, para ficar com você e escondê-lo de eventuais problemas.
— Que problemas? E que papo é esse de guerreiro? Eu sou apenas um estudante de engenharia! Não quero ser nada disso, quero ter uma vida normal!
— Desculpe, jovem. Só posso dizer isso. A verdade só pode vir de dentro para fora. Aos poucos você perceberá. Até lá, deve residir aqui.
— Aqui onde? E por que tem vários adolescentes rondando pela casa? Você é algum tipo de pedófilo que tem fetiche em folclores infantis?
— É a primeira vez que me veem dessa forma, você tem uma mente interessante. — Ele riu. — Terá as respostas que forem necessárias, não todas que quer. Foi o que prometi. Já disse tudo o que precisa saber. Com o tempo você se descobrirá.
— E tenho de ficar aqui?! Isso é cárcere privado! E minha faculdade?! — Ele perguntou, sem acreditar.
— Você pode ir e vir sempre que quiser. Nada o impede, os portões sempre estarão abertos. Pode ir para sua faculdade, a vontade. Vou deixar o carro a sua disposição. — Então colocou a chave do Corolla na frente de Pedro.
— Não vai me comprar com um carro! — Cuspiu as palavras. — Nem sei quem você é!
— Desculpe, não me apresentei. Me chamo Gustavo, ou, como gostam de me chamar, Doutor Gustavo. Pode escolher a forma que quiser, não me importo. Sou o dono da casa, ou instituto, como você ouvirá os outros chamarem. Aqui é uma espécie de refúgio para jovens que perderam seus protetores.
— Então todos os que estavam lá em baixo perderam seus pa… protetores? — Pedro quis saber.
— Sim, Pedro. Perderam.
Se sentindo um tanto egoísta, o jovem assentiu e pegou a chave que estava a sua frente. Podia tentar arrancar alguma informação dos outros, e, de qualquer forma, não conseguiria manter a antiga casa da família sozinho. Passaria lá apenas para pegar algumas de suas roupas.
— Aceito sua proposta. Vou ficar. Passarei em casa amanhã para pegar algumas roupas, quando for para a faculdade.
— Não precisa, já estão no seu quarto. A propósito, é só virar o corredor a direita, seu quarto é o número quatro. Fique à vontade.
— Quando foi que…
— Apenas as respostas necessárias. Lamento ser rude, mas, quero ficar sozinho agora. — Gustavo falou, ignorando o garoto e voltando a atenção para alguns papéis largados de qualquer forma sobre sua mesa.
Pedro assentiu silenciosamente, levantou-se e saiu da sala, fechando a porta ao sair. Suspirou e obedeceu o que o outro o havia lhe dito, caminhou pelo corredor e virou a direita, se deparando com várias portas enumeradas com números prateados nelas. Não demorou para avistar o número quatro, e logo adentrou ali.
O garoto perdeu o fôlego quando viu o que estava ali. Era uma cópia exata do seu antigo quarto. Todas as coisas estavam ali, e, estranhamente, como ele deixara naquela manhã, antes de ir para a faculdade. A cama mau forrada, o guarda-roupa com uma porta entreaberta, as manchas na parede, as meias largadas pelo chão, até mesmo as marcas de medição da sua altura – que fizera anos antes – estavam ali. Era como se estivesse em sua própria casa. Respirou fundo e fechou a porta, largando a mochila de qualquer jeito no chão e pondo a chave do carro em cima da escrivaninha.
O que estava acontecendo? O que era aquilo tudo? Chegou a sentir falta das aulas de cálculo, onde tudo parecia chato e normal. Queria que sua vida fosse como uma equação.
***
Não soube ao certo quando adormecera, mas, estava em sua cama, com as roupas do dia anterior. Levantou-se e passou as mãos pelo rosto, tentando ficar mais desperto. Eram cinco da manhã, tinha duas horas para chegar na faculdade. Será que o que acontecera no dia anterior fora um sonho? Estava meio incerto, mas tinha esperanças que sim.
Caminhou até seu banheiro, estranhamente igual ao da sua casa e se despiu, indo tomar um banho logo em seguida. A água fria já não trazia mais a mesma sensação, era como se seus pensamentos e sonhos estivessem tão firmes quando um pedaço de concreto, e, a água não seria capaz de limpar ou tirar aquilo dele.
Após o banho, foi até o guarda-roupa e retirou uma camisa branca e uma calça jeans escura, calçou um tênis preto e pegou a mochila e a chave do carro, saindo do quarto. Como imaginara, não havia sido um sonho. Suspirou observando o corredor, vazio. Decidiu descer as escadas e tentar encontrar a cozinha.
As escadas deram numa espécie de sala, que ele lembrou de ter passado na noite anterior. Olhou para um lado e para outro até ver o que parecia uma mesa, caminhou até lá e soube que tinha acertado. Era uma mesa demasiadamente grande, com quinze lugares. Deveriam ter muitas pessoas ali, era o que parecia. Meio sem jeito por entrar na cozinha alheia, o garoto caminhou por ali distraído, até a geladeira e a abriu, procurando algo que pudesse beber rápido, para não sair de estômago vazio.
— Oi! Você deve ser o garoto novo! — Falou uma voz feminina atrás dele. — Não fique com vergonha, no meu primeiro dia eu não comi nada, então recomendo que você fique à vontade. — Ela riu.
Pedro se virou e deparou-se com uma moça, aparentemente da idade dele, com os cabelos acobreados esvoaçando enquanto caminhava em direção ao fogão.
— Er, sim. Claro. — Falou um tanto sem jeito.
— Olhe, fique com um dos meus sanduíches. Por mais que não pareça, fiz três, achei que estava com muita fome. — Ela riu, como se estivesse se desculpando. — Bom, meu nome é Marcela. Qual o seu?
— Ah, Pedro. — Ele falou segurando o sanduíche de forma desajeitada e dando uma mordida. — Bom, acho que tenho de ir ou vou me atrasar para a aula. — Deu um sorriso fraco e caminhou para a entrada.
— Onde você estuda? — Ela quis saber.
— Universidade do Sul, por que? — Falou, desconfiado.
— Também estudo lá mas o Doutor Gustavo não me deu um dos seus carros, então, será que pode me dar uma carona? — Tinha uma certa ironia em sua voz, ou pode ter sido impressão do garoto.
— Tudo bem.
Ambos caminharam para a porta de entrada e, quando chegaram no carro, Pedro já tinha acabado de comer seu sanduíche. Entrou no carro e jogou sua mochila no banco de trás enquanto Marcela entrou e sentou-se do seu lado, pondo a bolsa no colo. O garoto deu a partida e em pouco tempo já estavam na estrada.
A mansão ficava no topo de uma montanha e não havia nem trânsito nem sinal de outros moradores. O que facilitava a ida dos dois, não se atrasariam.
— Então, como está se sentindo? — Marcela perguntou de forma delicada.
— Não sei, tudo aconteceu rápido demais para o meu gosto. — Falou desconfortável com a invasão de privacidade.
— Não se preocupe, sei como é. — Agora ela falava de forma mais séria. — Também fiquei assim quando meu protetor morreu. — Suspirou olhando para o fim da montanha, pela janela.
— Você também tinha um protetor? — Ele quis saber, agora interessado no assunto.
— Todos tivemos um. Inclusive Gustavo. As coisas foram complicadas para ele, por isso ele é gentil conosco.
Pedro não sabia disso, mas, todos os jovens daquele lugar tinham passado pelo que ele estava passando. Não podia ser egoísta e mimado, tinha de lidar com tudo aquilo, se os outros haviam conseguido, provavelmente ele também conseguiria. Ligou o som do Corolla e começou a procurar alguma música e só parou quando encontrou Make a Move, do Icon for Fire.
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